domingo, 17 de maio de 2026

PORTAL DO ESPANTALHO, a última saída, Jilberto Rodrigues de Oliveira

 

PORTAL DO ESPANTALHO, a última saída, Jilberto Rodrigues de Oliveira.

 




Um grupo de garotos moradores do povoado Alecrim, no Malhador, autodenominado os Guripas, resolve, assim de improviso, fazer uma expedição a serra do Capunga, que fica perto. Não havia nada previsto e eles nem se meteram a inventar uma diversão local qualquer, naquele bonito domingo pela manhã. 

E, sem bagagem, partem para a serra, dar uma vareada nas nascentes dos rios e riachos que ainda não sabem quem são (especialmente o chamado Pinga-Pinga) que descem da serra e correm pela planície em busca do rio Jacaracica.

A cadeia à qual pertence a serra do Capunga é a mesma que marca a cerca natural do imenso curral da Itabaiana Grande e que supriu de carne, arreios e canga os engenhos da Bahia, Pernambuco e da Cotinguiba, no tempo colonial. Foi em uma de suas serras (a majestosa Itabaiana) que Belchior Dias Moreia descobriu e depois escondeu as minas de prata, que ainda hoje são lenda. Essas minas fizeram de Itabaiana a capital do Vice-Reino brasileiro por um tempo e atraíram os holandeses de Maurício de Nassau, cobiçando também o controle dos currais de criação.

Os Guripas subiram a serra do Capunga por uma picada que já conheciam e penetraram nos fundos grotões em busca de enseadas úmidas dos minadouros. Sabiam do risco que corriam, conheciam as lendas que durante séculos o povo da planície passava de pai para filho. À frente, o líder, Zé Barbante, andava atento, escutando os ruídos, segurando o rumo. Em seguida, Nego Giba (forte como um tourinho zebu), Rodela, Ziro, Felé, Gabiru e Póca.

Sem perceber, a tropa penetrou no mundo misterioso da serra, que se abriu em reinos com fadas, bruxas, monstros, gatas borralheiras, carneiros de ouro, castelos com fossos, torres tenebrosas e placas escritas em latim medieval

E se envolve em fios que precisam achar a ponta ou jamais sairão do encanto, jamais retornarão à pracinha do Alecrim onde as suas famílias, especialmente as namoradinhas de cada um,  agoniam-se com a demora.

O enxuto romance de 145 páginas passa pela fantasia de J.R. Tolkien em O Senhor dos Anéis e O Hobbit, pela fantasia de Lewis Caroll em Alice no País das Maravilhas, pela de Clive Staples (leia-se C.S. Lewis) em As Crônicas de Nárnia e Trilogia Cósmica, pelas Viagens de Gulliver...

Viagens ao fim do mundo, criaturas fantásticas, batalhas épicas são os principais ingredientes destes best-sellers consagrados e são também do “Portal do Espantalho” de Jilberto, pois desafia, assusta e encanta.

Parece um livro infantil (as crianças vão viajar), um livro juvenil (a rapaziada vai vibrar), um livro eclético (a velharia não vai cochilar hora nenhuma). Eu acabei de o ler e rabisquei  essa curta resenha, como é meu costume quando sou picado pela mosca azul do encanto, para que você queira ler também.

Aracaju, 17 de maio de 2026, por Antônio FJ Saracura

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

DE GAMELEIRA Á COLÔNIA, Uma Saga Nordestina, Marcos Antônio Lima

 

DE GAMELEIRA Á COLÔNIA, Uma Saga Nordestina, Marcos Antônio Lima, Santa Brígida, editora AZ7,2023, História verídica, isbn 978-65-85244-03-9      

 

Me agradam histórias verídicas, que falem de lugares que cresceram com intensa luta, que não esqueçam dos construtores, especialmente os que se construiriam junto.

Eu conheço o autor desde livro, o professor Marcos Antônio Lima, das bienais e das feiras do livro de Itabaiana, para as quais ele sempre vem da Bahia longínqua comandando um ônibus de alunos das escolas nas quais ensina. E o admiro pela alegria com que recebe os módicos vales livros/biens que conseguimos dar-lhe e pela gratidão com que seus alunos exibem os livros comprados com os biens.

