segunda-feira, 11 de setembro de 2023

VILA NOVA PARA SER LEMBRADA, Aderbal Bastos Barroso

 

VILA NOVA PARA SER LEMBRADA, um retrato falado de sua gente, Aderbal Bastos Barroso, JAndrade, 2022, Aracaju, 280 páginas, ilustrado, ISBN 978-6589836-73-6.

 

Mais um bom e útil livro publicado pelo escritor Aderbal Bastos, este também, como os outros, tratando do povo ribeirinho do São Francisco, Neópolis e vizinhanças.

E o livro traz na abertura, escrito com letras de destaque o provérbio chinês (que eu não conhecia): “Esquecer os ancestrais é como ser um riacho sem nascente, uma árvore sem raízes”.

Talvez seja uma lição a quem não liga a história e ignora os parentes (mesmo de destaque) que se foram ou mesmo os que estão vivos e até moram perto. Ou seria pedido de desculpa por fazer literatura falando da própria  família e de figuras de sua terra?

Há intelectuais que criticam Carlos Drummond de Andrade por falar de Itabira: “como dói”. Outros criticam Saracura: “talvez estejam certos”.

***

Tenho 75 livros na fila de leitura, muitos há mais de dois anos, e eu, furo a fila, abro Aderbal, me desculpem os outros livros, e não me furtarei em dizer meia dúzia de palavras sobre o novo livro de Aderbal. Especialmente porque trata do que muito me toca: origem, ascendência, família. Fala da Vila Nova do autor, que merece demais ser lembrada. O livro é o retrato falado da gente de Neópolis esquecida, mas que ferve, como se fosse outro Sergipe separado.

***

o livro conta a história do lugar, os fatos que a fizeram cidade importante. Freguesia em 1679, vila em 1733, comarca em 1835, visita do Imperador em 1859, cidade em 1910, troca do nome de Vila Nova para Neópolis em 1960. E no meio desse turbilhão me encontrei com um velho amigo, Tio Ioiô Pequeno, que se chamava Agesilao Batista Martins Soares, nascido em 1880. Viajáramos juntos pelas páginas do belo livro “Ioiô Pequeno da Várzea Nova”, de autoria de Mário Leônidas Casanova, editado em 1979, pela Editora Clube do Livro de São Paulo, e do qual mantenho uma cópia xerox ao alcance da mão. 

Foi uma inesquecível viagem: Ioiô Pequeno me levando pela mão como se eu fosse um curumim amarelo.

Aderbal Barroso que, pelo que entendi, é sobrinho de Agesilao fala das pessoas que fizeram Neópolis grande e boa, no seu modo de ver. Alguns destes até conheci, como o padre Evêncio Guimarães, que diziam ter sido coiteiro de Lampião e é pai de imensa prole. O padre comentava com amigos chegados que o voto celibatário, que lhe impuseram como padre, não era natural.

Conheci padre Evêncio em visita ao seminário de Aracaju. Os padres vinham do interior resolver problemas da paróquia e se hospedavam numa ala especial que o seminário possuía. Nenhum dos seminaristas conversou com o padre Evêncio nesta única vez em que o vi, mas todos o olhávamos, balbuciando interjeições: um baixinho vermelho que criava seu próprio regulamento e possuía três amásias carregadas de filhos. Para uns, era o próprio Satanás, e para mim, um pequeno Deus. “Quer dizer então que padre pode também?”

Há o monsenhor Moreno que ficou 50 anos como pároco. 

Há Jorge Adalberto de Souza, comerciante conhecido como “Jobesa”, nome da empresa quase uma multinacional. Adalberto era filho de Itabaiana como eu. Há barqueiros, comandante de navio, professores, políticos, enfermeiros... Boa parte desses heróis tem laços de sangue com Aderbal (o autor) porque Neópolis é muito sua família, desde os primórdios.

E, por fim, é apresentado o município sob o olhar do jornal “A Defesa”, que circulou (com períodos ausentes) de 1932 até 1987. Uma epopeia invejável.  

