terça-feira, 12 de dezembro de 2017

FOGO DE MONTURO E OUTRAS FUMAÇAS, Vladimir Souza Carvalho



FOGO DE MONTURO E OUTRAS FUMAÇAS, Vladimir Souza Carvalho,
Curitiba, Juruá, 2017, 162p isbn 978.85.362.7183.5



Vladimir Souza Carvalho construiu, a partir de situações corriqueiras, com os contos de “Fogo de Monturo e outras Fumaças”, incontáveis mundos, nos quais o leitor envolve-se, compromete-se, lava as mãos, comemora, lamenta, sorri, manga, briga, excita-se...

Em Realidade de quase todos os Dias (Nem precisa ser para avaliar a dor de uma “ponta”): “Ele (corno consciente) se transformara em uma pilha de nervos que explodiria a qualquer instante, a vontade de destruir a máquina de costura (onde passava o dia) com os dentes, se pudesse, de sair correndo em direção ao quintal do velho descarado (Ricardão) para pegar os dois no flagrante”.

Em Depois da Ordem Recebida (Covarde de raiz, eu iria aos braços de Tomelina pecar): “Apontei o revólver para o meu ouvido direito. Fechei os olhos. Para não ouvir mais Dionélia gritando na minha cara, apertei o gatilho”.

Em A Ordem para o Retorno (Ingredientes muito bem dosados): “Entrei na farra, copo cheio e copo vazio, segurando a moça e beijando também, me soltando, como cachorro vira-lata que nunca viu água.... Foi o que fiz”. 

São contos antológicos e vou nomear mais alguns, correndo o risco de apanhar dos demais: Fogo nas Entranhas, (valei-me Santa Filomena, o coitado de Silveirinha exauriu-se e foi pouco ainda); A Moça do Banco da Praça (eu enchi os olhos de lágrimas); Libertação (juntos por um túmulo). Culpa (dividir o patrimônio uma óva!); A Escolhida (uma serpente no quarto do motel)...

Há contos para todo gosto, são 36. Os picantes são fabulosos, e é a maioria. Fazem vibrar a sensualidade, despertam a essência da matéria, aquela que queima por baixo como fogo de monturo, esperando a vez, você acha que nem há, e explode como um vulcão espalhando lavas santas, incendiando a carne. A pimenta picante queima e exala fumaças que enxaguam os olhos... Tentações abençoadas pela igreja da boa literatura.

Vladimir, com um punhado de palavras, quem mandou ler, morde e não solta nem com o ronco do trovão, explica, induz, conduz, analisa junto, alonga ou encolhe como faz a lagarta andarilha, agonia o leitor que precisa de ar, pode até morrer... Parada abrupta! Já era tempo! Cada palavra tem o poder da bala bem disparada, de mudar o mundo.

O livro Fogo de Monturo e Outras Fumaças pratica a escrita essencial, a prosa fácil e escorreita; são histórias inesquecíveis que você recontará aos amigos pela vida toda.

Sinta-se premiado, se encontrar o livro em alguma livraria. Não tente apagar ali. E não se preocupe com o sufoco da fumaceira. Leve o livro para apagar o fogo em casa, devagarinho. A fumaça perfumará sua vida como um incenso celestial produzido por essências exóticas colhidas nas misteriosas escarpas da cordilheira das serras de Itabaiana.

(Antônio Fj Saracura, das Academias Itabaianense e Sergipana de Letras)..



Fogo de Monturo e outras fumaças (notas preliminares)

O filho e o título

Só Deus sabe o trabalho que é construir um título de um livro (que o ajude a ser mais lido); e dar um nome bom a um filho (que o ajude na vida)!
Os meus títulos começam a nascer nas primeiras tentativas, nas primeira linhas. E até a pia de batismo ou as rotativas das gráficas ainda não os tenho concluído. Houve livros e filhos que foram ao mundo assim mesmo, correndo riscos de os nomes os prejudicarem pela vida.
Eu acho que esse livro de Vladimir poderia ser chamado de “Fogo de Monturo e outros fogos”, em vez de “outras fumaças”. A palavra OUTRO refere-se à primeira parte da alocação e fumaça é apenas uma filha, filha do fogo, mesmo sendo em monturo onde há sempre mais fumaça. Reconheço, entretanto que, no caso especifico, qualquer nome o rebento receber, este será um grande homem ou um grande livro, maior do que o pai (missão perene) ou melhor do que os livros que o pai já publicou (missão aparentemente impossível).

