segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

MOINHO DE VERSOS, Massilon Silva,


MOINHO DE VERSOS, Massilon Silva, J. Andrade, 2017,116p, isbn 978-858-253-24-92


Eu encontrei o poeta Massilon Silva, pela primeira vez, na festa de instalação da Academia Sergipana de Cordel, ele era um dos imortais, e apenas o cumprimentei. Depois de algum tempo, na instalação da Academia de Letras de Pão de Açúcar, Massilon nos recebeu (a mim e a Domingos Pascoal de Melo) e se encarregou de nos apresentar aos desconhecidos imortais que fôramos prestigiar. Massilon era deles e, no primeiro momento, nem o reconheci, broco como eu sou.

Pão de Açúcar tem vínculos fortes com Aracaju. Muitos de seus filhos, inclusive Massilon, vivem aqui. Também o prefeito atual (Edvaldo Nogueira), além do Dr. Hamilton Maciel (que lê meus livros e prestigia os lançamentos que faço) e o intelectual Netônio (com quem me bati no começo de uma noite na livraria Escariz onde divulgo a literatura sergipana). Ele sempre passa ligeiro, acho que nem me percebe, mas, naquele começo de noite, de frente um para o outro, falamos de poesia e de poetas. E me disse que Massilon o impressionava pela lira ágil, pela boa qualidade do que escreve. Eu já era amigo do poeta nas redes sociais, então pude concordar com o ilustre “pãoaçucarano” sem titubeios (que é meu forte).

Coincidência ou não, dias depois, Massilon me mandou um presente inesperado, a mim que não me achava merecedor, pois nunca passei de econômicos comentários nas redes sobre suas postagens. E no presente, pura poesia, estava “Moinho de Versos” que agora, após dois anos de lido, reteço alguns comentários de pé de página , mais para dizer de minha satisfação em ter o poeta como amigo virtual, pelo menos.

O livro é curtinho tem 112 páginas. E ficou menor quando eu pulei o prefácio (quase um terço das páginas) pois acho que prefácio interessa mais a estudante de faculdade preguiçoso (era o meu caso) para copiar, injetar despistes e entregar ao professor como produção própria.

Moinho de Versos compõe-se de uma amostra da obra do poeta. “O aniversário do poeta” Zé de França é uma história ao gosto nordestino: com farrombas, lirismo, humor, solidariedade... As décimas em sete sílabas de “A verdade sobre o 21 de abril” traz a poesia do absurdo de Zé Limeira (uma marca de Massilon, pelo que tenho observado) e brinca com os heróis nacionais, misturando épocas, nomes e valores; atordoa e encanta com seus paralelos desalinhados. As quadras apuradas de “Para uma Jovem em Cidade” revela sua amizade filial com Aracaju, caracterizando o aspecto hospitaleiro de seu povo, além de passear pela história e pela arte daqui; e gozador, como cabe ao poeta cordelista, veste-se de político e promete que “Se eu fosse presidente (...) depois de tomar cachaça com caldo de sururu, fazia de Aracaju a Capital do Brasil”. E o ótimo “fotografia” deu-me uma ideia de fuga para escapar desses sonhos impossíveis que me habitam. E “Ombro amigo” recomenda o único remédio que se encontra fácil do mercado, “a malvada” (outra vez); o que mais fazer se a grande paixão foi embora? E o mote “poeta cante o que seu sinto que eu sinto e não sei cantar” gera quatro estrofes gostosas, o tanto certo para evitar monotonia. “O galope a beira mar” usa a redondilha menor e, à sombra de Zé Limeira, faz uma viagem singular pelo nosso jeito de ser.

Massilon veste a roupa de um povo bárbaro e valoroso e de uma terra malvada e bela nos decassílabos de “Quem sou Eu”; merecia ser transformado em ópera para assombrar os salões palacianos acostumados a chororô sem lastro seguro. E vem as “Quadras” ou trovas: coloquiais, boêmias, espirituosas... E o romance “O Homem que se casou com uma égua” ao estilo dos que meu avô lia nas Flexas de Itabaiana quando eu era menino e que me atiçava a voos sem fim; a fantasia que virou moda hoje, o cordel já cultivava largamente e o autor não relutou em transformar a égua Cupido na bela Madalena vestida de noiva.

