domingo, 31 de julho de 2022

MACBETH, Jo Nesbo


MACBETH, Jo Nesbo, Record, 2019, tradução de Márcia Alves, Rio de Janeiro, 515 páginas, Isbn 978-95-11-11694-9


 

A Livraria Escariz estava com uma promoção, livros da Record de três anos atrás a preço de banana. Uma mesa cheia. Comprei Isabela Allende, Garcia Marques e Jo Nesbo. Este Jo, outro dia, enchia as gôndolas, era badalação; a revista Veja e outros fazedores de cabeça traziam resenhas, testemunhos, frases de celebridades, estatística de venda com números absurdos. Fora uma estadia meteórica nas gôndolas de frente, aquelas que enchem os olhos da clientela por um ou dois meses e depois os livros vão para o porão da loja, dão lugar à novas coqueluches. 

Desse porão é que devem ter vindo para a mesa cheia onde os vi e me espantei. R$15,00 cada exemplar.  

Os funcionários garantiram que preço estava correto, eu podia levar quantos exemplares quisesse. Perguntei por quê? Não abriram o jogo inteiro, mas consegui pescar indícios aqui e ali e montei uma explicação que faz sentido. “Os livros pararam de vender e a Record, que os distribui por consignação, pediu para os mandar de volta. A Escariz fez o orçamento para os localizar na barafunda, empacotar, tirar nota fiscal, despachar no correio, e informou o valor. Cada exemplar ficaria pelo dobro do custo na editora. E onde guardá-los na editora se o estoque destes era imenso, a saída fora pouca. Então, mandou vender por qualquer preço ou tocar fogo neles".

Esse Jo Nesbo sempre me intrigou, mas nunca me decidi a comprar um livro dele por 70,00; agora comprei por 15,00, trouxe três romances para casa.

xxx

Esta semana, atribulado com problemas de saúde e de família, precisei de um bom romance policial para me sanear. E peguei o grosso “Macbeth”, de 515 páginas, um calhamaço. Até achei bom ser imenso. Eu teria mais tempo a me confortar. 

xxx

Cheguei na tora à página 132, e escrevi a lápis em letras garrafais no espaço livre que sobrou no final do capítulo 8: “Paro aqui. Nenhum passo dou mais"...

xxx

Uma cidade decadente tomada pela marginalidade, que me pareceu a região da Princesa Isabel e Estação em Luz de São Paulo, lotada de crakeiros. E uma polícia corrupta que nem a carioca que a televisão mostra sempre.

Então, entra o policial, chamado Macbeth, sem nem ser chamado, com sua equipe, em uma operação comandada por um dos chefões da polícia. Salva a operação, resgata os companheiros dominados, destrói um caminhão de anfetamina e elimina traficantes que a polícia há muito perseguia.

Macbeth é um tipo singular: de menino pobre de orfanato, virou garoto de rua, viciado em droga pesada. Seus braços ainda hoje, vinte anos passados, são marcados por profundas cicatrizes de picadas de agulhas. Com a ajuda de um amigo (hoje seu parceiro na polícia) saiu das ruas e do vício e entrou na academia de polícia. 

Hoje é o policial mais respeitado da corporação. E acaba de ser nomeado para comandar o departamento mais importante da Polícia. 

Os candidatos naturais roem as unhas enciumados...

Macbeth tem uma vida social estável, é casado com Lady, a dona do mais chique cassino da cidade, que promove uma grande festa para celebrar a posse do esposo. 

E na véspera, Lady exige que Macbeth mate Duncan, superintendente da Polícia. Lady deve ter motivos que o autor não contou até onde li. 

Como muitos dos ilustres convivas, Duncan aceitou hospedar-se nas suítes do cassino, um luxo e deferência da proprietária. 

Macbeth não vê sentido em eliminar Dunca, que o nomeou para o alto posto. Mas Lady não abre mão. E ele não sabe como negar este favor à amada.

Mas entra em parafuso. 

Quando festa está no fim e quase todos já se recolheram para dormir, ele sai para a cidade, entra na zona do tráfico, tenta comprar Brew, que é o Crack do lugar, mas os vendedores recusam vender. Macbeth é o símbolo dos bons costumes, todos o reconhecem. Então Hécare (o bandidão terrível) o alcança com as garras, e Strega, a mão direita ubíqua, oferece-lhe um kit de presente. 

Macbeth entra no fedorento banheiro público, consegue um espaço no meio dos viciados, espalha o pó no tampo da pia. Esmaga os grumos com o lado cego de uma de suas adagas, enrola droga em uma cédula de dinheiro e se entope até a raiz do cabelo. 

Que absurdo! Tanto por tão pouco. Em vários sentidos, isso deixa o romance surreal, inverossímil a meu ver. 

Como um zumbi, Macbeth retorna ao cassino onde os últimos clientes, inclusive Lady, riem em fim de festa. Sobe ao hotel e entra no apartamento onde Duncan dorme. Os guarda-costas, no apartamento conjugado, estão desmaiados. Lady dera-lhes champanhe soporífera em um cálice compartilhado.

Macbeth procura uma melhor posição, calcula a distância até a jugular do chefão e dispara sua silenciosa e mortal adaga. Tem certeza que acertou em cheio. E vai saindo... Olha da porta para conferir e percebe um movimento estranho. Duncan tira a pistola debaixo do travesseiro e atira...

Como é que é? Nem quis saber se a adaga fatal matou o chefão ou se a bala da pistola acertou o alvo. Com o lápis, que sempre me acompanha nas leituras, escrevi em garrafais ao final da página 132 meu desabafo. Joguei o livro na caixa de descarte. 

Peguei os outros dois do mesmo autor e os joguei junto. Ao vê-los caindo, deu-me uma pena! 