A contra capa

A contra capa de um livro, a parte de trás, é quase tão vista como o título, que fica na frente. Depois da cara, é o traseiro da mulher ou do homem o mais examinado. Ê confirme o agrado inicial ou o questiona, possibilita uma avaliação neutra e mais profunda, desperta a cobiça que até então apenas bocejara.
É a contracapa que dá coragem ao tímido de avançar o sinal, desatar os bloqueios, tentar a posse, e mergulhar sufragando perfumes, deliciando sabores, comungando essências.
Uma bunda (contracapa) chocha pode detonar um bom título (ou uma boa cara).
Vladimir Souza Carvalho já produziu obras antológicas, todas além dessas nuvens por onde tráfego. Mas agora ele foi mais alto com “Fogo de Monturo e outras fumaças”.
Recebi privilégio de ler primeiro, e li como faz o médico com suas engenharias de profundidade. Muni minha mente com a arma crítica, a que encontra defeito em tudo, até nas obras do Criador. Usei meus privilégios (não mandei me darem) e arranquei as roupas da mulher sem nem ligar se eram vestes de rainha ou trastes de mendiga. Naveguei em sua carne visitei cada recanto, saboreei cada gota de suor, cada suspiro, cada jato de vida.
Nem percebi, subi alto demais e agora estou tonto, gaguejo, deu um branco e não consigo escrever a contracapa que o autor me pediu.
Depois dos setenta anos eu não vou perder a mulher linda porque embarguei a voz, temi chegar perto. Falo do qualquer jeito vou me arrastando. Deus me ajude que eu possa escrever uma contra capa digna desse "Fogo de Monturo e outras Fumaças", que seduza os leitores.
 sejam homens ou machos ou fêmeas. E que não precise arrumar contra para publicar.
Fogo de Monturo e outras fumaças (primeira contra capa escrita)
Vladimir Souza Carvalho construiu com esse “Fogo de Monturo e outras Fumaças ” incontáveis mundos, nos quais o leitor envolve-se, toma partido, compromete-se, lava as mãos, comemora, lamenta, sorri, manga, excita-se, briga, satisfaz-se. Cada um deles nasceu de um sorriso, uma dúvida, um sonho, uma moça de branco na praça, um acaso, ou de nada quase.
Em Dúvida, cria momentos de sublimação: “...ela a falar, como se estivesse em uma sala de aula, até, num momento de pausa, o silêncio inesperado, as nossas mãos, no sofá, foram se tocando e se encontrando, voluntariamente, sem que nenhum procurasse evitar o contato, e, propositalmente, como se obedecesse a um roteiro pré-estabelecido, foram se entrelaçando e se apertando”.
Em Realidade de quase todos os Dias, nem precisa ser para avaliar a dor de um chifre: “Ele (corno consciente) se transformara em uma pilha de nervos que explodiria a qualquer instante, a vontade de destruir a máquina de costura (onde passava o dia) com os dentes, se pudesse, de sair correndo em direção ao quintal do velho descarado (Ricardão) para pegar os dois no flagrante”.
Em A Ordem para o Retorno, que minha mãe vira a cara: “Entrei na farra, copo cheio e copo vazio, segurando a moça e beijando também, me soltando, como cachorro vira-lata que nunca viu água de fonte e, nela, pela primeira vez, sai nadando com absoluta segurança que para essas coisas a gente não precisa passar por escola nenhuma, porque já traz a farra no sangue, faltando só oportunidade para, no momento certo, exibir suas virtudes e qualidades”
Em Despois da Ordem Recebida, eu, covarde de raiz, iria aos braços de Tomelina pecar: “Apontei o revólver para o meu ouvido direito. Fechei os olhos. Para não ouvir mais Dionélia gritando na minha cara, apertei o gatilho”.
Do que Ficou... Duro e impiedoso. O marido de Rosimira nem merecia um nome nesse belo conto como não teve.
A Intimação da doutora Juíza... Que juíza mais filha da puta! E o salário no final do mês? Um caminhão de dinheiro.
A vingança da Vida Toda... Como é sábia a paciência! Por que matar logo, se pode matar devagarinho? Basta o assassino saber que está matando, mesmo que a vítima não escute, não possa reagir, preso a uma cadeira em cadeira de rodas.

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Situações que me deixaram dúvida na boneca. Seriam erros?
(informadas ao antes de publicar)


(A Profecia) Precisa dizer no começo algo assim “vão roubar o sol” para justificar a escuridão final (principal fato). O conto apresenta na penúltima linha da página 7: “O céu estava limpo, despovoado de qualquer armação de chuva... (achei meio incoerente com a escuridão).
(Acordo com Rubenilza), “violão desnudo à minha disposição...”, “de seu corpo moreno...”, “de tê-la novamente debaixo de mim...”, soa como repetecos desnecessários. “Com a merda a afundar...” é uma imagem torpe, meio fora do contexto. “Um retorno duradouro” poderia ser dito “um retorno” apenas, ou um retorno condicionado.
(Dúvida), “como se tivesse numa sala de aula”, melhor usar usar o verbo estar (estivesse). Linha 23) há um “al” que deve ser “aí”. “Ouvindo os anjos recitarem o poema de Tobias...”, achei uma forçada de barra para homenagem, que não cabe nessas horas. Ao final, seguindo “Me sentei no sofá, onde tudo começou”, vi no chão, um grampo de cabelo, que poderia ser da arrumadeira da véspera, ou não.
(A morte de Eristina) “Não respondia a nenhum chamar”: Seria chamado?
“... a fim de dormir e descansar. Amanhã todos teriam que ir a polícia falar sobre o ocorrido”: que polícia é essa que não cuida logo? Que Anjeiros é esse que vai dormir e descansar quando há urgências a cuidar?
Há alguns pontos fracos no meu modo de ver, que precisam ser ajeitados. Os gritos de Eristina chamariam os vizinhos não daria tempo a Croveiros se limpar, apagar as pistas. O corpo ser encontrado bem depois, seria uma adequado, mas não foi encontrado logo.
(A vingança da vida longa) Primeira linha da página 37: “o dando banho”. Não seria dando-lhe banho. Acho interessante deixar explicitado o motivo (mesmo fútil) do assassinato de Aniceto da Malhada Velha.
(Minha vizinha de apartamento): “Para eu visse...” página 39 linha 16. Não seria para que eu visse? “cucuas” não seria cucuias? Senti redundância em o medo ou receio de se queixar no último parágrafo da página 37 e em outros pontos. “Murmuros” ´é um neologismo ou dialeto da Terra Vermelha?
(O destino de meu melhor conto) – achei que quebrou o padrão, há repetecos, abordagens impróprias (como se estivessem coladas, serve para a letra não fugir mas impede que mudem de posição. De que cabeça partiria então, Vladimir? Já que você duvida. Matando palavras: não seria empastelando? Há mais... Ou não entendi ou merece uma reescrita.
(A verdade do nu dos retratos) “meu regozijo diário não ser efetuado”, não seria afetado?
(A Escolhida) “Despojados de qualquer roupa” . Simplesmente NUS. Na última linha no penúltimo parágrafo: “Pisado”, seria pisada? “Concluiu que a morte..”, não seria a morta? “Não a ter acertado”, não seria não o ter. Achei uma mordida improvável, ninho embaixo do colchão, do outro lado da terra. Eu botaria o ninho embaixo da cama, botaria a mulher de bruços, com o braço caído no lado cego da cama, e, lá na mão, junto ao chão, um brinco que caíra, e a mordida da cobra.
(O final de tudo): “perdiz nenhuma se mexia”, não seria: naquele mato havia perdiz? “ou porque não soubessem ou porque não tivessem”, o sujeito é ninguém, não seriam soubesse e tivesse? Bem feito, bom demais.
(Decepção) “saúda-lo”, não seria saudá-lo? “que impregnava os dois”, não seria impregnavam? O sujeito é afagos. Esses dois impregnar juntos causa certo enjoo.
(Culpa) “alto..” por alto... // Eu terminaria assim; Do televisor ligado no quarto veio uma palavra que o intrigou. Correu ouvir de perto. O noticiarista falava de um crime acontecido numa ruela do Rio de Janeiro e de uma fita gravada por uma câmara espiã da prefeitura.
(Ava Gardner) 4.parágrafo “caladas” por calada. Último parágrafo “puderam mais” por puderam ser mais... // Eu terminaria assim: Uma chave ficou em sua mão, percebeu depois. Viera da mão do pai certamente. Uma chave com o número de uma caixa postal da agência dos Correios de Itabaiana.
(Audiência com o impetrante) quarto parágrafo: “alguma em denegar a segurança...” pouco usado este verbo.
(O encontro da separação), última página e último parágrafo: Depois de alguns minutos de silêncio...” Tanto tempo assim? O que aconteceu com o mundo, parou?
(Os outros) “o mal que julga as pessoas sem conhece-las”. Não entendi.
(O Hóspede), Só se justificava o assassinado se o hóspede tivesse tido antes um quebra-pau com ambos, ameaçando-os de não retornar mais nunca. Não se mata assim a toa. Será?
(O meu rosto velho) penúltimo parágrafo: “morreu há e tantos anos”, MORREU HÁ TANTOS... // “da fazendo à cidade”, seria da fazenda... // “nem sei o que dor...”, seria: nem sei o que é .../// Achei último parágrafo inverossímil, sempre há um espelho no banheiro. Poderia terminar: acordando com a empregada batendo à porta do quarto ou um despertador desesperando tocando na cabeceira da cama. Sei lá.
(A notícia): eu não conheço a palavra “patagualdas”. Na página 83 último parágrafo, infantil. Eu diria: Nem esperei que Farrapeira me aparecer com as fotos. Comprei passagem para o interior.
(libertação) há um “ela” na página 94 quarto parágrafo que eu acho que “ele amara”.
(Meu Conceito de seu Genauro ) “soltar o verbo” é sinônimo de xingar, e está sendo usado como apenas contar.

