sexta-feira, 6 de maio de 2022

TARAS BULBA, Nicolai Gógol

 

TARAS BULBA, Nicolai Gógol, Abril Cultural, 1982 São Paulo, tradução de Francisco Bittencourt, Isbn (sem).




A epopeia de um povo ainda em formação, de sangue nômade, mas passando ao sedentarismo, os Cossacos, que são a raiz da grande nação russa, nascida a partir da Ucrânia. O mesmo jeito de viver de outros bárbaros como os Vikings que saíam de seus fiordes e devastavam a costa da Inglaterra, da França e chegaram até a América conforme reza a lenda.

Após gerações de saqueadores, agora, os filhos dos Cossacos estudam em seminários ou trabalham na agricultura, Os pais já idosos, entretanto, ainda sonham com o passado épico. A situação de guerra contínua e eterna com os vizinhos (especialmente os poloneses, turcos e árabes) está resolvida, tratados de paz foram assinados. 

Os Tártaros, agora, vindos da Criméia, assumiram o lugar dos Cossacos, assaltam e saqueiam a Ucrânia em incursões ligeiras.

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Taras Bulba foi um filme ao qual assisti na juventude e sobre ele devo ter escrito resenha publicada no jornal "A Cruzada" quando atuei no jornalismo aqui da terra. O filme é de 1962, ganhou o Oscar de melhor trilha sonora e é dirigido pelo inglês por J. Lee Thompson. Estrelado por Yul Brynner (no papel principal), Tony Curtis, Christine Kaufmann e mais uma dezena de estrelas. Lee dirigiu filmes de grandes bilheterias, entre as quais, Os Canhões de Navarone, Planeta dos Macacos, Justiça Selvagem. O filme me marcou de forma indelével. Nunca esqueci dos lances heroicos que mostrou com maestria e magnetismo. Pela mesma época, um pouco depois, li o livro pela primeira vez, e revivi o mundo épico no qual meus antepassados certamente também viveram, seja aqui na América primitiva, na África, ou nas estepes eslavas.

Recentemente, me bati com  o pequeno romance de autoria de Alexei Gogol, companheiro de outras boas caminhadas, em um sebo dessa Aracaju de pouca leitura. 

E acabei de ter o prazer de reler 

O velho Bulba vive numa monotonia que dá pena. Seus tesouros enterrados, frutos dos últimos saques aos turcos e aos poloneses, devem estar enferrujando, se perdendo. Tem quem cuide de seu gado e de seus campos de trigo...

Seus dois filhos homens, rapagões com a barba despontando, chegam do seminário, onde estudam, para passar dez dias com os pais. A mãe baba os meninos, quer que eles durmam em seus braços nesses dez dias de folga.

“Como um cossaco pode ser homem de verdade sem um batismo de fogo?”. Taras se martiriza ruminando. E inventa uma viagem para Stieth, a cidade fortificada que é a sede da nação ucraniana, onde vivem velhos companheiros de aventura embriagados. E leva os filhos junto, para desespero da esposa, que chora e nem tem o direito de protestar.

Em Sietch, Taras deflagra uma revolução. Consegue substituir o Kochevoi (uma espécie de rei) por outro que aceita quebrar o tratado de paz com os poloneses.

Em expedição, ao estilo de tempos passados, cavaleiros armados e  filas de carroças vazias, partem para os saques. Os cossacos de todos os cantos sentem o cheiro de sangue e pólvora e seguem o rastro de Bulba, formando um exército sedento de ação. Saqueiam mosteiros, vilas e cidades em toda divisa da Polônia.  Enchem as carroças, sequestram boiadas. A ganância aumenta. Atacam uma cidade que resiste e não abre os portões. Montam certo ferrenho até que a fome obrigue a cidade se render.  

Na calada da noite, enquanto os cossacos bebem e dançam comemorando a iminente vitória, divisões do exército polonês entram solertes  na cidade e se entrincheiram.

Quando parte do exército cosssaco avança para a tomada, bate-se com canhoneiras mortais. Recua, Muitos morrem ou ficam prisioneiros.

Nesse ínterim,  tempo, um mensageiro chega de longe ao acampamento cossaco dizendo que os Tártaros, aproveitando as fazendas e as lavouras desguarnecidas. Queimaram tudo, roubaram os tesouros enterrados. Mataram os velhos, sequestraram moças e rapazes e descem para a Criméia em uma caravana e de carroças carregadas.

Os Cossacos então se dividem em dois exércitos. 

