quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Discurso de Recepção ao Acadêmico Antônio FJ Saracura



DISCURSO DE RECEPÇÃO AO ACADÊMICO ANTÔNIO FJ SARACURA, por Vladimir Souza Carvalho, em 31 outubro se 2016





Ei-lo que chega. Camisa fora da calça, chapéu - que, aliás, varia, como se tivesse uma coleção - na cabeça, o bigode a separar a boca do nariz. Quem o vê assim há de dizer, e, com absoluta razão, se cuidar de um tabaréu, tabaréu autêntico do sítio Saracura, no povoado Terra Vermelha, de Itabaiana, onde ressalte-se, nasceu, estendendo seus passos pelos povoados Flechas e Matapoã, os três territórios transformados em seu pequeno grande mundo. E, se colocado na paisagem de um sítio, em meio à plantação de mandioca, o capim reservado para o alimento do cavalo, a enxada na mão, a roupa suada e suja, todos hão de ter a mesma conclusão.





No entanto, ninguém de há pensar, em hipótese nenhuma, que o tabaréu do sítio Saracura é, antes e acima de tudo, um escritor de mão cheia, autor de uma penca de livros da melhor qualidade, e, mais do que isto, um divulgador incansável e irrequieto de sua obra, a viver com os caçuás superlotados dos suas produções literárias, para divulgá-las onde quer que chegue.






Nenhum de nós carrega esta força, esta pujança, este fôlego de editar livros e reeditá-los, em tiragens diversas, melhorando-os, enxertando-lhes opiniões críticas, nem nenhum nós, membros de academias de letras, seja esta, a mãe de todas, soberana e imponente, sejam as suas filhas, nascidas nas plagas interioranas - como a de Itabaiana, da qual me integro como um dos seus fundadores e da qual o acadêmico Antonio Francisco de Jesus [permita que o trate assim, pois foi assim que o conheci há milênios de anos atrás na Biblioteca Pública Dom José Thomaz, da Paróquia de Santo Antonio e Almas de Itabaiana] também faz parte, - carrega nas veias a disposição para comparecer a toda instalação de academia, a toda posse, individual ou coletiva, a todo lançamento de livro, a todas as bienais que se faz nesse país, inclusive em Maceió e em São Paulo, como o acadêmico Antonio Francisco de Jesus.

É admirável a sua ligação com o livro, como leitor, incentivador, e, sobretudo, como autor, inclusive, autor que busca sempre se aprimorar, rezando pela linguagem leve, direta e clara, abrindo passagens no meio das pedras, para delas tirar leite, como fez, em particular, com Os tabaréus do sítio Saracura, livro de estréia, a trasladar para cada capítulo a vida de sua família e de seus parentes, a sua vida, de menino que não conseguia se adaptar a faina da enxada, contando os fatos ocorridos ali, no seio da família, sem nada esconder, colocando todo o cenário de ocorrências na vitrine das páginas de um livro, sem vergonha de dizer que o irmão comia areia, nem que o pai, com o tempo, passada o mel dos primeiros anos de casamento, não permitia mais que a esposa, mãe do autor, fosse a Matapoan, ao sítio do pai, no domingo, na costumeira visita, montada no cavalo, deslocamento que, doravante, teria de ser feito na perna.

É incrível como consegue escrever o romance de sua família, contando tantos fatos banais de modo tão atraente, a ponto de ir conquistando o leitor e criando nele a seiva de intimidade com os seus. E eu, a lê-lo, fui conhecendo todos os tabaréus do sítio Saracura, e me tornando amigos de todos, enchendo-me de interesse pela leitura, devorando capítulo por capítulo, desejando que o livro não tivesse seu final. Depois, extravasei meu entusiasmo em artigo que publiquei no Correio de Sergipe.
Foi meu erro, segundo o acadêmico Antonio Samarone Santana, seu primo carnal, porque a partir daí, com o artigo em mãos, o acadêmico Antonio Francisco de Jesus não parou, sapecando livro a três por dois, como a gente diz lá, na nossa Itabaiana, que eu fui, ante cada um, saudando pela imprensa, até que, no último, ele me reclamou um artigo, e eu, confesso, não o fiz, receoso de me repetir ante tantos elogios já emitidos.

A culpa não foi minha, acadêmico Antonio Samarone Santana.

Eu, tão exigente na crítica daquilo que leio, desde as peças literárias às peças jurídicas, e, nestas, as acadêmicas que a atividade jurisdicional de quase quarenta anos me obriga, tão cioso do que tenho de escrever em despachos, decisões, sentenças, e agora votos,   apenas me deixei seduzir pelo canto de Os tabaréus do sítio Saracura, não conseguindo evitar o elogio que fiz publicar.

