quinta-feira, 8 de setembro de 2016

24 Bienal de São Paulo Final - Lições Aprendidas

24 BIENAL DE SÃO PAULO,
Final - Lições Aprendidas




O que eu fiz na bienal de São Paulo, mesmo bombardeado pela gripe ou sei lá por qual desgraçada doença que peguei sem querer e da qual não consigo sarar? Em flashes rápidos...



É uma festa da cultura, com muita gente visitando, comprando. Editoras mostrado pujança com seus títulos, muito mais americanos como nos cinemas: Companhia das Letras, intrínseca, Saraiva, Panini, Leya, Cortez e muito mais. Espaços para explosão da cultura retida no País inteiro. Patrocinadores (imagino que sejam): Banco Itau, Sesc/Senac... Restaurantes cobrando cinco reais em uma água mineral e vinte e cinco em qualquer misto quente. Os números divulgados pelo organizador, CBL, impressionam:

Investimento de R$34 milhões, mesmo valor de 2014; 1300 horas de programação; Expositores: 280, sendo 650 selos e 35 com países representados: Alemanha, China, Portugal, Japão e Itália; 28 editores/escritores independentes na Travessa Literária; 388 atrações: 370 autores nacionais e 18 autores internacionais;Treze espaços culturais: Cozinhando com Palavras: 49 apresentações e 53 convidados; Arena Cultural: 30 mesas e 49 convidados; Salão de Ideias: 39 mesas e 97 convidados; Estande da Comissão para a Promoção de Conteúdo em Língua Portuguesa – o espaço de 120m² apresentou uma amostra da exposição Menas o certo do errado e o errado do certo, do Museu da Língua Portuguesa, de 2010; Bibliosesc (Praça da Palavra e Praça da História): Cerca de 86 apresentações e 272 convidados; Auditório Edições Sesc São Paulo: 21 atividades e 52 convidados; Espaço Oficial Infantil – Mauricio de Sousa BIC: 500 m² com diversas atrações durante todo o período do evento;  Espaço Ignácio de Loyola Brandão: 6 mesas e 16 convidados ; Espaço Cordel e Repente: 85 atrações e 40 convidados;  Arena de Autógrafos: 42 atrações; Espaço de Autógrafos 1 – Sergio Machado 24 atrações; Espaço de Autógrafos 2 – Jair Canizela – 14 atrações; Área total: 75 mil m²;Transporte: 40 ônibus gratuitos dos terminais PortuguesaTietê e Palmeiras Barra Funda; Visitação escolar: 118 mil alunos, 1710 escolas).

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Parei na Universidade Zumbi dos Palmares e uma mulher negra ao violão cantava belas canções de protesto. Era uma hora de pouco movimento. Depois, no intervalo, ela disse: “Sou Bia, de Sergipe, de Aracaju”. O meu sangue ferveu orgulhoso. Ao terminar o show, comprei seu cd e dei-lhe de presente “Meninos que não queriam ser padres” e ainda agradeci: “obrigado pelo orgulho de ser sergipana! Eu também sou de lá, de Itabaiana”. Abraçamo-nos no meio dos fãs da cantora que queriam tirar fotografias.

Uma senhora que, junto, ouviu as confidências, encostou, depois, em mim: “Eu quero comprar esse livro de capa bonita, pois sou de Sergipe, moro em Santos há quarenta anos”. O que você faria no meu lugar?

Entrei na Estação do Sesc São Paulo. Um bate papo agradável, até informal. Três monstros interagindo, contando suas aventuras e desventuras e, especialmente: por que e como ser escritor? Marcelino Freire (o animador), Lira Neto e Fabrizio Capenejar. Uma hora inteira viajando com eles pela vida, parecida com a de qualquer escritor desse Brasil leitor. Mas eles conseguiram um editor para publicar, divulgar e vender suas obras. Carpinejar é festejado no Brasil inteiro. Publicou vários livros, como "Amor à moda Antiga". Mantem colunas nos jornais do sul. É um ícone, vive da literatura. Sempre o vejo em Fátima Bernardes na Globo. Lira Neto produziu Getúlio Vargas, Maysa e Padre Cícero Romão Batista... Bastaria um para ser deus. Marcelino Freire é autor de Contos Negreiros e muitos outros, é ativista intelectual em São Paulo há anos. Desfeita a mesa, uma foto ao lado de cada um e, aproveitando o ensejo, ofereci “Meninos que não queriam ser padres”, com uma dedicatória insinuante. Talvez nenhum dos três leia meu livro. Mas livro é semente, cairá na mão de algum leitor, fatalmente.