(A moça do branco da praça) O último parágrafo é óbvio demais, não chega a derrubar o conto que é muito bom, mas dá uma pequena balançada. Melhor sem ele.
(No velório de meu filho) na última página, Na oitava linha, há um Lidimo, quando deveria ser Lidmino. Despois de “no ombro do outro”, precisa dizer que todo mundo chorou, para poder na frase seguinte, excluir os mortos.
(Depois da ordem recebida) na quarta linha há um “viva” que me parecer que seja vivia. Não concordo com o fim, trágico, maltrata. Não perderia Tomelina por dinheiro nenhum e os leitores bateriam palmas para mim. Menos os sádicos.


(Aracaju, setembro de 2017, Antônio Saracura)

sábado, 9 de dezembro de 2017

UMA HISTÓRIA DO POVO DE SERGIPE, Antônio Risério,

UMA HISTÓRIA DO POVO DE SERGIPE, Antônio Risério, Editora; Seplan, 2010, Páginas: 612, Isbn 978-85-63493-00-2


Há mais de um ano, eu estava (às vezes vou como penetra) na sessão da Academia Sergipana de Letras, na tradicional reunião das segunda-feira à tarde. Luiz Antônio Barreto, um dos ilustres e imortais da casa, falava sobre um livro que recebera de alguém do Palácio do Governo. E estava indignado, como se o livro fosse um livro criminoso, desonrasse a historiografia sergipana. Anderson Nascimento (o presidente) e meia dúzia de acadêmicos que é o máximo que aparece por lá toda segunda, ergueram-se nas cadeiras como seu tivessem sido atingidos por um ferrão. Isso quando Luiz Antônio leu um trecho do livro: ”Para uma tentativa de compreensão mais aberta, real e profunda da alma e da vida da gente da Cotinguiba, o Xangô e a Taieira têm muito mais a dizer do que a Academia Sergipana de Letras, em que pese a importância da obra individual de meia dúzia de seus membros”.

Tentei pegar emprestado, mas Luiz não concordou. O livro fora escrito por alguém da Bahia (nunca diziam o nome) e mando da Secretária de Planejamento, dirigida por Maria Luiza de Oliveira Falcon. 

Custara uma pequena fortuna.

O livro sumiu de todo canto, até das conversas. Mas eu o guardei na memória e sempre mantive a esperança de um dia o ler. Circulou um zum-zum-zum alguns meses depois de que o governador Marcelo Deda havia recolhido os exemplares em poder de intelectuais e de bibliotecas, e o mandara queimar.

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Em dezembro de 2012, eu estava na casa de Euclides Oliveira, um jornalista e intelectual lagartense que me dá muito valor, quando ele mostrou-me o tal livro, havia comprado em um sebo da cidade por cinco reais. Folhei-o rapidamente, era um calhamaço, e aqui e acolá havia um carimbo redondo rasurado, indicando o nome ilegível de uma biblioteca (talvez Biblioteca Municipal professora Maia Helena Reis de Moura), de onde fora roubado e passado ao Sebo.

Euclides emprestou-mo e acabei de ler em janeiro de 2013. Devolvi e, tempo depois, quis o livro de volta, havia sumido da biblioteca do intelectual papa-jaca.

Não sou historiador, não pertenço a elite universitária, mas vou arriscar um julgamento (como leitor):
É um livro útil e bom. Congrega os principais fatos que aconteceram na formação de nosso Estado e de nosso povo, desde às origens mais remotas aos dias atuais. O autor (como promete na introdução) serve-se do que foi produzido por nossos historiadores e cronistas (Anderson Nascimento, Felte Bezerra, Maria Thétis Nunes, Clodomir Silva, Terezinha Oliva, Darcy Ribeiro, Silvio Romero e muitos outros) para contar a história do povo de Sergipe.

Gostaria de ter esse livro na minha biblioteca.

Ele divulga eventos da nossa história e revela heróis dos quais nunca ouvira falar. Detalha situações engrandecedoras e outras até vexatórias (a célebre retirada das 12 léguas). A maneira de tratar as citações faz com o livro se transforme numa boa leitura, quase um romance, sem perder o embasamento histórico necessário. Acho.