Há mais ainda no pequeno livro que, por dentro, é grande. Sonetos parnasianos ou não, exercícios linguísticos, dizeres espirituosos, poemas modernos (sem rimas ou métrica)...

Massilon é professor, especialmente no que tange ao repente, à boa rima, as trovas inteligentes... É eclético, não está encaixotado, passeia pela poesia fagueiro, experimenta sem pejo os modos de mostrar a beleza de seu pensamento.

E “Moinho de Versos” é um pouco disso.

(por Antônio Saracura, revisão em 17 de fevereiro de 2020)


domingo, 16 de fevereiro de 2020

CARTA PARA MINHA MÃE QUE NÃO SABIA LER, Neusa Vieira Lima Steinback


CARTA PARA MINHA MÃE QUE NÃO SABIA LER, Neusa Vieira Lima Steinback, 2014, editora Perfil, 44 páginas, isbn 978-85-67215-07-5.



Quando estávamos dando os primeiros passos para a criação da Academia Itabaianense de Letras, Vladimir Souza Carvalho, o líder, apresentou o nome de Neusa Vieira para ocupar uma das cadeiras. Eu nunca ouvira falar dela. E ele disse que Neusa escrevera e estava publicando um livro de 40 páginas, mas que valia por uma biblioteca. Uma carta apenas, escrita para a mãe, já falecida na época, mas um poema sem igual.


Eu acreditei e, logo que o livro saiu, corri ler, já que era curtinho e tão rico.



Dona Maria (a mãe) aprendeu sem perceber e ensinou poesia sempre, não apenas aos filhos, mas às pessoas com as quais conviveu nos lugares onde morou. Sempre trazia, na ponta da língua, uma explicação óbvia paras as coisas inexplicáveis, uma história de assombração para apaziguar o coração assustado, ou uma história amena para colocar o filho ou quem ouvisse no ritmo desenfreado da vida. Poderia ser uma simples observação, mas que valia o tanto de uma porta aberta ao desconhecido tentador.

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“Fomos ao circo e eu dormi no seu colo. Perdi o espetáculo do trapézio que queria muito ver. Ao me acordar, o número já se acabara, e perguntei a minha mãe como fora. E ela respondeu: ‘O que fizeram? Eles voaram!’ Então achei que eles fossem anjos, e voei com eles.”

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“Minha mãe era parteira (da gente pobre) em Itabaiana. Um pai alvoroçado ou um menino de recado batia palmas à nossa porta e lá se ia dona Maria com sua maleta (amor, tesoura, álcool, panos limpo, bacia...). A mãe parida e o recém-nascido ficavam intrigados com o mundo belo e cheio de promessas que viam nos olhos da parteira. Mais tarde, ela retornava pra casa com um sorriso iluminado: ‘Deu tudo certo.’ E visitava a família, para ver se podia sanar alguma dificuldade. E conversava com doutor Pedro Moreno (santa parceria) sobre uma complicação que a preocupava”.

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“‘Tem um santo no céu que é o guardador do vento. O nome dele é São Lourenço. Se junto gritarmos o nome dele, ele mandará um pouco de vento para nós. Então gritamos: São Lourenço, abre a porta do vento, que eu estou quente!”. Era um verão escaldante e Itabaiana pegava fogo até no piscar de olhos! E, a seguir, um vento leve, menino, passou por nós fagueiro. E aquela tarde quente e abafada sumiu de nosso quintal”.

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“Os mendigos que subiam e desciam a estrada da serra paravam à nossa porta pedindo um adjutório. ‘Pode entrar, Vitório! Tome um gole de café e dê uma mordida no bolo. Como vai a família? Do que está precisando, mais urgente?” E Vitório não era mais o negro velho, perna torta, carapinha branca, pobre. Era um homem que falava da vida e até dizia que tinha sido escravo. Era um personagem vivo das histórias que ele contava. O respeito e a igualdade eram também para Felix e para outros que paravam à nossa porta, fossem quem fossem.”