Aderbal Bastos Barroso, que é o presidente da Academia de Letras de Neópolis, publicou (fora as obras coletivas) os bons:

No Remanso do Rio (2014),

À Sombra dos Oitizeiros (2017),

Agridoce, Melaço de Cana e Jabuticabas Maduras (2017),

Carvão Aceso (2019),

A Casa que só tinha Janelas (2021).

Fiz resenha de alguns destes, leia-os em: Antônio Saracura Sobre Livros Lidos, basta pesquisar no google.

 

Aracaju, 2023set11, por Antônio FJ Saracura.

 

domingo, 3 de setembro de 2023

O POETA GAUCHINHO, por Luiz Alves da Silva (Gauchinho)

 

O POETA GAUCHINHO, por ele mesmo em 15 livrinhos de cordel.







Luiz Alves da Silva (Gauchinho) nasceu em 1964, no povoado Baixa Limpa, em Nossa Senhora da Glória. Conversei com ele por uma hora na praça de Escritores da Flig (Festa Literária de Glória) 2023, na noite de 30 de agosto.

Gauchinho escreve poesia aprumada de quem sabe o que diz e conhece a arte de dizer bem. Manoel D’Almeida Filho, poeta paraibano que morou em Sergipe quase a vida toda, foi quem ensinou-lhe o Abc literário. E João Firmino Cabral, o maior cordelista sergipano, foi seu professor na universidade de poesia.

Gauchinho tem quase 60 anos, mora em sua terra natal, é locutor de rádio e propagandista em feiras livres onde vende sua obra.

Vou correr pelos livrinhos que obtive por troca com meus “O Menino Amarelo” e “Minha Querida Aracaju Aflita”, quando me encontrei com Gauchinho na FLIG.

“A Moça que foi ao inferno e dançou com “Nem tô aí”: Um “Inferno de Dante” sertanejo com 19 estrofes somente, todas do nível desta que vem a seguir:

 Mãe que só cuida dos filhos

Depois que finda a novela

Vive traindo o marido

Do jeito que vê na tela

Aqui já tem preparado

Um lugarzinho pra ela.

 xxx

 “Briga de Antônio Silvinho com o negrão desonrador”: Quarenta estrofes que contam a briga de dois valentes do sertão, um justiceiro, Antônio Silvino, e o outro, desonrador de mulher casada. Vejam o que sobrou para o desonrador e não tenham pena, porque esta é a lei amena de lá.

 Pegou comer a galinha

Com pena e osso por osso

Não deixou nenhum pedaço

Depois fez um alvoroço

Silvino com pena dele

Cortou-lhe fora o pescoço.

 xxx

 “O debate do padre Simão com Satanás”: 50 estrofes nas quais a história flui equilibrada. E em um momento, o diabo mostra ao padre Simão, a verdade que o padre até conhece, mas não usa nos sermões que faz contra o pecado. E argumenta o fedorento, cheio de razão:

 Se não houvesse o diabo,

Não tinha a religião

Nem padre ou pastor pregando

Mensagem de salvação

Não tinha céu nem inferno

Castigo ou condenação

 

xxx

 “A volta de Camões e novas perguntas do Rei”: Nunca mais eu havia visto os livros de Bocage e Camões, que me divertiram na infância nas Flexas de Itabaiana. E Gauchinho me presenteia com este Camões, de 79 estrofes, das quais apresento, para encerrar, três:

 

Um dia camões estava

Bastantemente feliz

O rei perguntou-lhe: “O que

Mais cheira neste País?”

Camões disse: “Não é rosa

E nem cravo. É meu nariz.”

 

Camões então me responda

Aqui perante o povo

Este problema que eu trago

Não é velho e não é novo

Não se quebra com marreta

Mas se quebra com um ovo?

 

Camões disse: Senhor Rei

Esta pra mim é comum

Durante o ano tem muitos

Mas eu nunca guardei um

Digo com toda certeza

Que é um dia de jejum.

 

 xxx

 Fiz um rápido passeio pela boa poesia de Gauchinho. 

Eu tenho comigo apenas alguns livrinhos mas o poeta tem mais de cem obras publicadas, que vende nas feiras e por aí.

Em nossa conversa, ele me contou porque tem este apelido: “Cantei sempre meus versos no ritmo do “Churrasquinho de mãe” do cantor gaúcho Teixeirinha. Foi em Itabaiana, quando apresentava um programa na rádio Princesa da Serra. Você é de lá e sabe o tratamento de “carinho” que o povo reserva a seus artistas.”

