quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

MEMÓRIAS DO MEU LUGAR, Maria Adriana e Thais Oliveira


  

MEMÓRIAS DO MEU LUGAR, Maria Adriana e Thais Oliveira (e mais os alunos do 8 ano da Escola Municipal Professora Eliete de Melo Guimarães).

Retornamos  da festa do lançamento deste livro, em Japoatã,  perto da  meia-noite. Eu dirigia e bati em dois trens na pista, juro que não os vi, me pegaram à traição: uma cratera e um quebra-molas camuflado de mil tons escuros. Após cada um, achei que o carro se partira em dez. No quebra-molas, pedaços levantaram voo como se  acionados pela explosão de uma bomba de breu Estanciana. A cratera estava na segunda pista, a da direita, por onde andam os caminhões de carga e idosos inseguros, e bem disfarçada por  um manto liquido deixado pelo pé de água que acabara de se levantar.

Nos dois casos, o dono do carro, Pascoal, ao lado, com  quem cruzo estes mares tenebrosos e que conhece rezas fortes, consertou tudo antes do bólido aterrissar na pista e continuar o voo temerário para Aracaju.

Eu estava certo de que se mais trens idênticos aparecessem no meu caminho teriam o mesmo destino dos dois, mas sorri seguro para Pascoal, que me olhava de través.

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Logo adiante, o carro, outra vez, na velocidade de cruzeiro, apareceu o letreiro luminoso anunciando um posto de combustível. Pascoal, que vinha caladão,  mandou-me entrar, pois precisava ir ao banheiro.

Após, com um jeito educado e irrecusável, pediu a chave de volta:  “Vou dirigir um pouco para me manter acordado”.  

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Retornando à festa de lançamento do livro das professoras Adriana Oliveira e Thais Oliveira... Foi muito  bonita. O salão  esteve lotado até o encerramento. Já perto da meia noite, ninguém queria sair, todos presos pela exibição de peças de artistas, declamação de  poetas, testemunhos do povo prestigiado.

“Memórias do meu lugar” descobre os espaços, revela histórias e  memórias. Faz um mapeamento antropológico de Japoatã povoada de lendas e de mistérios: frades apressados, tesouros bem escondidos, caçadores frustrados.  

Cada aluno do oitavo ano da escola Eliete de Melo Guimarães (organizados em grupos e conduzidos pelas professoras nomeadas acima) foi aos logradouros da cidade, vasculhando a memória dos moradores e bisbilhotando entradas de poços abandonados nos quintais, portas falsas das casas mais antigas.

Se algum achou os tesouros dos frades do passado, não revelou no livro e nem fugiu da cidade.  

Entretanto, foi achado tesouro de maior valor,  na rua São Jorge, vivendo normalmente, a mulher mais idosa do mundo, dona Maria José dos Santos,  nascida em 1905 que, por pouco (morreu antes) não figurou no inacessível Livro dos Recordes.

E em uma segunda-feira, ainda agrupados, os alunos autores iam aos seus destinos (aos logradouros) e foram engolidos pela Feira tradicional, que tomava a  Praça da Matriz e que os impregnou do cheiro de coentro  fresco, de peixe salgado, de couros dos arreios, de café sendo coado, de tapioca quente ao queijo derretido...[

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Por meses,  fotografando e anotando, eles correram, além da praça da Matriz e da rua São Jorge, arua do Campo (de Ximbo e Melindroso), a rua das Pedras onde os Bezerras são honrados e onde a bodega de Manoel tem uma janela ao mundo e a escola Municipal Eliete Guimarães mais de mil. Também a Rua do Matadouro, rua Pacatuba, rua das Sete Casas, Santa Terezinha...

Mais ruas,  trevos, rodovias, conjunto residência, praças...

Iriam ao castelo  onde moram as musas e o vate Chico Lúcio, autor de belos poemas e da melodia e da letra do hino da cidade. Mas o castelo fica no povoado Poxim, que está no roteiro do segundo tomo do livro, já projetado. Mas os autores não esqueceram o poeta maior do lugar. No fechamento, incluíram  biografia dele, pra quem mando um abraço, e a letra do hino de Japoatã, que já sei até cantar uns trechinhos.

O mérito pela obra (Memórias do meu Lugar) cabe aos 32 alunos-exploradores (vestidos de Indiana Jones) sob o comando das professoras Adriana e Thaís, imortais da Academia de Letras de Japoatã que, assim, cumpre sua missão regimental. 

Recomendo a leitura (agradável e rica), e a imitação do projeto por outras academias de letras sergipanas.   


(Aracaju, 24 de dezembro de 2025, por Antonio FJ Saracura)

Nota: Há um trabalho (livro) similar feito pela Academia de Letras de Dores, que li e talvez tenha escrito uma resenha, pois muito me impressionou. Mas, agora, ele está escapando, não acho o livro em minha biblioteca e nem a resenha, que deveria estar neste  blogger. 



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