terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A VIDA É UM TREMENDO MISTÉRIO, Daniel Fernandes Reis (Carlos Tadeu)

A VIDA É UM TREMENDO MISTÉRIO, Daniel Fernandes Reis (Carlos Tadeu), J. Andrade, 2001)


O livro custou-me cinco reais, em uma mini feira montada na biblioteca Epifânio Dórea por ocasião de um evento sobre literatura infanto-juvenil em março de 2013. Ufa, que frase comprida! Tão baratinho que resolvi comprar. O preço me fisgou. Acontece às vezes. Por isso, não pratico preços fixos para meus livros. Qualquer oferta, topo na hora, e, com isso, eu ganho um leitor em débito comigo, afinal impôs sua barganha e, lá no seu íntimo, vai procurar retribuir. É a lógica da natureza.  Há uma grande chance de ele ler o livro e, melhor ainda,  ler desarmado. E, depois do livro lido, ele vai achar que deve mais ainda. Pois o livro, ele descobre, vale muito mais do que o escritor inicialmente pediu por ele. Então eu ganho um aliado, alguém que certamente divulgará o livro por aí, bom demais para qualquer autor nessa, talvez, terra impenetrável à sua literatura nativa.


Voltando ao livro de Daniel Fernandes....

Comprei também porque achei que o autor e o livreiro estavam se esforçando para me ganhar. Não seria justo decepcioná-los. Eu tinha o dinheiro e livros sempre me atraíram. Mesmo que fosse um livro ruim, o valor cobrado era tão pequeno, que justificava o investimento apenas pelo papel incorporado ao produto.

Em casa, constatei que o preço nada tem a ver com a qualidade da obra. Assim como o salário pago pouco tem a ver com a operosidade do empregado.
Crônicas singelas e interessantes, tratando de temas variados: Jesus Cristo, de Santa Ana, Lampião, Estância, Marcelino Pão de Vinho, Rosas da Caridade (onde santa Isabel arrasa a soberba de Dom Diniz). 

O autor é um velho guerreiro da imprensa e da leitura.  Escreve sem embromação. Escrita leve mas que conta o que tem a contar.

( Escrita no final de 2013 e publicada na revista Perfil ano 16 número 8)



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A VIDA CHEIA DE VÉUS, Wagner da Silva Ribeiro


A VIDA CHEIA DE VÉUS, Wagner da Silva Ribeiro, Sercore, 2006,136p – Sem isbn

Pensei que Wagner da Silva Ribeiro fosse um homem da cidade, pouco tendo a ver com o mundo rural.  Seu avô Silva Ribeiro e seu pai Silva Ribeiro Filho foram intelectuais de destaque, poetas da cidade. Wagner sempre me pareceu um ateniense ilustre por conta de seus poemas mitológicos que gosto de ler. Mas este seu livro “A Vida Cheia de Véus” trata quase sempre do ambiente rural, seus patriarcas, seus matadores, sua gente esperta. 

Mas há também contos da cidade como o espetacular “Uns olhos Verdes”, uma obra prima, a meu ver. A descrição do fracasso sexual de Dr. Mateus requer dons que só poetas têm. 

Há outro conto que me pegou: “Serviço só requer cuidado”. Imprevisível, inflexível, excelente em todos os aspectos e com um final terrível. Eu gostaria muito de ter escrito esse conto.  

Como não tenho visto o livro nas livrarias, o leitor vai ter que apelar para as bibliotecas Epifânio Dórea ou Clodomir Silva.


 (Perfil ano 17 número 3)

A PENA DE MORTE EM SERGIPE E OUTROS RELATOS DA HISTÓRIA, Pedrinho dos Santos

A PENA DE MORTE EM SERGIPE E OUTROS RELATOS DA HISTÓRIA, Pedrinho dos Santos, 2010,Infographics, 325 páginas, sem isbn


Pedrinho dos Santos é meu professor (de banca) nessa delicada matéria chamada História e sempre me trata com distinção. Até citou “Os Meninos que não Queriam ser Padres” na dedicatória do livro. Ajuda e muito a divulgar meu trabalho literário! Ribeirão (persistente difusor de meus livros e da boa cultura) também ganhou um merecido cantinho no capítulo “Conversando com os Amigos”´. O moleque da rua do Roque hoje é o “caga-palácio” mais itabaianista que eu conheço.