E um pouco triste com as mudanças que tem sofrido o cordel puro do sertão, fez  uma avaliação em versos da melhor qualidade:

 Tenho notado mudanças

Nos cordéis de hoje em dia

Depois que deixou as feiras

E foi para academia

Se encheu de vaidade

Perdeu a simplicidade

E também a autonomia

 

Já não pode mais dizer

Qualquer coisa abertamente

Já lhe botaram coleira

Para puxar com corrente

O cordel do meu sertão

Nunca foi escravo não

Sempre viveu livremente

 

Como se faz um romance

Sem colocar personagem

O homem branco e o negro

Os animais a paisagem

Um sertanejo valente

Uma mulher diferente

Saci diabo e visagem

 

A bíblia diz que a mentira

Ela tem por pai o cão

Também chamado diabo

Um assassino e ladrão

Por apelido é Lusbel

Mas eu digo que cordel

Não é filho dele não

 

Cordel nunca foi mentira

São poesias versadas

Contando histórias e lendas

De maneiras engraçadas

Servindo de diversão

Depende a ocasião

Faz o povo dá risadas

 

Estou pensando na vida

E no pouco que me resta

Ir perto de quem me ama

Longe de quem me detesta

Só buscar o que é certo

E fugir do que não presta. 

 

 

(por Antônio FJ Saracura, em 2013set02, Aracaju/Sergipe)

 

Nota:

Outros títulos que tenho aqui em minha biblioteca:

“O Itabaianense valente ou Juarez e Guiomar”,

“Desventuras de João Tolo aprendendo a ser sabido”,

“A morte de 16 negociantes na estrada de Porto da Folha”,

“A Briga de Lula com o dragão da Inflação”,

“Satanás confessa que criou o Corona Virus”,

“O doido que ficou rico com a botija do calango”,

“O casamento do diabo e a sorte do camponês”,

“João Valentin e a lenda do Labisomem”,

“As proezas de seu Lunga o rei da ignorância”,

“O casamento do diabo ou a sorte do camponês”.

“O poder da fé”.

 

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

ANTÔNIO XAVIER DE ASSIS, VIDA E OBRA, Carlos Pinna de Assis

 


ANTÔNIO XAVIER DE ASSIS, VIDA E OBRA, Carlos Pinna de Assis e Gilfrancisco, 2020, Edise, Aracaju, 306 il, 21 cm, isbn 978-65-86004-00-7.


 

Os alagoanos invadiram Sergipe e se transformaram (com seus descendentes) ilustres cidadãos, atuando nos diversos setores da nossa sociedade. Como Joubert Uchoa de Mendonça (os pais migraram de Traipu/Jirau do Ponciano para Sergipe), que hoje é dono do conglomerado de educação, Tiradentes.

Há um município que se destaca em nos suprir de cidadãos que brilham aqui além da conta normal: Pão de Açúcar, do outro lado do rio São Francisco, bem em frente de Niterói, povoado de Porto da Folha. Entre os nomes, estão: Edvaldo Nogueira, que é o prefeito de Aracaju; Hamilton Maciel, dono da clínica São Marcelo; Neutônio Machado, desembargador e  presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe; Massilon Silva, poeta repentista da Academia de Cordel; Carlos Pinna de Assis, conselheiro do tribunal de contas do Estado de Sergipe e membro da Academia Sergipana de Letras. São pãoaçucarados com os quais mantive ou mantenho relacionamento social. Tem mais.

Carlos Pinna, o derradeiro da curta lista, faleceu em 05 de abril de 2023 aos 74 anos de idade, de repente. Se é que ainda se morre desse mal hoje. Estive com ele na sessão da academia quando fez o anuncio de algo espetacular como sempre fazia. No final da semana seguinte, saiu a notícia de sua morte, sem ameaça, sem preliminar, sem qualquer chance dos amigos rezarem pela salvação dele...

Como intelectual, Pinna deixou publicado um livro intitulado “Antônio Xavier de Assis, Vida e Obra”, em coautoria com o historiador Gil Francisco Santos, e produziu artigos esparsos em jornais, antologias e Revistas literárias.