Na III Feira do livro de Itabaiana vieram com a comitiva do professor Marcos, o prefeito de Santa Brígida, um secretário ou vereador da cidade. Eu chamei Domingos Pascoal, que dava uma palestra no palco da palavra, meu parceiro na organização do evento, para me ajudar, pois nunca me ocorrera algo similar nestes mais de dez anos que tenho estado na execução, tanto das Feiras do Livro como das Bienais de Itabaiana.

Achamos que Santa Brígida nos distinguia de maneira inusitada e gratificante.

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O livro (da Gameleira à Colônia) é um romance regional de fio firme até a morte do beato na página 109. Tem momentos espetaculares.

O beato Pedro Batista, o basilar protagonista, é santo conselheiro, curador de almas. As pessoas sofridas ouvem o vento e vêm de longe em busca de milagres, inclusive do Sergipe e de Pernambuco.

Vislumbrei nele, assustado, Antônio Conselheiro de cem anos atrás e temi que o Brasil moderno não tivesse aprendido a lição e mandasse repetir a chacina em mais um arraial gerido além do tempo.

A fazenda Gameleira é comprada ao Coronel João Sá apenas na palavra, retalhada em lotes e distribuída em arrendamento aos “retirantes”,  que começam a fazer milagres também. Novas propriedades são compradas. A reforma agrária do governo Federal prova-se aqui como um projeto vitorioso. Há momentos heroicos de extrema emoção.

Quem tão frio que não derrame lágrimas?

E entra o protagonista Apolinário Domingos Neto, escolhido pelo curador, a quem seguiu com devoção desde o começo. Apolinário mostrou-se também  um incansável pacificador e condutor de rebanhos.

Aqui a  narrativa se abre para resgatar o mundo variado ao redor. Santa Brígida emancipada de Jeremoabo, consolida-se e cresce. É a colônia sertaneja de um povo feliz que peleja, conforme canta o hino cívico cheio de símbolos. Meu padrinho Pedro Batista deu ordem pra nóis brincar porque  "Mineiro Pau" se brinca em todo terreiro de chão. A cultura transpira com o suor da lida e o folclore tem o gosto quente do lugar. 

E aparecem as famílias se recompondo, mantendo-se com dignidade. E chegam as escolas, caminhos do sucesso para a juventude sonhadora.   

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Os alunos da escola municipal Doutor Rogério Rego e do Centro Educacional Zenor Teixeira estão na maior ansiedade.

O professor e escritor Marcos Antônio Lima e um grupo de professores selecionam a lotação para os dois ônibus que viajarão para IV Feira do Livro de Itabaiana, em abril próximo (dias 24, 25 e 26).

Ninguém quer ficar de fora.

(Por Antônio FJ Saracura, em Aracaju, 2026jan02)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

MEMÓRIAS DO MEU LUGAR, Maria Adriana e Thais Oliveira


  

MEMÓRIAS DO MEU LUGAR, Maria Adriana e Thais Oliveira (e mais os alunos do 8 ano da Escola Municipal Professora Eliete de Melo Guimarães).

Retornamos  da festa do lançamento deste livro, em Japoatã,  perto da  meia-noite. Eu dirigia e bati em dois trens na pista, juro que não os vi, me pegaram à traição: uma cratera e um quebra-molas camuflado de mil tons escuros. Após cada um, achei que o carro se partira em dez. No quebra-molas, pedaços levantaram voo como se  acionados pela explosão de uma bomba de breu Estanciana. A cratera estava na segunda pista, a da direita, por onde andam os caminhões de carga e idosos inseguros, e bem disfarçada por  um manto liquido deixado pelo pé de água que acabara de se levantar.

Nos dois casos, o dono do carro, Pascoal, ao lado, com  quem cruzo estes mares tenebrosos e que conhece rezas fortes, consertou tudo antes do bólido aterrissar na pista e continuar o voo temerário para Aracaju.