Por que não esquecer um exemplar aqui nesse banco, onde as pessoas param por um minuto? Escrevo a dedicatória: “o autor acha que este livro, que é seu, marcará a Bienal pela vida toda”. À frente, alguém me puxa pela camisa: “O senhor esqueceu essa bolsa lá atrás num banco!

Eu precisava de uma base para trabalhar. Não era prudente sair oferecendo livros pelos corredores. Poderia ser expulso de campo. Ou mesmo “esquecendo-os” ante tanta gente honesta. Havia um espaço, projetado em Aracaju, na visita que fiz, na véspera da viagem, a Gil Francisco. Ele telefonara à Segrase, conversara com uma secretária: eu poderia ir ao espaço ABEU, levasse alguns exemplares de “Minha Querida Aracaju Aflita” que estava esgotado na editora. A Segrase/Edisa agradeceria.  

Este era o porto da esperança. Depois de muito procurar, vi que não passava de um cantinho de nada, no grande stand de outras editoras e universidades do Brasil. Não havia ninguém da Segrase, apenas funcionários burocráticos que não sabiam informar nada. Penetrei em suas águas cinco vezes na sexta-feira e outras tantas no sábado e não vi sinal dos conterrâneos. Tobias Barreto, com toda sua sabedoria, jazia como um anônimo irrelevante em uma prateleira abaixo da vista. Abandonado a própria sorte, como outros sergipanos menores que me pediam, com olhos compridos,  ajuda para se mostrarem à grade feira.   

Eu trazia cinco exemplares de "Minha Querida Aracaju Aflita" como “tapia “para negociar “Meninos...”, único livro que levara com esse fim. Mas não vi como executar o plano. Tirei uma foto. Primeiro da prateleira original com Tobias e os demais. Depois, plantei "Minha Querida Aracaju Aflita" e bati outra, como gostaria que ficasse. Não tive coragem de me colocar no vão onde Tobias me olhava intrigado. Ao recolher meu exemplar emprestado, uma funcionária veio-me questionar, por que eu estava retirando um livro. Ainda bem que pedira autorização à outra que estava perto. Safei-me. Levantei âncoras e fui prospectar outros pontos da costa.

Encostei nas terras do Islã, que também ocupava um largo trecho dessa costa cristã. Observei o risco de entrar na baía em sendo de outra religião. Apenas fotografei "Meninos que não queriam ser padres" ao pé de um navio muçulmano e segui em frente.

Cordel e Repente...Um grande salão de festas, com muitos artistas circulando, recitando, vendendo. Poetas, cantadores, artistas renomados. A Câmara Cearense do Livro arrumou um meio e veio à Bienal do livro de São Paulo brilhar com suas estrelas. Eu ia passando e parei. Chico Pedrosa recitava para um pequeno público, o poema: "O Vendedor de Berimbau". Como seguir em frente? Depois, fiz amizade e trocamos livros. Coube-me Sertão Caboclo e à ele, o surpreendente Meninos, no meu modo de falar. O ambiente era propício e puxei conversa com cada um dos cento e tantos vendedores de poesia. Arievaldo Viana apresentou-me “Sertão em Desencanto” e eu defendi-me com os “Meninos”, minha arma de confiança. Por que perder uma chance dessas? E Aderaldo Luciano entrou, virtualmente, pois Vianna é seu parceiro em muitas empreitadas pelo Brasil, divulgando a poesia brasileira, que alguns racistas chamam apenas de cordel.

Navegar (bater pernas) é preciso. E encontro, finalmente, sergipanos que ainda moram na terrinha. Clóvis Barbosa, o articulista de meus domingos gratificantes, lanchava  em uma mesinha improvisada, cercado por sacolas de livros. E dentro delas, certamente, não estava “Meninos que não Queriam ser Padres”. Que injustiça! Na hora, garantiu-me que nunca o lera. Deixei-lhe a melhor prenda, na minha opinião, que conseguiu na Bienal. A humildade é uma forte característica dos filhos de Itabaiana, especialmente do povoado Terra Vermelha, lugar de gente convencida.

E, mais à frente, no espaço e no tempo, bato-me com um itabaianense que pouco conheço e talvez nem saiba quem sou. Lindolfo Amaral, do grupo teatral Imbuaça que encanta com suas apresentações antológicas; irmão de Antônio Amaral, do Cataluzes, este meu conhecido há algum tempo. Em plena Sampa. “É você mesmo?”. Lá se foi mais um “Meninos...”, com a garantia de que valia a pena ler. Por que não deixei a entrega para Aracaju?  Um repente! Como fazer para agir friamente na vida.