E este livro “Vida e Obra de Antônio Xavier de Assis”, (Antônio é o avô de Carlos) saiu impresso pela Edise em 2020, tendo sido divulgado bem recentemente, devido aos impedimentos da pandemia do covid. Ainda bem que temos o livro, pois narra a trajetória heroica de um grande sergipano.  Ainda bem que Pinna conseguiu fazê-lo antes de nos deixar.

O livro está organizado  em cinco partes e um bloco inicial de apresentação.

A apresentação contextualiza o personagem no tempo e no espaço, fornece uma sucinta biografia do mesmo caracterizando sua vinda para Sergipe.

A primeira parte consta de artigos sobre a atuação de Antônio Xavier no período em que morava em Alagoas, com artigos de autoria de Epifânio Dórea e Thiago Fragata.

A segunda parte consta de registros, documentos, ilustrações e depoimentos de autoria dos descendentes e do presidente da Academia Sergipana de Letras, José Andersom Nascimento.

A terceira parte consta da obra publicada na imprensa de Sergipe e de Alagoas (Obra Esparsa) tratando de política, economia, educação, história, agricultura, sociedade...

A quarta parte consta de fac-símilis de dois jornais: A Palavra (1893) e O Trabalho (1896), editados por Antônio Xavier, em Maceió.

A última parte (apêndice) consta de recortes de jornal, foto do sítio Palestina em Aracaju, certidão de casamento, além da biografia dos autores.

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Antônio Xavier de Assis nasceu em 1870 em Pão de Açucar, Alagoas, e veio para Sergipe em 1899 onde faleceu em 1936. Aqui criou sua família (14 filhos, apenas o primeiro nasceu em Alagoas). Foi gráfico, jornalista, professor, intelectual e político.

Como intelectual, escreveu livro sobre o São Francisco mas não chegou a publicar, e foi jornalista sempre. Como político, atuou em áreas dos governos de Josino Menezes, José Siqueira de Menezes e de Olímpio Campos. Indicado por Josino, foi eleito intendente de Aracaju cumprindo mandato de 1904 a 1906.

O livro traz bons textos de Antônio Xavier, publicados na imprensa ou resgatados de seus manuscritos, como a descrição do lugar onde nasceu e a terra que escolheu para morar. Com o artigo, “Onde Nasceu o arraial de São Cristovão”, quase um poema, destaca o herói Serigy, defensor das terras de Irapiranga da invasão de Cristóvão de Barros. Com o artigo sobre o malfadado empréstimo de 1824-1825, que exauriu nossas finanças até depois da independência, mostrou alcance além das fronteiras provincianas. São diversos artigos tratando de política, de economia, de cultura, de religião, de nosso povo...

O livro se constitui em uma coleção de fontes primárias sobre nossa história, oferecidas aos estudiosos, aos historiadores, aos intelectuais, a todos que nos orgulhamos dos grandes nomes que Sergipe produziu.   

(Por Antônio FJ Saracura, Aracaju 14 de agosto de 2023)  




Aracaju, 14 de agosto de 2023, por Antônio FJ Saracura

domingo, 13 de agosto de 2023

LUGAR DE ESTÓRIAS, Bartolomeu Correia de Melo

 

LUGAR DE ESTÓRIAS, Bartolomeu Correia de Melo, contos, EDUFRN, Natal, 1998,174 páginas, Isbn 85-7273-099-0



 

1.     Um livro difícil de achar

[19/06/2023] Francisco Dantas para Saracura:

Acabo de deixar, na portaria do Palazzo Fiorentino, um livrinho pra você. Ressalto que não quero interferir no seu gosto, dirigir as suas escolhas. Tenho quase certeza que se trata de um livro inencontrável. Outra coisa: a esta altura, os escritores do mundo inteiro estão com o seu ofício ameaçado pela "inteligência artificial". A Amazon já está ensaiando isso. Um texto é encomendado, e o freguês recebe a encomenda prontinha em um minuto.