Agora, lendo o texto citado por Luiz Antônio naquela tarde na Academia Sergipana de Letras (Nota do Autor, página 26 e 27), não acho motivo para tanta indignação. Na oportunidade, eu e todos que estávamos na sala reagimos pelo efeito dominó, como se o livro fosse um desrespeito à Academia sagrada, contaminados pela revolta do insigne intelectual LAB.

Por que recolheram (queimaram?) um livro desses?

Transcrevo a seguir trechos que mereceram sublinhamento na leitura (que me perdoe o dono, Euclides Oliveira; quem mandou me emprestar?):

(Página 52): “Diz Alfredo Metraux (sobre os tupinambás), em “A Religião dos Tupinambás”, que eles lambiam até a gordura que escorria pelos varais. Mulheres ficavam com a genitália assada do sujeito. Crianças eram levadas a embeber as mãos no sangue. E, para os bebês, também participarem da festa (antropofágica), mulheres molharam de sangue os bicos dos peitos, dando-lhe de mamar”. (...) “Os Tupinambás não comiam a pessoa, mas a condição de inimigo, incorporavam o incorporal (Viveiros de Castro, em Os Deuses Canibais).”.

(Página 58): Os tupinambás gostam do envolvimento carnal com indivíduos do mesmo sexo. Homossexuais chegavam a abrir casas públicas ao longo dos caminhos mais frequentados pelos guerreiros, a fim de recebê-los em seus braços (o autor).

(Página 127): “Os paulistas com toda a disposição desbravadora e guerreira de seus bandeirantes, nunca deram a mínima importância para o fato de que grande parte do Brasil caíra sob o controle batavo, para permanecer nessa situação por nada menos de duas décadas e meia. Enquanto os luso brasileiros guerreavam no nordeste, os bandeirantes só pensavam em assaltar missões para prear índios” (o autor).

(Página 186): “ Maria Thétis Nunes ... entre esses mestiços estavam personagens semilendários da história de Sergipe, como Simão Dias, o francês, que, fugindo à chegada dos holandeses e desobedecendo às ordens de Bagnuolo de retirar-se para a Bahia, refugiou-se, com seus rebanhos nas matas de Itabaiana, onde daria origem a povoação que ainda hoje leva o seu nome “. (cita outros).

(Página 216): Jean de Léry registrou também o hábito indígena de comer de arremesso, com relação à farinha. “Os Tupinambás, tanto os homens como as mulheres, acostumados desde a infância a comê-la seca em lugar do pão, tomam-na com os quatro dedos na vasilha de barro ou em qualquer outro recipiente e a atiram, mesmo de longe, com tal destreza na boca que não perdem um só farelo.”

(Página 227) :O crescimento dos algodoais na Cotinguiba, como em Itabaiana, deve ser visto como um reflexo da Revolução Industrial.”

(Página 341): Soneto e Gregório de Matos (boca do inferno) viu assim da cidade de São Cristóvão, capital da província. Pra que esconder?

“Três dúzias de casebres remendados,
Seis becos de mentrastos entupidos
Quinze soldados rotos e despidos
Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados
Um juiz com bigodes sem ouvidos
Três presos de piolhos carcomidos
Por comer dois meirinhos esfaimados.

 As damas com sapatos de baeta
Palmilha de tamanca como frade
Saia de chita, cintura de raqueta.

O feijão que só faz ventosidade
Farinha de pipoca, pão de greta
De Sergipe Del Rei esta é a cidade.”

(Página 408): ”Como se não bastasse, a província foi atingida em cheio, por volta de 1855, por uma epidemia de cólera. Uma epidemia arrasadora, matando milhares e milhares de pessoas. Muitas delas nas plantações.”

(Página 556): “Por não ter Sergipe se beneficiado da política de industrialização do Nordeste (por que teria sido?). Dos 642 projetos industriais aprovados pela Sudene no período de 1960 a 1968, num total de investimento global de Cr$3.424.866.320,00, Sergipe foi beneficiado com 14 projetos apenas, num montante de Cr$50.714.000,00, ou seja, pouco mais de 1%. (citando Maria da Glória).”

(Resenha escrita em janeiro de 2013).

Nota de 18 de junho de 2017:

Encontrei o livro de novo com Ana Medina, acadêmica, agora tenho uma cópia xerox em casa. Vou ler com calma oportunamente e tentar achar o motivo da condenação da obra pela nossa intelectualidade. E quem sabe redimir-me por essa crônica apressada. 

ITABAIANA DE MINHA INFÂNCIA, vários

ITABAIANA DE MINHA INFÂNCIA, vários, Infographics, 2017, 21 cm, 194 páginas, isbn 978-85-9476-118-7

(À título de apresentação)


Conhece-se uma pessoa ou um povo pela escrita que produziu, seja ela qual for: desenhos, sons, textos, sinais, esculturas, utensílios, referências...
Nada saberíamos de João Canário, se Carvalho Deda em Brefaias e Burundangas do Folclore Sergipano, e se Gilberto Amado em História de Minha Infância, não tivessem dedicado algumas linhas, falando dele, que era um trovador preto e cego tocador de ganzá de feira em feira e filho de Itabaiana: “João Canário de Oliveira, pau que amarga e flor que cheira”. Também nada dos silvícolas que desceram das faldas dos Andes no alto Peru e povoaram com suas aldeias as matas verdes do que hoje é o Brasil.... Dos Sumérios, de Ciro, de Aníbal, de Alexandre, de Cesar, de Davi... Dos povos que vivem nos planetas, vencendo caminhos, navegando mares, varando céus.

Luzes acendidas lá no começo permitem-nos, agora, enxergar o passado, como nossos ancestrais viveram: os sonhos, as ilusões, a epopeia.

Um pequeno grupo de escritores reuniu-se aqui no pé da Serra, no começo de 2013, e instalou a Academia Itabaiandense de Letras, imitando os helenos da antiguidade.

Agora, nós, esses gregos ceboleiros estão deixando aqui, para a humanidade, memórias de infância, parte delas. Testemunhos da pequena na aldeia tupinambá de Itabaiana e de seus curumins abismados. Textos singelos que poderão mudar o mundo. Nós acendemos luzes sobre história de nosso povo e da humanidade, que jamais se apagarão.

Temos certeza de que os contemporâneos desfrutarão com prazer, pois a memória também é deles. Os descendentes, com admiração e os historiadores, com gratidão científica.