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“Minha mãe não sabia ler nem escrever. Mas queria encabeçar a lista de doações para reconstrução da casa de um pobre da vizinhança que a enxurrada levou. Ela comandou a campanha desde que soube da tragédia. Pediu-me então que desenhasse seu nome em um papel, e, com grande dificuldade, copiou embaixo até que seu desenho ficou parecido. Pediu a lista e dos doadores, marcou seu nome, e sorriu satisfeita.”

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“Um dia, queimou os meus livros. Corria 1965, eu ainda morava não me casara, e muitos estavam sendo presos e torturados por possuírem livros em casa. Chorei indignada, minha fortuna virava cinza porque minha mãe não sabia ler. Quando os agentes de chumbo apareceram com ordens macabras, nem acharam a cinza, enterrada no quintal”.

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“Carta para minha mãe que não sabia ler” é um pleito de gratidão (e muita admiração) de uma filha consciente a uma mãe titânica que passou por cima de mil provações (como não saber ler em uma família letrada) galhardamente.

E a poeta Neusa Vieira conclui, dirigindo-se à mãe: “Faço-te renascer de mim, num parto sem dor, e te revisto de palavras, incenso de bons augúrios para este novo berço”.
E despachou para o Céu com cópias livres para circularem eternamente, essa memorável “Carta para minha mãe que não sabia ler”.

(Aracaju, revisão em 15 de fevereiro de 2020, por Antônio FJ Saracura).



NÃO É HORA DE CORRER PARA A CAVERNA , Neusa Vieira Lima Steinbach


NÃO É HORA DE CORRER PARA A CAVERNA , Neusa Vieira Lima Steinbach, Infographics, 2017, 127 páginas, isbn 978-85-9476-106-4



Muitos livros maravilhosos jamais foram lidos fora da família ou da aldeia do autor. Como também muitos craques do futebol acabaram suas carreiras nas várzeas de seu bairro.

Não tiveram a sorte de serem achados pelo agente que os projetasse ao mundo.

 

“Não é hora de correr para a Caverna” é um livro raro, surpreende pelo estilo gostoso e pela riqueza do texto, mesmo quando trata de temas corriqueiros, como a convivência no quintal da casa no discriminado Beco Novo, em Itabaiana, Sergipe, onde a autora passou a infância. O livro foi lançado em 2017, e terá, certamente, sua chance de ser descoberto, se não já não foi e eu não percebi. Além do mais, para ajudar nessa descoberta, a autora tem dupla nacionalidade. É sergipana da Academia Itabaianense de Letras, e catarinense, pelos laços de matrimônio, residente em Santa Catarina, na cidade de Francisco Beltrão. São duas várzeas abertas aos agentes caçadores de talento.

 

“Não é hora de correr para a caverna” é composto por 45 boas crônicas. E por uma apresentação esmerada de Anito Steinbach, professor, intelectual, poeta (tenho comigo Lâmina Desnuda).

 

Crônica é um texto curto e leve e que ensina. Os cronistas ilustres trafegaram fagueiros pela poesia, que é leve também e tem o dom acender lâmpadas que jamais se apagam: Entre outros, estão Machado de Assis, Olavo Bilac, Carlos Drumont de Andrade, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Lêdo Ivo, Neusa Vieira, que  é  nosso destaque especial.

 

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Se você tiver a sorte de encontrar este livro, leia devagar. Se o sentido de uma palavra ou frase escapou, retorne e busque-o, não descarte como cascalho, o surpreendente diamante. Vista-se de missionário evangelizador e semeie o livro à mão cheia em seguida. Ele ensina a abrir janelas, aponta caminhos novos, e pode mudar o mundo para melhor. São crônicas poéticas. Neuza confessa que descobriu a poesia quando tentou, pela primeira vez, segurar o vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. E, mesmo segurando o vento, sentiu alegria e medo. Medo, porque ela (a poesia) parece alma de outro mundo, causa arrepios. Alegria, porque permite ver tudo mais longe e mais claro, ora com olhos de cego, ora com olhos de sol.