[16:46, 01/07/2023] Antônio Saracura para Francisco Dantas:

Peguei agora. Ainda. Boa tarde, bom final de semana. O tempo escoou. Eu já me sentia encharcado. Não me lembro de já ter lido algo de Bartolomeu. Mas o nome me soa próximo. Deixe-me chegar em casa.

[20:06, 01/07/2023] Francisco Dantas para Saracura:

Este potiguar foi nosso amigo. No ano 2000 me remeteu um conto inédito, que hoje está em outro livro. Como todo nordestino da nossa época, merecia ser mais divulgado. Já não está entre nós. Em Natal, estivemos juntos algumas vezes.

[20:19, 04/07/2023] Antônio Saracura para Francisco Dantas:

Boa noite, grande Francisco Dantas. Para mim bastava um conto como “Foi?…” ou como “Reza-forte”. Ao final de cada, parei para respirar e não achei ar em canto nenhum. Mesmo assim, resolvi conhecer melhor o poeta Joaquim Cardoso, porque gostei dos versinhos citados por Bartolomeu. Caí em um blog chamado “Emiracultura”, que é o universo de Carmo Bernardes. E, agora, para onde eu vou? Jurubatuba pula de minha estante em meu colo. Ermira me abraça com seus braços bonitos. Quero falar com Carmo Bernardes, mas Bartolomeu me puxa pela camisa.

Olha! Francisco Dantas. Se eu não voltar a falar com você mais, é porque perambulo entre Goiás e Ceará-Mirim, como o “rezador de reza forte” montado no cavalo Vicente ou como o “amarelinho”, garantido pelo quicé afiado e o laço de couro cru.

Não sei o que vou fazer com tanto conto que me mandou. Mas já que mandou...

[20:37, 04/07/2023] Francisco Dantas para Antônio Saracura:

Seu aniversário tá chegando. Você já pode comemorar. Sei de memória: Quando os teus olhos fecharem / Para o esplendor deste mundo / Ei de ficar de joelhos / Quando os teus olhos fecharem / Para o esplendor deste mundo / Hão de murchar as espigas / Hão de cegar os espelhos.

Joaquim Cardoso, engenheiro trabalhou com Lúcio Costa, na fundação de Brasília. Em Belo Horizonte, trabalhou no viaduto Gameleira, que viria a desabar. Poeta retraído, muito bom, solitário.

[20:45, 04/07/2023] Francisco Dantas para Antônio Saracura:

Nosso Bartolomeu nos deixou três livros que guardo com carinho. Assim que me dei conta que tinha uma "duplicata" na mão, me lembrei de você. Ele é único, mais sintético do que o Guimarães Rosa de "Tutameia" e de quem se aproxima.

 2.     O Lugar de Estórias

Há livros assim, feitos no capricho, pela teimosia de um apaixonado pelo jeito de falar puro do povo, jeito que vai se perdendo a cada dia por conta da globalização deflagrada pela televisão e pela web. Pela TI (Inteligência artificial).

 O autor resgata falas estranhas de nossos avós e as guarda em textos que pouca gente conseguirá entender. Mais cientistas da língua que habitam os porões embolorados das universidades e raros saudosistas.

O livro “Lugar de Estórias” é uma destas joias. O autor é Bartolomeu Correia de Melo e descende da elite rural do Rio Grande do Norte, cheira a garapa. Tirou diploma de farmacêutico, de físico e foi professor catedrático da universidade. Da herança usineira, manteve a fazenda Águas de Março no município de Maxaranguape, onde passou parte de sua vida. Mesmo com tanta profissão, conseguiu tempo para caçar palavras, frases, ditos, rhuns, fhuns, e outros cacos e cascalhos que são ouro puro, e compor histórias (são contos) que tive o privilégio de ler.

Seca terrível, fome, sede. A família poupa fiapos de ração para sobreviver. E aparece aquele andarilho montado no jumento chamado Vicente, com ares de Jesus Cristo. Comeu a comida de casa e foi embora deixando como paga um patuá milagroso que costurou na hora, garantia de vida boa, não o abrisse e nem se apartassem dele. 

Na terceira geração, um descendente curioso descosturou o patuá, queria saber o segredo de tanto poder, de tanta sucesso na vida da família. Desdobrou o papelzinho amarelado e leu: “comendo eu e meu Vicente, o resto que arreganhe os dentes”.

