domingo, 16 de setembro de 2018

VALIDANDO IDEIAS, Domingos Pascoal de Melo



VALIDANDO IDEIAS, Domingos Pascoal de Melo, Aracaju, Infographics, 2017, 186 páginas, isbn 9 78.859.476. 098.2



Sou amigo íntimo de escritores espalhados pelo mundo. A maioria nem vive mais na terra. Confabulo com os personagens de suas tramas, fecho a cara para os maus e abro-me com os bons. Saio das obras e converso com os autores: conto-lhes meus sonhos, eles riem. Vibro quando os encontro nas livrarias ou assisto a filmes baseados em suas obras. Ao escutar alguém falar deles, curto um silêncio de glória, minha voz embarga. Lamento não os ter em meu mundo real, desfrutar o ar que os fez criar obras maravilhosas.
Lamento mas me contento. Contento-me porque, aqui em meu mundo, há também monstros que me encantam. Domingos Pascoal de Melo é um deles. 


E tenho a sorte de conviver intensamente com este incansável semeador de academias de letras. Sou seu acólito atento nessa semeadura. Conheço momentos de sua vida, desde a origem humilde nos cafundós do Ceará até a luta de hoje em meu ingrato Sergipe. O que fazer nas estradas longas para mantê-lo acordado ao volante, se não o instigar a contar-me suas aventuras, que dão mil romances?
Escuto suas palestras, leio seus livros, os artigos nos jornais, as crônicas nas revistas...

Gostaria de ler muito mais, como os prefácios espalhados em obras de autores que lhes pediram um. Mas é uma missão quase impossível, são tantos livros espalhados que nem os autores sabem mais o paradeiro.

Agora ninguém mais precisa buscar muitos livros para saborear os prefácios de Domingos Pascoal de Melo. Basta este livro! Aqui, eles revelam a nobreza do semeador de academias e dão boa notícia a respeito das obras que Pascoal recomendou e que circulam por aí.

O livro contém 29 crônicas (ou ensaios literários) tratando de livros publicados e que coube a Pascoal escrever o prefácio, conforme já explicitei. 
Começa com o bom “Ecos de Lagarto e sua Gente”, passa pela “A Magia de Conta Histórias” de Antenor Aguiar, “Um voo sobre Frei Paulo”, de Carlos Magno Andrade, e muitos outros.

(O texto acima compôs a contracapa do livro citado).

(Aracaju,17 de setembro de 2017)

domingo, 9 de setembro de 2018

O LIVRO BRANCO DA FOTOGRAFIA, Robério Santos


O LIVRO BRANCO DA FOTOGRAFIA, Robério Santos,






(Por Adail Vilela, publicada no facebook em 09nov2013. Peço a devida licença ao autor para me deixar guardar sua bela crônica aqui junto com as que escrevo sobre livros lidos).




Fosse minha intenção apresentar, resenhar ou discutir mais uma obra de Robério Santos poderia perfeitamente cumprir tal objetivo reproduzindo a Apresentação do livro, da autoria de José de Almeida Bispo. Acreditem, é uma obra em si. Para quem só acredita vendo (ou lendo) segue um trecho: “(...) cada imagem desta aqui exposta (...), convido o leitor ou leitora a bem observá-las; porque nem sempre é possível exprimir-lhes a grandeza através das palavras. As imagens estão postas; seus sentimentos são quem vão nortear a sua interpretação delas.” Então?

Minha modesta pretensão é só prestigiar mais um exemplar da literatura sergipana, demonstrando, como tanto insiste Saracura, por exemplo, que o autor merece uma leitura e, sempre que possível, um retorno, uma opinião sincera, um gesto de alteridade.

Não por acaso o livro de Robério tem por epígrafe o icônico Robert Capa e a dedicatória a Teixeirinha, Percílio Andrade e Joãozinho Retratista; quem conhece o autor sabe que se trata de um apaixonado pela Fotografia, e grafo em maiúscula porque é neste sentido de Arte que estamos nos referindo. Para que as imagens publicadas tenham a importância atribuída pelo autor dimensionadas, basta dizer que ele delimitou dez anos de atividade (2002/2012), avaliou quase 20.000 fotos de sua autoria e selecionou 58, associando cada uma a um comentário.

Posso estar enganado, mas esta brutal seleção, com seu resultado (amostra correspondente a menos de três milésimos do universo original), remete ao título, o qual me pareceu uma referência ao famosíssimo Álbum dos Beatles. E, comparando as duas capas (do Álbum e deste livro) enxergo também uma crítica cultural literalmente emblemática, bem como um posicionamento ético denunciador das desigualdades sociais. É a minha opinião...
Voltando ao livro, um detalhe que me chamou muito a atenção é que todas as fotos são nomeadas e datadas: é preciso que o Fotógrafo seja também um Professor, para ter este senso de agente histórico. 

O futuro agradece.

A minha imagem preferida (todos terão a sua, claro) é “Juventude”. Além do desafio técnico de fotografar todas as 16 crianças em pleno ar, a imagem para mim refletiu o atendimento dos clicados a um desafio maior, bem como a confiança tanto em suas capacidades quanto no guia (o Fotógrafo). Sensacional.

Ah, adorei rever o Saracura. Será que ele também adorou o título da foto em que é co-protagonista (Tabaréus)?... Acredito que todos saibam, mas não custa relembrar que o livro (por enquanto) mais conhecido de Antônio Francisco de Jesus, o Saracura, é TABARÉUS DO SÍTIO SARACURA. O nome da foto, portanto, pode conter uma referência literária, uma homenagem, uma brincadeira, ou tudo junto... em uma só palavra!

Na foto do “Tremendão da Serra”, eu pensando que o autor destacaria a cebola, mas ele salienta o Beto Silveira... Estes comentários singelos são apenas para que o leitor vislumbre a riqueza do conteúdo à sua disposição... maiores informações, IN LOCO (lendo o livro).

(Adail, Vilela de Almeida, Em 09/09/2013)             
                              
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Saracura respondeu à crônica de Adail no facebook, na época:   
Adail, você tem o fôlego de sete gatos e a energia de Paulo Afonso, Xingó e de cinquenta saracuras.
Sinto o facebook muito mais interessante, com suas publicações sobre literatura.

Os livros publicados, os nossos livros ignorados pela mídia, esnobados pelos leitores da moda, menosprezados pelos nichos pedantes estão parecendo agora com os americanos que a Veja e nossa mídia anunciam nas suas colunas nobres.

Apenas um cidadão (você) com poucas publicações (essas resenhas) já mudou o clima para melhor.
Nós que escrevemos, damos vivas, porque alguém tem o que dizer sobre os livros que vem sendo publicados. Alguém (mais alguém) está quebrando a indiferença absurda, o ouvido de mouco que tanto magoa quem publica: Adail Vilela de Almeida, Robério Santos e todos que transitam por essa estrada.
(Por Antônio Saracura, em 09/09/2013)


domingo, 2 de setembro de 2018

COISAS DA VIDA, Luiz Carlos Andrade


COISAS DA VIDA, Luiz Carlos Andrade, editora Infographics, 2018, 148 páginas, isbn: 978-85-9476-146-0


(Resenha de prefácio)

Iracema, sua mãe, é filha de Felismino, que é filho de Nanã, que é filha de João José de Oliveira, um patriarca quase bíblico, que chegou ao Brasil em meados do século dezenove. De Itaporanga, foi à São Cristóvão, semeou-se em Estância e, por fim, instalou-se numa aldeia de índios mansos e redondos, em Itabaiana. Plantou a nação dos ferreiros, que, além de Oliveira, carrega brasões de Pereira, Santos, Andrade, Monteiro, Teixeira, Machado e outros que se agregaram por uniões ou apenas por gosto.