 

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As crônicas sabem a “quero ver Irene rir (Caetano Veloso) ou então “... entre Irene, você não precisa pedir licença” (de Manoel Bandeira). Se estes ou outro poeta vêm à porta é para nos apresentar um poema, que Neusa o faz com maestria, levando-nos a amá-lo também. Em poucas linhas, Manoel de Barros e Mário Quintana e muitos já são amigos íntimos, definitivos. Neuza é professora de corpo e alma e sabe como gravar uma lição na mente de seus ávidos alunos que jamais ser apagada.

 

Ela canta as pedras que sustentaram sua caminhada...

 

O quintal de fruteiras e lavoura (um sítio dentro da rua) no Beco Novo de Itabaiana, onde desvendou os mistérios da natureza, onde bebeu os primeiros pingos de chuva, ouviu o canto dos pássaros e a música da redondeza; a alma da pedra que foi uma minhoca viscosa e, instantaneamente, pela sabedoria da mãe singela, passou a ser o alma da terra inteira, permitindo que houvesse vida embaixo do chão; as festas de São João dos fogos e da fogueira; o cinema de Zeca e do padre com filmes que mostraram outro mundo além da serra, espetaculares; visto do batente da porta da frente, o desfile de um povo bárbaro, belo, variado, vindo das faldas da serra, trazendo cavalos carregados com produtos da lavoura e meninos barulhentos; aquele homem baixinho, branco e de rosto muito vermelho parecendo um galo garnisé, e mais Zé Carretel com os pés voltados para dentro como um curupira; os casamentos à cavalo, a noiva montada de lado correndo o risco de cair pra trás; as procissões, foguetórios, que ultrapassavam os limites do Beco Novo, indo até Frei Paulo, Cipó de Leite, o mundo todo; o serviço de alto falante da praça: de alguém para outro alguém, recados que hoje o wsap matou a magia; o Largado que esperou, sofreu, insistiu até que o olhar de Ivone deu-lhe o céu; e seu Miguel Fagundes com o terno branco presente a todo velório (“mas faltei ao seu, pois o mundo me engoliu voraz”); a punga no carro de bois, trepada no requevem como menino macho, viajando ao som de violinos escondidos nos eixos de braúna, até a bodega de seu Antonino, último limite permitido, depois dali, eram os ermos dos dragões e de abismos tenebrosos...

 

E, especialmente, o namorado estrangeiro, por isso discriminado, que o destino lhe mandou para a vida toda... Uma mão vinda do outro lado do oceano pousou na sua e acendeu todas as lâmpadas instaladas no seu mundo.

 

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O livro é um canto de louvor à realidade do dia a dia, desde as brincadeiras e assombrações de criança, passando pela longa e gratificante missão do magistério, pela vida sempre alegre e triste, pela interpretação da melhor literatura que o mundo produz...

 

Neusa mostra-se incansável em se extasiar ante a natureza das coisas e das pessoas, mas reage com energia às sombras turvas que as redes sociais, que as falsas doutrinas, que o comodismo, que a discriminação e a empáfia, criam na mente das pessoas.

 

A caverna é um local seguro onde nada precisa acontecer realmente. Basta imaginar. Tem o poder de criar mundos de ilusão, mas o homem precisa tirar os sapatos e deitar na terra molhada e abrir os braços. Enfrentar a realidade e usufruí-la intensamente. Nada de correr para a caverna outra vez.

 

(Por Antônio FJ Saracura em 2018, revisada em fevereiro de 2020)

 

 

Post scriptum: “Quem é você para derramar meu Mungunzá" inclui Antônio Saracura no time dos autores cabras da peste que cantam o Nordeste valoroso, orgulho do meu Brasil. Obrigado pela honra (Saracura).