Menino-velho era cria da fazenda, trastezinho que ninguém dava valor, o amarelinho de anedota, quase anão. Mas bom de mandado. Também bom no relho de couro cru traçado, que trazia no lugar do cinto. E temido pelo quicé afiado de capar bode de trazia na cintura. E ai houve aquele mal entendido porque o garrote pé duro da fazenda pulou o arame e cruzou com a novilha registrada, por que o filho do patrão desonrou a irmã de Menino-velho. Capa-não-capa-capa-capa. Pode capar, ordenou o patrão certo de que o menino-velho caparia sem falta. Quem perdeu os possuídos não foi o garrote.

Todos os dezessete contos andam no mesmo batido, narrando com o jeito gostoso de falar de e as sabedorias de nossos avós...

Conversas compridas são parecidas; ano sim oito não (como isso tá demorado!); desgraça pouca é meio de vida; em preço de honra não cabe diferença; pituím de cafuzo mata maribondo; não tinha medo de nada, tirante alma e praga de cigano; quem apronta escondido sofre em segredo; ela tinha os beiços finos de cu-de-calango; desconfiado feito menino comedor de vício; alguns silêncios valem mais que muitos gritos; querer tirar prazer do choro alheio, é judiação; penar conformado é meio de virar santo...

E as palavras? Encurtadas, arredondadas, adocicadas a cabaú.

“Lugar de Estórias é a transcendência dos saberes populares. Inventário precioso de falares de nossa gente ainda não atingida pela peste global”, tomo aqui a palavra do professor Inácio Magalhães de Sena, que escreveu a orelha do livro.

 

Aracaju, 12 de agosto de 2023, por Antônio FJ Saracura

 

Post Scriptum:

 

RESUMO BIOGRÁFICO DE BARTOLOMEU CORREIA DE MELO  (O BARTOLA):


Nascido em NatalRN (, criado no Ceará-Mirim (RN), terra de engenhos, cenário temático dos seus escritos. Educado por padres salesianos e irmãos maristas, dedicou-se ao magistério. Graduado em Farmácia (UFRN) e pós-graduado em Físico-Química (UFPE e USP). Adotou agropecuária (Fazenda Aliança) como segunda atividade e literatura como primeiro lazer. Aposentado (UFRPe e UFRN) como professor de Química. Obteve com “Lugar de Estórias”, seu primeiro livro, o prêmio nacional “Joaquim Cardozo”(1997), da União Brasileira de Escritores (UBE). Seu segundo livro, “Estórias Quase Cruas” (2002) foi igualmente bem recebido. Publicou também a estória infantil “O Fantasma Bufão” (2004). Recentemente (2010), teve lançados “Tempo de Estórias”, seu terceiro livro de contos e “A Roupa da Carimbamba”, segundo livro infantil, todos pelas “Edições Bagaço” (Recife). Fonte: site da UBERN e NOTÍCIAS DA LUSOFONIA, DE CEICINHA CÂMARA.

 

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

QUERIDA CIDADE, Antônio Torres

 

QUERIDA CIDADE, Antônio Torres, Recordo, 1 edição, 2022, isbn 978-65-55897-011-4

 


Não consegui avançar a leitura do Querida Cidade, novo livro de Antônio Torres. Fiquei indignado comigo mesmo. Arremeti várias vezes e o abandonei. Arrependido do gesto, peguei-o de volta e li um trecho aleatório, em cada página, pedindo a Deus que me grudasse em algo, como passarinho irrequieto no visgo de jaca. A última página chegou ligeiro demais, sem visgo algum.

E nessa árida caminhada, bati-me com frases feitas, sinônimos rebatidos em profusão, letras de canções buscando se encaixar no enredo (ou vice-versa), parecendo penetras no casamento da filha do ricaço da cidade.

Até me entusiasmei em um trecho, entre as páginas 130 a 180, mas não passou de um oásis de cinquenta palmeiras, que é grande, mas representa somente um refrigério de 8% da imensa travessia.

