
Cida, minha esposa e crítica ferrenha de minha literatura (reescreva tudo, ninguém merece o castigo de ler), quando está lendo um bom livro não me deixa em paz. Abre a porta de meu escritório, onde garimpo rimas e brigo com meus fantasmas, e avassala (este é bom demais, simples, claro, belo). Minha cara de enfado, meu olhar irado, as cortinas escuras cerrando meus olhos não a intimidam (pare aquele livro do japonês que está deixando seus olhos pinins e leia Maria do Carmo Costa).
Afasto com uma mão a
cortina cerrada e olho-a. Peremptória, permanece à minha frente, acenando um
livrinho de tons azul/vermelho/e branco, como se fosse a bandeira da Olímpica
de Itabaiana nos gloriosos tempos do penta campeonato estadual de futebol. Percebendo
que me fisgou de jeito, fala baixinho, para me tirar de vez da água (é
pequeninho, do tamanho de um botão, mas encheu meu coração...).
Então, boto uma pedra
sobre as rimas, entrego os pontos aos implicantes fantasmas, mando o japonês
dar um pulo na horta para irrigar os tomateiros novos que já reclamaram...
Vou ler Maria do Carmo.
“Para sempre Itabaiana”
tem poucas páginas, letras de bom tamanho para minha vista cansada, histórias
curtinhas, poemas levinhos. Fui me encantando... Tem conteúdo, contem
substância. Um hino de louvor a um povo valoroso, que tento cantar e não
consigo com a mesma intensidade. Cada crônica traz dentro de si uma gente
vivendo e ensinando como se vive.
Vi Euclides tentando
correr à sua casa, ao alcance de vinte passadas, quem sabe pegar a metralhadora
cheinha de balas que dissera ter.
Arrodeei a praça da
Matriz mais uma vez, na fresca boca de noite, seguindo Ana Isabel, uma das
minhas musas juvenis, agora de bem pertinho, sentindo o perfume de seu corpo.
Emparelhei, segurei sua mão trêmula, e declarei todo o meu amor, fazendo
Geraldo de Zé Gordinho engolir cada letra daquele “você é muito frouxo” que
está grafado na página 159 de “Os Meninos que não queriam ser padres”.
Tirei uma experimenta da
panela cheirosa onde uma menina de doze anos preparava o almoço de toda
família, costurava roupas e ainda tinha tempo de criar um gatinho pintado.
Subi a serra de Itabaiana
pela segunda vez na vida. E como queria fazer na vez anterior, ao ver-me no
topo, perto do céu, corri abraçado a uma nuvem branca que vacilava à toa, na
direção norte, até as faldas do Bom Jardim , quiçá do Zangue ou da Cova da Onça
(me ajude Almeida Bispo!)... Eu queria muito olhar o horizonte longínquo onde o
sítio Saracura estaria me acenando cheio de fama no coração da distinta Terra
Vermelha.
Contei onze burros
arreados com cangalhas de cruzetas altas (um a mais do que os contados na
crônica “Os Burros Inteligentes de Itabaiana Grande”), trazendo, sozinhos, em
fila indiana, sem qualquer condutor ou tropeiro, quartos de boi, do matadouro
para o mercado das carnes. E, depois, vi-os retornando para fazer mais outras
viagens. O meu tio marchante, Chico de Pepedo Saracura, irritado, reclamava,
porque o despachante do matadouro, de sacanagem, mandou, com seus nós
identificadores, um quarto de vaca magra. Vendo-me ali dando bobeira, mandou-me
montar no décimo primeiro, um burro alazão mal amansado, e ir avisar que o seu
boi foi trocado. A crônica “Fragmentos de Memória” (revive a infância e a
adolescência de toda uma geração de ceboleiros maduros nos dias de hoje) acaba
com uma “marselhesa” serrana para a gente sair cantando, reinventando na hora a
melodia, arranjando-a com acordes do hino do Itabaiana.
Os poemas são singelos,
muito ao meu gosto, falam de infância, de solidão, de amizade, de amigos como Saracura
(que honra!): “Escreve sobre sua terra e sua gente /ama o seu povo / quando a
gente acaba de ler / dá vontade de ler de novo”.
O que vou fazer para
dizer ao mundo que leia: "Para Sempre Itabaiana".
(por Antônio FJ Saracura,
da Academia Itabaianense de Letras, em Aracaju, 16/11/2015).
Li na ASL em 2019
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