Um parte para atacar os tártaros antes que sumam no mar com seus navios e vendam os prisioneiros aos traficantes de escravos no Oriente Médio. E o outro, comandado por Taras Bulba, fica para libertar os companheiros e saquear a cidade, uma presa fácil agora, considerando que a fome volta a castigar a cidade. As provisões trazidas pelos poloneses aparentemente se acabaram. 

Os Cossacos que vão caçar os Tártaros são dizimados ou feitos prisioneiros.

Os comandados por Taras Bulba caem numa armadilha. Taras e alguns guerreiros escapam milagrosamente e, no dia seguinte, escondidos na mata, veem  seus companheiros triturados a torniquetes  pelos poloneses  e depois degolados.

Bom! 

Acho que me estendi além da conta...

Vou deixar que o leitor (todos os livros do mundo estão nos sebos brasileiros) se interesse e saiba o que aconteceu com os dois filhos de Taras Bulba: Ostap e Andrei. E com o judeu Yankel, que sobreviveu milagrosamente até o final do livro. 

Há um romance eletrizante aguardando o leitor. E outro, em segundo plano, que vez por outra sobe sanguinário para o primeiro, e trata da sina dos judeus que tentavam sobreviver na Ucrânia daquele tempo.

(Aracaju, 05 de maio de 2022, Antônio FJ Saracura).

 

domingo, 26 de dezembro de 2021

O RESGATE DE ALICE - ebook


O RESGATE DE ALICE, Eraldo Oliveira  Almeida – 1ª Edição (Livro Digital, 425 páginas, Lagarto Sergipe, produção independente, 2021... Ficção Policial,

 


(SÍNTESE PELO AUTOR)

“Quando o tráfico internacional de mulheres sequestra uma garota de 13 anos em uma das capitais do Nordeste brasileiro e a polícia se mostra incapaz de desvendar o crime, o pai da menina contrata uma LIGA de justiceiros para encontrá-la. A missão é confiada a uma bela, extraordinária e enigmática agente que parte em uma caçada eletrizante aos raptores, encontrando-os e os eliminando na Europa e na Amazônia brasileira. Ação inteligente e sedução mortal são as marcas de Estela Mare, uma linda justiceira forjada nas selvas semiáridas do Brasil e enviada para as mais surpreendentes e emocionantes aventuras nos seis continentes”.

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Encontrei o rapaz (já quase senhor) na Escariz nessa missão que toco em frente para conquistar adeptos para a literatura daqui. Depois do esquenta comercial, ele me disse: “sou escritor também, mas de livros policiais. Talvez eu seja o único de Sergipe. Mas meu livro (por enquanto só publiquei um), O Resgate de Alice, é digital, está na Internet. Sou Eraldo, de Lagarto, moro lá. Fui premiado em concursos de contos policiais, e ainda não os puliquei”.

Olhei o escritor desconhecido, entre surpreso e encantado. Eu sou igual à Florita, minha mãe, que se já foi, não guardo segredos, especialmente os meus.  Paguei com a mesma moeda, contei-lhe um pouco de mim.

Em casa, recebi de Eraldo o PDF de “O Resgate de Alice”. 435 páginas.

Comecei a ler, em consideração à gentileza de me enviar, mas calculei que, depois da décima página, daria uma passeada superficial nas 425 finais.

Agora, três dias após ter começado, encerro a leitura tim-tim por tim-tim emocionado, pingando lágrimas dos olhos. Não consegui parar, roubei tempo reservado para escrever meu novo romance. Mas valeu a pena.

No livro, há família (que me fez chorar), há camaradagem, há tiros fatais, há sorte, há milagres, justiça, castigo impiedoso e justo. Há cenários espetaculares, que são os grandes segmentos na busca à garota Alice, 14 anos, sequestrada da família em Aracaju e vendida ao mundo do crime. 

O livro é assim organizado (para dar uma ideia de sua dimensão): 

 

P R Ó L O G O

CAPÍTULO I - A FORTALEZA TREZE –

CAPÍTULO II - CENTRE D’ENTRAÎNEMENT DES MODÈLES -

CAPÍTULO III - N Á P O L E S –

CAPÍTULO IV - O GRITO DAS INOCENTES -

CAPÍTULO V - ORGANIZAÇÕES RUGGERO MARTINO-

CAPÍTULO VI - POLIZIA DI STATO-

CAPÍTULO VII - A ILHA DE CAPRI -

CAPÍTULO VIII - NO COVIL DA SERPENTE –

CAPÍTULO IX - KAZANKA –

CAPÍTULO X - MADRID –

CAPÍTULO XI - CAATINGA –

CAPÍTULO XII - AMAZÔNIA –

E P Í L O G O


E tem muita ação. Mesmo a trama andando numa linha previsível, segura o leitor.