Sempre que acabo e ler um livro registro minhas impressões (algumas impublicáveis). Sobre “A Pena de Morte...” arrisco divulgá-las:


Achei o primeiro capítulo (Pena de Morte em Sergipe) com muita informação junta, pelo menos para o meu pouco preparo. Meio à la Saramago (se bem que mais ameno), não estabelecendo paradas estratégicas (sub-títulos) para o leitor asmático tomar fôlego, descansar um pouco. Mas deu para saborear bem e ainda refestelar-me com as citações picantes bem encaixadas aqui e ali. “Bastava a negrinha mostrar o bico do peito para fora, furando o vestido, para Frederico (personagem do caso) sair salivando como o Cão na Moita (JSL) raivoso, com 69 intenções” (Página 83). Só um exemplo.
Assisti os enforcamentos pelo Brasil desde a colônia e mundo a fora. Conheci José da Natividade Saldanha, um poeta como poucos e que lembra Augusto dos Anjos e Gregório Boca do Inferno. E li escondido “O Corsário”, peça rara do aguerrido Apulcro de Castro, que deveria ser o patrono dos jornalistas intrépidos. Até à Espanha Pedrinho dos Santos me levou, onde fiz um ligeiro estágio com o ladrão madrilenho Luiz Candelas, que caiu na besteira de furtar os aviamentos da costureira da rainha. Depois de preso, não teve choro que o livrasse da forca.
Envolvi-me na revolução em São Leopoldo do Rio Grande do Sul, misturei-me aos fanáticos religiosos (Cristussin) e aos debochados (cheira-batinas e poder legal omisso). Os fanáticos levaram a pior, para variar. Só “padim” Padre Cícero prosperou em semelhantes empreitadas!
Apesar de falar de FORCA (ainda bem que acabaram com essa desgraça), a leitura é agradável e ilustrativa, com destaque para os diálogos (ou monólogos) inteligentes colocados pelo autor na boca de seus personagens, alguns na língua crua do povo matuto, que com a disseminação da televisão, já quase não se escuta mais. Quanta música que têm! Outro ponto alto do livro é a rica e coerente iconografia.
Onde Pedrinho consegue cavar tanto ouro?
(Publicado na Perfil 6 /24)


A PEDRA AZUL, Jorge Luiz Pinheiro Souza


A PEDRA AZUL, Jorge Luiz Pinheiro Souza, Infographics,2011, 111 páginas, Isbn: 978-85-912554-0-5


Sergipe tem muitos poetas. Vejam as gôndolas específicas das livrarias da cidade, as festas de lançamentos que acontecem, a bibliografia de nossos vultos literários do passado, e do presente. Até quem faz prosa tem (ou pode ter) poemas no computador ou em cadernos manuscritos. Somos caçadores de sonhos, mágicos do belo, e encontramos doçura até no amargo sofrimento.

Também somos desprendidos, desapegados do vil metal, pois livro de poesia vende pouco aqui. Até um poeta lúcido e útil como Jeová Santana, sofre o dissabor de ter seus livros devolvidos pelo livreiro, por falta de compradores.
A verdade é que nenhum livro sergipano, seja de prosa ou de versos, vende bem aqui. Parece que os conterrâneos fazem complô para só comprarem “siliconados” americanos, mesmo ruins de amargar. Como quem diz: “se é nosso, nós já conhecemos, para que gastarmos tempo lendo!”
O que há de chique em dizer que leu um livro de Antônio Saracura, de Vladimir Carvalho ou de Robério Santos?
Poucos privilegiados ferem essa indiferença, e graças a eles (também) é que ainda bruxuleia a frágil chama da produção literária. Entre esses poucos estão os fiéis amigos do autor.   
Alberto de Carvalho, emérito poeta falecido em 2002, na introdução de “Leonardo, Benini e Outros Poemas” (1999), questiona se seus poemas melhoraram desde o livro anterior, e esclarece em seguida que “só os meus desejados quinze leitores (é que) avaliarão”.  O vate estaria apenas ironizando o sucesso injustamente limitado de sua obra?