O livro “Itabaiana de minha infância” já está nas livrarias. Não perca a oportunidade de conhecer o que escrevem vinte e cinco acadêmicos, uma amostra a seguir:

ANTÔNIO SAMARONE DE SANTANA
Minha infância

LUIZ CARLOS ANDRADE
O Presente que Papai Noel não trouxe
Lava-pés
Micareta de Itabaiana

JOSÉ AUGUSTO MACHADO BALDOCK
Nasci em 05 de abril

MANOEL MESSIAS PEIXOTO
Não pus a correia e levei correadas

ANTÔNIO FRANCISCO DE JESUS SARACURA
O portal mágico

JORGE LUIZ PINHEIRO SOUZA (PI)
Quem tem...?!
‘Treno’-treme: tremendão!
Religare ceboleiro

JOSEVANDA OLIVEIRA MENDONÇA FRANCO.
O cheiro da minha terra
A itabaiana que conheci pelos olhos de menina da minha mãe

MANOEL AELSON GOIS
A molecada da rua do Sol
O Beco Novo num dia de gala.

INEZ RESENDE DE JESUS
Memórias do meu paraíso

MARIA NEIDE SOBRAL
Filha da Terra
Coisas da terra: lembranças da casa de farinha
Procissão de Santo Antônio: festa sacra e/ou profana

JOSÉ RIVADÁLVIO LIMA
Lembranças da minha infância e juventude

ROBÉRIO BARRETO SANTOS
Memórias de uma Itabaiana já madura

JOSÉ LUCIANO GÓIS DE OLIVEIRA
O melhor lugar da saudade é a memória

ANTÔNIA AMOROSA DE MENEZES
Entre a serra e o céu

JOSÉ MARCONDES DE JESUS
A pentatonia da praça da matriz

PATRÍCIA VERÔNICA N. CARVALHO S. DE SOUZA
Breves episódios da minha infância em Itabaiana

RÔMULO DE OLIVEIRA SILVA
Cheiros E Sabores: Breves Lembranças De Uma Infância!

ANDERSON DA SILVA ALMEIDA
Popó da tuba e a astúcia ceboleira
Lembranças de um quebra-pote ou o herói ao avesso

VLADIMIR SOUZA CARVALHO
Rua do Sol
O natal, a feirinha, as lembranças
Do sítio e da saudade
Meu pai e o domingo
Evocações do tempo do cuspe
Das brincadeiras, o efeito

IEDA TAVARES SILVEIRA
Da prof.ª Bebé para o Atheneuzinho

JOSÉ DE ALMEIDA BISPO
Minha primeira visão da cidade de Itabaiana

NEUSA VIEIRA LIMA STEINBACH
Boa noite, Seu Vieira!
O motivo
Tempos do amanhecer
“Rainha” Massu
Eu não vi as luzes, Seu Miguel!
Equilíbrio

TEREZA CRISTINA PINHEIRO SOUZA
O dia do meu nascimento
Quando ganhei irmãos
Lembranças da minha primeira infância

LUCIANO CORREIA
Um olhar de fora sobre a loba Itabaiana Grande

Então?
O livro custa apenas 20,00 e pode ser pedido no wsap 79 999883700 com Saracura. Se for de fora de Aracaju tem mais 8,00 para os correios, postagem normal.


(Antônio Saracura, Aracaju 09 de dezembro de 2017) 

O POVO DAS ÁGUAS, Ron Perlim



O POVO DAS ÁGUAS, Ron Perlim (Ronaldo Pereira Lima), Penalux, Guaratinguetá, 2017, 70 páginas, 21 cm, isbn 978.85.5833.243.9


Mandei agora um wsap a Ron Perlim, não pude esperar:


“Seu livro é muito bom! Parabéns! Acabei de ler. Bom enredo, boa mensagem. Estou gratificado. Um livro útil e que vai, espero, ser eterno. Ganhar prêmios.”

Ron Perlim é autor de outros pequenos grandes livros, destaque especial para “Laura” que lhe deu prêmio melhor livro infantil (Alina Paim) em 2010 pela Secult de Sergipe. Fui apresentado ao autor nas oficinas gráficas da Segrase, que imprimia os livros premiados. Ganhei, no mesmo concurso, o prêmio de melhor livro de crônicas (Mário Cabral) com o livro “Minha Querida Aracaju Aflita”, fez tanto sucesso que acabou logo a tiragem de 1.700 exemplares. Desde então, venho tentando que a Segrase/Edise faça uma segunda edição, mas minhas cartas se perdem na burocracia.

Ron é servidor  público, mora na cidade de Cedro de São João. Anda, quando pode, como eu, pelas feiras literárias e bienais, onde o tenho encontrado sempre acompanhado da esposa solidária e também professora, Marcléa Rocha, inseparável. Ambos me soam um autor apenas.

Este é o quarto livro dele, pelas minhas contas. Gostei de cara da capa, mostra uma névoa azul onde desponta uma coroa alta boiando num rio escurecido. Enchi-me de mistérios a desvendar. E entrei no âmago da obra, logo que pude.

O Povo das Águas tem o gosto das fábulas e o cheiro de aventuras inevitáveis.
Um simples pescador ribeirinho (chamado Cíbar) é abordado por um ente do rio, a Mãe D’água, que o convoca a participar de uma reunião na Pedra do Meio, no fundo do São Francisco, para tratar de um grave problema: O rio está à morte. Cíbar sabe muito do drama do rio e, apenas por isso, aceita a convocação.

Na grande reunião, estão criaturas lendárias que povoaram os medos de Cíbar, desde a infância de seus ancestrais: Nego d’água, Zumbi-de-Caboclo, Fogo Corredor, Alma Penada e outros, além de Cumurupim que emergiu das profundezas para comandar o Conselho.

Clima pesado, sinal vermelho, alto risco!

O Rio São Francisco precisa ser salvo, e não cabe demora. Os homens usam, abusam, prometem, conversam e não cuidam dele. O governo central libera caminhões de dinheiro, que nem saem de Brasília e, quando saem, somem no caminho. Os entes do Rio precisam de um embaixador, um humano que possa cuidar de seus interesses junto ao Poder Político dos humanos para que o dinheiro seja aplicado realmente.