Tenho a mania de ler livros anotando às margens, minhas dúvidas e, ao final de cada capítulo, naquele espaço que sempre sobra, exaro considerações. Quase monossilábico. Desta vez, sem papel, criei um arquivo word de trabalho, onde fui copiando e colando trechos do livro que me agrediram ou agradaram. Escrevi os motivos para depois os aproveitar. E assim, mantive a singular mania de fazer anotação enquanto leio.

Independentemente de qualquer coisa, como os tiros cem por cento aproveitáveis, como os bandidos maus demais (chega a ser surreal) a exemplo desse El Cazador da Amazônia, como as brincadeiras sem graça entre a agente e seu chefe, como os roubos espetaculares sem dificuldade significativa, como a tara inconsequente (e sem objetivo na trama) de Camila, como as restrições que escrevi para o autor, achei o livro bom. Apesar de longo. Me deu a sensação de que estava vivendo uma série Netflix. Se não isso, o roteiro pronto para uma delas. De uma boa série, que já tem prenome: Estela Mare. Ela é a detetive, a policial, a agente, a heroína. 


(Por Antônio Saracura, 2021dez26, Aracaju)

 

domingo, 19 de dezembro de 2021

NIKETCHE: UMA HISTÓRIA DE POLIGAMIA, Paulina Chiziane

 

NIKETCHE: UMA HISTÓRIA DE POLIGAMIA - Paulina Chiziane. — São Paulo : Companhia das Letras, 2004. ISBN 85-359-0471-9 1. Ficção moçambicana (Português) I. Título. 04-0970 CDD-869.3



 

O romance se encerra com o marido polígamo (Tony) diante esposa (Rami) com a qual casou na igreja e no cartório, cheio de arrependimentos, mas nem tanto assim. E Tony fala: “Queria dizer-te palavras de arrependimento; mas um homem não se arrepende., tudo o que faz é sempre bem feito;. Gostaria de dizer-te que és uma grande mulher; também não posso, as  mulheres são sempre pequenas. Queria também dizer que confio em ti; mas também não me é permitido, os homens devem desconfiar sempre das mulheres, e as mulheres devem confiar sempre nos homens. Hoje queria violar as normas e dizer que te admiro e de ti tenho orgulho; nem isso posso fazer, as mulheres é que devem sentir orgulho dos seus maridos e nunca o contrário,   mulheres é que devem admirar os seus homens e nunca o contrário. Hoje eu quero chorar, Rami; deixa-me chorar”...

E Rami o deixa chorar e faz com que chore mais ainda quando lhe confessa que o filho que traz no ventre é de Lewy, irmão de Tony, que a possuiu por ordem da tradição, o Kutchinga de Levirato, que é a obrigação ou direito da viúva dormir com um escolhido entre os parentes do marido morto. 

Quem mandou Tony falecer de mentira para escapar de tanta esposa o querendo?


Niketche é a dança do amor, na língua de Zambézia e Nampula. E o livro começa com Rami atribulada dentro de casa, precisando do marido para cuidar de um problema fácil pra qualquer marido resolver. Um de seus cinco filhos quebrou o vidro do carro de um vizinho com uma mangada. O vizinho pede providências. E Rami se dá conta de que o marido nunca está em casa, só de vez em quando, para uma noite de sono ou pagar as contas. Vinte anos de casado e apenas cinco de convivência decente.

Rami sabe que ele tem namoricos fora de casa, pois todos os homens possuem mais de uma esposa em Madagascar. Mas agora percebe que perdeu de vez o marido. E resolve tê-lo de volta para cuidar também das encrencas que os filhos arranjam com a vizinhança. “Com o marido em casa os ladrões se afastam. Os homens respeitam. As vizinhas não entram de qualquer maneira para pedir sal, açúcar, muito menos para cortar a casaca da outra vizinha; com marido em casa, o lar é mais lar, tem conforto e prestígio”.

Faz seu plano de reconquista e vai visitar cada uma das concorrentes. Sabe quem são e onde moram; que são brabas, mas ela também é. 

Chega cheia de direitos na casa de Julieta e sai corrida embaixo de cacete. Julieta também já não vê Tony há sete meses. Recuperada, Rami vai à casa de Louise. Precisava entender o que ela tinha tanto que roubara o marido de duas. Quis enquadrar e foi enquadrada. Terminou presa da delegacia. As duas. Por brigarem na rua. Depois visita Saly, a apetecida. E, finalmente, Mauá Sualé, a amada, a caçulinha, recém-adquirida.

