sábado, 11 de novembro de 2017

IV Bienal do Livro de Itabaiana - algumas considerações pessoais

IV Bienal do Livro de Itabaiana – Rápidas Considerações
(Parte 01/02)




O pavio no qual eu teimava em manter acesa a chama da esperança na Bienal estava no fim, queimava meus dedos. Logo teria que o apagar. Eu partiria para o projeto de uma feira de livros no dia 22, onde meia dúzia de escritores convidados disputaria a atenção de duas dúzias e meia de visitantes apressados nos corredores do shopping Peixoto. Não prestaria! O nome Bienal e nome Itabaiana juntos atraem multidões.
Foi então que Honorino Júnior, que comandou a revista Perfil por 17 anos de sucesso,  resolveu parar sua empresa de construção e fazer a Bienal.
Graças a Deus!

E reanimou os velhos parceiros, arrumou combustível e acendeu um fogaréu.
E todos caímos em campo, dia e noite, escrevendo e rasgando rascunhos, batendo à portas em busca de recursos, o que eu não queria fazer mas fiz.

Chegou, finalmente, o dia da grande festa dos livros.

A expectativa confirmou-se, passou da conta, extrapolou, excedeu todos os sonhos. O shopping Peixoto, com instalações amplas e detentoras do ideal conforto, abriu suas portas (inclusive o estacionamento onde parte do evento funcionou) para receber uma multidão de crianças e gente grande, de olhos arregalados, alguns mostrando sua arte, outros desfrutando-a e todos gratificados pelos momentos raros. Como fazem falta eventos como esses, que criam fóruns onde produtores e consumidores de cultura mostram-se, negociam, trocam seus dons!


2017out19 (quinta-feira)

Calma, não é a Bienal ainda! Fui ao aeroporto recepcionar Aderaldo Luciano, poeta e missionário da poesia brasileira que tem nos prestigiado mesmo espremendo a sua agenda de pregador. Anderson Almeida pediu-me que o fizesse em seu lugar, estaria em Maceió onde é professor universitário. Missão mais honrosa nunca tive.
Fico atribulado quando aguardo um passageiro que nunca vi. Quero falar com todo mundo, na ânsia de acolher. Mas eu conhecia Aderaldo de outras bienais... E ele, baixinho, encoberto pelos passageiros apressados saindo da sala de desembarque, apareceu puxando uma maletinha rósea, do tamanho de nada. Onde estariam os exemplares do livro que o Brasil comemorava, o Romance do Touro? Teriam se extraviado mais uma vez, como aconteceu, na II Bienal, com Apontamentos para a História do Cordel Brasileiro?

Vindo atrás de Aderaldo, surgiram duas pessoas. Uma, eu conhecia de vista e de mídia, Ancelmo Oliveira (o jornalista mais acreditado e replicado do País), que tentei trazer em bienais anteriores e nessa aceitou vir. A outra, uma senhora no conforto de uma blusa de frio (o ar condicionado do avião congela!).  Só poderia ser Tina Correia, a premiada romancista de Essa Menina de Paris à Paripiranga, esposa de Ancelmo. Duas estrelas da Bienal, que só iriam chegar no dia seguinte, agora puxando malas, diretamente do Rio de Janeiro para Itabaiana, aos meus braços surpresos. Bem que eu estranhara traços dos Góis de Frei Paulo, família imensa que não pode passar despercebida de ninguém, no hall de espera!

O que fazer, senão acolher os três monstros sagrados, abraçá-los, me auto nomeando, ali, na hora, o embaixador plenipotenciário da Bienal do livro de Itabaiana? Atordoado, bati uma foto para registrar o momento e provar meu feito (de pura sorte) que não foi pequeno na minha imodesta avaliação.


2017out20 (sexta-feira)


Saí de Aracaju às sete horas, vieram comigo, de carona, Aderaldo Luciano e o poeta Pedro Amaro. O carro sobrevoou os canaviais da Cotinguiba, embicou serra acima, nem reclamou do peso da caçamba cheia de Os Curadores de Cobra e de Gente (lançamento) e de Meninos que não Queriam ser Padres (este, representante dos demais que ficaram em casa a contragosto, todos queriam vir junto e, depois, eu dei razão a eles, muita gente os procurou também).