Encontrei no oásis velhos conhecidos de livros meus (Meninos que não queriam ser padre), como “a enxada continua no mesmo lugar que você deixou” (página 189), “o vergonhoso castigo de escrever quinhentas vezes a mesma frase: “não devo roubar nada de meus colegas” (página 132), “não se admire demais ao ver na cidade para não dizerem que você é tabaréu (página 189)... Estranhei eles estarem assim tão longe de casa, como se perdidos.

Reclamei de minha dor ao amigo que me sugeriu a leitura e, ele, enérgico, professoral, botou-me de castigo, me mandou ler o livro quantas vezes fossem suficientes para fazer o gênio sair da lâmpada e me solicitar os três pedidos clássicos. E vendo-me desanimado, iludiu-me, disse que em algum lugar eu teria surpresas que me fariam aplaudir o livro de pé. E por fim, eu não me animava, botou o dedo em riste na minha cara ameaçando, que o livro não era de qualquer um, mas do monstro sagrado, autor de “Meu Querido Canibal”, que sabe que eu adoro e mora no meu oratório.

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E como fiz ante outros grandes livros, pedi perdão à Querida Cidade, no canto sagrado, onde reconheço meus pecados cabeludos.  

E aqui o estou colocando no purgatório onde está Ulisses de James Joyce, que também não consegui ler, não houve jeito. Os dois (para não me alongar) são bons demais para minha limitada cabeça de leitor.

Se não, como é que o mundo todo os adora?

Por Antônio FJ Saracura, em 11 agosto de 2022.

FAVOS DA ALMA, poesias e crônicas, Martha Hora

 

FAVOS DA ALMA, poesias e crônicas, Martha Hora, Infographics, Aracaju, abril de 2023,134páginas, Isbn 978-65-5730-157-9.


A professora Arlete Mendonça, na orelha deste novo livro de Martha, diz que a autora “busca na poesia um alento para sua natureza sensível e que tem o dom de transformar uma simples frase em um tocante poema”.

Eu tenho em minha biblioteca, "Amor Infinito", publicado em 2006, sobre o qual escrevi rápida resenha, que está no blog “Antônio Saracura Sobre livros lidos”, basta seguir o endereço indicado pelo google. E também "Favos da Alma", do qual a leitora Francisca Cirjak diz, na orelha, que “Martha aprende no sofrimento o que nos ensina com versos”.  E "Buscas e Encontros", publicado em 2011, que Clarissa Andrade diz, na orelha, que Martha “ao manusear seu tear recolhe-se às dimensões mais profundas de si mesma para refletir sobre sua existência no mundo e sobre o que nos liga: solidariedade, compreensão, igualdade e amor”. E "Desvendando Sombras e Sonho”, de 2015, teve a orelha escrita pela intelectual da ASL, Jandira Dias Vieira, que destaca: “a autora ilustra com linguagem robusta, os valores, sentimentos, pensamentos, explorando e expondo as minúcias da vida, do amor, da dor”. E "Auroras e Crepúsculos", de 2018, ganhou a orelha de Expedito Souza, grande memorialista, que conclui sua avaliação dizendo que “ler Martha Hora faz bem, alegra nossa alma”.

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"Favos da Alma" compõe-se de 30 poemas (maior parte sonetos). O soneto “Favos da Alma” (que dá o título ao livro) fecha seu último terceto, assim: “E quando tudo isso passar / os voos das obreiras fecundarão / os vazios favos de minha alma”. 

E tem 21 crônicas (momentos da vida), algumas tratando da recorrente origem e formação, como é o caso das que falam do Jardim de Infância Augusto Maynard; do pai, João Hora de Oliveira, comerciante que se destacou com “A Moda”; da pianista Marilene de Zefa Gorda, minha prima dos troncos ferreiros da Matapoã.

Em toda sua obra, Martha cumpre com esmero esta doce tarefa de nos encantar, com poemas e crônicas. Poemas que nascem da alma sensível e lírica e crônicas que testemunham momentos vividos que marcaram de forma indelével sua vida.

Toda a beleza que habita os livros de Martha Hora está nela mesma, uma pessoa espetacular, até no travo do cajá ou da jaboticaba, que é o tempero das pessoas que tem rumo e brilho próprios.