Descobre que pouco sabe sobre sexo, sobre vida conjugal, sobre sedução. Suas concorrentes estão à frente. Na sua família católica a matéria é tabu; é pecado falar de sexo; as meninas casam tolas, sem conhecer os segredos de dar e receber prazer. Matricula-se em curso de iniciação. Participa de muitas aulas, quinze, no total. Foi até às aulas mais secretas, sobre temas de que não se pode falar. Estuda a teoria e exercita a prática. 

E  vai ao macumbeiro que tem poderes de engarrafar o marido e  lhe entregar a tampa para ela tomar conta.

Vai à tia Maria e escuta a lição histórica de que prosperidade se mede pelo número de propriedades. A virilidade pelo número de mulheres e filhos. Abraão, Isaac, Jacob, foram polígamos, não foram? Os nossos reis antigos também o foram e ainda são. Que mal é que há?

Protesta. Precisa de seu homem só para si.

Vai ao pai e às tias gordas. Recebe um sermão: “Se seu marido pasta fora, a culpa e tua. Não soubeste prendê-lo”.

Por fim, alia-se às concorrentes, faz amizade com as mulheres do marido. "Se não posso ficar com todo, pelo menos o dividamos igualitariamente".

Toma copos de vinho a mais no aniversário de Louise e quebra o jejum e a fidelidade. Vito, o rapaz bonito, se aproveitou. Até as viúvas tem o direito de aliviar o luto vez ou outra e ela é quase viúva de marido vivo. Cria gosto e a casa de Lu passa a ser sua. Vito é o segundo marido de ambas. Cama compartilhada. Afinal, Lu é do norte e não liga para exclusividades. E Rami é filha de Deus.

E para liberar o bolso de Tony de tanta despesa (a que tem direito legal), Rami promove uma revolução no harém. Desperta a vocação comercial em cada esposa. Incentiva e promove a abertura de negócios para que tenham renda segura. Para que não precisem dar o corpo em troca do pão. Para terem uma previdência para o caso de morte do marido, e não prestarem mais para o amor. 

As mulheres progridem para desespero de Tony, que não mais as tem sob o cabresto, dependentes de seu bolso. Não mais mendigam seu amor. Podem agora arrumar os homens que quiserem. E Lu já o faz. 

E Tony se desespera, corre para Rami e entrega os pontos. Não assim de um momento para outro. Leva tempo para o ferro frio vergar, que é  o ponto de ruptura (o comecinho desta resenha).  

E a autora conclui o romance de forma dramática com a improvável (pela lógica da trama) cena no meio de chuvarada: Tony “era uma ilha de fogo no meio da água. Solto-o. Não cai, mas voa no abismo, em direção ao coração do deserto, ao inferno sem fim”.

O livro nos apresenta costumes autênticos de povos africanos, costumes bagunçados pelas religiões europeias (leia-se cristianismo) que chegaram trucidando valores milenares. Como aconteceu (e ainda acontece) com os povos nativos no Brasil. É um discurso empolgado e, como tal, se repete, insiste em pontos óbvios, os quais deseja fixar no leitor. Há folhas demais envolvendo uma única fruta. São 252 páginas que caberiam (a meu ver) na metade. Queixas, arroubos... E cansa aqui e ali quando poderia empolgar sempre. Mas ganhou o prêmio Camões de 2021, cem mil euros no bolso e, por baixo, cem milhões de novos leitores, como eu, no mundo todo.

(Aracaju, 17 de dezembro de 2021, por Antônio Saracura).

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BIOGRAFIA DE PAULINE CHIZIANE 

Nascida na cidade de Manjacaze, na Província de Gaza, cresceu nos subúrbios de Maputo, em Moçambique. Fez parte de uma família protestante, mas nunca foi batizada. Seu pai, um alfaiate e anticolonialista, exigia que, em casa, se falasse apenas chope, seu idioma de origem. Sua mãe foi uma camponesa. Estudou numa escola primária católica e, depois, em escolas secundárias, onde teve mais contato com valores ocidentais e desenvolveu seu conhecimento da língua portuguesa. Obteve um diploma da Escola Comercial em Maputo. Casou-se aos 19 anos, separando-se poucos anos depois, e teve dois filhos.

Realizou estudos de linguística na Universidade Eduardo Mondlane. Na juventude, participou ativamente da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Trabalhou com a Cruz Vermelha Internacional durante a guerra civil. Após o fim do conflito, trabalhou no Núcleo das Associações Femininas da Zambézia (NAFEZA). Atualmente presta consultoria ao desenvolvimento de projetos de ajuda internacional com foco em conflitos e defesa dos direitos das mulheres.  