Eu estava certo de que se mais trens idênticos aparecessem no meu caminho teriam o mesmo destino dos dois, mas sorri seguro para Pascoal, que me olhava de través.

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Logo adiante, o carro, outra vez, na velocidade de cruzeiro, apareceu o letreiro luminoso anunciando um posto de combustível. Pascoal, que vinha caladão,  mandou-me entrar, pois precisava ir ao banheiro.

Após, com um jeito educado e irrecusável, pediu a chave de volta:  “Vou dirigir um pouco para me manter acordado”.  

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Retornando à festa de lançamento do livro das professoras Adriana Oliveira e Thais Oliveira... Foi muito  bonita. O salão  esteve lotado até o encerramento. Já perto da meia noite, ninguém queria sair, todos presos pela exibição de peças de artistas, declamação de  poetas, testemunhos do povo prestigiado.

“Memórias do meu lugar” descobre os espaços, revela histórias e  memórias. Faz um mapeamento antropológico de Japoatã povoada de lendas e de mistérios: frades apressados, tesouros bem escondidos, caçadores frustrados.  

Cada aluno do oitavo ano da escola Eliete de Melo Guimarães (organizados em grupos e conduzidos pelas professoras nomeadas acima) foi aos logradouros da cidade, vasculhando a memória dos moradores e bisbilhotando entradas de poços abandonados nos quintais, portas falsas das casas mais antigas.

Se algum achou os tesouros dos frades do passado, não revelou no livro e nem fugiu da cidade.  

Entretanto, foi achado tesouro de maior valor,  na rua São Jorge, vivendo normalmente, a mulher mais idosa do mundo, dona Maria José dos Santos,  nascida em 1905 que, por pouco (morreu antes) não figurou no inacessível Livro dos Recordes.

E em uma segunda-feira, ainda agrupados, os alunos autores iam aos seus destinos (aos logradouros) e foram engolidos pela Feira tradicional, que tomava a  Praça da Matriz e que os impregnou do cheiro de coentro  fresco, de peixe salgado, de couros dos arreios, de café sendo coado, de tapioca quente ao queijo derretido...[

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Por meses,  fotografando e anotando, eles correram, além da praça da Matriz e da rua São Jorge, arua do Campo (de Ximbo e Melindroso), a rua das Pedras onde os Bezerras são honrados e onde a bodega de Manoel tem uma janela ao mundo e a escola Municipal Eliete Guimarães mais de mil. Também a Rua do Matadouro, rua Pacatuba, rua das Sete Casas, Santa Terezinha...

Mais ruas,  trevos, rodovias, conjunto residência, praças...

Iriam ao castelo  onde moram as musas e o vate Chico Lúcio, autor de belos poemas e da melodia e da letra do hino da cidade. Mas o castelo fica no povoado Poxim, que está no roteiro do segundo tomo do livro, já projetado. Mas os autores não esqueceram o poeta maior do lugar. No fechamento, incluíram  biografia dele, pra quem mando um abraço, e a letra do hino de Japoatã, que já sei até cantar uns trechinhos.

O mérito pela obra (Memórias do meu Lugar) cabe aos 32 alunos-exploradores (vestidos de Indiana Jones) sob o comando das professoras Adriana e Thaís, imortais da Academia de Letras de Japoatã que, assim, cumpre sua missão regimental. 

Recomendo a leitura (agradável e rica), e a imitação do projeto por outras academias de letras sergipanas.   


(Aracaju, 24 de dezembro de 2025, por Antonio FJ Saracura)

Nota: Há um trabalho (livro) similar feito pela Academia de Letras de Dores, que li e talvez tenha escrito uma resenha, pois muito me impressionou. Mas, agora, ele está escapando, não acho o livro em minha biblioteca e nem a resenha, que deveria estar neste  blogger. 



quinta-feira, 20 de novembro de 2025

HISTÓRIAS DO MEU POVO, Aduilson Gois

 

HISTÓRIAS DO MEU POVO, Aduilson Gois, Aracaju, Infographics, 2025, 166p, isbn 976-65-5730-263-7




Saiu a terceira obra do escritor (uma grata surpresa) Aduilson Gois, das Flechas de Itabaiana, meu primo segundo, que conheci outro dia, filho de Antão e neto de tio Homero.