Os Ferreiros!

Trabalhadores incansáveis, artistas do ferro, do fogo e do ar. Um povo alegre e cheio de histórias espetaculares. Os antepassados passavam os dias na lida árdua das forjas, das malhadas, nas soltas de gado, nas oficinas de arte... E, nas bocas de noite, sentavam-se à luz do candeeiro ou da lua, contavam histórias de seus maiores e dos próprios feitos. Ulisses e Homero concomitantes.

E hoje, seguimos o mesmo rumo. Trabalhamos em consultórios médicos, em salas de aula, em bolsas de valores, em laboratórios, em fábricas de softwares... E quando surge uma brechinha, contamos histórias de nossa gente em livros e nas redes sociais. O mundo mudou, informatizou-se. Ninguém tem tempo de falar nem de ouvir.

Que leia então!

E que leia este livro, o segundo de autoria do médico Luiz Carlos Andrade. Crônicas do dia a dia, do duro passado e de muito mais. Elas trazem a sisudez respeitosa e a suspeita. Pureza aqui e malvadeza ali. Sérias, irônicas, mordazes. Minam humor. Gargalhadas pela graça. Lágrimas pela emoção. Tudo junto em uma prosa fácil de ler, fácil de entender, fácil de gostar.

São momentos de uma Itabaiana povoada de heróis e anti heróis (todos festejados do mesmo jeito): A micareta e suas figuras inoxidáveis, o guaxinim Fefi caracterizado de mágico e dono de uma fábrica de tentação, o desbragado Maceta de Zé Bigodinho que bebeu todas e aprontou o imponderável: viveu um nadinha mas intensamente.

Mergulho nos sonhos da criança pobre que tenta participar da cerimônia do lava pés até perceber que a fila o faria rapaz antes; quer que papai Noel coloque o presente de Natal na sandália de sola. Dupla perda de tempo, se bem que um doce sonho.

Aprendizado em feitiçaria que todo menino precisa ter para jamais temer despachos em encruzilhadas. Placas trocadas colocam em parafuso o Murilo Braga, e os mortos enterrados no Cemitério das Almas. Ao retornarem da ronda da madrugada pela cidade, encontram seus leitos cheirando a outro defunto. Era a véspera de um dia de Finados conturbado!

Nem a mãe, Iracema, nem o tio Daniel (o maior tribuno da família), nem o avô Felismino para segurar a mão. A serpente pisca o olho com malícia. Depois, vem Maceta, agente da Policia Federal, para o resgatar do paraíso do prazer: Boate Bambu.
E esse professor Rivas, magro como um palito de coqueiro e elegante como um arcebispo em missa solene? Voz nasalada, fanhosa e molhada; ao falar emite gotas de orvalho para todos os lados. Gepeto pediu um formão afiado a Collodi e traçou o professor tão bem que parece real.
O velho gavião fareja carne, levanta voo, vai a caça. Ou se não vai, ela é trazida por amigos que irrompem ao consultório causando transtorno: A Mulher do Shopping, O Feitiço Saiu pela Culatra, A garçonete Zipper.
Luzes são acendidas sobre Felismino, Iracema e os filhos que nascem. Claridade bastante para penetrar nas carnes e pecados, nas almas e santidades. Como médico cirurgião criterioso, disseca cada célula; como psicólogo dedicado, bota sentimentos pelo avesso. Crônicas que valem um romance. Que me fizeram chorar e que me encheram de orgulho por ser também um Ferreiro da Matapoã, que penso que sou. Preciso repetir os títulos? Felismino Fogueteiro, Iracema de Felismino, o Primeiro Filho e os Últimos Dias. Não me custa nada. Para você querer ler! Para você nunca mais esquecer!

(Aracaju, junho de 2018, Antônio FJ Saracura, escritor, das academias Itabaianense e Sergipana de Letras).



terça-feira, 1 de maio de 2018

A TORRE DA MATRIZ E OUTRAS HISTÓRIAS, João Paulo Araújo de Carvalho



A TORRE DA MATRIZ E OUTRAS HISTÓRIAS, João Paulo Araújo de Carvalho,2018, 420 páginas, ilustradas, Infographics, isbn 978-855-551-24525

Sobre um povo abençoado



Com tanta história esquecida aqui, correndo o risco de se perder definitivamente, por que nossos historiadores pesquisam as façanhas de Preste João, imperador da Etiópia e descendente do rei mago, Baltazar?

Sergipe, Itabaiana, Dores, Terra Vermelha, Bravo Urubu, Massaranduba, Borda da Mata, Gado Bravo, a sombra dos Enforcados, a Torre da Igreja Matriz, a cruz seca que nasce na encosta íngreme, a batina cerzida do vigário, a imagem remendada de nossa senhora...

Cada um desses temas pode gastar a vida inteira de um historiador e será bem gasta, mesmo que não esgote o assunto, que gere apenas pacotes de documentos ao historiador que um dia virá.

Eu falei acima em Torre da Igreja Matriz...

Esse é o título (apenas parte dele) do novo livro de João Paulo de Araújo Carvalho, historiador de mão cheia. Com a língua presa, jeito manso e ar sonso, ele possui garras de toupeira. Vara o centro da terra onde a magma ferve, se desconfiar que lá habita algum sinal de seu povo.

Nossa Senhora das Dores (Vila dos Enforcados) é o campo onde João Paulo deita e rola, desde muito, até antes do espetacular Memória, Patrimônio e Identidade (2012), e mesmo antes da “Freguesia de Nossa Senhora das Dores, 150 anos de história e devoção” (2008) que este, agora, expande e aprofunda...

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João Paulo mandou-me um calhamaço virtual e eu retirei o véu, descasquei a primeira palha. Pra que? Nunca imaginei que havia tantos caroços nessa espiga de milho, nesse milharal a perder de vista. Pela cor, milho maduro. Na verdade, ouro puro. A história de um povo religioso, que eu nem sabia que fosse tanto. Escrita sem subterfúgios, com segurança, justificando cada rito, contextualizando-o à doutrina cristã e à história da humanidade.

João vasculhou os arquivos, entrevistou as pessoas sábias que viram o passado. Cavoucou cemitérios, leu lápides, examinou imagens de santos e as marcas que a história deixou nelas. Desvendou a alma de Itapicuru, Bravo Urubu, Sapé, Cajueiro, Borda da Mata, Massaranduba, Gado Bravo, Taborda... Não se limitou a narrar o mundo da atual fé de seu povo, foi às raízes: ao Deus de Abrahão, aos profetas do Velho Testamento, aos teóricos da doutrina, aos vigários que cuidaram da plantinha tenra. Mostrou-nos a personalidade de um povo bravo que enfrentou e venceu adversidades: o enforcamento de seus maiores, secas terríveis dos três sete, cólera, malária, a impiedosa febre amarela...