 

 

 


sábado, 7 de dezembro de 2019

CABEÇAS DO VENTO, Emanuel Neri


CABEÇAS DO VENTO, Emanuel Neri,2013,168 pag, Conteúdo Editorial, Isbn 978-85-61001-13-1

Numa dessas tardezinhas, quando desço de meu conforto e vou à libraria Escariz Jardins divulgar a literatura da nossa terra, encontrei Gilson Neri, que comprou meu livro “Os Tabaréus do Sítio Saracura”. Um mês ou dois depois, ele me apareceu na mesma livraria reclamando de que eu não dou atenção aos leitores, pois não respondo e-mails que me enviam. Fiquei atônito, pois é o que faço e religiosamente: dar retorno a leitores. Os emails chegam tão poucos e me fazem tanto bem que não teria sentido eu não os responder.
Fui compulsar a caixa de “enviados” do celular de Gilson e identificamos a causa, havia um “r” a mais em algum lugar no endereço do destinatário.
Dois dias depois, Gilson deixou na portaria de meu prédio, o livro (prometido no email), “CABEÇAS DO VENTO”, de autoria de seu irmão, Emanuel Nery.
Nem ia ler logo, estava no meio de outro e sem um pé de largá-lo, mas comecei e só parei na última linha. É um livro magro, 163 páginas, incluindo um álbum de fotos e uma sessão de depoimentos dos filhos de seu Nilo e dona Isabel (um esquadrão de quinze).
Bem escrito, revelando São Miguel do Gostoso (nascida de Touros), no Rio Grande do Norte, na esquina do mapa brasileiro, o ponto de convergência de várias ventanias que, em busca de novo rumo, estiram e alisam carapinhas, de que só ouvira falar uma vez, em uma viagem ao exterior. Duas moças de lá não se cansavam de louvar a terra Natal. Até prometi visitar, mas, agora, nem me lembrava mais da promessa.
“Cabecas do Vento” é uma história de família, com as dificuldades e a luta braba que forjam um povo digno. As rusgas do casal. O pouco carinho da mãe severa. Pai rigoroso e zangado mas com momentos de afagos. A palmatória das professoras, as cipoadas de Isabel, os sermões de seu Nilo, a reza do terço inacabável, a vigilância crítica do exército de irmãos. Também a guerra surda da mãe, com seu gênio estudado, manhoso... Como uma mulher possui armas poderosas e estratégias vencedoras: o silêncio prolongado, tesando até o limite da tolerância, inchando por dentro e desarmando o general prepotente.
Até na abastança (o casal possuía fazendas e casa de comércio, forte ligação com o mundo político) vive-se fases de penúria, que também ajudam a temperar o ferro que não quebra.
Quando Nilo faleceu, Isabel submissa até então, revelou-se uma máquina empreendedora. Abriu horizontes à família, que viu o mundo como deles. Investiu em São Miguel do Gostoso, que cresceu junto com seus negócios e sua política contagiante. Saiu do borralho e levou seu brilho à sociedade. Só não aceitei os foguetões molhados secando no forno aceso.
O autor navega pelas origens dos Neri, faz a longa caminhada dos ancestrais até aquela praia varrida pelo vento. Pega pela mão os judeus de Espanha e Portugal, da Itália, e sabe-se lá de onde mais, como eu tentei pegar em Os Tabaréus do Sítio Saracura.
É uma vida comum que, agora, nos encanta, graças a um livro gerado das anotações (poderiam ser histórias contadas) de uma mãe de família que assumiu a missão de construir um futuro melhor para os descendentes e para o seu lugar gostoso.
A sensação que fica é a de que famílias como essa Neri povoam o Brasil de fora a fora, em cada rincão de Sergipe, de São Paulo, do Acre, de todo lugar, fazendo-o sério e digno. Por que então não o é?
(Antônio Saracura, Aracaju, 07 de dezembro de 2019)

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De: Gilson Neri <gltneri@gmail.com>
Data: 6 de agosto de 2019 18:07:25 BRT
Para: afjsaracjura@gmail.com
Assunto: Os Tabareus do sitio Saracura