Evito comentar poesia, porque temo ser injusto. Quem vai captar todo o sentido de um simples verso?  Ou o real sentido?  Algumas vezes, nem o próprio autor. Outro dia, na roda de Leitura da biblioteca Epifâneo Dórea (que procuro não perder!), um poeta (que não me recordo se foi Araripe Coutinho, Hunald Alencar, Jozailto Lima, Jonadson ou Jeová Santana - quanta riqueza roda nessa roda!) dizia estar surpreendido pela interpretação que alguém fazia de certo verso seu.  Nem pensara em algo tão profundo ao escrevê-lo. Poesia é como pintura, arte, então. Uma tela pode suscitar emoções diferentes em cada nova pessoa que a olha.
Retornando aos poemas de Jorge Pinheiro...
Peço licença para usar parte de um texto que circulou na Internet, de autoria de Jorge Trindade (que não tive ainda a honra de conhecer pessoalmente) e que pode dar ao meu leitor (ainda tenho?) uma ideia do que seja a poesia do Itabaianense:

“A Pedra Azul” de Jorge Pi é um livro de muitas leituras e estilos. Pode-se lê-lo como quem lê a bíblia, interpretando parábolas e preenchendo os vazios humanos que exigem a “religação”; como quem observa às escondidas os desajeitados modos pueris do aprendiz que procura imitar seu ancestral; como quem acompanha a descrição da vida que passa; como quem se desprende das coisas e salta para a vida com a mesma leveza do desfazer dos “laços”, “soltos”, ouvindo “linda melodia linda”; (...).


(Publicada na Perfil ano 15/07)

A MUDANÇA COMEÇA EM VOCÊ, Domingos Pascoal de Melo



A MUDANÇA COMEÇA EM VOCÊ, Domingos Pascoal de Melo, Infographics, 201 páginas,2011
Isbn: 978-85-907719-1-3



De uma hora para outra, bastou que eu publicasse o meu primeiro livro “Os Tabaréus do Sítio Saracura”, para começar a conhecer muita gente ilustre na cidade, a exemplo de Domingos Pascoal, o que me deu uma imensa satisfação.  Ele vive a literatura. Está em todos os cantos que laboram letras, debatendo ideias com dedicação integral, solícito, cordial, amigo.  Como se fosse o grande e bom gerente da jovem literatura sergipana que, ousada, tenta mais uma vez, colocar a cabeça de fora, querendo ser reconhecida. Comparece aos lançamentos, até em remotos burgos, prestigiando, indistintamente, todos os tecedores de palavras, que também o é.



Conheci-o pessoalmente agora, mas já o sabia imortal da Academia Sergipana de Letras e autor de artigos que me lembravam os mestres Marins, Lair, Içam e Shinyashiki.  A revista Perfil publicava suas crônicas e, por isso, eu achava até que ele fosse itabaianense, já que a revista, pelo seu intestino, parecia-me ser. Sabia também que era autor de um livro intitulado “Experimente Mudar”, que via no mostruário das livrarias da cidade e que compulsara algumas vezes, gretando o conteúdo.  

“A Mudança Começa em Você” é o segundo livro de Domingos Pascoal. A exemplo do primeiro, a que me referi, é composto de lições descomplicadas para se andar melhor nesse vale de lágrimas, sempre se baseando em casos vividos ou estudados em sua vida de palestrante e cientista social. As lições calam sem machucar. Como a do padre (“Podemos colaborar com o Destino”) que morreu trinta anos antes do seu dia marcado porque não quis escutar os recados que Deus lhe mandava. Como a eterna luta dos Perdedores (perder-dores) que são derrotados por qualquer golpe irrelevante; e os Vencedores (Vencer-dores) que, diante das adversidades, permanecem confiantes na vitória.

Albert Einstein (citado na página 19 do livro) diz que a “vida não se comove nem se apieda. Tudo que faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos”.  Para que, então, ficarmos lamentando as pequenas mazelas do dia a dia?  Basta abrirmos os olhos para que as mazelas se transformem em oportunidades de sucesso.

Maria das Graças Monteiro diz na contracapa: “Precisamos encarar a vida positivamente, ser otimistas, falar coisas boas, louvando este dom especial que recebemos de Deus”.

A vida merece e certamente vai nos retribuir adequadamente. 

Os textos de Domingos Pascoal prendem o leitor em suas tramas, e ensinam o jeito certo de pensar e fazer bem feito.
E conseguem!

(Publicado na revista Perfil 2012) 




MAIGRET E A MULHER DO LADRÃO, Georges Simenon,

MAIGRET E A MULHER DO LADRÃO, Georges Simenon, LPM pocket, 2012, 176 páginas, isbn 978-85-254-2560-7



Há personagens que ficam eternamente na nossa memória. Nem precisam ser do bem, ficam como se o fossem, uma grata lembrança. Rememorem Lisbeth Salander da saga Milenium de Stieg Larsson, um destes.