Resgatou dados tidos como perdidos e construiu um texto rico em depoimentos. Quando descreveu as festas, foi à origem pagã: Quaresmas, Sextas-feiras da Paixão, Semana Santa, Matracas, Lamentações, Penitentes... Quando invocou santos padroeiros, contou-nos a vida exemplar que levaram e os milagres que fizeram.

Revelou nomes de pessoas que fez e faz do povo dorense um povo singular: Padre Fenelon da Costa, monsenhor Marinho, Monsenhor José Curvelo, padre Joselito Santana, Ioiô de Dominguinhos, Ariston Azevedo, Pajaú do Madeiro, José Lima Santana, Manoel Cardoso...

A Torre da Matriz & Outras Histórias é um livro denso. Apenas outro livro, talvez mais denso ainda, poderia dissecá-lo adequadamente. Uma lauda não dá conta da dimensão dessa torre, dos templos espalhados nos povoados, das irmandades, dos rezadores, benzedeiras e parteiras, das botijas, da cultura popular, da memória e religiosidade, dos natais de outrora, do vandalismo, dos cangaceiros fugindo assombrados... Não dá conta do valor dessa respeitável obra sobre um povo místico, abençoado.


(Aracaju, 28 de janeiro de 2018, da pré-leitura solicitada pelo autor)






domingo, 4 de março de 2018

A morte de um grande jornalista: Clarêncio Martins Fontes


A morte de um grande jornalista


Atrasei a cota que depositava todo mês para ajudar Clarêncio Martins Fontes no pagamento do aluguel da casa humilde onde morava. E ele não me ligou reclamando, como costumava e não atendeu meu telefonema, no qual pretendia me desculpar pelo atraso.

Clarêncio morava em uma casa deteriorada na rua Carlos Burlamarqui, no trecho ocupado por revendas de automóveis e que morre, mindinho, na avenida Coelho e Campos. Um local complicado para estacionar.

Aproveitei a terça-feira de carnaval e fui saber o porquê do silêncio do jornalista. Certamente não faltariam vagas para estacionar, já era comecinho da noite de um feriado.

A casa de Clarêncio estava fechada como de costume. Havia um  casal, na calçada da casa vizinha conversando. Cumprimentei-o e perguntei se o jornalista Clarêncio estaria em casa. É que a luz da sala da frente da casa dele não estava acesa, como de costume.

O senhor, que presumi ser o dono da casa vizinha, disse-me que o jornalista havia falecido mais ou menos às duas da tarde e o seu corpo acabara de sair ao IML. 

O casal,então, passou a narrar o sufoco por que passou naquela tarde, envolvido pela morte do vizinho:

“A esposa do jornalista, que parece ter problemas mentais, saiu à rua pedindo socorro, por volta da duas da tarde, queria uma ajuda para levantar o marido do leito. Nós estávamos à porta e nem pudemos escapar, ela postou-se à nossa frente. E trazia na mão um papel onde estava escrito um número de telefone de outro Estado. Mas incompleto, com apenas quatro dígitos. E queria que ligássemos... E alguém viria socorrer o marido.
Resolvemos ver o que acontecia dentro da casa misteriosa.
O jornalista e a esposa não se relacionavam nem conosco nem com os demais vizinhos. Sempre ele saía pela manhã e retornava depois de meio-dia com pacotes, jornais e livros. Sabíamos que era um intelectual de renome. Sempre apareciam crônicas com sua assinatura nos jornais. E a casa, víamos de relance ao passarmos em frente, era atulhada de livros e revistas. A esposa vivia presa, embaixo de chave, atendia às raras visitas através da grade do portão de ferro.

Desconfiávamos que ele poderia estar enfermo, não o víamos sair nos últimos quinze dias. Um senhor que mora mais adiante na rua, a dois trechos, um serviçal faz-tudo a todos, talvez o único com quem o jornalista se relacionava regularmente, vinha toda pela com uma penca de bananas e a fazia passar pelas grades do portão de ferro. O casal devia estar se alimentando, ultimamente, disso.
Entramos na casa entulhada de livros.

O jornalista jazia em um catre, morto.

A esposa entendia a gravidade da situação. Fora da realidade, não dizia nada com nada. Suas respostas não batiam com as perguntas que agoniados fazíamos.

O que fazer?

Nada conhecíamos parentes, pouco sabíamos até do casal que habitava na casa vizinha há mais de dois anos...

Encontramos uma agenda jogada sobre um monte de livros e ligamos para números, mas nenhum atendeu. 

Havia junto, um carnê da Osaf e, pelo que observamos, com prestações em atraso.

Resolvemos chamar o Samu, mesmo sabendo que o jornalista estava morto. Íamos ligar ao 190 da polícia, mas uma viatura passava na rua. Demos a mão, gritamos, corremos impedindo que fosse embora.

Ai então, lembramos do faz-tudo da rua, o que morava dois trechos à frente. Ainda bem! Ele sabia o número do telefone de uma sobrinha do jornalista. Ligamos, avisando do ocorrido. Daí a pouco, chegaram a sobrinha, chamada Helena, e uma irmã, chamada Mabel: surpresas, assustadas.

Nem o Samu tinha o que fazer, nem a polícia, mas esta ficou conosco até agora há pouco.

O comandante da patrulha policial definiu que o corpo do jornalista seria guardado no Iml por não haver outro local possível. A família iria, no dia seguinte, resgatar o corpo e cuidar das burocracias, do velório e do sepultamento.

E a esposa de juízo fraco?

Alguém teria que ficar com ela.
Todos olharam para a irmã, dona Mabel. Ela recuou e disse que não podia hospedá-la em sua casa nem um dia. Por fim, não houve alternativa e a viúva foi com a cunhada mesmo”.

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Eu escutei tudo e liguei a Cleiber Vieira, presidente da Associação Sergipana de Imprensa, ASI, para decidirmos o que melhor fazer em apoio à família. Ele atendeu ao telefonema, estava enfermo e não possuía contatos da família de Clarêncio. Iria localizar a secretária que estava no interior gozando a folga do carnaval.

O vizinho que me contou a história não reteve o contato e, na agonia do momento, nem me lembrei de procurar o faz-tudo do trecho...

Liguei a pessoas que eu sabia mais próximas do jornalista avisando da morte. Poucos atenderam, todos estavam viajando ou impedidos por algum motivo.

Postei mensagem nas redes sociais.

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No dia seguinte, Quarta-feira de Cinzas, por volta da dez horas, como ainda não localizáramos a família, fui ao Iml. O corpo estava lá, liberado, mas ninguém havia ido buscar. Apenas a família podia retirá-lo.

