sexta-feira, 28 de abril de 2017

A XII Bienal do Livro de Ceará

A XII Bienal do Livro de Ceará 



Viagem e bagagens no rumo da Bienal



Estranhei o avião da Azul, um turbo hélice que, inicialmente, deu-me insegurança. Depois que aprumou no céu, correu tudo bem. Em Recife trocamos de aeronave, para um boing (acho) potente. Tanto na ida como na vinda.
Na ida, calculei mal o peso de minha bagagem, deu 19 quilos quanto tinha direito a 23. Poderia ter levado mais cinco livros, que não resolveria meu problema de falta de livros para vender. Levei apenas 40, entre Meninos que Não Queriam Padres e Os Ferreiros, que os tenho em estoque.
Fiquei em Fortaleza de 18 a 24 de abril, fui à feira de livros, que se iniciara em 12, descansei e vi a cidade com minha esposa. Ficamos hospedados em um hotel simples, o Fortaleza Inn, acolhedor e bem localizado, a praia do Meireles, junto ao mar.

O Mapa da Bienal

Como enfrentar um ambiente desconhecido, vender livros sem ter ponto certo, sem conhecer ninguém?
Eu tentei, ainda em Aracaju, achar um porto onde ancorar minha canoa. Sabia dos irmãos Viana (Arievaldo e Kélvisson) que os vira, um, em São Paulo, na Bienal, e outro, no último encontro cultural de Laranjeiras. Mandei e-mails que custaram a produzir um retorno. Por fim, na véspera da viagem, recebi uma resposta tranquilizadora, ante meu medo de ser expulso da feira como camelô ilegal: “pode vir tranquilo”.
Na quarta-feira, dia 19, arrumei alguns livros, peguei o táxi e baixei no Centro de Eventos do Ceará, um portentoso prédio que, de cara, pareceu-me com um shopping center paulista, de tão grande
Num salão, comprido (mais de 500 metros) e largo (40 por aí), que chamam de “foyer”, estava, a um lado, plantada, a praça do Cordel. Naquela hora, em torno do meio-dia, havia pouco público, mais cordelistas aos bolos, em frente à tablados de livrinhos. Circulei por ali, os irmãos Viana não estavam à vista. Conversei com poetas, comprei livros (dois por cinco reais), distribuí meu cartão-marcador de página. No palco, poetas declamavam sob a coordenação de Paulo de Tarso, a quem me apresentei e, logo, colocou-me na agenda, para apresentar-me no final da tarde.
Os stands da grande feira ficavam no salão contíguo, acessado por muitas portas largas, eu via de cá, e esquentava o motor para entrar na pista. Lá também estavam os pequenos palcos (café literário, praça das conveniência, casa vida e arte, praça do escritor cearense, etc.) para lançamento de livros, palestras ligeiras, apresentações folclóricas de menor duração.
Escadas rolantes levavam e traziam centenas de estudantes uniformizados. Nos mezaninos (dois) aconteciam palestras longas, debates, conferências, congressos, exposições especificas, oficinas, contação de história, etc.

Quebrando tabus bestas

Entrei então no coração, no imenso salão da feira, onde livrarias, revistas, associações, academias, editoras mostravam-se ao público visitante.
Eu puxava minha mala móvel por um daqueles largos e compridos corredores. Vestia a camiseta de O Escritor na Livraria. Olhava cada stand, na esperança de que um rosto cordial acenasse solidário, uma fresta me servia.  Mas todos cuidavam de suas causas, arrumando livros, lendo planilhas, conversando com clientes, vendendo. O movimento prosseguia fraco, era um dia de semana, começo de tarde, por volta das três.
Como vou me arranjar nesse mundo estranho para divulgar minha literatura?
Senti um cutucão nas costas e voltei-me. Era um senhora bem vestida, de cabelos curtos, e jeito desinibido. Olhei-a com a alegria de um velho conhecido. Ela perguntou-me: “O senhor é escritor?” Respondi que sim: ”Sou de Sergipe, de Itabaiana. Vim divulgar a literatura de minha terra, trouxe livros...” Ela então, disse: “Fique conosco, nosso stand é esse em frente, a Academia Juvenal Galeno”.
Eu nem o percebera, passara batido, olhando o vizinho. O stand estava na melhor esquina, junto a uma grande porta de acesso. Era tudo o que eu queria, só que veio rápido demais, assustou-me.
A partir de então, senti-me em casa. Ou melhor, na Livraria Escariz de Aracaju, executando "O Escritor na Livraria", uma de minhas missões sagradas. A Bienal do livro de Itabaiana tomou conta da Bienal do Ceará e fiquei ali todos os dias, mesmo depois que meus livros acabaram, ajudando Tibúrcio Bezerra, poeta fino, filho de Várzea Verde mas residente em São Luiz do Maranhão, autor do bom “Obrigado Cantador”, a vender sua ode à Luiz Gonzaga.
Penso, agora, que fui chamado pelo próprio Juvenal Galeno (1836,1931), o Patriarca dos Poetas Cearenses. Sua casa, na cidade, hoje é um museu e abriga várias academias. Cabia com folga, a Sergipana e a Itabaianense de Letras. Sentei-me ao lado de ilustres escritores da terra:  Gomes de Moraes, Antônio Gonçalo, Nico Arruda, Marcelo Leal, Ana Maria Nascimento, Artemiza Correia, Cícero Modesto, Guto Rodrigues, Nanda Goes, Rita Maria, Rejane Barros, Odmar de Lima, Francinete Azevedo, Linda Lemos (a presidente da Academia Juvenal Galeno), entre outros...