A Travessa Literária é o espaço dos escritores independentes. Poucos stands, somente 28. Escritores, na sua maioria, apáticos e dorminhocos. Livros de nichos bizarros: havia um poeta com uma brochura mal acabada: poemas feitos nos desvarios alucinógenos. Havia outro, de cara amarrada, com material similar, tratando de um ovo frito. Em outro stand, uma jovem caracterizada oferecia um romance juvenil a uma pequena fila interessante. Se ela me apertasse, eu compraria um para mim.

Passei muitas vezes por essas águas, conversei com e outro e, finalmente, no sábado, por volta do meio dia, ancorei meu barco de vez. Apesar de sábado, era um horário sem rush, muita gente nos restaurantes, cansada, sentada ao longo dos corredores, à beira dos stands expositores.  E descarreguei dez “Meninos”, minha carga de cada dia. Os próprios meninos misturaram-se aos nativos e começaram a vender irrecusáveis encantos. Era o último stand da direita, o dono não havia aparecido ainda. Um vizinho veio me reclamar de invasão. Perguntei-lhe se o sítio era seu, por acaso. Saiu rascando. Em meia hora, vendi 9 livros, porque segurei o último para pagar pelo uso do espaço invadido.  Mas o dono não apareceu até as quinze horas quando tive que retornar ao hotel por motivo de doença, como disse em oura crônica.

Depois dizem que o brasileiro não lê!

Todos estes visitantes estão em busca do quê?

Por que se produz tantos livros se não há leitor?
Como há gente querendo ler um bom livro nesse Brasil! Corredores lotados, filas aos caixas, nos lançamentos. E como há livros querendo ser lidos! Prateleiras, tablados, gôndolas apinhados.

Senti nos olhos das pessoas uma alegria imensa por estarem participando da Bienal de São Paulo. A mesma que eu desfrutei e que ainda saboreio.

O livro precisa ser mostrado, oferecido. Eu sei, já experimentei também em outras oportunidades. Os livros de Sergipe, mesmo os bons, serão comidos pelos cupins nas casas de seus autores ou na estantes dos amigos que foram ao lançamento. Precisam ser vendidos, agressivamente ofertados. As Bienais, como estas, se prestam bem para esse fim. Escrevemos e publicamos para quê?

Assim como fez o Ceará, precisamos organizar um grupo de escritores dispostos, obter algum financiamento e ir à toda feira literária que for possível pelo Brasil. Quem sabe a Federação das academias de letras que Domingos Pascoal de Melo, o semeador de academias, coordena, não nos ajude a conseguir esse intento?

Aracaju, 07 de novembro de 2016, por Antônio FJ Saracura.


2 comentários:

  1. Meu querido companheiro Antônio Saracura, você é um escritor que se comporta como escritor!  Há pessoas que publicam seus livros mas se "envergonham" de mostra-los, de vende-los. Como você diz, o livro é para ser mostrado, oferecido, vendido. Que bom se Sergipe investisse em cultura, e pusesse um stand nessas bienais para os autores da terra! O brasileiro lê, sim, e há livros querendo ser lidos. Invejo a sua coragem, Saracura. Aliás, usei a palavra errada - não se trata de coragem, mas de confiança no valor do seu trabalho. Você acredita no que faz. Concordo com você quanto ao sentido pejorativo da expressão "literatura de cordel", quando a rigor se trata da verdadeira e autêntica poesia brasileira, a poesia do povo, a poesia que é feita, vendida e lida. Livros não devem ser feitos para ser comidos pelos cupins nas casas dos autores ou nas estantes dos amigos. Livros precisam ser vendidos, agressivamente ofertados. Escrevemos para quê? Você lançou a ideia: tal como fez o Ceará, precisamos organizar um grupo para captar apoio e ir a toda feira literária pelo Brasil a fora. A Federação das Academias de Letras poderia empunhar essa bandeira. Encoraje o Domingos Pascoal nesse sentido. E não se esqueçam de mim...

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  2. Viva a Deus! Alguém fez um comentário em um de meus textos. Pensei que fora acessado (até agora) por 11.861 mudos, que não sabiam escrever. O que mata um blogueiro é mesmo que mata o escritor: o silêncio dos leitores. Obrigado José B L Irmão. E sobre a Federação das Academias, eu e Pascoal temos conversado bastante. Até redigimos um Regimento, em minuta. Ele, Pascoal, na verdade, já faz esse trabalho de coordenação das academias informalmente. Admirável é o trabalho que executa pelo bem da cultura em Sergipe. Tenho fé que vamos montar um esquema de irmos às bienais, mesmo arcando com algum recurso do bolso.
    Numa Bienal (feira literária) como em uma livraria é onde estão as pessoas que gostam "muito" de ler.

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