Afastou-se da política para se dedicar a vida literária, o que fez, segundo ela, devido a desilusão com os rumos assumidos pelo partido que ascendeu ao poder após a independência do país, em virtude das contradições sociais e  da profunda opressão imposta às mulheres, que leva ao bloqueio de suas possibilidades de independência pessoal, coletiva e econômica. 

Chiziane define-se “contadora de histórias”, e não romancista ou escritora. Ela estreou na literatura em 1984, quando publicou crônicas nas revistas Domingo e Tempo. Escreveu a seguir diversos romances consagrados, como Balada de amor ao vento (1990), Ventos do apocalipse (1993), O sétimo juramento (2000) e O alegre canto do perdiz (2008).

Niketeche: uma história de poligamia (2002) garantiu-lhe o Prêmio José Craveirinha, entregue pela Associação Moçambicana de Escritores ao melhor romance do ano. Neste romance, abordou a questão da “poligamia oculta”, presente numa sociedade na qual as mulheres são dependentes dos homens.  A trilogia de contos As andorinhas (2008) centra-se no imperador Ngungunhane, no líder da independência Eduardo Mondlane e na atleta olímpica Lurdes Matola.

Sua literatura denuncia a marginalização das mulheres moçambicanas e contempla dignamente as diferentes esferas culturais moçambicanas, sendo um instrumento de (re)conciliação entre elas.


BIBLIOGRAFIA


APA, Livia. “Paulina Chiziane”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 88-89.


CHABAL, Patrick. Paulina Chiziane. In: IDEM. Vozes Moçambicanas – Literatura e Nacionalidade. Lisboa, Portugal: Vega, 1994, , p. 292-301.


DIAS MARTINS, Ana Margarida. Niketeche, a Story of Sucess. Ellipsis, v. 7, p. 109-137, 2009.


DIOGO, Rosália Estelita Gregório. Paulina Chiziane: as diversas possibilidades de falar sobre o feminino. Scripta, v. 14, n. 27, p. 173-182, 2010.


TEDESCO, Maria do Carmo Ferraz.  Narrativas da moçambicanidade: os romances de Paulina Chiziane e Mia Couto e a reconfiguração da identidade nacional. Tese de doutorado (História),  Universidade de Brasília, 2008.

Atualizada em: 28/01/2021

https://www.ufrgs.br/africanas/paulina-chiziane-1955


quarta-feira, 17 de novembro de 2021

GOZO DO PADECER NO TINO DO MAR, Neusa Vieira Lima,

 

GOZO DO PADECER NO TINO DO MAR, Neusa Vieira Lima, Chiado, junho2021, ISBN 978-989-37-1003-6



“Só peço a Deus que o futuro não me seja indiferente. Desenganado está quem tem de caminhar para viver em cultura diferente (León Gieco)”. 

O livro começa assim, sabendo, e apesar de saber, nos leva do sertão ao mar. Sertão de riquezas e de carências. “Do mundão desses vazios dos tabuleiros”. O Homem/menino de Barro rompe o branco da terra seca e vai em busca do mar. Apenas saber que o mar existe (fímbria de esperança a que se agarra) e aquieta o ronco das tripas vazias. 

E nesse tino do mar (lida da vida), a autora dialoga com amigos feiticeiros, poetas, prosistas e profetas, que são meus também. Adélia Prado se esconde no galinheiro hipnotizando galinhas. Érico Veríssimo pelea outra batalha, sem bando algum. Rachel de Queiroz virada nos setenta revela ao mundo espantado uma seca 15 mil vezes maior e é de verdade. Manoel Bandeira, adormecido na festa de São João, viu o final sonhando pois é muito mais bonito ainda. Manoel de Barros, que jamais morrerá, faz tudo voar com as aves do céu, até a poesia que nem tem como se pegar, é apenas de sentir. Manoel Scorza, invisível, quer ser outra vez o cavalo Girassol, ir pro lugar dos papocos, chorar a dor imensa. João Cabral de Melo Neto... Graciliano Ramos... Gonçalves Dias brada ao mundo, “meu canto de morte, guerreiros ouvi”. 

Como aqui faço agora e Neusa fez, eixando sua viola de sotaques como o de Guimarães Rosa, que fala diferente sobre diferentes bandas.

Por fim, a imensidão de água salgada.

