segunda-feira, 4 de março de 2019

ÁGUA BRANCA HISTÓRIA E MEMÓRIA, Edvaldo Araújo Feitosa


ÁGUA BRANCA HISTÓRIA E MEMÓRIA, Edvaldo Araújo Feitosa, Edufal (Editora da Universidade Federal de Alagoas), 2014, 153 p. :Il, Isbn 9 788571 778412

Bom seria se cada município tivesse o seu biógrafo. Um pelo menos. Filho de sangue ou adotivo, que recolhesse a memória do povo e dos documentos e desse-lhes corpo em um livro que jamais se perderia.

Como fez e faz Edvaldo Feitosa em Água Branca das Alagoas.

Conheci Edvaldo no que se chamou Primeira Bienal do Livro de Paulo Afonso, na qual não houve leitores, apenas autores de livros. Iniciei o escambo como saída para manhãs e tardes de pura monotonia. Ele, como eu e cerca de quarenta escritores, trocamos livro por livro, divulgando nossa literatura com o que havia à mão. Plantamos nossas sementes em nosso próprio quintal. Depois, na Bienal de Alagoas, voltei a encontrar Edvaldo, lançando outro livro de História, não sei se sobre Água Branca ou sobre Delmiro Gouveia, que são lugares onde transita. É que Edvaldo era um destaque no stand de lançamentos da Universidade de Alagoas, cercado de ilustres, solicitado por fãs, e eu, apenas, o cumprimentei de longe, pelas gretas entre as pessoas. Por sorte, escutei, em um discurso pronunciado, acho que pelo reitor da Ufal, referências à obra ovacionada.
   
Sobre os meus livros, os que entreguei aos escritores por conta do escambo, até hoje, nenhuma ressonância houve que chegasse aos meus ouvidos.

 Quanto aos livros que recebi, li as poesias, os contos, as histórias de gente e de lugares. Os demais, 
levei-os à gelatecas (geladeiras usadas, transformadas em pontos de distribuição ou troca de livros) de ou à escolas públicas. Livro é como sangue, têm que circular ou talha, dá gangrena. Faço isso até com os livros que leio e não tenho onde guardar na minha minúscula biblioteca. Retenho apenas os que me amarraram de tal forma, que eu teria que ir também junto.  

Água Branca História e Memória fala da terra, uma zona amena do sertão do são franciscano. Fala das famílias que habitam o lugar, desde os remotos tempos, sua genealogia. Fala da política com seus mandatários; da igreja com seus vigários, do povo atual na sua luta do dia à dia para fazer ali um bom lugar de se viver.

(Aracaju, 17 de dez de 2014. Recuperada dos alfarrábios em marco de 2019)

domingo, 3 de março de 2019

ABSOLVO E CONDENO, Gizelda Morais


ABSOLVO E CONDENO, Gizelda Morais, Editora Vertente (2000),Isbn: 85-86345-73-3






Um juiz de Vara de Família encontra na vida uma mulher muito mais jovem e se envolve até a raiz do cabelo.  Sobe ao Céu, redescobre sentimentos que já haviam morrido, há muito, nele. O íntimo do magistrado entra em convulsão. Dúvidas estraçalham seu discernimento. Os conflitos se intensificam com a família original. Desencontros, tramas, tráfico, emails desviados, Brasil, Japão, polícia, escamoteios, prisão, duplos personagens. Uma filha demonstra-se a grande amiga nessa encruzilhada, ajudando o pai a recuperar a paz que a idade requer.



Li dois livros distintos dentro de Absolvo e Condeno.

O primeiro (Entre as Próprias Paredes) é monótono. Estive a ponto de abandonar a leitura algumas vezes. As ruminações do doutor João não me cativaram absolutamente. Foram 136 páginas de sofrimento, porque eu não podia parar a leitura. Afinal, era um livro de Gizelda Morais, a grande intelectual sergipana.

O segundo livro (Entre as Paredes do Mundo) é eletrizante, impossível parar de ler. Excelente pique
narrativo mantido o tempo todo, deixando o leitor agoniado, querendo sempre ler mais, saber mais um pouco. Nenhuma palavra fora do lugar, nenhum fato desencaixado. Até resolve incoerências que o primeiro livro deixou plantada, como no caso do email solitário de Akiko reclamando da falta de notícias.