Peguei de volta os dois últimos (A sede, e A Estrela do Diabo), achei que tinham pouca culpa (somente eram do mesmo autor). Jo Nespo vendeu 40 milhões de exemplares pelo mundo; saiu da longínqua Noruega e alcançou Aracaju com suas obras. Talvez merecesse uma nova chance. E mais respeito. 

Ora! Ora!

 (por Antônio FJ Saracura, Aracaju 2022jul30)

Nota:

Minha esposa, Cida, que é leitora voraz, leu, depois “A Estrela do Diabo”, um dos dois salvos do descarte, e gostou.

 


quinta-feira, 28 de julho de 2022

A CARTILHA DO SILÊNCIO, Francisco J. C. Dantas

 

A CARTILHA DO SILÊNCIO, Francisco J. C. Dantas, Companhia das Letras, 1997, ISBN 978-857-164-634-6

 



(1915 – Dona Senhora)

Ela se prepara para uma longa viagem: o pai está doente em Alagoas e cobra sua presença. Ela faz um inventário inteiro de sua vida íntima... Em casa com o marido Romeu e, socialmente, com agregados e parentes. O marido, a quem visceralmente está ligada em todos os sentidos, pode passar um século com a cara virada para a parede tesando a esposa ou arrebatá-la às nuvens em fogoso coito. Um bode no cio ou um bloco de gelo da patagônia chilena. Dona Senhora é “uma brasa acesa de jurema assoprada” e senhora da palavra sem censura, dos gemidos felinos, e do direito de, nas primeiras setenta páginas, abrir a alma a se bater em mil tentativas para penetrar no enigmático Romeu.

Parece que o autor esteve presente no íntimo da personagem, anotando cada suspiro, para depois, criteriosamente, passar a limpo nessa Cartilha do Silêncio, uma obra singular, de personalidade própria, como são todas deste autor.

(1951 – Arcanja)

Corte abrupto e a máquina do tempo avança 40 anos para pegar esse “dínamo a esbanjar energia”, prática e eficaz, que é Arcanja, única sobrinha de Romeu que foi flagrada em uma visita a dona Senhora nos idos de 1915.

Em nova visita ao casarão, bem depois, pega o primo Cassiano Barroso (órfão de Romeu e dona Senhora, banidos por uma praga egípcia) com a boca aberta, desarmado. Manhosa e com firmeza, aplica-lhe uma chave de judô que o arranca do celibato encruado direto para uma cama de casal. Arcanja ganhou moral e, em sendo agora parte prejudicada, partiu pra cima do inventariante dos sogros, um desembargador canalha, chamado doutor Belisário, primo do seu tio Romeu. Foi a determinação e valentia de Arcanja que salvou a boa fazenda Varginha e o casarão da praça Olímpio Campos, que já estavam no sorvedouro que engolira a maior parte da fortuna deixada por Romeu.

Esse doutor Belisário me lembrou de relance (nem tanto relance) o professor doutor Jileu Bicalho Melão, com suas práticas escusas na Universidade onde era rei. E que foi devidamente espinafrado (eu acho que merecia mais) em “Sob o Peso das Sombras”, outra obra do mesmo autor, que você precisa ler logo. 

Dantas (estou agora com ele ao meu lado) tem esse dom de caracterizar personagens vilões com os quais teve o desprazer de conviver na vida. Há outros espalhados em sua obra, tomando merecidas porradas. (kkkk). A justa vingança que cabe ao escritor, que o faz como desobriga, mesmo correndo o risco de ser processado e condenado.

E voltando a Belisário, crápula inveterado, ficou muito rico passando a perna em um e outro, aproveitando-se da posição destacada que tem no Poder Judiciário. Comprava terra barata amedrontando as viúvas, com veladas ameaças de custas dispendiosas, impostos, multas, honorários de advogado. Tecia armadilhas nos entremeios dos conchavos, passando a perna em muita gente crédula ou temente, pois esse povo de Sergipe prefere perder do que brigar pelo que é seu, quando o ladrão é “poderoso”.

E a pequena Arcanja (apenas no físico) morre destruída por uma tuberculose quando a penicilina já estava disponível nos hospitais. Uma morte injusta como a de sua tia torta, que foi comida por piolhos e coberta de culpa, na Casa de Loucos, internada por Belisário, para poder roubar mais. E que a responsabilizou pela morte do marido, na cidade de Alagoas, para onde o casal viajou e foi surpreendido pela epidemia de cólera. A tal praga egípcia, que inventei acima.

(1955 - Remígio)

O natural seria que a camaradagem entre pai e filho, que durou até a adolescência, persistisse. Mas Remígio se afastou do pai, antes mesmo da mãe morrer. Sempre teimava em abandonar os estudos na faculdade de direito. O pai concordou para que o filho ficasse mais próximo dele na lida da Varginha. Deu o avesso.

(1964 Mané Piaba).

Fiquei amigo de Piaba com suas “defesas” impagáveis e seu panadiço amaguento.  Sujeito finório de mente aberta, sabe se safar de esparrelas, domina a esposa bruta sem tanta brutalidade. Cultiva e carrega ferramentas indispensáveis ao meio (de ricos quebrados e boçais) em que sobrevive, como a saboneteira maleável, muito mais eficaz do que essas que nossos bajuladores (em todas as classes) usam no cotidiano.

Ardiloso nas pelejas, até as de alto nível, como a sustentada com o rezador Zé Tintilo, que tem muito mais cultura e se arrombou. Piaba domina a arte da guerra: ataca com a arma certa no melhor momento. Além do que, é doutor em filosofia da vida. Cita os clássicos do setor com propriedade no seu (de doutor Piaba) jeito simples, fácil de entender.