Fui então à Osaf, seguindo o carnê em atraso. Na secretaria, me informaram que alguém estava vendo o assunto Clarêncio no setor de Assistência Funeral. Ao correr ao setor, vi duas senhoras saindo, caminhavam em direção a um carro estacionado no outro lado da rua. Fui atrás e perguntei se eram gente de Clarêncio. Eram. A sobrinha, Helena, e a irmã, Mabel. Já haviam se acertado com a Osaf: o enterro seria à tarde no São João Batista. Estavam indo ao cartório registrar o óbito. Iriam ao IML, depois, retirar o corpo. Não precisavam de minha ajuda. Me ligariam informando a hora do enterro, para que eu avisasse aos amigos e colegas dele. 

Participei ao presidente da ASI e postei a informação nas redes sociais.

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Às três horas, a sobrinha, Helena, me informou que o enterro seria as 16 horas. Passei a informação em frente.

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As quatro horas, chegou o carro da Osaf ao São João Batista com o corpo de Clarêncio. O enterro foi feito sem delongas. Estavam presentes, cerca de oito pessoa da família e quatro jornalistas da ASI e da Academia Sergipana de Letras.

Na saída do cemitério, ao portão, fiquei próximo a Mabel, a irmã de Clarêncio que conheci pela manhã na OSAF. Perguntei pela viúva. Ela, com a voz trêmula, disse:

“Está lá em casa, mas eu não tenho condição nenhuma de hospedá-la. Telefonei para um parente dela em Salvador, pedindo que venha buscá-la logo. Estou com medo de não vir”.

Desatou a chorar.

Xxx

Na missa de sétimo dia, a igreja do Salesiano estava lotada. Eram várias intenções, mortos de numerosas famílias. O nome de Clarêncio foi lido pelo sacristão ao final de uma lista longa; pensei que nem seria mais. Mesmo assim, estavam presentes, membros da Academia Sergipana de Letras, da Associação Sergipana de Imprensa (ao todo, quatro pessoas) e uma quantidade significativa de parentes (irmãs, sobrinhos e amigos da família e do jornalista; calculei que doze pessoas).

Ao final da missa, fui ao banco onde estava o povo de Clarêncio, bem à frente, o primeiro banco do átrio. Mabel já me conhecia desde o dia do sepultamento e me apresentou à outra irmã, sentada ao lado, que eu ainda não vira. Ambas idosas, acredito acima dos setenta, maltratadas pela vida ingrata mas ainda deixando transparecer uma beleza ariana admirável. Mabel e a irmã falaram, ao mesmo tempo, talvez querendo conquistar minha admiração ou mostrarem-se valiosas:

“Nós duas somos poetisas também. Saímos ao nosso pai e ao nosso irmão!”.

Eu não soube o que dizer, não podia turvar o orgulho declarado. Fiquei, um momento, atônito, e, por fim, não achando nada a comentar, perguntei pela cunhada, a esposa de Clarêncio, à qual Mabel acolhera e me confessara, sete dias atrás, que não teria nenhuma condição de sequer hospedá-la. 

Mabel olhou-me com dois olhos claros, marejados de aflição:

“Está lá em casa ainda. Deus me ajude! A família dela não deu notícia. Não sei o que será de mim e nem da pobre coitada que se imagina uma rica princesa”.

Baixou a cabeça chorando.

(por Antônio FJ Saracura, admirador do jornalista Clarêncio M Fontes).

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Post Script:


CLARÊNCIO FAZIA PANEGÍRICOS A TANTOS E MORREU ABANDONADO
 (Jornalista Luiz Eduardo Costa, no blog, em 17/02/2018: 



Clarêncio Fontes era filho de poeta, o modernista acanhado José Maria Fontes. O pai, foi um homem descuidado com ele mesmo. Excêntrico e ensimesmado, passou anos e anos encafuado na sua casa humilde, quase nas areias do Carro Quebrado, onde acabava a Rua de Lagarto. Com mulher e filhos, abandonava-se à solidão, partilhada com as centenas de rãs que tinha soltas pela casa e também delas se alimentava. Clarêncio criou-se ali, vendo o pai acumulando livros, muitas vezes lendo-os à luz do poste, quando a energia era cortada. Mas Zé Maria tinha a segurança, pelo menos de um modesto emprego público. Clarêncio, seu filho, foi também poeta, herdou os livros do pai, (existiria melhor herança?) a eles acrescentou tantos outros e colecionava papéis, revistas, jornais, futucava arquivos, hemerotecas, bibliotecas. E escrevia bem. Embora preferisse o estilo barroco. Esse acervo, que era também estorvo, o acompanhou na sua decadência.
  Clarêncio nunca teve emprego certo. Foi algumas vezes redator em jornais e emissoras de rádio, mas o álcool o tornava inconstante e logo perdia os meios de sustento. Levou uma vida de sacrifícios e carências. Foi encontrado morto, já tardiamente, enquanto sua esposa doente ao lado nada podia fazer. Ao seu enterro compareceram 4 pessoas, entre elas o escritor Saracura. Morreu silenciosa e humildemente, como silenciosa e humilde foi a sua vida. Fez panegíricos a tantos e todos o deixaram abandonado.
  Registre-se aqui, ressalvadas possíveis omissões, que teve amigos como Kleiber Vieira, o procurador Givaldo Rosa, tantos outros na Academia de Letras, que por vezes o socorriam. Mas, a Clarêncio teria faltado alguma coisa, assim como, sei lá, quem sabe sobre a alma humana, sobre essa coisa chamada destino...
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Enéas 4 de março de 2018 17:23 email Para: Antônio Francisco de Jesus Saracura 
"Caro Saracura:

Que tristeza, meu caro! Que final triste para um jornalista e intelectual de tanto talento! Só falei com ele duas vezes mas o tinha como um amigo. Também trocamos algumas cartas. Lamentei muito, muito, muito. Ainda mais pela forma melancólica como faleceu e tudo que veio depois. Meus parabéns pela sua solidariedade! É por ela que se mede um homem. Pensarei nele, recordando-o, pois, como disse alguém, as pessoas não morrem enquanto são lembradas. Que descanse em paz o bom amigo! Grande abraço do ENÉAS ATHANÁZIO, escritor catarinense (Camboriu). 


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A SÉTIMA VEZ, Alina Paim

A SÉTIMA VEZ, Alina Paim, (...)


Alina nasceu em Estância e morou até os dez anos em Simão Dias, com parentes. Depois foi para a Bahia, Salvador, onde viveu. Morou no Mato Grosso e Rio de Janeiro.
Livros:
Simão Dias (1949) – Infância sofrida.
Sombra do Patriarca (1950) – Vida no campo, senhores de engenhos.
A Hora Próxima (1954)- A participação de mulher uma greve da rede ferroviária.
Sol do Meio Dia (1962) - Aventuras e desventuras de um jovem de Paripiranga no Rio de Janeiro.

(série infantil):
Lenço Encantado
A Casa da Coruja Verde
Luz Bela vestida de Cigana
A Chave do Mundo
O Círculo


(Mais romances)
Flor de Algodão (1966)
A Correnteza (1979)  - População das cidades tentando sobreviver.
A Sétima Vez  (  ) – O velho Teodoro com 67snod tem que voltar a trabalhar. 

(Página 7)

“Vem-se a ânsia pueril tornar-me invisível, um presente sem perigo, capaz de varar paredes, penetrar em conferências de poderosos do governo ou da Firma, de tudo ficar conhecendo sem o risco de ser sabedor”.