Depois de concluída leitura do livro inteiro, fiquei considerando se não deveria reler o primeiro. Poderia ter sido culpa minha. Meu santo podia ter me abandonado naquelas 136 páginas. Nenhum escritor abriria mão de cativar o leitor logo no início de um livro. Ou melhor, no início no meio ou no fim, em toda trama. Mas muito mais no começo, que é a hora de cativar o leitor. De que serve um final espetacular se nenhum leitor o alcança?

Mas não reli o primeiro livro. Preferi guardar a impressão sombria. De qualquer jeito, eu não o abandonei. Mesmo sofrendo o clima de deserto, avancei e alcancei o oásis.

Mesmo estando dentro do segundo livro, o que elogiei, o finalzinho (o fecho da história) pareceu-me mediano. Bastava que o autor desse a notícia de que o equívoco fora esclarecido. Gastaram-se páginas e trama para trazer um homem para nada.

Achei o título inadequado ao romance, poderia se chamar A Última Paixão. Do mesmo jeito que Ibiradiô poderia se chamar Guerra injusta. E a Procura de Jane, O Retorno de Jane.

Mas título de livro é um de meus traumas. Como sofro para achar os meus!

(Aracaju, 13 de julho de 2014. Recuperada em 03 de março de 2019. Antônio FJ Saracura)


A VINGANÇA DE WINNETOU, Karl May


A VINGANÇA DE WINNETOU, Karl May, Editora; Vila Rica, sbn: 85-7344-493-2



José Augusto Viana, o Gustinho de meu romance “Meninos que não Queriam ser Padres” (está em muitas passagens), ex-colega de seminário, mandou-me o livro de São Paulo, achou acidentalmente na estante escondida de uma livraria. Calculou que eu iria gostar muito de rever meus heróis juvenis, "Mão de Ferro" (Old Shatterhand), devido as suas habilidades com os punhos e que narra suas próprias aventuras, e "Mão de Fogo" (Old Firehand), devido as habilidades no manejo das armas, que ele sabia pelo meu entusiasmo ao narrar aventuras espetaculares nos oitões proibidos do seminário.
E gostei mesmo!


Bastou eu abrir o pacote (uma surpresa não anunciada) e retirei de minha frente, Cadernos de Ruminações, de Francisco J. C. Dantas. Também afastei a um lado os poemas de Jeová Santana e de José Ronaldson, que havia trazido da última Roda de Leitura da biblioteca Epifânio Dórea. Depois, se Deus me der folga, retornarei aos meus ídolos tupiniquins, aos clássicos da boa literatura produzida aqui.

A Vingança de Winnetou é um pequeno romance, juvenil, arrebatador. A exemplo de toda bibliografia de Karl May.

Quem já leu esse alemão que varou o mundo em pensamento: Pelo Kurdistão Bravio, Winnetou, Através do Deserto, e muitos outros? 75 milhões de livros somente na Alemanha, foi traduzido para quase 100 países, onde vendeu 200 milhões de livros. Os seus romances incendiaram a juventude dos anos 60. Escreveu mais de 75 livros. No Brasil a editora Globo traduziu 30 livros.

Montei no meu cavalo xucro e retornei às pradarias do oeste americano. Enchi os olhos de lágrimas, emocionado. Subi serras, cavalguei campos sem fim em boa companhia. Fiz justiça, matei índios sanguinários e caras pálidas mau-caráter. Ri das estratégias inventadas nos momentos críticos, quando, aparentemente, tudo estava perdido. Sangue frio, serenidade. Se a morte parece inevitável, tem-se mesmo é que relaxar. E se não tiver jeito, “precipitar-se na eternidade com um sorriso nos lábios”:

- Já fez as pazes com Deus?
- Por que pergunta isso, coiote?
- Porque chegou a sua hora.
- Mas não me recordo de haver brigado com Ele! Não vejo porque então tenha que fazer as pazes.

É uma pena que os livros de Karl May, como também de Júlio Verne, Emílio Salgari, Edgar Wallace, Alexandre Dumas, Mark Twain, Jack London, entre muitos outros. não estejam mais, facilmente, disponíveis. Sumiram das livrarias e até das bibliotecas. Eles me formaram leitor para a vida toda, totalmente enfeitiçado pelas aventuras e amores puros. Eram livros fáceis de ler, de entender. Divertidos, emocionantes, instigantes. Quem se batia com um deles, certamente se transformaria em um leitor contumaz.