Cíbar mal sabe ler, pouco fala, reluta, mas recebe garantias de apoio, todos os entes estarão cuidando para que a missão tenha sucesso, questão de vida ou morte. .

O prefeito da cidade tripudia da loucura do embaixador, o deputado gasta seu tempo arrodeado de puxa sacos rindo de ditos sem graça e deixa Cíbar gelando na recepção. Quando o recebe nem escuta, simula outros focos, e manda-o ao ministro. O ministro expulsa Cíbar debaixo de impropérios, tem mais o que fazer do que ouvir um lunático.

O Conselho das Águas, através de seus entes, especialmente de Alma Penada, começa a agir coercitivamente. O prefeito recebe a visita de seu filho querido que falecera anos atrás. O ministro, à noite, em casa, dormindo, quase estrangula a própria esposa. No dia seguinte, ao negar receber Cibar que insistia em sua missão de salvar o Rio, teve a boca entortada, um dos olhos saltado da órbita e outro lacrado.

Mas as autoridades resistem, mesmo assim. Prometem, mas esquecem, não cumprem. A pressão do Conselho das Águas se intensifica. E toma uma decisão extrema. Se a revitalização do Rio não vem por bem, virá por mal.

Iati, rainha poderosa, secou suas lágrimas. O povo ribeirinho viu seu rio seco, viu a vida se acabar, muitos foram embora para outro lugar. O governo mandou prender Cibar, ameaçou-o, achou que ele era o responsável por tamanha desgraça. Mas a situação da região piorou muito mais. Os projetos de irrigação estrangeiros fecharam, a pressão ganhou fóruns mundiais.

Encurralado, o governo ouviu Cibar e tratou o Rio que se fazia de morto. Executou obras para o desassoreamento das croas, retirou dejetos humanos de cada pedacinho, desviou os esgotos para usinas de tratamento, plantou árvores, encheu o deserto de verde... E as lágrimas de Iati caíram pródigas, cada vez mais.

O povo começou, mesmo desconfiado, a retornar para suas antigas casas, os pescadores voltaram a pescar, até a Igreja Católica festejou com uma procissão fluvial de Bom Jesus dos Navegantes.
O Conselho das Águas comemorou com grande estilo essa vitória suada. Fogo Corredor fez uma exibição com suas bolas de fogo. Foi celebrado o casamento da Raposa: chuva e sol apareceram a um só tempo enquanto o arco-íris firmou-se no céu, de norte a sul, desde a nascente à foz do São Francisco, agora mais vivo do que nunca.

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O Povo das Águas é um livro que encanta, desde o curumim das escolas primárias ao pajé das universidades. Desde o caboclo de poucas letras ao intelectual cheio de sabedorias. Acho que deveria ser adotado como leitura obrigatória para todo mundo.


(Aracaju, 09 de dezembro de 2017, Antônio Saracura) 

sábado, 2 de setembro de 2017

JOÃOZINHO RETRATISTA - O MESTRE DA FOTOGRAFIA –,Robério Santos

JOÃOZINHO RETRATISTA -  O MESTRE DA FOTOGRAFIA –,Robério Santos, 2011, Infographics, 96p. : Il. ; 10 x 15 cm,isnb: 978-85-911918-1-9



Quando Carlos Mendonça lançou o livro “Chico de Miguel” – junho de 2011 - conversei com Robério Santos sobre a brilhante sacada do conterrâneo. O livro era muito bom para todo mundo. Desde a família, os intelectuais, os historiadores, os estudiosos, os conterrâneos os eleitores de Chico, até os eleitores do outro partido pois teriam curiosidade em saber o que fizera um tabaréu da Várzea do Gama, bodegueiro, tocador de roça em São Paulo, boiadeiro, transformar-se em um dos mais influentes políticos de Sergipe. Graças a Deus que aparecera Carlos Mendonça para preencher esta lacuna pois Chico de Miguel já se fora há quase cinco anos e enveredava para o injusto esquecimento.


Constatamos, na ocasião, que Itabaiana é pródiga em pessoas importantes e que não mereceram mais do que uma linha ou outra dentro da rica bibliografia gerada pela literatura. Haja vista Euclides Paes Mendonça, Manoel Teles, Zeca Mesquita, Chico do Cantagalo, Joãozinho Retratista, Sebrão Sobrinho, Alberto de Carvalho, Oviedo Teixeira (há um opúsculo), Mamede Paes Mendonça, Noel Barbosa (outro opúsculo), Pedro Paes Mendonça, Zé Bezerra do circo... e muitos outros. E vimos que era evidente a urgência em produzirmos, senão compêndios parrudos, singelos opúsculos (igual ao produzido sobre Monsenhor Daltro por Claudefranklin Monteiro, de Lagarto) eternizando nossos ícones. Trabalhos que poderiam sair a muitas mãos, em uma somação de esforço e saber. Bastava alguém assumir a coordenação.

E na recente Bienal de Itabaiana – outubro de 2011 - Robério Santos surpreendeu-me lançando o livro “Joãozinho Retratista – o mestre da Fotografia”. E contou-me, na oportunidade (será que entendi direito?), que está desenvolvendo pesquisas visando publicar três outros: Zé Bezerra (o homem do circo), Zeca Mesquita (o visionário empreendedor) e o terceiro, que preferiu não nomear o herói.
Acabo de ler o Joãozinho Retratista, de que já conhecia trechos divulgados previamente na Internet (facebook “Itabaiana Grande”, by Robério) e na espetacular revista “Omnia” (by Robério também), e achei-o (o livro) um documento de fundamental importância para nossa terra. Tocaram-me especialmente a Parte 3 (O Legado), quando o autor funde-se ao personagem, e o artigo (incluído como um texto complementar), “Benjamim Francisco Brandão: Fotógrafo”, da professora Maria Nely Santos.
Esperamos que Robério retorne logo do Egito para o nosso maior bem, pois seu verdadeiro Oriente Médio é aqui mesmo à sombra da serra.