 

 (1974 Cassiano Barroso)

Um homem prejudicado. Abstrato, com quase nenhum senso prático e gasta a vida com inutilidades; lê livros (sem método) e escreve. Poderia ser essa “Cartilha do Silêncio”, que é ele quem tem mais informações guardadas. Há sutis pistas deixadas que Mané Piaba certamente juraria que o livro de Cassiano fosse mesmo a Cartilha. Quebra a cabeça para trazer à baila os lanços que o esquecimento tenta esconder. E se queixa (como faz todo escritor, eu faço): “começo com a frase completinha na cabeça, feita e burilada na nascença. Mas enquanto vou passando o achado na linha do caderno, a tinhosa começa a se recruzar nos quatro cantos da cachola brincando de se esconder; de repente a mão estaca no meio porque deu um branco e esqueci de como ia findar”.

O filho é seu diploma de fracasso. Queria muito mais para Remígio (esse querer é sempre infinito). Acha pouco ele saber lidar com a Varginha, mesmo comemorando a esperteza na venda do garrote Lenço Fino ao carreiro Chichiu.

 

(1915 até os dias de hoje)

A terceira pessoa vem narrando a trama que esquenta e o personagem sai de seu mundo distante e vem mais para perto, assume a primeira pessoa, o que espanta, mas consegue a dimensão dramática que o momento requer. O que seria? Talvez recurso literário para esquentar a narrativa tornando-a mais intima e pessoal, como se o personagem se sentasse no colo do leitor.

E para onde foram as proparoxítonas que encompridam os tons, agridem com uma cauda besta a música da prosa e trava a língua do leitor? E os “çãos” que fazem zoada em vez de cantoria? Até os pavarotis, quanto mais os singelos trovadores, cortam esses rabos com o dente e nem por isso a palavra deixa de exercer sua missão (poderia ser missa?).

Há fluindo no livro uma riqueza de ditos soterrados há muito pelo inglês presente em cada rótulo ou pela gíria da malandragem que os filmes e a televisão espalham: Ficar moça velha encalhada ou então ir pra torradeira de mamona... A palavra da oralidade inculta quebra a pompa purista, como se no meio de baile de gala no palácio do rei, aparecesse uma bela mulata de mini saia e blusa cavada: Ponto de bala; ferrão no bem mole da bochecha; mãozinha boba; o pau comia no centro; vidinha rasa; cabeça comida de piolho; zumbido do mosqueiro; dedo inframado (afleumado). 

Escapam aqui e acolá surpreendem e revivem fantasmas conhecidos em outras jornadas: pegando um atalho pela mata do timbó; Tonho de Cazuza lazarento dando de beber ao cavalo piolhento e escamado na beira do chafariz; quando Graciliano Ramos escapou da cólera que matou meia Palmeira; o beco dos cocos e até o Morro do Bomfim, conhecido como hospital dessas doenças do mundo.  E muitas outras “coisinhas invisíveis” que passam a régua, dão um tiro para resumir a questão. 

Joias que pertencem ao mundo vivaz de Mané Piaba onde a inteligência flui sem borogodó nenhum.

Eu cheguei a pensar que a fazenda Varzinha era um nadinha, “talhada de terra alongada, como uma tripa de vaca metida em uma vara”, meio alagada, espremida entre a rodovia e nacos vendidos pela família nos apertos. Mas o inventariante Cassiano Barroso, sem parrança ou míngua, me diz na página 291, que essa Varginha “está reduzida a mil oitocentas e quarenta e duas tarefas. Já não passa de uma fazendola rendosa e meã, mas ainda vale um bom pedaço de dinheiro; é um bago de terra de primeiríssima e muito bem localizado”. Deu-me vontade de ir lá, qualquer dia, ver a “garroteira encalombada de gorda, de rego aberto nas costas”, e fazer umas provocações a Mané Sabiá, que deve estar ainda muito vivo, pois cabra assim não morre.

“A Cartilha do Silêncio” é uma construção bem arrumada, texto de bom calibre, palavras e alocuções consistentes. Adjetivos e advérbios redondos, sonoros pingos de mel de engenho, que rolam nas frases e que compõem prosa fácil de engolir até sem mastigação (poderia ser mastigos?). Uma leitura de planície que pode ser vencida até em ponto morto. Todo o irretocável conjunto conta a história de nosso povo se virando para sobreviver. O autor tem o dom de criar romances universais que nos mostram ao mundo de forma autêntica e definitiva. 

Por Antônio FJ Saracura, em Aracaju, 28 de julho de 2022.


xxxx

(Versão sucinta para o jornal)

A CARTILHA DO SILÊNCIO, Francisco J. C. Dantas, Companhia das Letras, 1997, ISBN 978-857-164-634-6.


 (1915 – Dona Senhora)

Ela se prepara para uma longa viagem: o pai está doente em Alagoas e cobra sua presença. Então faz um inventário inteiro de sua vida íntima... Em casa com o marido Romeu e, socialmente, com agregados e parentes. O marido, a quem visceralmente está ligada em todos os sentidos, ele pode passar um século com a cara virada para a parede tesando a esposa ou arrebatá-la às nuvens em fogoso coito. Um bode no cio ou um bloco de gelo da patagônia chilena. Dona Senhora é “uma brasa acesa de jurema assoprada”, domina a palavra sem censura, os gemidos felinos, e o direito de, nas primeiras setenta páginas, abrir a alma a se bater em mil tentativas para penetrar no enigmático Romeu.

(1951 – Arcanja)

Corte abrupto e a máquina do tempo avança 40 anos para pegar esse “dínamo a esbanjar energia”, prática e eficaz, que é Arcanja, única sobrinha de Romeu que foi flagrada em uma visita a dona Senhora nos idos de 1915. Em nova visita ao casarão, bem depois, pega o primo Cassiano Barroso (órfão de Romeu e dona Senhora, banidos por uma praga egípcia) com a boca aberta, desarmado. Manhosa e com firmeza, aplica-lhe uma chave de judô que o arranca do celibato encruado direto para a cama de casal. Arcanja ganhou moral e, em sendo agora parte prejudicada, partiu pra cima do inventariante dos sogros, um desembargador canalha, chamado doutor Belisário, primo do seu tio Romeu. Foi a determinação e valentia de Arcanja que salvou a boa fazenda Varginha e o casarão da praça Olímpio Campos, que já estavam no sorvedouro que engolira a maior parte da fortuna deixada por Romeu.