Hoje, entretanto, a maior parte dos livros que nos cercam são complicados. Mesmo os escritos em nossa língua exigem dicionário para serem entendidos. Ou cursos preparatórios de filosofia, de medicina, de psicologia, de uma ciência qualquer dominada pela elite metida. As histórias contadas são enigmáticas, sejam em romances, em contos, em crônicas, e especialmente, nos poemas. Poucos falam de nosso povo, de nossos costumes, de nossa terra, da simplicidade das nossas coisas. Os autores talvez pensem alto demais. Achem que falar da gente é descer ao barbarismo.

Deve ser por isso que as estatísticas registram cada vez menos leitores de livros entre a juventude. Quem vai deglutir tanto sabedoria acadêmica? Tanta aparente baboseira? Quem vai se arriscar a uma travessia tão sombria?

Gostei muito de rever meus heróis do tempo de menino. Obrigado Gustinho, José Augusto Viana, lagartenses intelectual, que assumiu o Estado de São Paulo como sua terra, Santo Amaro como sua casa, e o “Curintha” como sua religião pagã cheia de deuses bons de bola.

(Aracaju, 13/07/2014, Antônio Francisco de Jesus. Recuperada dos alfarrábios em 03 de marco de 2019).

A VIDA GLORIOSA DE CASTRO ALVES, Américo Palha,



A VIDA GLORIOSA DE CASTRO ALVES, Américo Palha, coleção Enciclopédia Histórica: volume 05


Direto da biblioteca de Euclides Oliveira, a exemplo de outros livros que tenho lido.
Euclides é um amigo irmão que ganhei por conta de Os Tabaréus do Sítio Saracura, nos idos de 2008 ou 2009. Havia um recado na caixa postal (Ribeirão replicava quando me via) para que eu passasse em um casa, e informava um endereço fácil de achar, na rua São Cristóvão, na subida da ladeira, no centro da cidade.  Relutei, ameacei ir, mas temia nem sei o quê. Assim, passaram-se meses, até que, ao subir, um dia, a rua, vi duas pessoas conversando à porta da dita casa. Havia uma vaga de estacionamento em frente. Nem fui eu quem parou, o carro tomou-me o controle e encostou. Então começamos uma amizade que jamais se acabará.


Euclides é um homem erudito, cheio de memórias, contador de histórias. Manteve colunas políticas no Jornal da Bahia por mais de trinta anos, possui livros de crônicas espetaculares à publicar, e um publicado, que se chama, Garimpando Lembranças. Lê compulsivamente e mantem uma pequena biblioteca que é ouro puro, da qual cato pepitas para me reconfortar.   

A Vida Gloriosa de Castro Alves é um livro destinado ao público juvenil, que ainda o sou, apesar quase setenta que tenho. Faz abordagem ufanista dos principais fatos na vida do poeta baiano que, morto aos 24 anos apenas, deixou, entre outros, o livro, Espumas Flutuantes, que deveria estar em cada escola, em casa lar.

Enriqueço essa resenha com um texto de autoria de Elaine Barbosa de Souza, Graduada em Letras (Português e Inglês pela FMU (2002, denominado: biografia, obras e estilo literário: 

“Antônio Frederico de Castro Alves foi um importante poeta brasileiro do século XIX. Nasceu na cidade de Curralinho (Bahia) em 14 de março de 1847. No período em que viveu (1847-1871), ainda existia a escravidão no Brasil. O jovem baiano, simpático e gentil, apesar de possuir gosto sofisticado para roupas e de levar uma vida relativamente confortável, foi capaz de compreender as dificuldades dos negros escravizados. Manifestou toda sua sensibilidade escrevendo versos de protesto contra a situação a qual os negros eram submetidos. Esse seu estilo contestador o tornou conhecido como o “Poeta dos Escravos”. Aos 21 anos de idade, mostrou toda sua coragem ao recitar, durante uma comemoração cívica, o “Navio Negreiro”. A contragosto, os fazendeiros ouviram-no clamar versos que denunciavam os maus tratos aos quais os negros eram submetidos. Além da poesia de caráter social, este grande escritor também escreveu versos lírico-amorosos, seguindo o estilo de Vítor Hugo. Pode-se dizer que Castro Alves foi um poeta de transição entre o Romantismo e o Parnasianismo. Castro Alves morreu ainda jovem, antes mesmo de terminar o curso de Direito que iniciara, pois, vinha sofrendo de tuberculose desde os seus 16 anos. Apesar de ter vivido tão pouco, este notável escritor deixou livros e poemas significativos. É considerado um dos grandes nomes da terceira geração do Romantismo brasileiro: Espumas Flutuantes, 1870; - A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876; - Os Escravos, 1883; - Hinos do Equador, em edição de suas Obras Completas (1921); - Navio Negreiro, 1869; - Tragédia no lar; Gonzaga ou a Revolução de Minas (teatro, 1875).”