(por Antônio Saracura, Aracaju, dezembro de 2011
            (publicada na Perfil 15/01)


domingo, 6 de agosto de 2017

A SERRA E O SONHO, Ivanildo Sampaio

A SERRA E O SONHO, Ivanildo Sampaio, Fundação Pedro Paes Mendonça, Recife,2017,148 páginas, ilustradas, isbn 978-85-5829-010-4



De cara, gostei da ficha catalográfica, rica em palavras chaves o que permitirá ao mundo acessar o livro caso busque temas inerentes ao texto. Meus livros têm fichas pobres demais e o google não os mostra ao mundo ansioso em conhecer temas que enfoco. Rosa Maria, uma leitora de Salvador, reclama de minhas fichas pobres, ela foi, a vida inteira, bibliotecária, então sabe o poder da peça aparentemente inofensiva de uma obra literária.

Soube que João Carlos Paes Mendonça (que não o conhece no Brasil?) lançara um livro sobre sua obra social na Serra do Machado. O lançamento fora no Recife, e houve outro na sequência, para um grupo fechado de empresários, no hall de algum castelo medieval de Aracaju. Fiquei frustrado porque o lançamento já havia acontecido, nem pude mexer meus fracos pauzinhos para me imiscuir em um deles.

Mas veio-me a informação fresca, via Ribeiro, que me supre de notícias literárias, de que o livro seria lançado no Lar dona Conceição, em Serra do Machado, um povoado de Ribeirópolis, na noite daquele dia. Já era o finzinho da tarde, sem chance de viajar de topic para Ribeirópolis, especialmente ,porque não teria retorno, as topics rodam até as vinte horas.

Eu queria ler o livro por vários motivos.

Ribeiro, amigão que ganhei por causa de meus livros, como político em campanha, prometeu-me arrumar um exemplar, usaria a influência de sua irmã Miriam, assessora para todos os assuntos de Albano Franco. E era certeza que Albano estaria nesse evento, como estivera nos anteriores.

Entre os vários motivos citado acima, preciso explicitar um:

Em 1965, eu estava em Aracaju no maior sufoco: desempregado, sem dinheiro, comendo uma vez por dia na casa de minha irmã, dormindo de favor em uma rede num quarto de vila, indo ao Atheneu à pé desde à rua Dom Quirino. Já pensava em retornar ao sítio de onde saíra sete anos antes. Jogaria fora toda minha sabedoria escolar obtida no seminário. Sabedoria que não me servia agora para nada: não conseguia um emprego, uma ocupação que me rendesse qualquer vintém. Meses tentando e nada, além das experiências desastrosas como vendedor de bíblias, de pratos, de enciclopédias, que só renderam mais dívidas, que jamais pagaria.

Apenas aos sábados e domingo pela manhã, ajudava meu pai na grade de cereais do mercado, de quem recebia alguns tostões suficientes para o pão com manteiga na mercearia defronte à vila, pela manhã, até o meio da semana.

Era um final de tarde de nenhuma freguesia, o mercado estava perto de fechar, meu pai me pegou pelo braço e levou-me ao armazém de Pedro Paes Mendonça, no mesmo bloco do mercadão.

Pedro olhou-me e disse que não tinha vaga, mas botou a mão no meu ombro e me levou para perto da mesinha onde estavam muitos papeis arrumados. Pegou o telefone e discou um número. Depois, me disse: Segunda-feira às sete horas, vá à loja de Mamede, aqui na rua da Frente. Diga que é o filho de Zé de Pepedo Saracura.

Foi meu primeiro emprego digno com carteira assinada e o recomeço de uma vida que talvez desmoronasse sem ele.

Sempre acompanhei os Paes Mendonça com respeito. Fiz compras nas lojas deles, se havia nas cidades por onde morei.

Logo que retornei à Aracaju, depois de uma epopeia que daria um romance, isso nos anos de 1980, visitei o Lar Dona Conceição com minha família. Encantei-me. Quando publiquei livros, fui à Serra do Machado, e os doei à biblioteca do Lar. Tentei fazer uma reserva para minha velhice. A gerente avisou-me que somente velhinhos nascidos nos povoados entorno: Esteios, Fazendinha, Serrinha e João Ferreira, além da própria Serra, poderiam morar ali. Paciência!

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Uma tarde na Academia Sergipana de Letras, Miriam Ribeiro me entregou o livro prometido pelo irmão.

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O capitalismo convive bem com o social e pode, porque dispõe de recursos, promover vida digna ao povo. O projeto dos Paes Mendonça na serra do Machado é um grão de areia nessa praia de penúria que é o Brasil. Mas é um exemplo a seguir, um trabalho do capital privado que dignifica um povo.

A Serra e o Sonho (nome do livro ao qual venho me referindo) faz justiça à Pedro Paes Mendonça e à seus filhos, liderados por João Carlos.

O livro está segmentado em capítulos:
1  
     Os Caminhos Percorridos - No princípio não havia mesmo quase nada em comparação ao que hoje há. Pedro conseguiu, através do pequeno comércio, e da ousadia, vencer na vida. Sempre carregava a ideia de um dia poder ajudar esse povo que era seu. Bodegas, armazéns, supermercados. Ribeirópolis, Itabaiana, Aracaju. O filho, João Carlos, desbravou novos mundos, expandiu os negócios, criou um conglomerado estável. A Serra do Machado então ganhou o Lar dona Conceição, para acolher os velhinhos longevos da região. Era só o começo. A igreja mandou vir de Portugal experientes profissionais, que deixaram marcas indeléveis no coração do Lar e na comunidade. Izaias Oliveira, capitão de mar e guerra, segurando os trancos, olhos e mãos do empresário que corria mundo crescendo cada vez mais. Novas janelas para a comunidade são plantadas: Pintando o sete (contadores de histórias aos pequeninos), Orquestra Filarmônica, Grupo de Teatro, Grupo de Balé...

     Isso são coisas da Serra – Um conjunto habitacional e o governo de Sergipe (Albano Franco) chega solidário: a comunidade pôde morar melhor. Vem a cooperativa de artesanato, uma galeria comercial no núcleo urbano, que cresce a cada dia; uma rodovia asfaltada liga agora Serra às cidades próximas, às rodovias federais. Nasce a escola São Sebastião, vêm os ônibus para levar alunos às faculdades  da capital e de Itabaiana. Quadras de esporte, escola de informática, nova igreja matriz, clinica média, posto policial, uma capela em louvor a São Bento Meni no povoado Serrinha. A Estrela pousa na Serra do Machado, dando empregos aos jovens que agora podem ficar em sua terra.