Prezado Antonio

Estava uma tarde procurando um livro  na Livraria Escariz, Jardins, sobre um romance de uma negra africana que veio como escrava para o Brasil, todo o seu sofrimento desde da sua terra natal, a perda de sua família, talvez  uma nova “Cabiria” do Filme de Felline , não sei o final,  pois ainda não terminei o livro. Só que nessa procura, apareceu um senhor que me lembrou meu pai, oferencendo um livro de um escritor Sergipano,  " Os Tabaréus  do Sitio de Saracura" em que ele era o autor.
No primeiro momento, parei para ouvi-lo por educação, todavia, o senhor começa a relatar algumas passagens do seu livro que comecei a fazer um paralelo. Comentei que dos escritores Sergipanos tinha lido era o Antonio Viana , com destaque o livro O jeito de matar lagartas, Aberto está o inferno, entre outros.
Mais ao chegar em casa, comecei a lê o seu livro, de uma leitura fácil, gostosa, fui na livraria e comprei para dar de presente o livro  Meninos que não queriam ser Padres, para meu cunhado Dr. Domingos Sávio, também potiguar.
Apesar da dureza dos seus pais em criarem tantos filhos em um sítio com princípios valores e ética, descrevendo os costumes, a cultura e a vida dura de um nordestino que de tempo em tempo sofre com o período de grandes estiagens todos eles pelo seu cordel também venceram na vida.
E assim em Sergipe, como em qualquer estado do Nordeste brasileiro,  mais por ser homem forte venceu na vida, e assim comparei com a minha família nordestina do interior do Rio Grande do Norte, também de uma família grande, 15 irmãos , todos vivos, e pais determinados para darem melhores condições aos filhos do que eles tiveram, uma história com focos diferentes mais relatam os mesmos desafios da Família Saracura do Sitio  Terra Vermelha  com a minha família “Neri” de São Miguel do Gostoso-RN, em que meu irmão Emanuel Neri, Jornalista, escreveu sobre ela nos contos do livro “Cabeças do Vento” A historia e as estórias de São Miguel do Gostoso sob o olhar da família Teixeira Neri, a partir de relatos e memórias  da matriarca Isabel Neri,  em que quero  presente-lo ao colega petroleiro.
Grande abraço


Gilson Neri


Antônio Francisco de Jesus Saracura <afjsaracura@gmail.com>
21 de nov. de 2019 20:48
para Gilson

Estou aqui numa cerimônia de posse de acadêmico da Academia Sergipana de Letras, mas não resisti e fui olhar seu email. Estou num cantinho meio discreto.
Estou querendo logo Cabeças de Vento, então, quando você tiver tempo me avise que vou  até você buscá-lo.
Sua cidade tem um nome muito gostoso de que já ouvi falar, alguém de lá eu encontrei em alguma dessas viagens. Instiga ver in loco.

Ainda bem que você gostou de Os Tabaréus, agradeço não ter me enxotado  quando o interpelei na Livraria. Você é um gentleman.
Um grande abraço,
Saracura

Enviado do meu iPhone

domingo, 13 de outubro de 2019

CARTAS DE HERMES FONTES (ANGÚSTIA E TERNURA)


CARTAS DE HERMES FONTES (ANGÚSTIA E TERNURA), J. Andrade, 2006, Páginas: 267 com ilustrações, sem isbn




Ana Medina tem nos dado obras impagáveis, como “Efemérides Sergipanas”, de Epifânio Dórea, “Mário Cabral” e este “Cartas de Hermes Fontes - Angústia e Ternura”. Só para citar três. Foi nessas obras que aprendi muito sobre vultos da nossa intelectualidade, orgulhando-me mais ainda de minha terra.
O livro “Cartas de Hermes Fontes“ está agora comigo. Peguei-o emprestado com Carlos Leite, meu professor na infância e meu amigo a vida toda. Uma empatia espontânea.



É uma pena que o livro foi impresso em papel nobre e a cola usada e não teve o mesmo nível de nobreza. Deve ter ficado tímida. As folhas se soltam a medida que vamos lendo, apesar de ser uma publicação recente, de 2006. Mas este é apenas um detalhe bobo, diante da magnitude do trabalho de Ana Medina.

