DOIS IRMÃOS, Milton
Hatoum, Companhia das Letras,2006,páginas 196, isbn 978-85-359-0833-6.
Pareceu-me escrito com
desleixo até para criar o clima dessa Manaus da época e que nem sei se ainda
não é assim: Ruelas sujas, igarapés entrando pela cidade ou vice-versa, lupanares,
pocilgas, cortiços ao fundo de casarões decadentes, esgotos a céu aberto,
quartos fedendo a barata... Camelôs, ambulantes e peixeiros aos gritos vendendo
sua mercadoria; imigrantes na miséria; índias escravizadas; promiscuidade,
idade média... Uma barafunda, mas há lugar
de sobra para se viver feliz, basta querer.
Há também espaço para a poesia, declamações, bailes, festas de
aniversário, namoros, paixões ardentes, jogos de gamão nas calçadas frescas do
final de tarde, conquistas, recusas, vida social.
O romance gira em torno
de uma família decadente, oriunda do Líbano, que já teve seu passado de riqueza aqui, e ainda vive com alguma dignidade: Zana e Halim (esposa e marido) e seus três filhos (Rânia, Omar e
Yakud), uma serva índia (Domingas) e mais um quarto membro, que é filho bastardo
de um dos filhos com a índia.
Os dois irmãos (Omar e
Yakud) vivem um conflito contínuo, talvez o tenham começado no ventre da mãe,
pois são gêmeos. Omar é o provocador. Ainda garoto, rasga o rosto do irmão com
um garrafa quebrada e quis rasgar muito mais. A mãe (Zana), como é comum
acontecer com as mães, talvez para compensar a ruindade que gerou, protege o
mau e faz com que as pessoas (leia-se o leitor) creiam que a culpa é do bom
(porque é bom demais).
Há poucas datas de
referência, me lembro de uma (1950) em que o irmão bom foi morar em São Paulo. O grosso da trama me pareceu ocorrer na década de 1960, porque os verdes tomam conta de Manaus e vasculharam
cada biboca atrás de comunista
(Corra Tojal!).
Coitados dos poetas! Muitos se ferraram apenas por serem isso.
O enredo vai ao passado, projeta o futuro e aprofunda no presente que, para mim, não é tão presente assim. Haja
labor para o leitor dar conta. E há repetecos... Há costumes do povo amazônico (índios, caboclos, imigrantes) que vão surgindo e
se perdem no emaranhado das páginas.
Mas é muito bonita a conquista à Zana, ainda mocinha, trabalhando no comércio dos pais, pelos gazais (poemas) do poeta Abas, comprados por Halim; sem os gazais não teria chance nenhuma. Eu precisava conhecer estes poemas poderosos no meu tempo de rapaz tímido sempre recusado pela beldades pretendidas.
E o livro avança cheio de cortes e agregando pontos enigmáticos. Parei aqui por conta de falas sem dono. Avancei
na esperança de saber o porquê de uma frase instigante, que nunca soube. Estive
prestes a abandonar a leitura, mas persisti.
Por fim, é a decadência das famílias antigas e a recuperação de Manaus que entra em uma fase de progresso com a Zona Franca (imagino) e a modernização urbana (destruição da cidade flutuante, construção de novos hotéis e alamedas).
Hatoum ganhou o Jabuti
com este livro (já havia ganho outro com o romance “Relato de um certo Oriente”).
Hoje ele acreditado colunista em “O Estado de São Paulo”, foi professor catedrático da Universidade Federal do Amazonas.
Poucos livros
brasileiros conseguiram ser traduzidos e lidos em outros países. “Dois Irmãos” conseguiu.
(Aracaju, 2020mai06, Antônio FJ Saracura)
Milton Hatoum foi eleito para a Cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras (ABL) em agosto de 2025, sucedendo a Cícero Sandroni, e ocupa um lugar de destaque como um dos maiores romancistas brasileiros contemporâneos, conhecido por obras como Dois Irmãos e Cinzas do Norte, que retratam a identidade amazônica e a imigração árabe no Brasil.
Li resenha na ASL, acho. Em 2020.
ResponderExcluirReli em 19/01/2026
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