Pode-se esquecer o nome Alfred (Fred), o Triste, neste Maigret e a Mulher do Ladrão, nunca sua imagem de arrombador “honesto”, de princípios justos, que sonha como todos nós sonhamos, e os sonhos dele, também, como os nossos, não passam de sonhos.  Se possuirmos um cofre da marca Planchard, ficaremos satisfeitos em sermos roubados por Alfred. Tudo por conta da poesia e lirismo deste personagem triste. Indelével!


Neste livro, Maigret tem muito mais trabalho em pegar o criminoso. Quase escapa-lhe. Acho até que os dois comprimidos de atropina serviram como artimanha do autor para terminar com dignidade uma história que teimava em desmoralizar Maigret. A equipe da polícia judiciária já sentia pena do chefe e esperava as desculpas esfarrapadas a qualquer momento. Talvez a primeira humilhação na vida do investigador.


O bom em Simenon é que ele entra na alma de seus personagens, e, aqui e acolá, o leitor surpreende-se com trechos impagáveis, desnudando características dissimuladas, como esse trecho abaixo, no qual Maigret reencontra, dez anos depois, uma cliente de suas investigações, prostituta escrachada que tomou juízo e deixou de rodar bolsinha:  "Ele (Maigret) a reconheceu de imediato. Era como se ela não tivesse mudado com os anos na vida. Viu seu longo rosto pálido, as pupilas desbotadas, a boca larga maquiada em excesso, dando a impressão de uma ferida sangrenta. Viu, nos olhos dela, a tranquila ironia dos que viram tanto que nada mais tem importância a seus olhos."

Gostei do livro, como gosto de quase todos simenons que li. São livros curtos, servem de refrigério para o enfado de romances longos ou livros sonolentos, que consomem o juízo mas que temos que ler. Não porque haja ordem expressa externa, mas por uma questão de foro íntimo, de consciência: como não ler um livro da moda, do qual todos falam?

O simpático comissário da Polícia Judiciária de Paris topa desafios, segue pistas perdidas, capta no ar denúncias vagas e mergulha na busca incansável da solução do enigma que muitas vezes nem havia. Apenas ele sente que há. O faro do perdigueiro belga é antológico.

sábado, 23 de janeiro de 2016

VELEIRO DA ESPERANÇA, Gizelda Morais

VELEIRO DA ESPERANÇA, Gizelda Morais, Pontes, 167 páginas, isbn  978-8571-133815


Gizelda Morais parece que cansa ao final de seus livros. Já vi isso em A procura de Jane, quando deixa toda vingança alimentada e todo o objetivo anunciado para trás, acaba abruptamente o romance e a personagem fica entregue a uma vidinha conformada e trivial. Se não me falha a memória. Não tenho mais o livro comigo, li há mais de cinco anos.  
Em Veleiros da Esperança  também. 

Depois de narrar depoimentos sólidos de vários tripulantes e com eles construir uma odisseia náutica desde a Gran Canária (e Dakar no Senegal)  até uma praia remota no Brasil, finaliza o livro com um poema de Fernando Pessoa (de uma beleza extrema) mas que pouco a ver  com a expectativa do leitor carente de aventura. Também o enredo, que vinha azougado... Já perto do final, nas imediações das reminiscências de Javier e nelas, fica um tanto repetitivo. Fatos são renarrados sem agregar nenhuma variável nova, cansando. Senti monotonia, senti a frustração dos projetos abortados.

Até a paixão, ingrediente infalível de qualquer romance (Alberto, “meu lindo praticante de kayboard”) provoca apenas, também para minha surpresa, acordes íntimos de uma canção antiga: “Terezinha de Jesus”. O que tem a ver? E foi pouco explorado, pareceu até um remendo improvisado, a paixão entre Pablito e Alícia, um amor impossível e que provocaria boas lágrimas em leitores mais crus. Eu, mesmo cozinhado em novelas e romances, garanti o meu choro. O cozinhamento apenas me amoleceu mais ainda... Choro até  imaginado lances que nem foram narrados e talvez nem imaginados pelo autor.


Eu queria navegar entre o Delta do Parnaíba e a ilha Gran Canária. Eu e Graciela  (e a autora, por tudo que diz). Morri na praia. O novo Veleiro da Esperança apenas zarpa, não mais que isso. No meu humilde modo de pensar, a autora deveria reservar espaço para a aventura do retorno. E seria um romance acabado, não meio romance. A não ser que tenha escrito outro tratando deste retorno homérico, que não identifiquei na sua bibliografia.