A PRINCESA DESASTRADA: O MISTÉRIO DO REI, Maidy Lacerda, com
ilustrações de Renata de Souza, Editora Planeta, São Paulo, 2026, 336 páginas, ISBN
978-85-422-4113-6.
Que magia é essa que faz com que um livro seja lido compulsivamente
por todo mundo, especialmente por pré-adolescentes, mesmo sendo parrudão e tendo
um enredo comum?
Pietra Pinheiro Caetano tem oito anos mal completados, estuda
o 3B no colégio Babylândia, uma escola infantil de Aracaju. Apareceu aqui em
casa com um livro grosso nas mãos, já lido a metade, dizendo que fora emprestado
por uma colega de sala e que havia outras esperando na fila.
Eu comemorei. Finalmente alguém de minha família (ela é minha
neta mais nova) seguia-me os passos.
Três dias depois, Pietra acabou o livro e me contou a história,
ganhando as tradicionais cinco pilas.
Na sequência, “comeu” mais dois da mesma coleção, parrudões
também, emprestados pelas coleguinhas.
Eu fui investigar nas livrarias da cidade e vi que a coleção “Diário
de uma Princesa Desastrada” é sucesso absoluto no Brasil todo, com filas de
espera para os próximos lançamentos.
O quarto tomo, comprado pelos pais como prêmio merecido, após
lido Pietra me emprestou, furando a fila das coleguinhas: “Mas o senhor ande
ligeiro”.
Gastei três dias.
Adorei.
Vivi a luta de Amora, somei-me aos amigos abnegados, especialmente
à princesa Olívia, irmã de Amora, que não vacila em transformar raios
assassinos em bolhinhas de sabão.
Amaldiçoei sapos gosmentos, bruxas malvadas...
Peguei amizade com gnomos, fadas, sereias, elfos, princesas,
reis, rainhas...
Voei em vassouras que transportam no tempo e no espaço, cheirei
flores venenosas e sobrevivi.
O conteúdo alterna textos e gravuras; o palavreado trafega
pelo idioma neologista que os jovens usam, mas eu me sentia jovem também.
O enredo, na forma de diário de uma princesinha chamada
Amora, trata de um reino cercado por outros que o antecederam e foram encantados.
Amora possui poderes sobrenaturais (quase todo mundo aqui tem algum) e busca encontrar
o pai, vítima de bruxas no passado, com a ajuda da irmã Olívia, dos amigos Sadi,
Lila e Sophia, do namoradinho evasivo Skorpio...
Como salvar o pai da prisão onde está sob correntes e feitiço
desde a queda de seu reino?
Como levá-lo a Florentia, onde está sendo procurado como
criminoso condenado?
Como mantê-lo escondido até o Festival Lunar, quando a sua magia
destruirá o poder do vilão maior, possibilitando a ressurreição do reino
apagado?
Após muitas voltas, o grupo rebelde está no Festival Lunar
para cumprir a missão salvadora, para destruir os opressores. A rainha Amora esfrega
as mãos ansiosa. A malvada Persephone nem desconfia da armadilha em que vai
cair com seus seguidores. Ou desconfia?
Chega o momento azado...
E dá zebra.
Os vilões tomam o controle, dominam os guerreiros de Amora. E
o pior! Dominam com o aparente apoio (parece ser) do rei Edrian (pai de Amora),
de Scorpio (seu namoradinho), da rainha Stena (mãe de Amora).
Amora consegue se safar pelas mãos de magias aparentemente inimigas,
é jogada no fundo do mar, acolhida por uma fada amiga-peixe, e mantida escondida.
Um caos!
A última página convida os leitores a aguardar o próximo
livro da série que logo chegará às livrarias, botando tudo em pratos limpos. Ninguém
precisa entrar em desespero. Como o mundo aqui é de fantasia, tudo pode
acontecer, inclusive uma inversão do que aconteceu no Festival Lunar.
A eterna briga entre heróis e vilões, comum ao mundo real
(onde se pode quase nada) também está no fantástico (onde se pode quase tudo).
“O Mistério do Rei”, de Maidy Lacerda, levou-me a “O Senhor
dos Anéis”, de JRR Tolkien, um dos livros mais lidos do mundo. Sem traçar paralelos
literários, digo (li toda a obra de Tolkien com imenso prazer) que os dois podem
ser sofregamente desfrutados por uma criança como Pietra ou por um ancião de mais
de 80, como eu que sou. Então ambos são detentores daquela magia escorregadia que
incessantemente busco para meus livros.
(Aracaju, 30 de junho de 2026, por Antonio FJ Saracura)