Este meu tio Homero, como sua irmã Florita (que é minha mãe), sem prejuízo dos demais irmãos,  foram brilhantes na  arte de relembrar, incansáveis contadores de histórias. Os ouvintes viciados e boquiabertos sempre eram surpreendidos com inéditas e apaixonantes histórias.  

Aqui, Aduilson está atento ao povoado em volta, desviando o olhar de seu mundo de quase a vida toda, quando viveu perigosamente nas rotas do crime, nas arriscadas fugas, ou na solidão da cadeia.  “Cansei de Servir o Diabo” e  “A Liderança”,  suas obras anteriores publicadas, tratam com maestria dessa fase dura.    

O escritor mostra, agora, o lado lírico de sua alma. Aqui são 52 crônicas curtas, leves, escritas no tosco e saboroso linguajar dos povoados de Itabaiana.  Algumas nem uma  página dão, outras apenas registram uma pessoa ou um momento que precisam ser preservados, pois foram importantes para algum morador, para o  povoado, para os olhos de quem, fugazmente, agora, os vê.  

O livro trata de Antão (o pai do autor), de meu sósia Saracura, da parentada espalhada, dos vizinhos...

E trata do meu São Tupi, time de futebol com sede no campo de várzea ao lado da antiga bodega de tio Homero, onde o pau quebrava de verdade.  Eu era guri e, levado por tio Zé, fiz um teste em campo. Tio Homero era o cartola, o treinador, o avante e me recebeu receoso: “Aqui a parada é dura e você ainda é pequeno  e meio doentio”. E ele sabia muito bem que meu pai considerava futebol, ramo de preguiçoso, sem futuro nenhum. Mesmo assim, fiz teste rápido que não prosperou e está contado no romance “Os Tabaréus do Sítio Saracura”, capítulos:  Um domingo nas Flechas, e Os Livros de Cordel.

Aproveite e assista à partida de campeonato, que aconteceu naquele domingo, entre o time das Flechas e Os Paneleiros da periferia de Itabaiana.  Qual  foi o placar? Eu conto lá.

Há crônicas que dialogam comigo (ou com minha a obra), como as do  protagonista “genial” Saracura, homônimo que vi apenas uma vez e fiquei seu amigo. Foi em uma festa em homenagem ao casal tio Homero e Zefinha de Mengo, no terreiro do sitio dele... Havia muita gente do lugar, dos povoados em volta e até da rua. Tio Homero era um líder respeitado e querido.

Eu não perco uma festa dos ferreiros (Eitha povo festeiro!). Só não vou se estiver doente ou viajando pra longe.  

Alguém gritou meu nome (“Saracura!”). Eu corri em busca, serpenteado no meio do povaréu. O grito viera do pátio do templo evangélico (Igreja da bênção) construído no oitão da casa de tio Homero por um filho convertido, chamado Anselmo.

Chegamos ao mesmo tempo, querendo o mesmo pedaço de bolo e o  copo de coca cola. Então havia mais um Saracura (além de mim) no mundo, que tive muito prazer de conhecer.

Ninguém iria me chamar por um pedaço de bolo, mas não consegui deixar meu xará lanchar sozinho.  Fiquei seu amigo, se bem que nunca mais o encontrei na vida.

Algum tempo depois, o romancista Francisco Dantas mandou-me um recorte de algum jornal ou revista, parece-me que de São Paulo e que  falava de um Saracura, originário das Flechas em Itabaiana Sergipe, presepeiro, contador de casos engraçados, destaque no lugar onde morava o jornalista.  

E  Francisco  me gozava assim,  sugerindo que o Saracura fosse eu:  “Não há quem possa com este povo das Flechas de Itabaiana! Você faz  sucesso no Brasil todo!”

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Retornando ao livro de Aduilson, destaco aqui três contos/crônicas, apenas para não citar o livro todo e também sugerir atrações especiais no turismo cultural de quem comprar a passagem.