A sexta-feira começou boa demais. Pena que eu não pude estar em todos os locais ao mesmo tempo, especialmente na Praça dos Escritores, onde me instalei em uma mesa no centro da alameda. Pensei, inicialmente, em ficar na esquina de entrada, frente ao fluxo previsível maior. Mas eu precisava de uma posição estratégica, para mais facilmente gerenciar os conflitos que eventualmente surgissem.
Arrumei os livros e já saí ao Auditório do Cinema, à cerimônia de abertura e entrega do cobiçado Falcão de Ouro, desta vez uma joia. Minha esposa, Cida, ficou cuidando dos Curadores e dos Meninos, mas os compradores passavam ao largo, fazendo pontaria sem disparar, conforme ela reclamou depois.

O Auditório do Cinema cheio mostrava que a Bienal não seria de brincadeira. Amorosa encantou com o hino nacional arrancado do fundo preservado deste Brasil varonil, seu coração de artista. Fiquei junto aos demais organizadores (que nem sempre estiveram tão juntos assim) e tive a honra de entregar o Falcão de Ouro a alguns amigos que admiro.
Pedrinho dos Santos, historiador das catacumbas da Epifânio Dórea, ao ser chamado, não apareceu para receber seu Falcão. Eu o vira antes nos corredores da Shopping queixando-se de mal estar, o ar lhe faltava perigosamente. Recebi, em seu nome, o troféu mais que merecido.

O Falcão de Ouro!

Um simples troféu, mas que simboliza muito aos organizadores da Bienal e parece que muito mais aos distinguidos. Até mágoas provocou em pessoas esquecidas (ou deixadas para a próxima vez, são apenas trinta em cada Bienal) que mereciam também.

Depois do almoço, retornei ao meu posto natural na Praça dos Escritores, acender luzes sobre Os Curadores de Cobra e de Gente. Muita gente parou, olhou, ouviu e comprou. Pena que o dia foi curto, e mais encurtado ainda porque precisei correr a setores que me chamavam: Tenda Cultural - assistir escolas apresentarem peças sobre meus livros; Feira da Cultura – ajustar desvios, abafar ruídos; Mesas de Debates – encher um pouco a sala com minha presença exígua, porque deslocar pessoas encantadas é trabalhoso. O Shopping Peixoto é imenso e os equipamentos da Bienal estavam espalhados. As pessoas queriam saber como chegar a cada um, e, lá ia eu ao Zanity, e não resistia à tentação e apresentava-lhes o conglomerado virtual espetacular, gastando tempo.xxx

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IV Bienal do Livro de Itabaiana - Rápidas Considerações
(Parte 02/02)


2017out21 (sábado)

Sábado é o dia da grande Feira de Itabaiana, uma atração à parte. A Bienal estava no caminho e recebeu tanta gente que travou nos corredores do Shopping Peixoto, algumas vezes. Vans e ônibus estacionavam aos fundos em uma área preparada a propósito pelo anfitrião zeloso, Messias Peixoto. Havia carros estacionados ao longo da rodovia, nas vias de circulação local, onde coubesse.

 Em entrevista, logo de manhãzinha conclamei, por minha conta e custo, as famílias a virem a bienal. ”Venham! Tragam filhos e amigos! Fechem as casas e fechem as cancelas os sítios. Não há, neste final de semana, nenhum passeio melhor do que a Bienal do Livro de Itabaiana”.

Boas vendas, tanto dos escritores como do Shopping do Estudante, a livraria que subiu de Aracaju com um alentado estoque de clássicos da literatura a preços simbólicos.
Uma senhorinha de Capela, que lera Meninos que não Queriam ser Padres (na instalação da Academia de letras da cidade, ela me abordou, eu ia passando, e aí corri pegar o livro, que sempre trago) veio, com a família, buscar Os Curadores de Cobra e de Gente. O pessoal do Corecon prestigiou a Bienal e fez fila na Praça. O escritor Marcos Melo (Propriamente Falando) trouxe a História da Academia de Propriá e a espalhou em uma mesa ao meu lado.

Daí a pouco, as trinta e duas mesas de autógrafos estavam cheias, precisei criar mais espaço, compartilhando-as. Escritores iniciantes disputavam a atenção do público ao lado de monstros sagrados. Albano Franco, Vladimir Souza Carvalho, Edson Ulisses, Tina Correia, de um lado, e os guris da Fies Itabaiana, os jovens do Colégio O Saber, e até eu, do outro.