Vender é uma arte complicada.

Por mais que a estude, sempre sou um aprendiz. No primeiro dia, eu trouxe ao stand (quase na marra) pouca gente. Vendi dois livros. Muita conversa sem frutos, as pessoas ainda estavam chegando, iam dar uma volta, trariam as esposas que são sempre quem tomam a decisão, e por aí a diante. Um comprador, como muitos, saturado da homilia, escapou-me por entre os dedos. Não fechei a mão direito. Salvador queria comprar “Meninos que não queriam ser Padres” para dar de presente ao irmão, ex-seminarista, criador de abelhas (na manhã seguinte vi esse irmão, na Tv, protetor das Uruçus, Jandairas e Mandassais, abelhas mansas que dão bom mel). Mas Salvador não possuía um tostão no bolso, confidenciou-me baixinho. Fazer o quê? Saí ás vinte horas desanimado. Estaria desaprendendo? A escritora que me acolheu, Leda, vendeu muito, ela possui grude na conversa, poucos escapam. Vou ficar mais perto amanhã e entender sua arte.
Por que essa escritora e membro de várias academias, ofereceu-me o espaço que eu queria muito?
Nos dias seguintes, percebi que Leda perece comigo no jeito de divulgar literatura. Como um radar, ela vasculha os corredores, avalie cada pessoa e a intercepta, se percebe abertura. Sente de longe o cheiro de um cliente bom. Talvez por isso, me abordou. Quando percebeu que eu estava travestido de vendedor, já era tarde. Saiu-se com o convite, que aceitei. Nem dei-lhe chance de recuar.

Compras e lazer sempre acompanham uma bienal

Quase sempre, almoçamos e jantamos no Dom Churrasco, que fica entre a praia do Meireles e o hotel Fortaleza Inn. Muitos garçons, atentos, cordiais, eficientes. Minha esposa voltou a comer pizza e parece que refez a amizade. De outra vez, almoçamos no Paulo da Picanha, em Papicu, por recomendação do cunhado que é meu amigo em Aracaju, Domingos Pascoal. Outros vezes, tragamos lanches ligeiros onde a fome nos pegava.
Mercado Central, monsenhor Tabosa, praia do Meireles, feirão de artesanato e shoppings. O enxoval do filhinho de minha filha, Mohara, que ainda vai nascer dentro de seis meses, foi inteiramente comprado, espero! Fiz companhia à esposa no primeiro dia, mas depois ela foi só. “Veja se os preços são menores do que em Itabaiana?” Não deve ter me entendido. Assustei-me com os pacotes entulhando o apartamento.
Na praia do Meireles, um pouco de lazer e descanso. Ancorei na barraca Kaparica, na manhã do dia 21. Quieto, revisando meu novo livro, “Os curadores de Cobra” que pretendo lançar este ano ainda. Arredondando os versos. Poemas que falam de meus heróis, alguns completamente desconhecidos do público e outros de mim mesmo, até que os criei. Fiquei à sombra, tomei água de coco e remoí batata de gengibre que, providencialmente, trouxe na mala. É que tive calafrios, à madrugada; quase não consegui levantar-me para desligar o ar condicionado que cuspia gelo à 18 graus. Amanhã vestirei o capote que me acompanha desde os anos setenta quando morei em São Paulo. Vou negociar com minha esposa, menos frio: fecho em 27 graus..

Estrelas da Bienal do Ceará.