“Como acreditar que Deus, tão sabido, criador de tudo, ia fazer esse mundão de água e encher de sal”. Tanta água assim precisava haver no sertão para a gente adoçar com os umbus de lá. 

O cavalo falante Mandacaru, “nascido da flor vermelha do mandacaru num dia de vento forte, carregado de caracol e de borboleta amarela”, respira inquieto. Parece querer me levar de volta pro sertão, como se fosse possível. 

“Gozo e Padecer no tino do Mar” é livro assim cheio de dizeres que doem e que aliviam.

Em prosa poética de vasto sentido. Nascer, viver, morrer. Dizeres que lembram as duas obras publicadas “Cartas a minha mãe que não sabia ler” e “Não é hora de correr para a caverna”.

Neuza Vieira Lima Steimbach é a senhora das palavras que vivem como gente. 

Aracaju, 01 de novembro de 2021, por Antônio Saracura.

 


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

PASSO A PASSO, dos caminhos que trilhei

 

PASSO A PASSO, dos caminhos que trilhei, Hélio de Souza Oliveira, Artner, 2021, 144p, il, isbn 978-65-88562-43-7

 


Mais uma história de vida, testemunho de luta para chegar ao sucesso e à glória que têm tamanhos próprios para cada um. Uma referência para a família (e descendência) e fonte de pesquisa para os historiadores de nosso povo e terra, no futuro (ou no presente).

Eu gosto de biografias escritas ao correr da pena, sem enfeites/maquiagens. Especialmente, das biografias de self-made-men, que em nosso meio são as que mais há. Somos um povo em construção e famílias humildes geram pessoas ilustres, que se orgulham da orígem.  

“Passo a Passo dos caminhos que trilhei” conta a vida do cidadão Hélio de Souza Oliveira, viúvo fresquinho, de 80 anos e que tem aura de 35. Ele é o esposo de Salete Nascimento, viúva de muito, madura, mas de coração adolescente. Foi como uma paixão jovem que os arrebatou há apenas três anos.

Que mulher abençoada, Salete! Sou seu amigo e me assustei quando soube que um gavião a sobrevoava. Então ele pousou perto de mim. E veio zambeiro andando na minha direção. Então fiquei esperto. Nada havia de predador, recendia simpatia contagiante. Um homem valoroso, ganhei um amigão. 

Salete é poetisa consagrada e carrega o título de Rainha do Cordel Sergipano. Hélio é filho de militar que lutou (quase lutou) na Segunda Guerra Mundial, salvou malafogados e nos deu conta de cada navio brasileiro afundado pelos alemães, o que me levou a querer brigar também. Hélio nasceu em Estância e morou pelos quarteis desse Brasil continental. Foi jogador de futebol, tecelão em Estância, desempregado, migrou (já casado na primeira união) para o Rio de Janeiro. Destino dos jovens na época. Trabalhou como montador de bicicleta, biqueiro em oficinas mecânicas, procurou incansável melhor colocação... Foi para Volta Redonda e entrou na CSN, após morgar nas empreiteiras. Fez carreira, destacou-se.

Até o primeiro sogro, que nunca aprovou o casamento, trouxe de Estância com a família para trabalhar na CSN. 

Convidado pela Usiba, Hélio  botou em ordem setores carentes.

Criou a família (há pastores e doutores), aposentou-se, mas  não parou a labuta. Foi dono de bar, teve escolas de cabeleleiros, geriu o salão de beleza (sócio com a primeira esposa )...

Ficou viúvo e a solidão o pegou em cheio. Os filhos independentes e ele se sentindo um acessório gasto. 

Descobriu Salete (Deus sabe como) no Sergipe longínquo, na sua Estância saudosa, em um passeio. Armadilha do destino. 

Como conquistar a escritora famosa?

Entraram os netos dela, os amigos alcoviteiros, o mundo inteiro se moveu a favor. 

Casaram de papel passado, em segredo, logo que puderam se encontrar sozinhos. 

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Hélio encantou-se com atividade intensa da esposa, que cantava poesia no país inteiro.

Ele, que sempre fora cantor e descobriu, surpreso, que era poeta e cronista, para a alegria maior dos dois. Seguiu os passos da esposa nas festas literárias, acompanhou Domingos Pascoal (o semeador de academias) nas peregrinações.

Hoje Hélio pertence a academias de letras e publica seu primeiro livro. “Passo a Passo...” me emocionou em cada revelação. E me fez sorri satisfeito quando me vi na história um pouquinho, nesta fase atual. Como é fácil gerar simpatia! Não custa nada e ainda rende inestimáveis bônus. Hélio e Salete são mestres nesta arte. 