Esse doutor Belisário me lembrou, de relance, (nem tanto relance) o professor doutor Jileu Bicalho Melão, com suas práticas escusas na Universidade onde era rei. E que foi devidamente espinafrado (eu acho que merecia mais) em “Sob o Peso das Sombras”, outra obra do mesmo autor, que você precisa ler logo. 

Dantas (estou agora com ele ao meu lado) tem o dom de caracterizar personagens vilões com os quais teve o desprazer de conviver na vida. Há outros espalhados em sua obra, tomando merecidas porradas. A justa vingança que cabe ao escritor, e Dantas faz como desobriga, mesmo correndo o risco de ser processado.

E voltando a Belisário, crápula inveterado, ficou muito rico passando a perna em um e outro, aproveitando-se da posição destacada que tem no Poder Judiciário. Comprava terra barata, amedrontando as viúvas, com veladas ameaças de custas dispendiosas, impostos, multas, honorários de advogado. Tecia armadilhas nos entremeios dos conchavos, passando a perna em muita gente crédula ou temente, pois esse povo de Sergipe prefere perder do que brigar pelo que é seu, quando o ladrão é “poderoso”.

E a pequena Arcanja (apenas no físico) morre destruída por uma tuberculose quando a penicilina já estava disponível nos hospitais. Uma morte injusta como a de sua tia torta, que foi comida por piolhos e coberta de culpa, na Casa de Loucos, internada por Belisário, para poder roubar mais. E que a responsabilizou pela morte do marido, na cidade de Alagoas, para onde o casal viajara e foi surpreendido pela epidemia de cólera. A tal praga egípcia, que inventei acima.

(1955 - Remígio)

O natural seria que a camaradagem entre pai e filho, que durou até a adolescência, persistisse. Mas Remígio se afastou do pai, antes mesmo da mãe morrer. Sempre teimava em abandonar os estudos na faculdade de direito. O pai concordou para que o filho ficasse mais próximo dele na lida da Varginha. Deu o avesso.

(1964 Mané Piaba).

Fiquei amigo de Piaba com suas “defesas” impagáveis e seu panadiço amagador. Sujeito finório de mente aberta, sabe se safar de esparrelas, domina a esposa bruta sem tanta brutalidade. Cultiva e carrega ferramentas indispensáveis ao meio (de ricos quebrados e boçais) em que sobrevive, como a saboneteira maleável, muito mais eficaz do que essas que nossos bajuladores (em todas as classes) usam no cotidiano. Ardiloso nas pelejas, até as de alto nível, como a sustentada com o rezador Zé Tintilo, que possuía muito mais cultura e se arrombou. Piaba domina a arte da guerra: ataca com a arma certa no melhor momento. Além do que, é doutor em filosofia da vida. Cita os clássicos do setor com propriedade no jeito simples, fácil de entender.

 

 (1974 Cassiano Barroso)

Um homem prejudicado. Abstrato, com quase nenhum senso prático e que gasta a vida com inutilidades: lê livros e escreve, o que poderia ser essa “Cartilha do Silêncio”, que é ele quem tem mais informações guardadas. Há sutis pistas deixadas... Quebra a cabeça para trazer à baila os lanços que o esquecimento tenta esconder. E se queixa (como faz todo escritor, eu faço): “começo com a frase completinha na cabeça, feita e burilada na nascença. Mas enquanto vou passando o achado na linha do caderno, a tinhosa começa a se recruzar nos quatro cantos da cachola brincando de se esconder; de repente a mão estaca no meio porque deu um branco e esqueci de como ia findar”.

O filho é seu diploma de fracasso. Queria muito mais para Remígio (esse querer é sempre infinito). Acha pouco ele saber lidar com a Varginha, mesmo reconhecendo a esperteza na venda do garrote Lenço Fino ao carreiro Chichiu.

 

(Até os dias de hoje)

Eu cheguei a pensar que a fazenda Varzinha fosse um nadinha, “talhada de terra alongada, como uma tripa de vaca metida em uma vara”, meio alagada, espremida entre a rodovia e nacos vendidos pela família nos apertos. Mas o inventariante Cassiano Barroso, sem parrança ou míngua, me diz na página 291, que essa Varginha “está reduzida a mil oitocentas e quarenta e duas tarefas. Já não passa de uma fazendola rendosa e meã, mas ainda vale um bom pedaço de dinheiro; é um bago de terra de primeiríssima e muito bem localizado”. 

Deu-me vontade de ir lá, qualquer dia, ver a “garroteira encalombada de gorda, de rego aberto nas costas”, e fazer umas provocações a Mané Piaba, que deve estar ainda muito vivo, pois cabra assim não morre.

Parece que o autor esteve presente no íntimo da personagem, anotando cada suspiro, para depois, criteriosamente, passar a limpo nessa "Cartilha do Silêncio", uma obra singular, de personalidade própria, como são todas deste autor, é uma construção bem arrumada, texto de bom calibre, palavras e alocuções consistentes. Adjetivos e advérbios redondos, sonoros pingos de mel de engenho, que rolam nas frases e que compõem prosa fácil de engolir até sem mastigação (poderia ser mastigos?). Uma leitura de planície que pode ser vencida até em ponto morto. Todo o irretocável conjunto conta a história de nosso povo se virando para sobreviver. O autor tem o dom de criar romances universais que nos mostram ao mundo de forma autêntica, definitiva, digna. 

 Por Antônio FJ Saracura, em Aracaju, 28 de julho de 2022.

 

 


quinta-feira, 30 de junho de 2022

OS CAMINHOS DA PESQUISA ANTROPOLÓGICA,

 

OS CAMINHOS DA PESQUISA ANTROPOLÓGICA, Beatriz Góis Dantas, Criação Editora, 278 p, isbn 978-65-88593-86-8.