Hermes Fontes estava sendo esquecido, como outros ilustres de nossa terra. Apenas nomes de ruas e monumentos depredados os nomeiam. Quem em Sergipe sabe que ele foi um menino prodígio, e aos dez anos decorava integralmente longos discursos que ouvia na Assembleia, repetindo-os em seguida, sem erro. Impressionou dois grandes da época, Laudelino Freire e Martinho Garcez.
E, ao contrário de Genário Pereira de Carvalho, meu primo das Flechas de Itabaiana, que também fazia a mesma coisa e nem foi percebido (apenas pelos vizinhos que o adoravam), Hermes foi adotado por Martinho Garcez e levado para o Rio de Janeiro, o reino da cultura. Para o seu mal e para o seu bem. Desfrutou da glória mas “estourou o crâneo buscando na morte a tranquilidade que não tivera na vida“, como estampou o jornal “A Noite” do Rio de Janeiro, em 27 de dezembro de 1930. Ele morreu aos 47 anos, e Genário aos 77.

No livro Ana Medina recupera toda correspondência da família à Hermes (e algumas dele) mostrando o ser humano que foi o poeta.

Além de compositor (Constelações, Luar de Paquetá), Hermes foi poeta de muitos livros (Apoteoses, Gênese, Ciclo da Perfeição...).

Vejam o poema (Messianeida), publicado no seu livro “A Fonte da Mata”:

“São Francisco de Assis pregou aos pássaros, e Santo Antônio aos peixes.
Mais corajoso do que São Francisco
e do que Santo Antônio,
Jesus pregou aos homens e às mulheres...
Perderam, todos eles, o seu tempo
e o seu sermão:
O mais sábio por certo,
o mais sábio de todos foi São João,
que pregou no deserto...”

(Aracaju, 17 de abril de 2011, por Antônio FJ Saracura)

CARTA ABERTA Á ESCRITORA CHRISTINA CABRAL






CARTA ABERTA Á ESCRITORA CHRISTINA CABRAL


Aracaju, 20 de outubro de 2013.

Querida amiga,



Há muito tempo que eu precisava escrever-lhe esta cartinha, respondendo a uma que me mandou e que reproduzo abaixo. Precisava agradecer as bonitas palavras da carta e o sorriso cordial com que me honrou ao encontrá-la dias depois.

Fiquei sabendo  hoje que a senhora viajou para o céu. Que azar o meu!

Preciso andar mais rápido em cuidar das pessoas que me tratam como a senhora me tratou, não perder tanto tempo escolhendo as palavras capazes de expressar meu sentimento, que nunca me vêm, talvez elas nem existam.
Bom céu para a senhora, poetisa!
Lamentei muito tê-la perdido aqui na terra. Mas o céu ganhou muito com a sua chegada, sem desmerecer os outros justos que moram lá.

Um beijo,

Antônio FJ Saracura, escritor.


Aracaju, 02 de maio de 2011

Querido amigo Antônio Saracura,

A literatura nos permite colecionar amigos no coração, mesmo sem conhecê-los ou ter com eles convívio. Estes amigos nos tomam as mãos e nos levam ao imaginário. De mãos dadas permitem-nos percorrer seu encantador passado e invadir, com espanto e êxtase, o seu íntimo sadio e puro. Refiro-me aos seus livros “Os Tabaréus do Sítio Saracura” e “Meninos que não queriam ser Padres”.

Monteiro Lobado com seu “Sítio do Pica-pau Amarelo”, lançou sua âncora amorosa e renovadora no Brasil e no Mundo. Abriu a imaginação para busca e exaltação do belo e, na sua riqueza de personalidades e temas nos permitiu, como você nos permite, integrar os nossos passados, viver com alegria ou emoção os nossos momentos, abraçar com ternura os nossos idos familiares ou amigos.

Você chegou de mala de cuia e tomou conta do “pedaço”. Nós o seguimos Saracura, com ansiedade e curiosidade pelos momentos de calma e bom humor que nos proporciona e pelas andanças nos caminhos de nossa memória.