Aracaju, 15 de novembro de 2021, Antônio FJ Saracura (ainda no restinho da pandemia do Corona)


CÃO NA MOITA, Jackson da Silva Lima

 

CÃO NA MOITA, Jackson da Silva Lima, 1997, 2 edição, J. Andrade, 134 páginas



Assim como "Manobelo e Outras Narrativas",  "Cão na Moita" dificilmente será achado em sebo ou livraria. Talvez em alguma biblioteca pública, que hoje mais parecem cemitérios de indigentes, com tampas das carneiras abertas e defuntos sumidos. 

Com certeza, os dois livros estão no meu oratório literário na companhia de poderosos santos, como eles são. 

Chegaram a mim por milagre. Fui visitar, cheio de cerimônia, o grande Jackson da Silva Lima em seu centro de pesquisas. Após uma hora ou mais de boa conversa, já na saída, ele me mandou esperar um pouquinho e sumiu nas galerias de sua Epifânio imaginária. Retornou com alguns livrinhos do mesmo tamanho, sentou-se à mesa e escreveu dedicatórias. Em 27 de junho de 2013. Achou que eu seria bom guardião das joias e me deu mais três exemplares de "Monobelo..." e  de "Cão na Moita", que já passei também a outros  guardiões com gosto para sorver o raro mel silvestre.

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“Cão na Moita” é composto assim:

DE NOITE, NO OITÃO DA IGREJA (I – de quarta para quinta; II – no outro dia, às mesmas horas; III – Entre ambos os dois; IV – Conversa de Pé do Ouvido; V – Quatro dias depois; VI – Na semana seguinte).

UMA VELA A DEUS E OUTRA AO DIABO (I – As duas velas ac essas; II – Abrahão e os remorsos de Davi; III – O sentido no cão e o olho na trouxa).

ENQUANTO O CÃO ESFREGA O OLHO (I – Padre Simão e as artes de Zé de Nanã; II – Matos Além; III – O Bezerrinho santo).

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A xarope feito com pintinho pilado e que serve para curar sezão; a raiz misteriosa que era lombriga seca; o chá de barata nova para falta de ar; a galinha mal cozida com pena e tudo que espuma na boca querendo fugir;  os contadores de histórias absurdas rebatidos por outros ainda maiores; o cisco que caiu nos meus zóio; a bezerrinha alazã que se encantou; o gato preto que era Zé de Nanã... (mezinhas milagrosas, momentos antológicos, poderes do Cão tinhoso).  

Marieta, Janjão raizeiro, Zé de Nanã, Pepeu, Frei Inocêncio, Currupião, padre Simão safado, seu Chiquinho da Venda, dona Santinha, Coronel Zé Raimundo, Chico Lino, Sinhá Dinha.... (personagens inolvidáveis do passado glorioso e  da malandragem de hoje).

Frechas, pêga, presepada, bicanca, se avultar, loroteiro (é o que não falta), maçone... (adjetivos singulares, verbos poderosos  e substantivos cabeludos).

“Cão na Moita” é  um grande livro dentro de um vidrinho do tamanho de nada, próprio para venenos mortais ou perfumes fatais. São 133 páginas de saber literário, nas quais corre o sangue autêntico e tosco de nosso povo simples, com suas superstições, jeito de dizer, manias de ser, ditos, histórias de arrepiar.

E o sanfoneiro, velho Piruá, mesmo com risco de vida na mão de Lampião, teve sangue frio para cantar a glosa: “Com  vara, ferrão e tudo"

 

“Valha-me a Providência

Com o seu poder sublime

Que eu vou comentar um crime

Perante tanta inocência,

Mas a voz da consciência

Me revelou o estudo:

(...) 

Garote brabo e chifrudo

na solta livre criado 

só pode ser enfrentado

Com vara, ferrão e tudo" (1)


Olhando assim, parece ao autor (pela boca do narrador) e ao leitor abismado (que sempre é) que “a cabeça do cantador de repente é uma olaria fina cheia de fôrma desempenada. Todo verso tem sua forminha certa. Na hora da cantoria, o repentista pega uma palavra e vai juntando com outra, faz a mistura, passa na peneira do juízo, já o fogo da inspiração aceso, joga a massa apurada na fôrma e põe no forno do improviso para cozinhar obra. Num momento, a danada da rima tá no ponto. É só abrir a boca e o verso voa quente, aprumado. Sai prontinho da ideia e vai bater na plateia ansiosa”.