É um livro compacto, páginas cheias de letras, parecendo com Saramaco.
Para mim, um ponto antipático.  O livro não quer conversar com você, quer te amassar, maltratar.
O capítulo intitulado “EU, Teodoro” são 84 folhas de letras, ideias que vão e vem, como se o escritor estivesse fazendo um “brain storm” infinito.

E eu não consegui descobrir todas as sete vezes (já que o livro indica que existem tantas).
1 – A Professora Agripina
2 – não achei
3 – O Padre Fidélio
4 – Não achei
5 – Ao tio Albano
6 – O Bacharel do cata vento.
7 – Deduzi que fosse todo o resto do livro.

(Antônio Saracura, Aracaju, 29 de maio de 2011)

Obs:
Achei os rabiscos desta resenha em uma biblioteca agora em 12 de fevereiro de 2012. Não possuo o livro mais em meu poder. Nem me lembro dele. Nem a capa encontrei onde as guardo.  Resolvi publicar apenas como uma desobrigação (já que a escrevi). No dia em que me bater com este livro, tentarei reatar os laços.   

Como minha resenha nem a mim satisfez, incluo a seguir duas publicações da web sobre Alina Paim;


Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com

Alina Leite Paim foi professora, escritora, comunista e feminista. Nasceu em Estância a 10 de outubro de 1919. Sendo filha de Manuel Vieira Leite e de Dona Maria Portela de Andrade Leite. Aos 3 meses de idade, mudou-se com a família para Salvador. Perdeu a mãe aos cinco anos, vítima de tuberculose, e Alina Paim retornou a Sergipe com o pai, indo morar na casa dos avós paternos em Simão Dias que lhe deram uma educação muito rigorosa. Estudou o Ensino Fundamental I na Escola Menino Jesus e, posteriormente, no Grupo Escolar Fausto Cardoso onde recebeu formação religiosa. No ano de 1932, ela retornou a Salvador, estudando no colégio de freiras Nossa Senhora da Soledade. É quando ela começa a escrever seus primeiros textos aos 12 anos no jornal desse colégio até se formar como professora.

Alina Paim leciona em Salvador numa escola pública da periferia, convivendo com a miséria das crianças e com as dificuldades da educação brasileira na década 30. Ela passa por problemas pessoais por causa de conflitos familiares, entrando num quadro de profundo stress, sendo internada em um sanatório, onde permaneceu por três meses. E recebendo os cuidados do psiquiatra Isaías Paim, com quem chegou a se casar em 1943, morando com ele no Rio de Janeiro nos anos 40. Época que fez amizade com Graciliano Ramos que corrigiu os seus três primeiros Romances.

Publicou o seu primeiro Romance Estrada da Liberdade em 1944, que teve grande repercussão e a primeira edição se esgotou rapidamente, num período de quatro meses.

A autora escreveu também um programa infantil chamado “No Reino da Alegria” para a rádio do Ministério da Educação e Cultura. Fundou a revista Tempo, em 1948. Chegando a ser incluída no grupo de escritoras da “Nova Literatura Brasileira” ao lado de Helena Silveira, Lúcia Benedetti, Elsie Lessa, Lia Correia Dutra, Elisa Lispector, Ondina Ferreira, entre outras. E em 1961, recebeu o Prêmio “Antônio de Almeida” da Academia Brasileira de Letras por causa do seu romance O Sol do Meio-Dia.

Em sua literatura estão presentes os interesses humanos de sentido político e social, sendo abordadas temáticas diversas que dão prioridade às personagens que buscam respeito e participação na produção cultural, mostrando a problemática da mulher em diferentes situações, e defendendo os ideais do Feminismo. Como também a ideologia Comunista presente nas suas obras com o intuito de ser defendida a igualdade para todos e ser denunciado as mazelas sociais.

“Alina é uma romancista que escreve com naturalidade, conta a sua história com um gosto e emoção crescente, conseguindo captar o que há de duradouro e de eteno na criatura humana. Denunciando a história de várias criaturas, cujos pequenos dramas ganham enormes proporções, porque exprimem toda espécie de mutilação de uma sociedade rural, como no romance Simão Dias”. (A ROMANCISTA ALINA PAIM – Por Gilfrancisco)

A escritora fez parte do Partido Comunista Brasileiro (PCB), chegando a entrevistar grevistas que participaram do movimento ferroviário do Vale do Paraíba em 1949, através de uma viagem paga pelo próprio partido. Viajando também para a Rússia em 1950 para representar o seu partido em Moscou nas festividades do 1º de Maio, o Dia do Trabalhador¹. Mas, nessa outra viagem ela foi ajudada financeiramente pelo artista plástico Cândido Portinari.

Durante a Ditadura Militar foi perseguida por ter sido integrante do PCB e por causa da sua militância feminista. É também nesse período que ela traduziu textos marxistas de Lenin e colaborou em jornais de Sergipe, da Bahia, e do Rio de Janeiro.

A autora escreveu 10 Romances, e 4 infantis, e alguns deles foram editados na Rússia, China, Bulgária, e Alemanha. E além de sua obra ter recebido crítica favorável que coloca a autora entre as melhores romancistas nacionais e internacionais da sua geração. Infelizmente, ela ficou pouco conhecida no Brasil, tanto nos meios acadêmicos quanto no público em geral. E como consta no artigo científico Alina Paim, uma romancista esquecida nos labirintos do tempo escrito por Ana Maria Leal Cardoso: “O motivo não se sabe ao certo; talvez pelo fato de ela ser comunista e suas obras estarem repletas de denso teor socialista (naquela época, um compromisso com o PCB) que reivindica direitos iguais para todos, o que não agradava nem ao governo e nem aos empresários do mundo editorial e artístico”.

ROMANCES

A Estrada da Liberdade (1944).
Simão Dias [com prefácio de Graciliano Ramos] (1949)
A sombra do patriarca (1950).
A hora próxima (1955).
Sol do meio-dia (1961).
O círculo (1965).
O sino e a rosa (1965).
A chave do mundo (1965).
A Sétima Vez (1975)
A correnteza (1979).
A sétima vez (1994).

OBRAS INFANTIS

O lenço encantado (1962)
A casa da coruja verde (1962)
Luzbela vestida de cigana (1963)
Flocos de algodão (1966)
O chapéu do professor (1966).


REFERÊNCIA:

ALINA PAIM. In: Wikipédia – A Enciclopédia Livre. Disponível em: <https://es.wikipedia.org/wiki/Alina_Paim>. Acesso 04 de set. de 2017

ALINA Paim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa519577/alina-paim>. Acesso em: 05 de Set. 2017. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

Alina Paim, uma romancista esquecida nos labirintos do tempo – artigo científico escrito por Ana Maria Leal Cardoso. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/1535/1631>. Acesso em 04 de set. de 2017

A ROMANCISTA ALINA PAIM – Por Gilfrancisco. In: O arquivo de Renato Suttana. Disponível em: <http://www.arquivors.com/gilfrancisco7.htm>. Acesso em 05 de set. de 2017.