Xxx

O seu mais conhecido poema, “Navios Negreiros”, foi um dos primeiros que decorei e que declamei, ainda no seminário. Não sou de decorar nada, nem de reter na memória o que não seja essencial ao meu dia-a-dia. Mas algumas estrofes de Navios Negreiros teimam em se manter vivas na minha mente.
Li o livro em uma hora e chorei de emoção aqui e ali. Tocam-me o entusiasmo das pessoas pelas causas humanitárias.
O livro aborda, se bem que de maneira breve, o embate com Tobias Barreto, condoreiro como ele também.

Permitam-me reproduzir a visão do próprio Castro Alves sobre o conflito com Tobias em (http://www.projetomemoria.art.br/CastroAlves/memorias/memorias_amor.html:

“Durante algum tempo, aliás, minha sina foi entrar em conflito com Tobias. Começamos como amigos - temos inclusive poesias dedicadas um ao outro; passamos a colegas, tornamo-nos rivais e acabamos inimigos. Intrigas pessoais e literárias. O Tobias era feio, velho, escrevia mal e declamava pior ainda. Nos recitativos ficava nervoso, tinha um jeito desastrado, não controlava a voz. Já eu, que possuía domínio cênico, entrava vestido de negro, com uma flor na lapela, óleo nos cabelos, madeixas minuciosamente espontâneas e pó-de-arroz no rosto, para parecer mais pálido. Por modéstia, não direi que frequentemente as moças ficavam tão próximas do delírio quanto os rapazes, da inveja. Mas nem depois de morto eu descansei do Tobias: um historiador literário, Sílvio Romero, sergipano como o poeta, resolveu promovê-lo postumamente às minhas custas, afirmando a superioridade do conterrâneo sobre mim. Até hoje, todos só se lembram de Barreto por isso, naturalmente para discordar de Romero (aqui, sou o primeiro da fila)”.

(Aracaju, 20 de maio de 2013, Antônio FJ Saracura; resenha recuperada dos alfarrábios em 03 de fevereiro de 2019).


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

ROVERANDOM, J.R.R. Tolkien


ROVERANDOM, J.R.R. Tolkien, 2013, Martins, Fontes, 2 edição, isbn 778-85-7827-776-5



Terceiro livro de Tolkien que leio. Nem bem este é de Tolkien, assim como Silmarillion também não era. Quero dizer: livro concluído ou publicado pelo autor. Tolkien deixou rascunhos a torto e a direito e a família herdeira, que não é boba, após a morte dele, passou a organizar e publicar novos livros.
Em Roverandom (que Tolkien deixou praticamente pronto) não aparecem Michael ou Christhopher, os filhos líderes que organizaram Silmarillion. O trabalho de criar mais uma fábrica de dólares coube a Christina Scull e Wayne Hammond. O que não falta no mundo é especialista em Tolkein, capaz até de produzir um romance "autêntico" sem consultar rascunhos ou rabiscos, que não foi o caso dos dois livros citados.


Rover é um cãozinho que deu azar de atacar o mago Artaxerxes, que passava pela rua, e sofreu as consequências. O mago queria apenas pegar a bola que escapou das patas do cãozinho para devolvê-la na forma de um pedaço de carne ou de um osso. Mas a boa intenção não foi percebida e o cãozinho mordeu a perna do mago, rasgando a perna da calça. O Mago jogou-lhe um feitiço e Rover foi transformado num brinquedo, um bibelot de mesa, um totó, com movimentos restritos demais. “Conseguia se mover só um pouquinho, mesmo estando escondido e sem ninguém vendo.”

Daí à uma loja de brinquedos foi um nada. Uma senhora comprou logo no primeiro dia de vitrine e o deu de presente a um filho, o segundo.
O menino vai passear na praia e, correndo com o irmão, deixa cair do bolso, na areia que afunda, o cãozinho que tentava fugir mesmo. O cãozinho vibra, ganhou a liberdade. Mas, a seguir, chora de tristeza, não havia ninguém na praia a não ser as gaivotas e montes enormes de área solta.