Entretanto, aproveito aqui, nesse momento solene, para revelar o nome do culpado de tudo que estamos a presenciar na obra literária do acadêmico Antonio Francisco de Jesus, esperando que o delito não esteja prescrito, para o Ministério Público poder ainda ingressar com a ação devida.

O culpa foi o senhor cônego José Carvalho de Souza, na direção do Seminário Menor, mesmo o jovem tabaréu da Terra Vermelha tendo sido reprovado na prova de admissão ao ginásio, tabaréu que falava autenticamente errado e era fofoqueiro, mantendo-o no Seminário Menor, como se o Senhor das Letras tivesse lhe iluminado e dito: Deixe esse menino, aí, Senhor Reitor, que de sua pena, em breve, nascerão belos e substanciosos livros, e, um dos quais, sobre o Seminário.

E o Senhor Reitor deixou, de modo que a pedra grosseira e tosca foi preparada, aos poucos, para dar lugar a um diamante, e fruto dessa lapidação lenta e consentânea, aquela árvore foi se enchendo de folhas materializadas em projetos, que, só recentemente se transmudou numa série de bons livros. 

A Literatura Sergipana tem muito a agradecer ao Senhor Reitor do Seminário Menor, o cônego José Carvalho de Souza.
 
O certo, Senhor Presidente e Senhores Acadêmicos, é que estamos a vivenciar a posse de um dos mais produtivos escritores sergipanos, de um homem que, sufocando a vida inteira a produção literária, não conseguiu mais segurá-la a partir de certo momento, e se rendeu as evidências do seu talento, passando a transportar para o papel tudo aquilo que sua mente deliberava, no que acrescenta as letras sergipanas o que dela mais de lírico e de suave tem, na poesia de seu texto, na leveza de seu estilo, nessa forma natural e espontânea de contar os fatos, que a impressão que se tem, se capta e se guarda, é que o leitor está a ouvi-lo, sentado num tamborete, no terreiro de uma casa, cercado, aos lados, de plantações de tomate, cebola, macaxeira, batata, e, principalmente de mandioca, na exposição de histórias, sem aquela preocupação de fazer literatura, embora faça, falando e contando, palito nos dentes, a camisa com alguns botões abertos, a mãos cheias de calos da enxada, o chapéu sempre na testa para proteger a cabeça das inclemências do sol. 

Esta característica persegue seu texto, desde a estréia em livros com Os tabaréus do sítio Saracura, 2008, depois nas crônicas de Minha querida Aracaju aflita, 2011, depois nos Meninos que não queriam ser padres, 2011, depois em Tambores da Terra Vermelha, 2012, por último, em Os Ferreiros, 2015, como estará presente nas produções futuras que seu gênio produtivo ainda irá gerar, agora que alcança uma cadeira nesta Academia, fazendo conhecido e amigo de todos, pelo nome do  sítio Saracura, que já incorporou ao seu, como título maior que carrega, ele, itabaianense da Terra Vermelha, com sangue dos ferreiros nas veias, de façanhas singulares, imortalizados no seu último livro.   

Senhor Presidente e Senhores Acadêmicos,  o acadêmico Antonio Francisco de Jesus é o que o rol de seus livros revela: um tabaréu que, aos poucos, foi sendo lapidado, aprendendo a ler e a devorar livros, ainda que escondidos da vigilância do Senhor Reitor do Seminário Menor, iniciando-se na arte de escrever na poesia - e dele, dos tempos de seminarista, ainda me lembro de um poema sobre as duas torres da Igreja de Itabaiana, torres solitárias, salvo engano, - e, adentrando na prosa, arquitetou motivo para seus livros durante toda a vida, e, só então, ao ingressar na maré mansa do outono, deixar explodi-los numa perfeita sequência cronológica, exibindo, em cada um deles, a tosca poesia de quem soube substituir a enxada por uma caneta, e, assim, em lugar de se tornar um plantador de cebola e vendedor de feijão no Mercado do Aracaju, galgou, via do livro, a gloriosa condição de ser um dos mais fecundos e produtivos escritores do território de Sergipe del Rey.

Ei-lo que chega, e chega para ficar nesta Casa, que, para sua maior glória, Senhor Acadêmico Antonio Francisco de Jesus, passa a ser sua também, porque foi feita para abrigar aqueles que carregam no peito a disposição de escrever e publicar livros.

Mui obrigado.


Nenhum comentário:

Postar um comentário