 


A primeira parte do livro trata da família. Ibarê Dantas conta a trajetória de sua companheira na vida. E não há como não se emocionar com a narrativa que começa pelo baile de jovens em Boquim: “Quando a orquestra começou a animar, convidei-a a dançar. A mocinha de 16 anos levantou-se e unimos nossas mãos sem atinar para o significado daquele primeiro gesto singelo. Começamos a dançar e a dialogar sem saber se a interlocução duraria. Após a festa”...  

E misturando momentos estritamente particulares (os afazeres na singeleza feliz do lar) com rigorosamente públicos (a luta em busca da ascensão profissional) o livro espanta e encanta. Pela simplicidade dos fatos e pela grandiosidade do efeito: os filhos crescem ouvindo historinhas para dormir, as doenças são cuidadas com zelo, as dificuldades administradas, os desafios enfrentados, as vitórias comemoradas...

Tocou-me o discorrer poético do tupinambá Ibarê, herói de grandes batalhas e autor de proezas incomuns, como a consistente obra publicada. Um homem assim certamente tem uma grande mulher junto a ele. E tem mesmo.

O livro entra na trajetória profissional de Beatriz Dantas, os caminhos de sua pesquisa antropológica que é referência no mundo acadêmico. E doutores que testemunharam a epopeia da garotinha de 16 anos apresentam memórias, avaliações, louvores. Como faz a dra. Maria Laura Cavalcanti, professora da UFRJ, que nos mostra o mundo de “Vovó Nagô e Papai Branco: usos de abusos da África no Brasil”, que hoje tem alcance universal. Como Eufrázia Cristina Santos, doutora na USP e professora da UFS, arrematando notas sobre a antropologia em Sergipe que necessariamente passa por Beatriz. Luiz Mott, historiador, pesquisador sênior do CNPQ, e que muito pesquisou Sergipe, fala da pesquisadora, professora e ativista cultural: “Os índios foram seu grande objeto de pesquisa, Beatriz é a principal etno-historiadora de Sergipe, quiçá do Nordeste, seja pelo volume de publicações pela diversidade dos grupos tribais e temas pesquisados, seja ainda pela sua preocupação política engajada da defesa da cidadania dos remanescentes dessa etnia”.

Osvaldo Trigueiro, professor da UFPBA escreve sobre a “Mulher perguntadeira”. Therezinha Alves Oliva, professora da UFS, escreve sobre o Patrimônio Cultural que é Beatriz Dantas. Verônica Nunes, professora da UFS, mostra Beatriz museóloga. Diogo Francisco Monteiro e Kléber Rodrigues andam pelas memórias e experiências nos estudos sobre os povos indígenas de Sergipe. Vagner Gonçalves da Silva, professor da UFS, escreve sobre a arquitetura viva do mundo: “O terreiro de Macumba” e presta uma homenagem à mestra Beatriz. Lea Freitas Perez trata das Festas, da Religião e da Cidade na obra de Beatriz.

Há os depoimentos de Peter Fly (Desvendando Áfricas), de Manuela Carneiro da Cunha (Para Beatriz) e de Maria Tereza Camargo (Carta à minha amiga).

A poeta Maria Lucia Dal Farra(*), professora da Ufs, que abre o livro e que deixei passar porque queria terminar minha resenha com flashes (como se fosse possível) de seu poema “A Missionária da Memória”, canta assim.

“Ela bate tambores na Mussuca,

Bate bilros em Poço Redondo...

Ela desvela o que mora no cotidiano, revela (dos hábitos) o segredo ali premido, da artesania, a longínqua alma - a memória dos mortos esquecidos...

Tudo que vibra e é humilde e simples merece o seu olhar.

Negros, migrantes, caboclos, índios em Ilha de São Pedro, Divina Pastora, Laranjeiras, Itabaianinha.

Um largo abraço para sagrar Beatriz – a imperatriz – a cultora das artes que de Sergipe ela é”.

 

Xxx

Que sorte termos Beatriz Góis Dantas em nosso tempo! E Lagarto, sua terra natal, que extravase orgulho pelos filhos ilustres, entre os quais a estrela Beatriz!

Agradeço pela distinção em me enviar o livro logo que saiu impresso (outubro de 2011): “Ao escritor Antônio Saracura, grande divulgador de Sergipe. Com os cumprimentos de Beatriz”.

Antônio FJ Saracura, Aracaju, 29 de junho de 2022).

(*) Maria Lúcia é concunhada de Beatriz, vez que é casada com Francisco Dantas, que é irmão de Ibarê. Os dois casais são compostos de doutores da Universidade e amam as letras. Todos têm reconhecimento no Brasil e no mundo pelas obras publicadas.


terça-feira, 28 de junho de 2022

ESCRITOS OUTONAIS, Ana Maria Fonseca Medina

 

ESCRITOS OUTONAIS, Ana Maria Fonseca Medina, 2021, EGBa, 174 páginas, Isbn 978-65-89131-30-4.

 


Ana Medina Fonseca nos oferece em cada livro que lança mil poemas lindos. Cada frase é um verso burilado, um diamante. Ana é esmerada, caprichosa, não deixa por menos. Desliza ancha pela arte que arrebata e que emociona. Os seus textos, se não contassem nada, nenhuma história, seriam belos por si só, flores do campo pingadas de orvalho em uma manhã de inverno.

Mas ela nos oferece em seus livros a riqueza de nossa terra querida, a começar por Boquim, que sempre aparece bucólica e mágica. Boquim do tempo de menina. E os valores sagrados da família, da fé católica, do povo simples e do povo ilustre. A glória dos últimos e a esperteza e irreverência dos primeiros. E entram os contadores de causos que não relutam em mentir para mais espantar; carreiros, senhores do cabeçalho potente e da dianteira inteligente, como Zé Pequeno da Fazenda Garangau. E entra João Cachorro acompanhado de um cachorro pedindo esmolas na cidade, uma para si e outra para o companheiro; e Maria Cheirosa, que a molecada chamava de tapioca e ele se danava, dizia que tapioca era a mãe. E até o moleque de recado que corre entre as fazendas e a cidade integrando as pessoas como se fosse uma rede social dos tempos de agora, envolto em rápido zéfiro que somente eu vi.