Então, esbarra com outro mago, o feiticeiro Psamatos, aquele que vive sob a areia, mostrando apenas um gravetinho, que é exatamente a ponta de uma de suas longas orelhas. Psamatos tenta retirar a magia e devolver o tamanho natural ao cãozinho, mas não consegue. Artaxerxes, dessa vez, exagerou na porção aplicada.

E Psamatos manda o cãozinho ao mundo da lua nas costas da gaivota, Mew, onde fica sob a guarda do homem-da-lua, para esquecer a desdita por um tempo. E mais tarde, o envia ao fundo do mar, nas costas da baleia branca, Uin, em busca do mago que reduziu o pobrezinho àquela insignificância.

Em um e outro mundo, o cãozinho vive uma grande aventura, que demora anos e anos, um livro inteiro, não apenas um livro infantil, mas um romance de fantasia que adulto ler com gosto.

No mar, a última etapa, encontra o mago Artaxerxes, que desfruta mordomia por ter casado com uma das muitas filhas do Rei do Mar, uma sereia. Rover pede ao mago oque lhe retire o feitiço, implora. Mas Artexerxes é quase um vice-rei e enrola o cãozinho, nega-se desfazer a magia, alega estar ocupado, irritado, sem vontade.

Até o dia em que Roverandom morde o rabo da serpente marinha e provoca um cataclismo. A culpa cai sobre Artaxerxes que deveria aplicar magia e controlar a ira da serpente.

Depois que a serpente quase acaba com o fundo do mar, Artaxerxes fica desacreditado. O povo marinho clama e o rei expulsa-o. O mago arruma sua trouxa, queima os excedentes, joga no quintal da casa o que não consegue queimar. Isso provocará uma desgraça sem tamanho mais tarde. Roverandom mete-se na comitiva em fuga. Outra vez, a baleia Uin, que os trouxera ao fundo do mar tempos atrás, deixa-os em terra firme, agora.

Sem poder e sem equipamentos, Artaxerxes aceita reverter a magia. Mas precisa de uma varinha que não sabe onde socou, ou melhor, julga tê-la jogado no quintal quando foi desaguado pelo Rei do Mar.
A varinha apareceu nas mãos da esposa de Artaxerxes, que recolheu e guardou, para si, alguns souvenirs.

Roverandom volta e ser um cão de tamanho normal. E retorna à casa de sua dona original. Coincidência: ela é a avó do menino que perdeu o presente (o cãozinho reduzido) na areia da praia. Final feliz.

(Aracaju, 26 de fevereiro de 2019, Antônio FJ Saracura)

Obs: A palavra Rover quer dizer, explorador. Random – errante, a esmo, ao acaso.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

AGRIDOCE MELAÇO DE CANA E JABUTICABAS MADURAS


AGRIDOCE MELAÇO DE CANA E JABUTICABAS MADURAS, Aderbal Bastos Barroso, São Paulo, Scortecci, 2018,111 páginas, isbn 978-85-366-5692-2




Aderbal é o presidente da Academia e artes e letras de Neópolis, nascido em Carrapicho, hoje Santana do São Francisco. Autor de dois livros interessantes, No Remanso do Rio (que li e gostei muito, fala de famílias, de propriedades, de costumes do povo da beirada do Rio)  e que possui um subtítulo instigante: “por onde andei com meus antepassados, da fazenda Carrapicho à Lagoa Funda, passando pelo Curral das Pedras.  E de outro livro, À Sombra dos Oitizeiros, que não li mas do qual ouvi falar bem.  
Agora, está nas livrarias, um livro de poesia, e eu nem sabia que Aderbal era poeta também, além de historiador e memorialista.  