Vou me repetir, pois já o disse em resenhas de outros livros de Martha Hora, e se aplica ao doce "Favos da Alma": “Há sempre uma mistura de sublime com o corriqueiro nos textos de Martha Hora, que faz o leitor sentir-se na terra enquanto flutua no Céu”.

Aracaju 2023ago11, por Antônio FJ Saracura

domingo, 21 de maio de 2023

MÃE DE CASA, Tantão Paiva

 

MÃE DE CASA, Tantão Paiva (Maria d Conceição Ximenes Paiva), Sobral Ceará, Editora Sertão, 2022, 84 páginas,  ISBN 978-65-5421-020-1

 




Tantão Paiva é professora da rede estadual em Groaíras, Ceará, e seu livro, “Mãe de Casa” foi-me passado por Pascoal, recomendando a leitura.

Ao chegar em casa, caí na página 14, onde começa a arte, com a intenção inicial de apenas ler um pedacinho para sentir o gosto. E duas horas depois, estava fechando o livro, na página 83, o ponto final, batendo palmas silenciosas, comemorando.

Peguei amizade com a gente do ”Vaquejador” e dos povoados em volta. Até viajei clandestino na ônibus da Auto Viação Groaíras fretado para a levar até o Canindé, onde habita o milagreiro São Francisco das Chagas. Misturei-me na anarquia, filando mãos cheias de farofa de toicinho e roendo pé de porco cozido. E na hora de ir ao mato, surrupiava sabugos de milho do saco do seu Abrahão (o distinto convidado da Muriçoca, que cochilava), pois também não me ajeito com estes papeis que mais espalham do que recolhem. Acompanhei, de joelhos nus, as 14 estações da via sacra pela avenida Francisco Cordeiro, desde a Igreja de Nossa Senhora das Graças até o Cristo Rei. Entrei na Basílica de São Francisco e me embasbaquei com o teto tocando no Céu. Ajoelhei-me em frente ao altar do santo e fiz promessas, para ter pé de, no próximo ano, vir outra vez, pagar as graças que alcançarei.

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Mãe de Casa subia a mão pelas coxas e batia de leve nas suas intimidades dizendo: “Olha aí que pichado bonito”, falava sem pejo e com orgulho.

O viajante pediu um copo de água e, enquanto o bebia, viu que um cachorro chegou e bebeu diretamente do pote. Reclamou e a Mãe de Casa respondeu-lhe: “você queria que o pobrezinho morresse de sede”.

Tia Carmélia não lavava os pratos para servir a mesa, passava um pano seco e espanava o pó. “Pra que gastar água se é a gente que vai comer a mesma comida, feijão com toucinho e farinha seca”?

Meu pai negociava com frutas e a mesma tia aparecia à noite lá em casa e tacava a comê-las.  Um dia, perguntei-lhe se não fazia mal comer frutas à noite e ele respondeu:  “E a barriga sabe se é noite ou dia lá dentro”?

E tia Nega?

Foi dura com o médico que a mandou fazer regime para sarar das dores nas costas. “ O senhor quer que eu fique da grossura de um cipó”?

Criei-me nesse mesmo clima lá no meu povoado distante 1200 quilômetros de Groaíras. E pelos livros que tenho lido, o Brasil inteiro canta a mesma toada de sabedoria popular que nos faz parecidos, que nos une mais, estejamos no sertão de Goiás, nos pampas ou nas selvas do Amapá.

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“Mãe de Casa” mostra-nos a nossa luta diária em busca de melhores dias. E prova que, para sermos grandes, basta querermos com empenho.

O estilo despojado da autora faz do livro uma obra de arte, que prende e encanta até o último ponto. A história é original nas coisas comuns, é grandiosa até nos desmantelos. O leitor sai falando bem, agradecido por ter tido a oportunidade de ler um livro especial.

Peguei tanta amizade com os personagens e aos lugares de Tantão Paiva, que o povoado “Vaquejador” virou minha distante Terra Vermelha de Itabaiana, em Sergipe, o cantinho acolhedor que sempre busco e que o bruxo Don Juan, em Viagem a Ixtlan, de Carlos Castanheda, me ensinou a identificar quando parasse nele.

 

Aracaju, 21 de maio de 2023, por Antônio FJ Saracura