Esperando que esta cara seja fiel aos meus sentimentos de carinho e admiração, envio-lhe meu abraço amigo.

Christina Cabral, escritora e membro da Academia Portuguesa de Jovens Escritores, cadeira número 4..


À SOMBRA DA MANGUEIRA E OUTROS CONTOS, Adélia Mota

À SOMBRA DA MANGUEIRA E OUTROS CONTOS, Adélia Mota, infographics, 2019, 71 páginas, isbn 978-85-9476-203-0




Adélia Mota é professora e ensina no Colégio Mauá (e outros) e sempre a vejo de relance por onde ando nessa minha missão de escrever e divulgar livros. Eu gostei da escrita leve, ágil, consistente desse primeiro conto (já que sempre pulo prefácios e apresentações), “A Beleza do Óbvio” do livro magrinho, “À Sombra da Mangueira e outros Contos”, de Adélia Mota, itabaianenses universal. E, por isso, resolvi ler o livro inteiro...

Vi em Pedro arrebatado (a Moça com o livro de Bandeira), trair-se profissionalmente, o poema de Manoel Bandeira prende-o inapelavelmente à desconhecida moça que pagou a conta pela metade. Há um silêncio mágico na escrita que nos permite ouvir os corações pulsando, sentir a pureza das almas. Em meia página, o conto mostra uma vida inteira: comprimida, trágica, lírica.


Carlos Castanheda, em algum trecho de Viagem à Ixtlan, fala de um lugar acolhedor reservado para cada um de nós; até no meio do deserto de Sonora, camufla-se entre os cactos hirsutos ou na ventania que zoa. Se tivermos a sorte de achá-lo, desfrutaremos a essência de nosso ser, como se o paraíso fosse inteiramente nosso, os desejos íntimos, mesmo os não reconhecidos, realizam-se milagrosamente.
“No silêncio e na solidão (do quintal cheio de árvores de minha meninice) construí os melhores dias de minha infância”, escreve a autora logo no início do conto: À Sombra da Mangueira.

Se eu não tivesse também um lugar assim acolhedor, tomaria agora emprestado este, de Adélia, que, certamente, é o mesmo de que fala dom Juan em Ixtlan.

Ailton, como eu aposentando e claudicante, sentiu-se um cavalo selvagem e sai em busca de sonhos confusos. Felizes os que têm um anjo da guarda zeloso.

Dona Ritinha é a guardiã dos falsos valores que matam muito mais do que bala, câncer e solidão. “Boa noite, lindo rapaz, entre e venha tomar comigo um cafezinho com pão de ló!”

Pareceu (“Entre sapatos e chinelos”) uma história comum, até óbvia, mas há um cão andando junto que faz a gente, estranhamente, chorar.

A gata Mimi entrou sorrateira fugindo do dilúvio, aproveitou a porta aberta para a bicicleta passar. Só o olho do escritor atento vê fatos assim corriqueiros mas que dão vida à vida. A amizade faz-se forte até pela indiferença. E Mimi morta revela um mundo bruto que precisamos amansar.

“O Museu de lembrança” traz-me uma palavra de meu povoado (talvez de muito mais lugares ) numa frase cinematográfica: “Estava com a roupa rasgada, e com a boca cortada por um murro que levei de um garoto mais velho.”

Parei aterrorizado em “Quando Pedro enlouqueceu”, para anotar que a mãe não pode dar-se ao luxo de ficar louca, melhor que a filha engula os cordões das redes desfiadas.

...

Adélia escreve devagar, não deixa nada escapar, pinta o ambiente em volta e o mundo interior, mas apenas o que interessa mostrar. E o faz de um jeito peculiar, que encanta e que assombra.
Antônio Saracura, Aracaju 13 de outubro de 2019).  

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Biografia de Adélia, escrita por ela mesma, na página 72 de seu livro: “Adélia Mota pouco tem a dizer sobre si. É itabaianenses de coração, professora e, acima de tudo, leitora. Este livro é um exercício de terapia e criatividade para alguém que encontrou, nas palavras escritas, uma forma de expressar sentimentos e emoções.”.