A prefaciadora, Vera Duarte, ilustre do Cabo Verde, do além mar, escreve que “a poesia de Aderbal canta, de forma insofismável, o amor entre um homem e uma mulher com recurso aos elementos da natureza. O amor como substantivo concreto que aquece os enamorados ao anoitecer, o prazer que exalta os corpos dos amantes no calor da paixão, a volúpia do desejo, o pecado do prazer, a liturgia da entrega que se cumpre em êxtase e transe, a libido que se extravasa na visão febril do corpo idolatrado. Mas também um amor amordaçado, estilhaçado, que traz soluções e lágrimas e se devora no seu próprio veneno”.
O próprio autor confessa, na apresentação (que ele chama de prólogo ou prefácio também) que selecionou os poemas em 2003 e, por falta de ousadia, por receio em desnudar-se, despir-se, apenas agora os publica (2018). 
É que as jabuticabas amadureceram e, antes que os passarinhos do céu viessem chupar todas, ele nos convida ao sítio para saboreá-las. Sem medo e sem reservas, conforme garante. Sem medo mais de nada.
Vi o livro lá num cantinho da Escariz passei-lhe a vista como faço com todos que chegam. Gostei da arte da capa (jabuticabas virgens, tentadoras), do título (sabores terra que me fazem um bem danado), da fluidez dos poemas (único alvo para cada tiro certo). São poemas curtinhos, alguns com o sabor agridoce da jabuticaba madura mas tendo sempre a mulher como pano de fundo ou sem pano nenhum que é o trem mais espetacular criado por Deus.
Claro que não percebi (devido a mim mesmo, pois a poesia ronda em volta e teima em fugir do meu alcance) o sabor, o teor, e a melodia de todos os poemas de Aderbal. Mas em um livro de 90 poemas, se apenas 4 encantam o leitor, já valeu a pena os vinte e cinco reais que custou e o tempo que ficou lendo.
Permitam-me citar, a seguir, um dos quatro (houve mais), este da página 29 e chamado: Paixões Clandestinas:

Amar você
É vencer todos os riscos
É permanecer no ar, e sempre em equilíbrio,
Ao atravessar assustadores abismos.

Amar você
É sobreviver a todas as avalanches
É resistir, mesmo sem ser herói,
A inúmeras tempestades.  

Amar você
É reescrever o destino
É despertar os deuses que adormecidos
Velam os amores clandestinos.

   Aracaju, 25 de fevereiro de 2019, Antônio FJ Saracura
     

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O HOBBIT, JRR Tolkien


O HOBBIT, JRR Tolkien,2013, Martins Fontes, São Paulo,8 edição, tradução Lenita Maria Rimoli, 300 páginas, isbn 9788578 277314


Um livro que vendeu 100 milhões de exemplares no mundo inteiro e, óbvio, deve ter sido lido tanto quanto, não posso pular. É o sexto mais comercializado entre todos.


Até me admiro ter ficado tanto tempo longe dele e dos outros de Tolkien, todos muito lidos. Apenas na Bienal do livro de São Paulo (2018), tomei a decisão de ler tudo de Tolkien, e digo o porquê na resenha do livro Silmillarion (o primeiro que li), já publicada aqui em Sobre Livros Lidos.

Os hobbits são criaturas humanas especiais, criadas (recriadas) por Tolkien. Pequenas, no máximo 1,30 de altura, e têm, em geral, cabelos castanhos e encaracolados, pés grandes e peludos, como os de coelhos. Moram isoladamente, sem querer envolver-se com outras criaturas, como humanos comuns, anões, elfos. Mas aceitam envolvimento. São "conservadores", não gostam de máquinas, preferem trabalho manual. Comem bem e primam pelo conforto. São pacíficos, até quando podem. Vivem cerca 100 anos.

Bilbo Bolseiro é um hobbit, o principal personagem das aventuras narradas neste livro, que o designa. Sem querer, induzido, envolvido, enrolado por Gandalf (que toca sua campanhia e manda os anões fazerem o mesmo), um mago conhecido, larga a toca, o conforto (e que mordomia!) e se mete em uma aventura maluca que demora 300 páginas, nem sei bem quanto tempo, uma eternidade. Atravessa a terra inteira pela superfície, pelo céu, pelas profundezas, enfrentando imensos perigos. Uma epopeia, com o objetivo de recuperar a fortuna usurpada de um rico rei anão (os mineiros de barbas longas), desde há mais de cem anos atrás. As lendas dizem que o tesouro encontra-se em cavernas cavadas na Montanha Solitária, guardado por Smaug, um dragão terrível (dragões adoram tesouros), que dizimou, no passado, todo o povo dos anões para se apossar dele.

A pequena caravana comandada por Thorin Escudo de Carvalho, herdeiro da coroa do reino da Montanha Solitária, parte em busca do improvável sonho.

Há chances?

Mesmo que o roube como trazer de volta?

O grupo é composto por treze anões (em um dom Quixote), um mago (Gandalf) e pelo hobbit, Bilbo Bolseiro (um Sancho Pança), contratado como ladrão de tesouro. Bilbo não entende porque o mago o meteu nessa. E os anões também não. Veem-no como um estorvo até.