Bem, assim é este “Escritos Outonais”, irmão de “Trilhando Memórias” (2013) mas também de toda a vasta bibliografia que citarei (alguns títulos) que já são clássicos. Menos se espera e Ana lança uma obra indispensável.

A Ponte do Imperador (1999);

Cartas de Hermes fontes – Angústia e Ternura (2006);

Efemérides Sergipanas de Epifâneo Dórea (2009);

Mário Cabral Vida e Obra (2010);

Crônicas da Passagem do Século de Edilberto Campos (2017);

Valmir Fernandes Fontes biografia (2019).

As obras são sóis acesos sobre valores que jamais poderemos esquecer, de taumaturgos que plantaram as bases da sergipanidade, o orgulho de ser daqui. Se ela não cria, ressuscita heróis. Dom Luciano Cabral Duarte, Hermes Fontes, Mário Cabral, Epifâneo Dórea. Não apenas temos os semideuses, temos os feitos que os glorificaram.

Desfilam monstros sagrados, como Alberto Carvalho, itabaianense que me puxou as orelhas quando ajeitei uma frase que me pareceu errada em sua crônica domingueira de “A Cruzada”, mas escondia um patamar além de meu entendimento. E Carmelita Fontes que foi Gratia Montal nas colunas do mesmo jornal e tive a honra de andar ao seu lado pelos campos da Judeia castigando infiéis. 

Reencontrei Padre Claudionor de Brito Fontes que montou um pensionado na casa paroquial da catedral e eu me inscrevi. Jamais fui chamado, comi, se quis, a garoroba de dona Alzira na esquina da São Cristóvão com Capela.

O jovem pároco de Itabaiana, Gilvan Rodrigues, que me contou sua história de superação em Jerusalém, ganhou páginas justas para seu trabalho e pregador da doutrina sagrada. E o poeta Wagner Ribeiro, sonetista clássico e cordelista brejeiro, que passava tardes batendo papo com os farinheiros de Itabaiana no mercado central de Aracaju e me dizia: “É minha gente de valor”.

Eunaldo Costa trazendo em seus versos os cocos e as melancias da Barra dos Coqueiros...

Goes Duarte, pai de dom Luciano Cabral e apaixonado pela meiga normalista cuja simplicidade encantadora encheu-lhe um dia o coração e a vista.

Maria Lígia Madureira Pina, que me ofereceu o colo amigo e que acalentou o tabaréu desajeitado, tecendo crônicas sobre livros que bisonhamente escrevi; como pode ir para o Céu tão cedo se o céu estava aqui com ela?

Meu conterrâneo santo da igreja, só estou esperando a festa da canonização, padre José Gumercindo Santos, filho dos holandeses do Zanguê de Itabaiana, de onde saíram os poetas João de Deus Souza e Zé Crispim, passou a vida encontrado boas saídas para o rebanho carente mas teve seus tapetes puxados por quem deveria estendê-los.

Horário Hora, Florival Santos, Álvaro Santos, Freire Pinto, Estácio Bahia, Benjamim Fontes...

 

Eu nunca ouvira falar da “Rapsódia Sergipana” e nem de Stela Leonardo da Silva Lima Cabassa que Ana me apresentou aqui de sopetão. Fiquei zonzo com as xácaras, os cantochões e os benditos falando de nossa lendas, como Belchior Dias, Maria Pereira, João Canário e muitos outros que vão sumindo das lembranças.

A segunda parte do livro, que misturei aqui e ali com a primeira, é composta de gostosas crônicas sobre sentimentos, infância, aulas de catecismo... E encontrei velho Luduvice, beato da igreja do seminário, que sempre estava no meio dos seminaristas e acho que é o pai de Conceição (de quem Ana fala) e de Luduvice José, seminarista como eu, mas que virou jornalista ilustre. Um dos poucos da minha prima sacristia a me abraçar no retorno com os alforjes cheios de histórias pra contar. Mas preciso encerrar com Marylin, uma crônica especial, escrita com azougue. “E o palhaço o que é? Ladrão de Mulher.” A menina órfã chamada Zefira, criada de favor viu no circo Tyrol as asas de voar. E pediu ao palhaço para fugir com ele. O palhaço não negou a fama e levou Zefira embora. Não adiantou o serviço de autofalante do vigário Cravo chamar Zefira de volta, pois ela, logo depois, era atriz de teatro e se chamava Marylin. Mas a menina triste teve glória passageira.

Uma rajada de sangue se desprendeu de seu corpo e ela caiu morta em pleno espetáculo. Estava esperando um filho. O palhaço a envolveu em um beijo. Duas lágrimas brancas de alvaiade cobriram o rosto de Marilyn. A plateia foi ao delírio, palmas e pedidos de bis. Nem percebeu que, naquela hora, era a vida que imitava arte.  Como viver de verdade outra vez após a morte?

Obrigado, Ana Medida, seu livro é muito bom.

 

Aracaju, 28 de junho de 2022, por Antônio FJ Saracura.

 


domingo, 26 de junho de 2022

SERGIPE UM ROTEIRO TURÍSTICO, HISTÓRICO E CULTURAL

 

SERGIPE UM ROTEIRO TURÍSTICO, HISTÓRICO E CULTURAL, Amâncio Cardoso, 2022, Artner Editora, Aracaju, 136 páginas, isbn 978-65-88652-53-6.