“Antão e as cachorras vermelhas”,

“Homero comigo no dominó”,

“Gratidão”,

“Anselmo e a besta pampa”

“Histórias do Povo” dá para ler  de uma sentada sofregamente. Ou ser bebido como a um vinho de cem anos, um golinho hoje e outro amanhã, para melhor desfrutar.

O livro diverte, instrui e encanta. Pra que mais?

(Por Antônio FJ Saracura, em 18/11/2025).

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

ECOS DO PASSADO, Hermenegildo Freire de Macedo

 

ECOS DO PASSADO, Hermenegildo Freire de Macedo, Artner, 2025, Aracaju, Se, 97 p, isbn 978-65-83131-55-3

 

O autor é professor desde menino e conta neste gostoso livrinho (ECOS DO PASSADO) de memórias como a vida o levou a tal, e a muito mais.       

Não havia o quinto ano no povoado Mangabeira e (acho que em nenhum outro povoado de Itabaiana) e o sonho de todo estudante era, ao caminhar para a conclusão do quarto ano, achar um jeito de ir estudar na cidade, no já lendário Murilo Braga. Mas a cidade, naquela época, era muito mais distante do que hoje (que tem boas estradas e transporte acessível) e poucos tinham a sorte de ter um tio Franquilino, que lhe desse pousada. E nem uma professora que não temesse a concorrência na profissão e que incentivasse os melhores alunos a serem professor também.

O autor é artesão nas horas vagas e é cozinheiro de mão cheia, artes aprendidas com os artistas do povoado e com a mãe prendada.

Hermenegildo é poeta de cordel (deve ser poeta de tudo o mais) e seus livrinhos de versos são didáticos divertidos, ensinam artes e modos de vida, alertam para os descaminhos. contam histórias do povo, resgatam lendas...

Agora ele é escritor-memorialista e nos brinda com um gostoso livro, que chamou “Ecos do Passado”, no qual revivi partes de minha infância, nas farinhadas, na lida da malhada, do curral das vacas de leite e em muitas coisas que as deixei passar em branco nos livros que escrevi... Como a matinha do candeal, que não há mais no sitio da Cajaíba mas ainda é preservada no sítio Saracura da Terra Vermelha. Como as solitárias Sambaíbas, Sucupiras, Paus Ferro. Deste Pau-Ferro, ainda hoje, tem quatro árvores solitárias (escaparam das coivaras do passado) em um uma capineira do sítio Saracura. Servem de sombra ao gado e para adoração do proprietário (Antônio de Dezi, personagem de destaque em toda a obra de Antônio FJ Saracura) e minha quando apareço por lá.

Transcrevo, baixo, trechos da boa narrativa de Hermenegildo sobre o candeal, que deve estar no subsconsciente de nossas raízes rurais, pois todos viemos das matas.

 “Naquela época, metade do sítio velho era coberta por vegetações nativas, e entre as espécies, as candeias predominavam. Era a salvação da minha mãe, pois de lá saía grande parte da lenha para o fogão de casa, já que na época nem sonhávamos em ter fogão a gás. Os candeais também forneciam garranchos para fazer fachos, usados na casa de farinha.

Era também lá o refúgio de centenas de pássaros de várias espécies que iam dormir durante a noite. Lá também era um ponto certo para fazer uma boa "faxinada" com estilingue. Durante o verão, eu gostava de ficar horas a fio deitado sobre as folhas frias, observando as copas fechadas das árvores e as espécies que por ali frequentavam.

Foi por essa ocasião que acabei descobrindo algo que não estava em meus planos. Os çandeais não eram frequentados somente por mim e os pássaros, tinha outros concorrentes... “

Quais seriam estes concorrentes?

Leia o bom livro de Hermenegildo Freire Macedo.

 

(Por Antonio FJ Saracura, em Aracaju, 2025nov12).

domingo, 20 de abril de 2025

SILÊNCIO E REBELDIA, Antônio Carlos dos Santos

 

SILÊNCIO E REBELDIA, Antônio Carlos dos Santos, romance, 1 edição, Aracaju, Se, Editora Almazila Coral, 2024, isbn 978-65-994027-4-6.  (Em revisão).