E começa a caravana aventurosa.

Logo encontram o primeiro entrave. Três trolls (monstros comedores de gente), que quase os come assados na fogueira. O mago que escapara, provoca uma balbúrdia entre os trolls e os enrola até o sol nascer. Trolls sob raios de sol viram pedra. Os caravaneiros buscam um local seguro para se recuperarem da noite perdida. Acham a toca dos troll cheia de potes de ouro e espadas lendárias, roubados de outros saqueadores.

Depois de se armarem, esconderem os potes, descansam um pouco e seguem em frente. Matas, campos abertos, pântanos. Chegam ao limite do Ermo, ao vale secreto da Valfenda. Encontram os primeiros Elfos e são bem recebidos. Comida boa e o hobbit quer ficar ali mais tempo, mas os anões têm pressa.
A marcha recomeça, e chegam à última Casa Amiga, onde habita Elrond. Descansam, enchem os alforjes e tocam em frente, na direção das Montanhas Sombrias.

Picadas sem fim até os vales profundos. Picos, veredas estreitas, despenhadeiros. Bilpo, em patamar junto ao céu, olha pra trás e sente um calafrio. Lá ao longe, depois das curvas no horizonte, deve estar sua toca confortável de onde jamais deveria ter saído.

Escorregões, chuva intensa, noite fria chegando... Acham um local protegido, caverna quentinha, com chão batido, ótima para dormir e até acomodar os poneys... O mago Gandalf estranha tanta sorte, acende o cajado, corre os quatro cantos e cede ao cansaço. Todos conversam, fumam, soprando anéis de fumaça. Bilbo sente o mesmo conforto de sua já saudosa toca. Agarram no sono. Bilbo tem pesadelos terríveis com o piso da caverna se abrindo e os engolindo. Acorda assustado e ainda vê (de verdade) os rabos dos poneys sumindo num buraco imenso que se abriu no chão. Orcs (criaturas infernais de Morgot, guerreiros sanguinários) agarram-nos (menos Gandalf, que sumira) e os conduzem, sob pancadas, às profundezas da terra. Um labirindo de túneis escuros, corredores laterais tenebrosos. Chegam à sala do trono e o Grão-orc está enfezado, manda castigar um a um, precisa saber quem são os invasores. Indignado com Thorin, descendente dos reis que castigaram, no passado, o Grão-orc, pula do trono e vem matá-lo. Gandalf, sai do nada, e, com seu poder mágico, apaga as luzes e a grande fogueira que arde no salão. E brande a espada cintilante, Glandring;  mata o Grão-orc. Os orcs se batem uns aos outros desorientados, enlouquecidos. Gandalf desamarra os companheiros e os puxa escada acima, ainda com as mãos atadas por correntes. Os orcs, refeitos, zoam subindo atrás, vingativos, ferozes. Na corrida, Bilbo, o último da fila, cai dos ombros de Dori (um anão caridoso), resvala em um declive, bate a cabeça e desmaia; fica abandonado. Ao acordar, ver-se só no silêncio escuro do fundo da terra, perdido. Se gritar os orcs o comerão. Tateia daqui e dali e bate a mão em um pequeno objeto. É um anel perdido. Coloca-o no bolso. Busca os amigos sumidos. Extenuado, sente sob os pés, água. Parece um pequeno lago. E é. Ali habita, clandestino, Gollum, viscoso, nojento comedor de orcs meninos, já enjoado do gosto. E vem comer Bilbo, que se safa, por enquanto, com o jogo das advinhas. Gollum perde e tem que mostrar a saída a Bilpo, mas resolve, mesmo perdendo, comer a visita oportuna. Mas Bilbo tem uma espada afiada. Gollum não quer correr risco e vai buscar o anel mágico que o deixará invisível. Começa a se lamuriar; o anel sumiu. Bilbo conhece o poder do anel e o coloca no dedo. Gollum vem, matreiro, pegar Bilbo e não o vê. Sobe o labirinto de cavernas, supõe que Bilbo já subiu e o pegará no caminho.  Mas Bilbo, invisível, segue-o manhoso.  