Na praia, ainda, corri os olhos no livreto da Bienal, vendo as atrações, as palestras, as apresentações. Se realmente era internacional, como diziam as chamadas. Coisas acontecem em um evento deste tamanho, não há como ver todas. Monstros sagrados que me encantam a vida estiveram ao meu lado: Lira Neto (é um dos curadores), Paula Pimenta, Frei Beto, Luiz Ruffato, Marina Colassanti, o português Valter Hugo Mãe, Inácio Loyola, a moçambicana Paulina Chiziane, Ana Miranda (como eu queria apertar-lhe a mão e não consegui), o português João Tordo, Mary Del Fiore...
E os poetas do povo, cordelistas, trovadores... O Ceará produz uma literatura cordelista de alto nível. O praça do Cordel foi uma bienal à parte. Até eu tive meu momento, na quarta–feira à tarde. Falei de meus livros, de minha prosa e minha poesia também. Li trechos e fui aplaudido. Minha esposa puxou as palmas. Entre os nomes presentes, de maior destaque, anotei: Kélvisson Viana (o curador do cordel), Arievaldo Viana (sempre em uma retaguarda solidária), Paulo de Tarso (mestre de cerimônia), Chico Pedrosa (com belas e engraçadas declamações, entre as quais, a do Barreiro Seco, que ainda nem saiu em livro, foi composta na semana anterior à bienal), Antônio Francisco (que não sou eu, ele é um consagrado poeta do Ceará), Beto Brito (com um show, à lá Zé Ramalho, que encantou o público em um começo de noite), e o boto do Amazonas, Antônio Juraci Siqueira...Poeta fora de série, louvado pelo Brasil inteiro. Conversei com ele no stand da Juvenal Galeno, minha casa aqui. Dei-lhe “Os Tabaréus do Sítio Saracura”, que veio clandestino, escondido, numa dobra da mala, não queria perder a festa. O boto deu-me seus livrinhos mágicos. Para Isabel Nascimento, dedicou e me pediu que trouxesse: O mito da Criação dos Rios da ilha de Marajó. Para Ilma Fontes, Banquete de Eros.
E mais poetas e cantores que não acabam mais. Minha esposa, de quando em quando corria à Juvenal Galeno, chamar-me, pois eu não podia perder, de jeito nenhum, a apresentação do poeta Evaristo Geraldo, do rabequista Rafael Brito, de Torquato Lima, de Costa Sena, de Lucarotas, de Chico Neto, de Maria Luciene... Mestre Waldeck de Garanhuns fez um show de arrepiar.

E como fica a Bienal de Itabaiana (final)

Bati fotos e as postei no facebook para mostrar os momentos da grande feira literária, com a intenção de despertar os escritores que almejam ser lidos. Assisti a uma palestra e saí tombando. A tiquira e o mocororó são bebidas de índio, derrubam branco. Caí junto à arapuca da Abril e uma mocinha treinada para engabelar fez-me comprar duas assinaturas de revistas que servem apenas para manipular ingênuos, como eu. Deu trabalho depois para cancelar, se é que consegui.
Não há outro jeito de chegar ao leitor, ao grande leitor espalhado. O Escritor tem que montar tocaia dos bebedouros deles: livrarias, feiras literárias. Não vale a pena sair atirando a esmo. Não vale reclamar da pontaria e de que não há caça. A pontaria afina-se. A caça, um dia virá beber água. Essa bienal do Ceará, como outras bienais que ocorrem a cada mês pelo Brasil afora, são bons pontos de encontro. Todos saíram satisfeitos. Os caminhões baús vão retornar à São Paulo batendo. O Escritor que não ficou sentado cochilando, vendeu bem
E a bienal do livro de Itabaiana?
Os empreendedores nem a largam nem deixam ninguém encostar. Não aceitam o editor da revista, nem a academia de letras, nem o grande empresário de imóveis, nem o profissional de eventos...
Então, quem fará?
Será que haverá este ano, meu Deus!
Bastaria a Secretaria de Cultura de Itabaiana mexer-se à favor. Como chegar a ela?
Quem quer que a empreenda, eu estarei junto; Itabaiana e literatura são minhas cachaças.
A Bienal do Livro de Itabaiana, nas três vezes em que foi executada, não ficou devendo nada às bienais por onde tenho andado, inclusive à essa XII Bienal do Livro do Ceará, que acabo de ver de perto.

Fim


(Por Antônio Saracura, escritor, membro das academias Itabaianense e Sergipana de Letras, em 26 de abril de 2017)

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