Sergipana, escritora, comunista e silenciada. In: Destaque Comunicação. Disponível em: <https://www.destaquenoticias.com.br/sergipana-escritora-comunista-e-silenciada/>. Acesso em: 04 de set. de 2017


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¹ O 1º de Maio sempre foi considerado o “Dia do Trabalhador” desde a sua criação em 1888 e não “Dia do Trabalho” como mudaram nos calendários de uns anos para cá. (Nota do administrador deste blog)


Xxx


(Gilfrancisco*)

Silenciosa, talentosa e paciente, essa romancista sergipana, deficiente visual aos 87 anos, construiu seu mundo sem pressa, jamais se desligou do interesse humano, do sentido político e social de suas histórias e de seus personagens. Apesar das opiniões favoráveis a sua obra que mereceram da crítica nacional e internacional, a colocando na altura das melhores romancistas da sua geração, seu nome está injustamente excluído dos compêndios literários brasileiros. Muitos desses intelectuais militantes, a exemplo de Enoch Santiago Filho, Renato Mazze Lucas, Jacinta Passos e a própria Alina Paim foram também silenciados pelo Partido, apesar de terem sido beneficiados da rede de relações construída no seu itinerário.

***

Gênero literário em prosa, relativamente longo, o romance é caracterizado pela narrativa de acontecimentos fictícios, mas geralmente verossímeis, relacionados a uma ação centrada num enredo, na análise de personagens ou no exame de uma situação. Entendido como sucedâneo do poema épico, o romance moderno tem raízes nos romances de cavalaria, mas só se configurou como hoje o conhecemos no século XVIII, tendo por precursores entre outros, o abade Prévost (Manon Lescaut, 1731) e Henry Fielding (Tom Jones, 1749).

Ciente de sua vocação literária e disposta a seguir a trilha, Alina Paim optou pelo romance, não se deixou tentar pela atração do conto, nem da crônica, nem mesmo de artigo para jornal. Seu interesse maior e único o romance. Mesmo tendo estreado aos 23 anos, o tempo lhe assegurou o necessário capital de experiência e observação, indispensáveis para todo romancista. O romance tem em Alina Paim a mão que o denuncia de todos os segredos e violências, explorando-o em cada ângulo difícil sem restringi-lo à mera análise superficial, exigindo assim do crítico que a estuda um esforço vital, um reconhecimento de nuances, ampliando sua visão de autora consciente e politizada.

Alina dá a medida exata, a atualização essencial da narrativa romanesca, um sentido de concepção nova na caracterização dos personagens, onde os conflitos interiores surgem à descoberta inteiramente vigiada pelos seus equilíbrios de narradora onisciente. Alina é uma romancista que escreve com naturalidade, conta a sua história com um gosto e emoção crescente, conseguindo captar o que há de duradouro e de eteno na criatura humana. Denunciando a história de várias criaturas, cujos pequenos dramas ganham enormes proporções, porque exprimem toda espécie de mutilação de uma sociedade rural, como no romance Simão Dias.

Alina Leite Paim nasceu na cidade de Estância, (68 km de Aracaju) berço da imprensa sergipana, a 10 de outubro de 1919, filha de Manuel Vieira Leite e de Maria Portela de Andrade Leite, ambos sergipanos. Com três meses de idade mudou-se com os pais para Salvador. Ao perder a mãe, foi para Simão Dias (SE), morar na casa dos avós paternos, onde sofreu muito com a rigorosa educação dos parentes, principalmente pelas constantes e severas repreensões das três tias solteironas. A severa educação que recebera nesses primeiros anos, de certa forma contribuiria para sua aprovação em 1932, no primeiro ano do curso fundamental com distinção nos exames de suficiência do Colégio Nossa Senhora da Soledade, em Salvador.

Simão Dias foi um celeiro político-econômico de grandes e influentes famílias que marcaram toda a história de Sergipe. Ali, Alina fez os estudos preliminares na Escola Menino Jesus e dos sete aos dez anos, freqüentou o Grupo Escolar Fausto Cardoso, da Praça da Matriz, onde recebe formação religiosa e participa de diversas atividades relacionadas à expansão do catolicismo. Parte de sua infância e adolescência serviu de cenário e título para o seu segundo romance, escrito nos meses de agosto a dezembro de 1946. Mudou-se outra vez para Salvador e continuou seus estudos no colégio Nossa Senhora da Soledade. Aos doze anos passou a escrever para o jornalzinho do educandário de freiras, onde se formou como professora e trabalhando depois numa escola da Estrada da Liberdade, hoje um dos bairros mais populosos de Salvador.

Casou-se em 1943, com o médico baiano Isaías Paim e mudou-se em seguida para o Rio de Janeiro, onde reside com uma de suas filhas. Como na época não conseguisse trabalho, foi ensinar na Escola para filhos de pescadores, na Ilha de Marambaia. Aí escreveu seu primeiro romance, Estrada da Liberdade, publicado em fins de 1944, com enorme repercussão nos meios literários e de público, esgotando-se em quatro meses a primeira edição.

Com seu diploma de professora somente era válido dentro dos limites do Estado da Bahia, encontrou-se, de súbito, sem profissão definida. E, a convite de Fernando Tude de Souza, diretor da Rádio do Ministério da Educação e Cultura - MEC, começou a escrever para o programa infantil “No Reino da Alegria”, dirigido por Geni Marcodes. Para esse programa, colaborou entre 1945 a 1956, escrevendo para crianças e adolescentes. Desde sua chega ao Rio de Janeiro, Alina participou ativamente da vida literária do País, publicou quase dez romance e quatro obras infantis, alguns de seus romances foram editados na Rússia (1957), China (1959), Bulgária (1963) e Alemanha (1968).

Em 1944, a jovem Alina Paim se dirigiu a Barboza Mello, ligado ao Partido Comunista, então diretor da Editora Leitura, levada pelo jornalista Osvaldo Alves para entregar os originais do livro Estrada da Liberdade, e durante esse primeiro contato, a jovem foi contando como e porque o escreve. Segundo Barboza, Alina Paim era “uma menina de cabelos soltos, cacheados, 1,50 de altura, 48 quilos de peso, rosto bonito de ingênua, fala suave, e uma tímida inconcebível numa adolescente que queria ser escritora”.

Publicado pela Editora Leitura, do Rio em 1944, o romance Estrada da Liberdade retrata a vida de uma professora cheia de idéias, em contato com a amarga realidade de sua comunidade de bairro proletário, onde tenta aplicar métodos modernos de aprendizagem. Alina baseou-se em sua infeliz experiência para escrever. Conheceu a fome e a miséria da infância baiana abandonada, de quem ela se apaixonou e que muito contribuiu para leva-la a colocar a sua arte a serviço do povo. Pouco a pouco a professora vai tendo a revelação de tudo. L~e livros diferentes dados por amigos novos e chega assim a uma nova concepção da vida, do amor, das relações entre as pessoas humanas e revolta-se contra tudo que é falso e lhe fora ensinado, uma educação dirigida no interesse dos poderosos e ricos.