Bilbo passa por Gollum, pela porta vigiada por Orcs, e escapa. Aproveita o dia claro e anda em frente. Por sorte ou azar encontra os amigos lamentando o sujmiço do amitgo e a perda dos mantimentos e dos poneys. Já é começo da noite, todos partem para o mais longe possível dos orcs. Mais á frente, em uma clareira na mata, são cercados por uma matilha de lobos gigantes, os wargs. Sobem nas árvores como último recurso. 

Gandalf usa de mágica e joga fogo na pelagem espessa dos animais, provocando confusão. O fogo pega na folhagem ajuntada aos pés das árvores pelos wargs e quase alcança os nossos fugitivos. Nisso, os orcs chegam, eles sobem em árvores e são aliados dos lobos. 

Águias gigantes veem o fogo fora de época e resgatam os quinze aventureiros, leva-os,  pelo céu, até o grande Patamar, no final das Montanhas Sombrias, onde os orcs ou os lobos poderiam achá-los.

Bilbo mata a insaciável fome, todos descansam. A viagem prossegue, pelo céu, até perto das terras de Beorn, o senhor das abelhas. Boa hospitalidade boas informações de como atravessar a Floresta das Trevas, longe dali, ainda. Novos poneys (emprestados por um trecho) e mantimentos nos alforges. 

Na entrada da Floreta das Trevas, Gandalf os deixa. Possui outras missões e passa a liderança a Bilbo (sob silenciosos protestos de todos, até do próprio hobbib), e retorna às terras de Beorn com os cavalos.

E agora, sem as magias de Gandalf?

Moscas gigantes, perigos a cada passo. Bandos de aranhas enormes enlaçam os quatorze e vão comê-los. Bilbo, com o anel e a pequena espada mágica, engana, mata, resgata os companheiros. Fome, sofrimento, escuro de breu, rios mágicos. Elfos aparecem e os levam presos ao Castelo Encantado, onde respondem interrogatórios. Fogem em tambores vazios de vinho, depois de não sei quanto tempo. E chegam, boiando, à cidade do Lago, do outro lado da Floresta das Trevas. São recebidos com honras, os anões foram senhores, ali, no passado. Mas não tantas honras assim. Descansam, bebem bom vinho e comem, por enquanto. A Montanha Solitária está à vista, ao longe, guardando o tesouro e o dragão.

Como expulsar/matar o dragão e recuperar o tesouro?

Longa caminhada ainda. Estudam o mapa e entram na montanha por uma porta secreta, abandonada pelo dragão, que não lhe cabe. Chegam ao ninho da fera e do ouro. Bilbo, usando o anel, abre o jogo demais e o dragão (que fala nossa língua, como os demais animais encontrados na história), ameaçado, parte outra vez ao ataque. Arrasa a Cidade do Lago que deu pouso à caravana. Bart, um velho guerreiro, assessorado por um tordo, com uma flechada certeira no único ponto vulnerável do bucho, derruba o dragão em pleno voo, que cai morto.

E aí o mundo todo fica sabendo que o tesouro pode ser desfrutado. Os povos elfos, outros anões desgarrados, habitantes da Cidade do Lago e de outras colônias mandam seus exércitos à Montanha Solitária. Todos queriam o tesouro. Mas não é assim tão fácil.

Tholin Escudo de Carvalho, o chefe da aventura,  mais dois (Fili e Keli) morrem nas batalhas.

Por fim (não consigo contar tudo em uma resenha), Bilpo retorna à sua terra (pense quão longe foi o caminhada de volta) e encontra sua toca e suas coisas sendo leiloadas, boa parte já vendida. Os parentes julgaram que ele havia morrido e não perderam tempo.

Alguns anos depois, Bilbo está sentado no estúdio de sua toca, escrevendo suas memórias, quando ouve a campanhia tocar. É, outra vez, o mago Gandalf...

Xxx

E eu aqui tão empolgado em recontar o romance que ia esquecendo de minha avaliação. Foi muito bom ter lido, mesmo estando hoje com 73 anos de idade. Pelo jeito, continuo morando nos 13, ou em menos, pelo que fala a primeira crítica feita, em 1936, no lançamento. Rayner Unwin, de apenas 10 anos, foi o “primeiro crítico” a tecer comentários sobre a obra de Tolkien e disse que o livro deveria interessar a todos os meninos de cinco a nove anos. Acho que O Hobbib encanta a qualquer idade. Não apenas pela história que corre na flor da terra, mas a que, em paralelo, correr abaixo e acima dela.

(Aracaju, 04 de janeiro de 2019, por Antônio FJ Saracura).