Eu precisava ficar mais tempo na praça. A esposa, companheira também dessas empreitadas,  me alertava: “as pessoas passam, olham, mas vão embora se você não está aqui”, Mas eu precisava sentir a Bienal inteira, que a tinha como minha. Não perderia, por dinheiro nenhum, as palestras de Ancelmo Góis, Albano Franco e Tina Correia que aconteceram por toda a tarde (quase) no Auditório do Cinema. Fui às Mesas de Debates, elas são essenciais em uma bienal, mas que trabalho que dá levar público e muito mais convencer os palestrantes (via de regra estrelas acostumadas a grandes plateias) de que em Bienal é assim mesmo, seja ela de Itabaiana ou de São Paulo, há salas vazias e outras estupidas, sem motivos claros.

Mais uma escola de pequeninos encanta a todos com sua bandinha de instrumentos caseiros, desfilando nos corredores da Shopping... Anderson Almeida da Sofiva veste Saracura e toca dobrados. Alma Branca e Para sempre Itabaiana, de Maria do Carmo Costa, vieram trazer brilho à Praça também. Alonso, leitor fiel desde Os Tabaréus... Chico Gualberto, Murillo Melins, Eunice Guimarães, Jane Guimarães, Ilma Fontes, Rita de Fernandes... Nandinho de Sizino é bom leitor, e divulga Saracura por aí. Ribeirão, Euclides Oliveira, Fátima da Escariz, Salviano da Prontolab, Estácio Bahia, Tonho de tia Dezi, Lourdinha, Bernadete, Castelo... Ailezz trouxe parte da tribo dorotéia à Bienal (preciso das entrevistas inteligentes de João Neto). Sara Andrade, minha prima dos troncos dos ferreiros da Matapoan, Dilson Andrade, Rosilar de Abrahão, Zé Elicio poeta dos bons da Moita Bonita, a quem devo mil visitas, veio pela mão de Verissimo que é poeta e devotado filho... Uma família Tobias Barreto (marido, esposa e filhos), mora em um sítio na zona rural e cuida de um pequeno rebanho de ovinos, ouviu-me ao rádio e veio à Bienal conhecer os Curadores e muito mais livros. Isso deixa minha luta muito leve.

Muita gente amiga de livros levando pela mão Os Curadores.

Parei um pouco e corri ao lançamento da biografia de Fefi, a fila estava grande, mas consegui as assinaturas do autor admirável, Carlos Mendonça, e a do meu ídolo, Fefi. Quis aproveitar, já que estava na área, vestir a batina de Padre Kiba (que já deve ter chegado a monsenhor), e dar uma voltinha no cavalo do coronel Fudenço. Havia fila, na sacristia, de pessoas aguardando a vez de vestir a batina. Por outro lado, o pobre cavalo andava a resfolegar, agora com sete guris de uma escola do Carrilho no lombo abaulado.
Crianças do Colégio Dom José Tomaz do Rio das Pedras de Itabaiana (vivas às professoras Rosa Maria e Aglaé), em coro, cantaram a bela música “Cidade Serrana” de Walfran Soares. Divinamente. E outra turma da mesma escola, de veste talar, era a própria Academia de Letras. O Murilo Braga, comandado pela professora Jussane, encheu o palco com peças sobre nossas coisas boas, inclusive momentos da literatura de Saracura, nas quais Julian da Silva levou-me à infância no sítio bárbaro. Quase não retorno mais. 

2017out22 (domingo)


O Shopping só abria meio-dia, então corremos atrás de Vicente do Capunga, na feira de todo domingo, no loteamento Luiz Gonzaga, na saída ao Campo do Brito. Domingos Pascoal, o semeador de academias, de bienais e de muito mais, dava entrevistas, posava com vendedores de gêneros, grupo de estudantes e famílias. Anderson Almeida e a família inteira agiam na barraca dos artistas: boas comidas e boa prosa além da marca saracura no varal ao vento ou na serelepe garçonete (esposa do imortal). A procissão de penitentes levou o defunto de mentirinha ao cemitério do Rumo onde meus ancestrais descansam em paz. Bati fotos à sombra do Monumento ao Livro, que a Bienal mandou plantar junto ao pórtico, ao lado da sanfona do rei do Baião.