Esse é o clima em que se desenvolve a ação de Estrada da Liberdade, cuja estrada entraram as primeiras “tropas libertadoras” nas lutas da Independência da Bahia (1823), e, por esse motivo, recebeu a denominação simbólica. Alina faz isso com muita felicidade: não cria as histórias, não inventa, mostra-se apenas com o coração revoltada pelas injustiças sociais e pela miséria econômica, como se contasse para uma pessoa amiga aquilo que viu e ouviu.

Essa obra foi muito elogiada pela crítica, pois nela a autora já mostra sua tendência para a ficção e para as causas humanitárias. Estrada da Liberdade é uma romance simples, sem as costumeiras técnicas apuradas, foge a temática da época (seca, cangaço, cacau, café). O painel do livro, prende a atenção do leitor pela leveza do estilo e pela condição natural dos seus personagens que se apresentam como qualquer humano, com defeitos e qualidades. Em menos de 2 anos a edição de Estrada da Liberdade estava esgotada, tendo contribuído para isso as freiras daquele Convento que eram as maiores compradoras do livro, não para ler, mas para queimar... Elas não gostaram do que Alina havia escrito, colaborando para a imortalidade do Convento N. S. da Soledade.

A partir daí, seguem vários romances que denunciam o poder dos fortes sobre os fracos. Mostra, também, o amor como forma de realização e destruição do ser humano; a exploração do homem como força-trabalho, que caracteriza a sociedade brasileira. Suas obras sempre refletem um tipo de crítica humanitária. Alina Paim sempre foi tida como de esquerda e lutadora pelas causas feministas o que lhe causou sérios problemas durante o regime militar no Brasil nas décadas de 60 e 70.

A redemocratização do país em 1945, com a queda de Getúlio Vargas e a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, coincidiria com a imposição de novos reformismos, a partir do Ato Adicional nº 9 de fevereiro, o Brasil se surpreende com a extensão e a importância do movimento comunista, que está ligado ou dirigindo uma série de atividades políticas fundamentais. Com a saída de Carlos Prestes da prisão, um novo panorama se apresenta: o PCB se tornará legal e uma nova fase se abre para as esquerdas, em geral. A sociedade brasileira, então, irá passar por um novo momento de sua história, havendo a participação democrática de todas as suas classes sociais e uma mais ampla conquista de direito sociais e isso inclui a literatura.

A morte de Mário de Andrade nesse ano como que assinala o fim de um ciclo questionador da cultura, das instituições e das idéias. Sua obra crítica deixa entrevar não apenas força aglutinadora, mas sobretudo sensibilidade e abertura intelectual e todas as vocações capazes de revelar aspectos inventivos de algum modo interligados com a trajetória renovadora da arte no Brasil.

Em 1949 a Livraria Editora Casa do Estudante do Brasil edita o romance Simão Dias, com apresentação de Graciliano Ramos, amigo e grande incentivador da tímida escritora sergipana: “A estréia, recebida com louvores, jogou a moça na literatura. Alina fez vários livros. Este, o terceiro, deixa longe a Estrada da Liberdade, manifesta um valor que o trabalho da juventude apenas indicava. A autora observa, estuda com paciência, tem a honestidade rigorosa de não tratar de um assunto sem domina-lo inteiramente. As suas personagens são criaturas que a fizeram padecer na infância ou lhe deram alguns momentos de alegria, em cidadezinhas do interior. Nenhum excesso de imaginação.”

Neste livro, Alina retrata parte de sua infância e adolescência, compartilha com o leitor suas memórias sobre o cotidiano desta cidade do estado de Sergipe. Orientada pelo amigo Graciliano Ramos, Alina mantém o teor autobiográfico do romance, não substituindo os verdadeiros nomes dos personagens, no intuito de aproximar ao leitor o cotidiano da cidade e de seus habitantes nomeados no relato. Quando o romance foi publicado causou espanto em alguns membros de sua família, pois tiveram as suas vidas expostas publicamente. Alina escreveu um livro útil e o fez com amor, com generosa ternura, captando o ambiente, o meio, a atmosfera que cercou a formação, intelectual e humanista, erigindo o edifício do seu romance argamassando-o de reminiscências pessoais ou coletando depoimentos.

A Sombra do Patriarca de 1950, publicado pela Livraria Globo retrata a vida no campo romanceando a maléfica e prepotente atuação do Senhor de Engenho. É neste ambiente do meio rural do Nordeste, numa antiga fazenda na qual um mundo de personagens vive em redor do velho fazendeiro, tio Ramiro, e em função dele. As pessoas e as coisas obedecem ao patriarca, sua vontade prevalece sobre tudo e todos. Existências se mutilam sob o poder dessa energia despótica e rígida, sob caprichos decorrentes de uma concepção absurda da vida. O velho latifúndio muda a seu talante o destino de todo ser humano a seu alcance.

Ninguém se surpreende com tal estado de coisas até que um dia Raquel, uma sobrinha do velho, vem passar poucos dias na fazenda. Mas como adoece de impaludismo, é forçada a permanecer mais tempo, observa o poder infinito e anacrônico do patriarca, descobre uma por uma as causas – locais, sociológicas, históricas, psíquicas – em que ele se baseia, e com o descobrimento começa a revoltar-se contra ele. Assim é a história de Raquel na velha fazenda, contada por ela na primeira pessoa, mas é também uma imagem do latifúndio que confere ilimitado poder a seu detentor e paralisa todas as vidas que dele dependem. A Sombra do Patriarca, de Alina Paim, é o quadro vivo das vidas em conflitos, em que a opulência acaba sendo derrotada pelas forças coesas de uma classe que um dia entendeu de reivindicar ancestrais direitos postergados.

A literatura popular refletiu as lutas desse período. Em particular a coleção, “Romances do Povo”, dirigida por Jorge Amado, publicada pela Editora Vitória que reuniu 25 títulos de autores de vários países. Um desses livros, A Hora Próxima, é de Alina Paim, escritora sergipana militante do Partido Comunista do Brasil e colaborou na elaboração de uma narrativa literária que espalham as lutas do povo, revelando o futuro de inevitáveis conquistas para o proletariado. A Hora Próxima, título que compõe a coleção (Vol. XI), vendeu 10 mil exemplares somente na primeira tiragem, em 1955. O livro foi traduzido para o russo e chinês, segue as pegadas de Jorge Amado, introdutor e praticante-mor do realismo socialista no Brasil.

Segundo Jacob Gorender, em 1950, ouve uma reunião no Rio de Janeiro, num apartamento em Copacabana dirigida por Diógenes Arruda, então braço direito de Carlos Prestes, contando com a presença de aproximadamente 30 intelectuais militantes, entre eles Alina Paim, James Amado, Carrera Guerra, Astrojildo Pereira, Werneck de Castro, Oswaldino Marques e outros. O objetivo do encontro era “implantar a teoria do realismo socialista entre os intelectuais comunista”. Arruda, tentou orientar a produção cultural dos militantes, mas encontrou resistência, porém, entre os próprios intelectuais alinhados, caso de Graciliano Ramos.

