quinta-feira, 8 de setembro de 2016

24 Bienal de São Paulo, Primeira Parte - Lições a Aprender

24 BIENAL DE SÃO PAULO
Primeira Parte -  Lições a Aprender




Marquei para o final da festa (ocorrida entre 26 de agosto a 05 de setembro de 2016, em São Paulo) a minha ida. Na semana anterior (28 de agosto), acontecia o aniversário da emancipação de minha terra, Itabaiana, e eu receberia a comenda Sebrão Sobrinho (a maior honraria que a cidade concede). Eu e mais dez ilustres, então me senti também.


Comprei as passagens (na promoção) e reservei um hotel conhecido (Ibs da São João) para os dias 2, 3 e 4 de setembro.




Uma tosse irritante e contínua, que começou duas semanas atrás, não parava nem que a vaca tossisse junto. Houve uma melhora, mas retornou com força na véspera da viagem. A poucas horas do embarque, à noite, fui a dois lançamentos. Um na sociedade Semear, de Expedito Souza e o outro, no Palácio Museu Olímpio Campos, de Gustavo Aragão. Não conseguia falar com os amigos, a voz sumia cada vez mais. Retornei para casa corizando, dando socos no peito. Para minha desgraça maior, choveu um pouquinho no trajeto curto entre a porta do Palácio Museu e o meu carro estacionado em frente à Assembleia.

Só um doido vai para o frio São Paulo nesse estado, falaram alguns amigos que ainda deixei em um e no outro lançamentos.

Cheguei em casa e dormi mal as poucas horas a que tinha direito. Uma da manhã, chamei o táxi e fui ao aeroporto. Se ocorresse uma crise até o embarque, retornaria. Minha esposa, companheira de todas viagens, olhava-me com reservas enormes. Ela queria ir à São Paulo. que é, quase, uma segunda pátria para nós dois. Mas temia, talvez, o mesmo que eu: os transtornos em um hospital frio longe do zelo familiar.

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O avião desceu às seis da manhã. São Paulo estava nublado, um friozinho gostoso. A reserva no hotel só valia após o meio dia. Guardamos as malas e fomos fazer um horário nas ruas Santa Ifigênia, 23 de Maio e outras desse imenso shopping internacional. Minha esposa gosta e eu lhe fiz companhia, protegendo-me nas marquises, nas ante salas das lojas, todo encapotado.

Depois de ocuparmos o pequeno apartamento no hotel, rumamos ao Anhembi (Bienal do Livro) onde ficamos até às dezenove horas. Não aguentei mais do que isso. O ar condicionado esfriou muito e eu tossia sem trégua. Precisava assistir à palestra dos editores (Pedro Almeida, Rogério de Campos, Eduardo Lacerda e Plínio Martins). Os calafrios vinham chegando inapeláveis. Tive que abrir mão da chance de obter um editor para minha literatura. Deus toma com uma mão e, se tivermos fé, nos devolve depois em dobro. Estou esperando. 

Quem disse que dormi à noite?  Nem eu, tossindo e tossindo, assoando o nariz, encharcado lençóis de suor e enchendo bolsas plásticas de escarros. Tomei todos os remédios que trouxe de Aracaju, em dose dobrada, mas o inimigo continuava azedo, impiedoso. Nem eu dormi, nem minha esposa, nem os vizinhos, eu acho. Os pequenos apartamentos do Ibis São João (cokpits de pilotos de corrida) revelam as mais dissimuladas intimidades.

No sábado, de olhos vermelhos, às 10 horas, eu estava, outra vez, no Anhembi, mas sozinho. Minha esposa ficou na cidade, foi às compras, em outras áreas que ela conhece bem. Dispensou minha proteção que, a bem da verdade, não vale quase nada. Especialmente, nesse lastimável estado de saúde. Livrou-se de mim, e eu me senti confortável, livre também de sua preocupação. Sempre estou tentando, inutilmente, freá-la em alguma compra.

Não aguentei ficar na Bienal até as dezenove horas conseguidas na sexta. Bati em retirada às 15 horas. O ar do Anhembi ficou muito frio.  Frio demais para mim. Aquela multidão, que deu trabalho para romper até a saída, nem ligava. Zoava ávida querendo livros, autores, ídolos. 

Passei a noite tossindo, mais do que na anterior, mesmo com xarope em dose dupla comprado na drogaria são Paulo, receitado pelo balconista. Se não tivesse encontrado, sobre o beliche, dois grossos cobertores de lã, eu teria perecido nos mares glaciais que me afogavam.

Como ir para qualquer lugar depois de uma noite dessas? Fiquei de repouso. Afinal era domingo. Deixei meu corpo amarrado na cama, querendo arrancar-se, mesmo sabendo que não suportaria o Anhembi. Perdi o último dia da bienal, roendo-me na indecisão entre procurar uma urgência médica ou me guardar até a hora do retorno a Aracaju.

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Avião lotadíssimo e eu lá nos últimos bancos, na fila 25, tentando não tossir tanto, mas fazendo mais ainda. As pessoas, em torno, deveriam estar incomodadas e, talvez, se perguntassem: “o que vai fazer esse doente de férias em Aracaju?”. Minha esposa, ao lado, me repreendia com beliscões íntimos. Rezei para o avião chegar logo em Aracaju, também queria escapar desse tubo infectado.
Ainda bem que protegia a boca e o nariz com um cachecol caído do céu. Não é época de cachecol, só eu uso. Estava no bolso do blazer, esquecido talvez pelo dono anterior.

Teve razão aquela anciã com cara de índia canibal ao me olhar demoradamente no saguão de embarque. Não tive como escapar de seus olhos, que inqueriam em silêncio: “que armada é essa, és doido ou és deslumbrado?” E eu, intimidado, pedindo perdão a todos os entes, da mesma forma, com os olhos fixados nos olhos dela, apontei meu pescoço e tentei tossir. Mas a tosse não saiu.

Aracaju, 07 de setembro de 2016, por Antônio FJ Saracura.


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