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Junto com Jackson da Silva Lima (que o faz na última página) agradecemos a Gilson Resende, de Itabaiana, e a Maria José Nascimento, de Ribeirópolis, eles deram ao livro, com seus depoimentos, a música do falar do povo da Terra Vermelha (minha referência guardada da infância).

Vou concluir pela voz do genial Luiz Antônio Barreto, registrada na orelha do livro.

“O Cão na Moita”, de Jackson da Silva Lima, é um livro de contos da nova literatura brasileira, um autor já galardoado como inventariante da arte literária sergipana, do folclore, e como intérprete de notáveis figuras. Os poetas José Sampaio e Santo Souza e os pensadores, Fausto Cardoso e Tobias Barreto”.

 

Aracaju, 15 de novembro de 2021 (ainda na Pandemia, no restinho), por Antônio Saracura.

(1) O quarteto  final  do repente de Piruá (que ele me perdoe) foi reescrito por mim para não conspurcar a  angelical pureza do ambiente acadêmico". 

domingo, 7 de novembro de 2021

RIMAS CALADAS, Lili Ferreir

 

RIMAS CALADAS, Lili Ferreira, (Eliliane Santos Ferreira), um livrinho de cordel com 12 páginas e 24 estrofes apenas, editado pela Datagraph, em março de 2020.

Depois do pico do Corona vírus pico (que me derrubou de jeito) tenho me acordado mais tarde. Algumas noites, só durmo nocauteado pelo pugilista mister Zolpidem, melhor o nocaute do que rolar a noite toda implorando um carocinho de sono. Melhor o dia seguinte irritado do que zonzo.

***

Corri ao computador, precisava aproveitar o dia, já eram sete da manhã. Avançar um pouco na leitura livro de Paulina Chiziane, escritora moçambicana que arrebatou o prêmio Camões de 2021,  consertar as crônicas que escrevera ao correr dos dedos trôpegos sobre a Feira do Livro de Itabaiana, inventada para não esquecermos da Bienal, que o Covid-19 impediu de acontecer. 

Entre a papelada mal arrumada na escrivaninha (agora também relaxei na organização de roças de lavoura ) bati-me com um livrinho de cordel. Como chegara a mm? E lembrei do lote de vinte e tantos livros que trouxe da Feira, fruto de permuta que faço (muitos aceitam) em todo evento literário com autores presentes. É um modo de ser lido; de fazer circular o sangue das letras antes que talhe de vez. “Rimas Caladas”, o título do livrinho, é de autoria de Lili Ferreira, Eliliane Santos Ferreira, nascida em 1994, em Campo do Brito e formada em letras pela Ufs Itabaiana e especialista em Clarice Lispector, que, agora, não me recordava da fisionomia. 

Folhei-o, achei simpático e mudei meu plano inicial. Mudar planos é também moda adquirida nessa fase triste de fuga inútil do vírus invisível e fatal. 

Comecei a ler o cordel de Eliliane...

Aqui e acolá, alguma destoava o tom e a métrica flutuava entre os sete e os oito tum-tum, mas trama escorria bem. Repreendi meu purismo besta, escondi o diapasão que me habita afinado com os padrões do cordel desde que me avô, na longínqua infância, cantava versos como quem bate malho na bigorna moldando foices. Então achei que todos os versos do mundo tinham sete sílabas, e toda rima, até da minha bruta prosa, deslizava macia. Meus filtros abriram as pernas e sentiam prazer. Trataram de ajustar os tons e sincopar ou suprimir as marcações do surdo para que o rio fosse de planície. Palavras nem precisam ser tão compridas ou pronunciadas inteiras. O contexto é quem melhor revela a trama.

Comi as doze páginas e compartilhei o sentimento  de angústia, dor, medo, sofrimento e horror... Entendi o aviso dos filmes de terror, de que os eram versos fortes que iriam me assombrar.

Concluo esta resenha, declamando, como meu avô Totonho fazia no bastieiro do sobrado de cedro cheiroso nas Flechas de minha infância:

Belas ou donas do lar / Acordem! Acabou o tempo / de domínio e submissão. / Agora o lugar de mulher / é onde ela quiser / pois tem determinação.

Somos sensíveis, ferozes... / depende da ocasião. / Graciosas como a pluma / ou bravas como o leão / expomos o sentimento... Queremos reconhecimento: / igualdade, liberdade e união”.

(Aracaju,07 de novembro de 2021, Antônio FJ Saracura.

Post Scriptum:

No mesmo ninho esfoliado, achei outro livrinho de LILI: “Por Baixo dos Panos”, que aborda a discriminação em geral e pede para se respeitar as diferenças e não as tratar como se fosse doença.