O Realismo Socialista, padrão estético imposto pelo regime comunista na antiga União Soviética, com a missão de controlar a produção intelectual, subordinando-a aos cânones dogmáticos do comunismo de então. De acordo com tais princípios, a literatura e a arte deviam exercer papel exclusivamente pedagógico, difundindo os esforços comunistas para a construção do “homem novo” e do “mundo novo” nos países socialistas. Para tanto, os textos deveriam ser pautados pela objetividade social e participante. Em lugar da cultura burguesa, considerada pelos comunistas “decadente e degenerada”, os escritores e artistas tinham por obrigação se empenhar em edificar a “cultura proletária”, que julgavam a única capaz de desmistificar os valores morais da classe dominante e sustentar o caráter revolucionário da obra de arte. Graciliano, apesar de se ter filiado ao Partido Comunista, jamais tolerou tal ingerência partidária no campo da literatura.

A ação central do livro é uma greve dos ferroviários em 1950, em vários entroncamentos da Rede Mineira. A estrada da Rede, em Cruzeiro, é tomada por um piquete de mulheres com a tarefa de deter a locomotiva 437, que se prepara para engatar uma composição e seguir viagem. O maquinista titubeia e, ante a firmeza e ousadia do grupo de mulheres, pára a 437, que imediatamente tem na caldeira esfriada e posta fora de combate. A locomotiva se tornará a bandeira do movimento grevista. Escrito há cinqüenta e seis anos, A Hora Próxima, se refere ao grande momento em que as massas, protagonistas de uma ação política organizada e revolucionária, dirigirão a humanidade ao rompimento da aurora. A narrativa de Alina Paim se prende à ação das massas, sem contudo tornar-se aprisionada de factualismos e justificativas.

O romancista baiano prefaciou o romance “Sol do Meio-Dia”, vencedor entre mais de uma centena de concorrentes, prêmio Manoel Antonio de Almeida, concedido pela Associação Brasileira do Livro, em 1962, o livro foi publicado no ano anterior pelas edições ABL, comenta a trajetória da romancista, desde da estréia de Estrada da Liberdade. A história de Ester, a jovem que veio de Paripiranga para o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa e vive nas pensões coletivas, onde se concentra a população problematizada pelas dificuldades nas grandes cidades: “Volta hoje, Alina Paim a seu público com Sol do meio-dia, romance já consagrado com um alto prêmio, o da Associação Brasileira do Livro, julgado já por figuras como as de Valdemar Cavalcanti, João Felício dos Santos e Plínio Bastos. Eis uma notícia excelente para os leitores, sobretudo para os muito que têm acompanhado com constância e admiração a carreira vitoriosa da romancista. Ela atinge agora sua maturidade criadora. A menina da Estrada da Liberdade, que irrompeu pelo romance brasileiro em 1945 e nele impôs sua presença, soube construir seu caminho e crescer de livro para livro, para chegar à madureza deste Sol do meio-dia, que será sem dúvida um dos acontecimentos literários importantes do ano. Estou certo do sucesso deste romance não só junto aos intelectuais mas também entre o grande público pois ele é construído com a experiência vivida e o amor ao ser humano”.

A escritora estanciana fez incursões na literatura infantil, atendendo solicitação da Editora Conquista, publicou: O Lenço encantado; A casa da coruja verde e Luzbela vestida de cigana. Em 1965, no mais disputado certame novelística da época no país, em meio a três centenas de livros, coube a sua Trilogia de Catarina o Prêmio Especial Walmap, IV Centenário do Rio de Janeiro criado exclusivamente para distinguir essa obra. A comissão julgadora foi integrada pelos acadêmicos Raimundo Magalhães Júnior, Adonias Filho e pelo novelista Otto Lara Resende. A Trilogia de Catarina, lançada pela Editora Lidador na coleção Imago, compreende os seguintes títulos: O Sino e a Rosa, A Chave do Mundo e o Círculo, em que a romancista traça a trajetória de uma mulher entre o sonho, o aprendizado da vida na busca de um sentido existencial, num protesto contra os códigos, sempre dentro de um padrão da realidade e dignidade feminina.

Indagada sobre o sentido de sua personagem, informa Alina Paim: “Catarina tem uma constante: a busca do sentido da vida, a compreensão de si mesma e do que lhe acontece para melhor se integrar na vida e no convívio de seus semelhantes. Os três romances de Catarina deslizam no espaço de uma noite e de vigília. É um trabalha com muitos planos de tempo. Ao amanhecer, após longa análise, a Catarina que encara o sol é bem mais amadurecida que a Catarina que se encolheu no topo da escada, no princípio da noite. Foram violados, com certa audácia, os seus compartimentos selados”.

Um ano depois publica Flores de Algodão e Treze anos depois rompe o silêncio com “A Correnteza”, publicada pela Record em 1979. Sobre este romance, um dos maiores críticos literários da época, Valdemar Cavalcanti diz que o romance “constitui um painel da vida de subúrbio do Rio. Mas não é positivamente a moldura o que mais importa neste romance, embora montada com indiscutível mestria. Importante mesmo é o quadro psicológico que Alina Paim apresenta, de extraordinária nitidez. E o leitor inteligente observe no fino do traço das figuras femininas, em particular, e veja como ela as desenha, com mãos leves e firmes, mãos como de uma Marie Laurencin que se desse ao romance”. A Correnteza ocupa lugar privilegiado neste espaço ficcional brasileiro, livro para ser lido muitíssimas vezes. Exemplo de sua enorme capacidade de testemunho dum roteiro lírico, dum movimento rítmico de ação continua, duma originalidade incessantemente cultivada num alargamento espacial onde seus tipos criados têm oportunidade de expandir-se em implicações sutis, num aparato episódio solene e drástico, contudo movido por um realismo, cru, paralisante.

Em 1994, o Governo do Estado de Sergipe, por iniciativa da escritora Núbia N. Marques, na época Diretora Presidente da Fundação Estadual de Cultura – Fundesc, publicou na coleção Ofenísia Freire, capa de Ronaldson, uma edição cuidadosa o romance, A Sétima Vez. Neste livro Alina Paim retorna à análise de vida problematizada do velho Teodoro, aposentado, e já sonhando com a tranqüilidade de um cata-vento, vê-se empurrado para a atividade laborativas, pois necessitava criar o neto, colhido pela orfandade. Os esquemas competitivos que na mocidade poderia muito bem enfrentar, o leva a esforço de sobrevivência. A velhice encontra na pena dessa vigorosa romancista o dardo crítico e a reflexão sábia de uma fase de vida humana que, a despeito da labuta já enfrentada, empobrecida por uma aposentadoria irrisória, volta com toda força para buscar o pão cotidiano, dentro das adversidades e dificuldades que cercam um velho.

Como integrante do Partido Comunista, Alina Paim exerceu atividades políticas diversas, tendo convivido durante meses com mulheres dos trabalhadores ferroviários que participaram ativamente da grave da Rede Mineira, de grande repercussão nacional. Por isso sofrendo perseguições e pressões de toda ordem inclusive processo judicial. Traduziu trabalhos importantes de Jorge Dimitrof e Vladimir Lenin, além de colaborar em vários periódicos O Momento (BA), Época (SE), Leitura (RJ), dentre outros, sendo que essas colaborações eram em sua maioria, capítulos dos seus livros.


* Jornalista, pesquisador e professor universitário.
Fonte: http://www.arquivors.com/gilfrancisco7.htm