     Vieram, viram e gostaram – Sergipe começa a prestar atenção à obra da Serra. O Brasil e o mundo vêm visitar a obra de João Carlos. Pessoas comuns (como eu), empresários, religiosos, políticos. O sucesso contamina também outros capitalistas que devem estar pensando em fazer algo semelhante. Deveriam! Esperar pelo governo é tempo perdido. Temos que fazer nós mesmos.

   Homenagem mais que justa - João Carlos Paes Mendonça representa o pai, Pedro, nascido na pobreza, mas um homem sábio. Criou os filhos com rigor, com a amor: “Vocês têm de mim tudo que quiserem , só não têm direito de jogar fora o que estou lhes dando”. Maria, Ester, Cecinha, Maria do Carmo, João Carlos, José Américo, Eduardo, Reginaldo e Joseilde. Uma família emprenhada em ganhar dinheiro, em usá-lo bem.


5   O futuro é agora e tudo precisa ser louvado - O grupo JCPM tem sede em Recife. João Carlos é o presidente da fundação Pedro Paes Mendonça e do Grupo. Shoppings centers, imóveis em cidades pelo Brasil, vinícula em Portugal, jornal e rádio em Pernambuco... João é casado com Maria Auxiliadora há 50 anos e tem uma prole que reza pela mesma cartilha do pai e do avô.
    
P   Por uma vida longa – Capitulo final, bem curtinho... Todo o clã, até os pequeninos (dois netos), está preocupados com os mais carentes e decidido a fazer o que for possível para dar-lhes dignidade.

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Este é um livro que deveria estar em cada biblioteca (até as mais simples de escolas de bairro), ele mostra que há bons caminhos demais a serem seguidos. E que o Brasil é um País de oportunidades. Um empurrãozinho, como a obra de Serra do Machado ou como o livro de Ivanildo Sampaio, que teve a honra de contar essa obra, vêm sempre em boa hora.

Que outros empresários sigam o exemplo destes Paes Mendonça, e que o grupo JCPM cada dia fique mais forte.


(Aracaju, em 01 de agosto de 2017)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

PARADOXOS EM VERSOS, Maria Neide Sobral

PARADOXOS EM VERSOS, Maria Neide Sobral, Criação,138 páginas, 2016, isbn 978-85-8413-089-4


Senti uma sensação agradável.

Outro filho de Terra Vermelha, um ermo povoado que nem arruado possui revelar-se escritor e orgulhar-se de seu rincão! Lá onde a enxada é a caneta, e a malhada, o caderno de escola!
Dois tabaréus, dois saracuras dos brejos, rasgaram os cânones, plantaram palavras em vez de mandioca. Jogaram a enxada para cima e apararam uma pena cheia de magia. Ah! se nosso avô visse isso! Levaríamos uma boa pisa.


Se escrever é loucura, não o sou só, mais. Se cantar Terra Vermelha é um exagero, somos dois exagerados, agora.

Minha conterrânea chama-se Neide Sobral, e acaba de lançar um livro de poesias, chamado “Paradoxos em Versos”. Ela já é famosa na Europa, no mundo todo. É doutora da universidade e publicou, anteriormente, trabalhos técnicos que encantaram a academia.





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Um livro publicado, para mim, é uma catarse, um grito de libertação. Correntes partidas são arreadas aos pés e pisadas. É um alívio, o autor sai flutuando puro no ar, é como uma confissão bem feita...

“Paradoxos em Versos” é a própria autora em todas as suas dimensões. Cada poema, um pedaço de sua alma. Segredos íntimos circulam nas páginas, trocam confidências, arrancam as máscaras uns dos outros e saem a gargalhar. Mangam do pejo incabível, do ridículo natural e salutar. Há alma, há sangue. Há o corpo nu de mulher, do homem implícito, há o animal que somos. Há a família, os agrupamentos sociais, a maldita solidão que ninguém consegue escorraçar definitivamente, e nem deve: ela é quem nos ajuda a descobrir-nos.

“Agarro-me a mim mesma, na escuridão, / sôfrega vontade de nada ver. / A cegueira parece-me solução, / na solidão que faz doer”. (...) (Sangria)

“ (...) Às vezes a travessia é perigosa / mas sem ela, como saber? / Em Deus e em nós há tantos segredos, / tornando a vida uma aventura inesgotável. / Ás vezes precisamos calar nossos egos, /acalmar nossos desejos a força. / Conter nossas mentes dos juízos de valor, / para encontrar a serenidade em campos minados. (...)” (Travessia)

 “Ah! Quantas dúvidas. / Que poderei eu ter para oferecer-te?? / Palavra falada? / Canto aprisionado? / Pedaço de uma história? // Desenhei um pedaço de mim. / Olhei, olhei, e que estranho! / Sem cor, sem vida, apático, inerte...” (Amiga)

“É tão bom ver a lua, / tão clara, serena e nua. / É tão bom ver a gente: / sensíveis, ternos e ardentes, / Ver a gente olhando a lua, / serena e carente, / eu e você simplesmente”. (Simples assim).
 E, por fim, para ser ainda mais explícita, a poeta inventaria-se e ao seu labor de escrever poesia:

“Contei tantos pedaços de minha história...! / pedaços de mim em desdobraduras tantas / Paradoxos do que sinto, em entranças, em versos, reversos, adversos / descortinei-me em palco sem luzes / em meio a tantas sombras (...) / Afoguei-me , enfim, ao fim, na espera inevitável, /do outro leitor que por empatia, simpatia e até antipatia / visualize o ser do ser que sou, nesses versos em paradoxos.” (Fim de Conversa...).

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Palavras claras, sem subterfúgios. Ideias transparentes sem enigmas. Jogo sem cartas escondidas. Eu acho que a boa poesia não precisa dessas muletas.

Tomara que mais escritores revelem-se: filhos da Terra Vermelha de Itabaiana, filhos de outros povoados, de outros municípios, de outros Estados... Temos tantas histórias bonitas para contar em meu povoado, que dois apenas, jamais darão conta. No seu também! Por que temer, se o Index foi varrido por Paulo VI em 1966 e os inquisitores do Santo Ofício já deveriam ter-se aposentado?

(Antônio Saracura, Aracaju 22/11/2016)