Abriu o Shopping Peixoto e entrou um senador querendo falar com alguém da organização do evento. Eu estava à sua frente e mostrei meu melhor sorriso de boas-vindas. Ele nem me ligou, seguiu adiante, ladeado por seguranças. Acompanhei-o como um acólito solicito, mas seus olhos buscavam contatos diferentes. Telefonei à Honorino, viesse correndo recepcionar o tal, pois ele não me reconhecia. Como de outras vezes. Então, fiquei mais na Praça dos Escritores fazendo a nobre tarefa de divulgar a literatura de Itabaiana ao mundo Muitos leitores novos levaram Os Curadores para casa. Satisfeitos. Ficarão muito mais depois que lerem o livro, tenho esperança. Como é cheia de mistérios essa arte de encantar as pessoas para comprarem um livro! Preciso desvendá-los.
Silvinha de tio Silvio ferreiro e mais primos longe e primos perto. Que bom ter raízes tão firmes! Luiz Eduardo Costa (obrigado por ter aceito o convite para uma mesa de Debates e para a Bienal). Wanderley Menezes a quem todos devemos pelo que sabe e ensina de nossa história. Ana Paula, leitora desde Os Tabaréus do Sítio Saracura ou até de antes. Tanta gente de bom gosto e agora amigos pra vida toda... Os livros abrem as portas do coração...

Mais leitores... Tanta gente! Impossível lembrar e citar todos os nomes.

Uma senhora alta e de rara beleza pediu-me Os Meninos que não Queriam ser Padres. Uma amiga recomendara. Levantei meus olhos e vi que os dela olhavam o vazio indefinido. E ela, apoiada em uma garota, dizia que o filho, o qual iria adotar, seria padre. Havia um brilho no seu rosto clássico, que me fez retornar ao passado. Ali, no zoar da bienal, enchi meus olhos de lágrimas e me perguntei, em silêncio: por que eu não fui padre? Deveria ter sido... As pessoas precisam muito de sacerdotes, como essa bela senhora de vestido estampado, talvez Maria José ou outros santos juntos, daí seu sonho de ter um filho padre, igual ao de minha mãe Florita na rude Terra Vermelha.
Para Agda minha prima que gosta de ler minha escrita”. Hugo veio antes, queria Os Ferreiros, mas eu só trouxe dois exemplares, e foram comprados nas primeiras horas da sexta-feira.

Messias Peixoto, o dono da casa, passava incansável prestigiando cada equipamento dessa Bienal muito sua também: tenho orgulho de ter nascido no mesmo povoado, pois nada separa o Cajueiro, da Terra Vermelha.

Eu não contava com uma bienal tão pródiga, gastei os pacotes que trouxe; não foram setecentos e tantos livros, mas valeram mais de um milhão.
Bati centenas de fotos no afã de eternizar cada momento. Pena que não demos conta de registrar cada leitor! As baterias dos celulares descarregaram antes do final da feira, nos três dias, não vi tomada ao alcance onde pudesse recarregá-las.

O que seria de minha literatura (da literatura de Sergipe) sem a Bienal do Livro de Itabaiana? Uma literatura de acanhada camarinha, talvez!

Já era o final, quase vinte horas, o shopping Peixoto ia fechar. Limpei minha meia mesa e fui desarmar os banners da academia Itabaianense de Letras, postos lá fora, para dizer a todos: “Nós Estamos Aqui”. O professor Taurino, a Livraria itinerante de Itabaiana, comemorava. Vendeu seu estoque e ainda ajudou autores a ganhar o mundo.
Peguei Zezé de Boquim, poeta maior da Academia Sergipana de Cordel, mais Alonso, leitor desde meu primeiro livro, e toquei pela estrada de Aracaju. O pau quebrava no Tenda Cultural, o grande palco. A banda de música de Boquim dava um show que escutei até o Rio das Pedras. Pisei no freio infinitas vezes, mas minha esposa, extenuada, no banco ao lado, murmurava para seguir em frente, pelo amor de Deus.

Por Antônio FJ Saracura, curador da Bienal e membro das academias Itabaianense e Sergipana de Letras (Aracaju, 11 de novembro de 2017)  




(Aracaju, 11 de novembro de 2017)  

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