 


A editora Infographics sempre disponibiliza livros para suprir a Geloteca que a Academia Itabaianense de Letras mantem no shopping Peixoto em Itabaiana. São sobras de edições que poderiam ser enviadas para a reciclagem, escaparam à encomenda. As gelotecas (outras também recebem) oferecem literatura à base de troca livre com leitores dispersos. O leitor leva um e paga com outro livro (se quiser) para que a corrente persista. Assim, ajuda a circular o sangue das sabedorias e dá vida ao nosso ser cultural. Há várias instaladas em outras cidades e em escolas, quase sempre construídas a partir de sucatas de geladeiras, daí, talvez, o prenome Gelo... e que são, na sua maioria, construídas fornecidas pela Infographics Editora, uma fábrica de livros de Aracaju.

Antes de levar a última remessa de livros para Geloteca da AIL, olhei as capas (como sempre faço) e, curioso, bispei o conteúdo de alguns, menos os de minha autoria e os já lidos, que seguiram livres. Tenho me batido, nessas olhadas, com joias, como esta, “Sergipe um roteiro turístico...” de Amâncio Macedo.

Não resisti e o retive comigo para ler. Paguei o "empréstimo" com um livro de minha autoria, mas agora vi que paguei muito pouco pelo Roteiro... que é um consistente e rico, sem empolgação, expondo informações técnicas garantidas por bibliografia informada. 

Talvez a obra não cubra todo o universo desse Sergipe turístico, histórico e cultural, mas traz muito mais do que esperei achar. 

Vai do conceito de Sergipanidade a uma ilha perdida na boca do Vaza Varris, chamada de Mem de Sá. O miolo é um lugar imenso que nos orgulha e encanta. Meio abandonado aqui e ali: ouro jogado, mas mesmo assim grande, muito maior do que sua terra e seu céu:

A Grota do Angico onde Lampião morreu; as farinhadas, que encheram minha infância de raspa de mandioca; o gado, que tangi e chamei nas lidas do sítio Saracura; a banca de cordel do ceboleiro João Firmino; o misterioso Inácio Barbosa, de quem nem fotografia há, e que morreu talvez envenenado por arsênico, conforme consta no “Cotinguibeiro”, coluna do Diário de Pernambuco, publicada em 08 e outubro de 1855.

A Praia formosa ou 13 de julho que a cidade engoliu, com ruas escorregadias e lamacentas, como “Caga de Pé” que hoje é Raimundo Fonseca e “cu tapado” que hoje se chama José Sotero.

Eu revi as gestas, quase apagadas dentro de mim: cantei a do Boi Epitácio, a do Rabicho da Geralda... Do Boi Surubim recolhi esparsos fragmentos, mas a saboreei, mesmo assim. E chorei com o conto “A mágoa do Vaqueiro”, do escritor maruinense Alberto Deodado, incluído no livro "Canaviais" publicado em 1922, e com o qual nunca me bati, mesmo tendo o tino de caçador de livros raros. Com a gesta, varei as matas de Gararu, atrás de Pintadinho, boi enfeitiçado pela velha Lauriana. Quase me estropiei como os outros onze vaqueiros cearenses já haviam se estropiado. Fui o sétimo contratado pelo coronel Rocha e sou daqui mesmo dos campos sergipanos. Dei novo fogo à surreal caçada, na qual falávamos o nome do boi em voz baixa, com medo da mandinga de Lauriana pegar na gente. 

E o Batistão, que foi feito em meu tempo... nem mais me lembrava de que possuía dez salas de aula para atender 1.200 alunos, em três turnos, o ensino focado no esporte, estavam ao lado de um parque esportivo espetacular. Já há bom tempo, as ditas salas acomodam sedes de federações esportivas e delegacia policial.

Brefácias e Burundangas de Carvalho Deda sempre me encantou, mas a Festa do Barricão nem tanto. Homens malvados iam às casas onde moravam moças idosas e virgens para as constranger. Um dos mascarados, dentro de uma barrica, recitava versos alusivos ao celibato, que eram respondidos em coro, ao som de uma sanfona e de um reco-reco, pelo alucinado séquito. Eu, no lugar da moça donzela, metia bala nessa corja. Quem tem a ver com minha má sorte um bom azar em não arrumar marido, que é o que mais quero na vida? 

E o poeta trovador itabaianense João Canário, meu Deus! 

Cego, negro, cantador de feira que tinha desgosto de não saber tocar viola, ralava um querequexé de fraldes para marcar sua cantiga. Então, o moleque Caboco Liso, os olhos de João, recolhia as propinas dadas embolsando uma parte. João morreu na miséria, mas hoje é patrono cadeira 11 da Academia Itabaianense de Letras cujo ocupante é o prolífero escritor Carlos Mendonça, especialista em biografias, romances picarescos e tem alentada obra sobre nossa terra.

Praia dos Náufragos na orla sergipana... mentes mal iluminadas da área de turismo veicularam em folhetos que o nome se deve a naufrágio corrido em 1907. Os 551 náufragos mortos em 1942 no afundamento de navios pelo submarino alemão U-507, atingidos em sua memória, levantaram-se das tumbas e protestaram. 

(Todos olhamos para o velho cemitério do Robalo, silencioso. Os mortos não moravam mais lá (página 105)).

O autor usa palavras boas que formam imagens que me encheram o peito de amor à minha terra que, para ser nossa mesmo, precisou atropelar na época os próprios sergipanos batizados na Bahia.

"SERGIPE UM ROTEIRO..." é um bom livro para ler e para ter em casa. Mesmo que a casa seja um apartamento kitnete do tamanho do meu.

(por Antônio FJ Saracura, Aracaju 26 de junho de 2021).

