CABO JOSINO VILOSO. Autor: Francisco J. C. Dantas | Editora: Planeta, 2005 | Páginas: 150 | ISBN: 978-85-7665-067-6
De início, senti o cheiro longe dos descampados e dos personagens de
Juan Rulfo. Logo a seguir, o singular perfume do Cabo Josino Viloso ficou tão
familiar que me deixei embeber e segui em frente na leitura — nada a ver com a
catinga horrível de seu corpo suado:
“Puxa a gola da túnica, assopra nos cabelos da titela; de volta, recebe
o bafo morno que fica exalando o fartum ardido em sua cara” (página 17).
Este cabo da Polícia Baiana é um homem inseguro (eu também), até ante o
conhecido. Ora todos os urubus cagam em sua cabeça, ora São Migué o favorece
inesperadamente. Quando vai ser massacrado pelos malfazejos convictos do antro
chamado Alvide, o santo levanta o queixo deles...
A cabeça do cabo era um malho de pedra maciça cravado nos ombros. Todos
olham e se benzem, atrapalhados. Aquele intruso bruto, no jogo de cabeça
domingueiro (similar à luta de carneiros marrentos do Cazaquistão), seria a
desgraça dos adversários. O que não provocaria uma cabeçada dele na boca do rim
de um infeliz? E resolvem recuar.
Era a primeira vitória, o início da improvável amizade que começa com o
respeito (temor).
O cabo, inconscientemente, cria seus mundos de sofrimento e de consolo.
Sua mente reverte o revés em vitória. Ele aumenta o poder do inimigo para que a
derrota possa ser sentida pelo mesmo até como uma pequena vitória. Está fadado
ao fracasso, mas surpreende com o sucesso. Comemora os percalços, banaliza-os.
Gaba-se porque não foi recebido à bala ou à cacetada no povoado (respeito/temor
dos moradores). A indiferença dói, mas não tanto. E em Zeca Papão, que o
esnobou, encontra mérito: “Parou suas cobranças para vir falar comigo um
tiquinho!”.
A revolução de 1964 chegou a Alvide caçando comunista. O cabo se borrou
de medo. Esse País perde tempo à toa! Depois, quando os caçadores foram embora,
fanfarreou grosso (de longe, óbvio), esnobando-os. Lembrei-me de meu avô
Totonho Bernardino quando Lampião levantou o acampamento do riacho das Flechas.
Francisco Dantas, pela boca de um ou de outro personagem — especialmente
pela lógica primitiva e lúcida de Josino Viloso —, vai protestando contra os
desmandos do Brasil. Heróis não reconhecidos; aproveitadores enriquecidos; a
imbecilidade pisa na cabeça do mérito. O trabalho dobrado da polícia, que
prende, e a justiça solta. As promessas fúteis dos políticos...
E aí, o cabo entra na variante e distribui empregos fictícios na Polícia
Baiana aos desconfiados paisanos. Quem não deseja um futuro digno aos filhos?
E Papão (ótimo nome) propõe um negócio de ouro: em vez de jogar o
meliante em um buraco tenebroso (que invenção da gota serena!), devia cobrar
fiança. O cabo reage, bate o pé contra e pede para explicar melhor. E, mais à
frente (não sei se pagando royalties a Zeca), pratica a fiança. Há aqui
a aplicação da lei da compensação: se você não me paga um salário digno, eu
arrumo um jeitinho de me recompensar. Ou não?
O que não faz o amor que se revela tardio? O cabo mergulhou na cachaça e
nas artes; virou escultor. Os três são sempre bons parceiros: paixão, bebida e
artes.
Francisco Dantas constrói uma obra bem-humorada, erudita, digna. Uma
obra universal. O gênero picaresco comemora. Há Cancão de Fogo, Mazzaropi,
Malasarte, João Grilo... E muito mais. Há espaço de sobra para boas
gargalhadas, para a arte da convivência e para a arte paciente da negociação.
Há o linguajar padronizado impecável e o informal (oral) bruto e belo. Consagra
nossas palavras fortes, que o povo simples usa e que não fazem arrodeios. Os
dicionaristas têm que as catar para enriquecer seus léxicos limitados. Estão na
urdidura da trama, como fios de ouro entranhados.
Leiam Cabo Josino Viloso (a Estante Virtual possui vários
exemplares à venda). Leiam a literatura sergipana!
Eu vivo no meio intelectual de Sergipe (academias de letras e encontros
literários) desde 2008, quando publiquei Os Tabaréus do Sítio Saracura.
Nesse tempo todo, ninguém me recomendou a leitura de Cabo Josino Viloso.
Sequer falaram desse pequeno grande livro que, desde esse ano (ou um
pouco depois), esteve na minha fila de livros a ler e foi passado para trás
algumas vezes.
Por que será?
(Antônio Saracura, 26 de março de 2020, em Aracaju, na quarentena do
Coronavírus)
(Nota): Revisão rápida do IA Google.