 

 

 


quarta-feira, 22 de junho de 2022

NO ARDOR DOS LIVROS

 

NO ARDOR DOS LIVROS, Estudos sobre Maria Lucia Dal Farra, Ana Vilela, Fábio Maria Silva, Inês Pedrosa, Rosa Fina (org.), Sol Negro Edições, ARC Edições, Isbn 978-65-86916-12-6

 


Recebi um exemplar autografado do livro "No Ardor dos Livros". Obrigado. Tinta lilás, letra círica do próprio punho da autora, Dal Farra. ”Ao grande Saracura, para dividir a alegria, grande abraço ..... Morada do Rio, 05/07/2021". Então, Maria Lúcia Dal Farra chegou aqui em casa vestida de poesia e de louvores. Obrigado pela dedicatória que não consegui (e nem precisava) traduzir inteira.  Mas entendi que a autora compartilhava comigo a alegria imensa que vivia. E como fiquei alegre também!

No Ardor dos Livros é alentado livro com 294 páginas tratando desta sergipana que não esquece sua origem em Botucatu. Mas sua poesia é nossa (muito mais) com toda sua arte, assim como é nosso o romance de Francisco Dantas, seu esposo. Os dois produzem obras que nos elevam e enlevam. Coivara da Memória, Os Desvalidos, Alumbramentos, Livros das Auras... Que os mantenho ao meu alcance sempre, junto com os irmãos tão bons quanto, nascidos da mesma união  e de outros admiráveis magos das letras.  

O livro começa com uma entrevista de 20 páginas, na qual a autora  não se esquiva. Abre-se sincera e inteira. E como é bela! (Que me perdoe a petulância). Cada resposta dada por Maria tem a consistência da tapioca enxuta saída das farinhadas no sítio onde nasci e tem a beleza da Serra de Itabaiana para Maria Thetis Nunes (mais bela que os Alpes e os Andes) e para mim (não conheço outra além de Itabaiana). Maria Lúcia discorre vasta sobre suas múltiplas faces; a vida de escritora; o entendimento de poesia; a ligação com Florbela Espanca e com Herberto Helder; como entende a própria obra literária... 

E uma passagem especialmente me atingiu, pois tem meu jeito de ser: “eu (uma menina de 13 anos) não podia admitir que, doravante este livro (Memórias Póstumas de Brás Cubas) fosse ignorado pelos que me rodeavam”. 

Apenas esta curta Entrevista  (inesgotável na abordagem da pessoa, do contexto em que vive, da linha de pensamento - os por quês -  que a faz ser assim tão grande) vale um livro por si só. .

E em seguida, no capítulo 2, desfilam os depoimentos de mestres que conviveram com a obra e com a autora: Ana Maria Domingues de Oliveira (roxo é a cor mais quente); Marlise Val Bride (É tudo verdade...); Adriana Sacramento e outros (Homenagem a Maria Lucia); Inês Pedrosa (Homenagem), Paulo Mota Oliveira  (Por corredores que não dão para dentro). 

O capítulo 3 trata de Maria Lucia traduzida. Estudiosos, como Cris Gerry, Matteo Pupillo e Mercedes Gomes Almeida apresentam fortunas em outros idiomas. Dei uma brecada, mas segui em frente, pois até meu português precisa ser revisto, e bem que o inglês de with love, desceu bem. Até achei  que Matteo Pupillo, logo a seguir, escrevia em inglês. 

O capitulo 4 compõe-se de artigos... Muitos artigos, acredito que publicados em jornais e revistas especializados, tratando da obra (ou parte dela) e da poeta. São de autoria de plêiade de acadêmicos, que achei justo citar todos, mesmo sem comentar o assunto abordado, um pouco para instigar a leitura do livro e chegar ao fim desta resenha que precisa ser breve: 

Adriana Sacramento analisa a poesia no livro Terceto para o fim dos tempos (2017);

Catherine Dumas estuda e disseca o poema Herança publicado em Terceto para o fim dos tempos.

Cláudia Pazoa Alonso fala de Clarividências na poesia de Florbela e Dal Farra; 

Deolinda Adão trabalha os diálogos poéticos entre tons de lilás em Dal Farra; 

Edson Santos Silva vasculha a recensão (notícia crítica resumida, publicada em revistas técnicas)  de alguns poemas de MLDF;

Fábio Mario da Silva e Paulo Geovane e Silva - o significado de Fruto Proibido em dois poemas de Maria Lúcia; 

Helder Garmes - Urdidura na narrativa e memória em Inquilina do Intervalo (livro de contos de 2005 de MLDF);

Iná Camargo Costa escreve sobre um Terceto (para o fim dos Tempos, e seu manual de instruções); 

Iracema Goor e Anita Costa Malufe  trabalham Labirinto da Memória em Terceto (citado antes);

Isa Margarida Vitória revela uma gratidão à mestra; 

Ivo Falcão da Silva trata de Florbela e Gilka Machado em MLDL;

Jonas Leite - De Maria Lúcia para Florbela, com amor;

Kalina Naro Guimarães fala de coisas de mulher em dois poemas de Dal Farra;

Patrícia da Silva Cardoso - As palavras e suas formas concretas no poema de Fiama Hasse País Brandão vistos por MLDF;

Rafael Campos Quevedo   Linha amorosa  de Maria Lúcia,  leitura do poema Amor em Alumbramentos; 

Rogério Alves Freire - A subversão do papel feminino em Florbela, Mariana Alcoforado e Dal Farra.

Para conhecer bem Maria Lúcia cabe ler a fundo sua obra e/ou as mil visões dos estudiosos a respeito. É mais ou menos, o que diz Marlise Vaz Bride, página 37 deste No Ardor dos Livros, ao falar  de outro monstro (ainda não passei em sua caverna), Vergílio Ferreira. 

E para encerrar estas mal traçadas linhas, copio (porque não conseguiria ser mais claro) o que escreveram os organizadores deste No Ardor dos Livros sobre Maria Lúcia: “Em tudo que escreve, não deixa de afirmar a sua plena singularidade expressiva, caracterizada pelo rigor e pela depuração formais e pelo fulgor poético do real que transfigura”.

Um grande abraço, Dal Farra, pela distinção com que me trata.

 

(Por Antônio FJ Saracura, 22 de junho de 2022)