 

Antônio Carlos é meu confrade da Academia Itabaianense de Letras e o conheci na cerimônia de sua posse em 28/02/2014, pelos discursos de recepção e de posse. E por informações surgidas nos debates para aprovação dos fundadores da arcádia.

Ele nasceu em Itabaiana, é professor do Departamento de Filosofia da Ufs desde 1992. É um dos atuais grandes de Itabaiana. Tem muitos livros técnicos publicados (em diferentes idiomas) e um currículo do tamanho do mundo todo.

Soube que tentou entrar na Academia Sergipana de Letras alguns anos atrás, mas não obteve sucesso, como quase todos (com raras exceções) que se candidatam sem ter vivido antes o mundo da academia.

Outro dia, recebi um convite para o lançamento de seu  novo livro no Museu da Gente Sergipana. Não perderia a festa por nada. 

Hoje, acabei de ler Silêncio e Rebeldia, o romance autobiográfico de Antônio, que o tenho autografado na estante reservada a livros de meus conterrâneos.

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As pessoas nascem pobres arrombadas, vivem anos de extrema carência e, mais à frente, aparecem vitoriosas, realizadas.

A trajetória de Antônio Carlos é similar a de tantos itabaianenses que são estrelas nos diversos setores da economia ou da cultura. Eu me incluo neste grupo, mesmo consciente de que meu sucesso não chegou aos pés do de Antônio Carlos, dos Teixeira, dos Paes Mendonça, dos Barbosa, dos Peixoto, de muitos outros. Mas está além de todas as minhas contas e sonhos.

Antônio Carlos enfrentou imensas dificuldades, chegando muitas vezes à beira do precipício, mas reagiu, marchou em frente. É o que basta. O resto é persistir, agarrar as chances, ter um pouco de sorte (que todo mundo tem, basta esperar atento). E viver no Brasil, que é nosso sem barreiras.  

O autor abre seu baú de lembranças, rasga seu coração sem subterfúgios, sem enfeites. Apresenta-nos a mãe que manteve a família sacrificada (seis filhos pequenos) após a morte precoce do marido, com mão de ferro e rumo indiscutível. Não cabia aos filhos nada além de obedecer e respeitar, pois ela merecia.

Nem pôde compartilhar o estupor pelo  estupro sofrido com a mãe e nem com os irmãos, apenas tentou com o vigário no confessionário. “Qual o seu pecado, meu filho?”, perguntou o confessor.  

Ele não tinha nenhum, era pecado alheio.  Relutou e respondeu:

“Meu cunhado me pegou por trás...”. 

O padre interessou-se, quis saber detalhes do ato. Antônio, mais traumatizado, não tinha como contar e entendeu que ao padre não cabia saber, bastava dar a orientação que pediu.

Passou a conviver na mesma casa com o cunhado estuprador. Menino tolo de dez anos, indefeso, vulnerável, escorregando nas sombras.

Em um dia aziago, por ordem expressa da mãe, morrendo de medo, foi ajudar ao cunhado encher a caixa d’ água da casa. Havia uma festa com convivas e música. A caixa ficava atrás da casa, uma área escura e isolada. Nossa Senhora de Fátima apareceu da escuridão e colocou em suas mãos uma faca de ponta afiada, assustando o estuprador sedento.

Trabalhou desde criança de sol a sol na agricultura do sítio, recolhendo lavagens para os porcos nas casas chiques da cidade, vendendo latas de água na cidade seca e areia do rio para construções da periferia, fazendo farinha, ajudando nos serviços domésticos. Tudo ao mesmo tempo.

Arrumou um emprego de balconista na loja de material de construção de empresário usurário e vil. Frequentou a escola primária movida a palmatória. A mãe fazia questão que todos os filhos estudassem. Foi sempre discriminado e vilipendiado porque falava fino e empostado e  tinha jeito feminino. Todos, menos a mãe e os irmãos que nunca tocaram no assunto, o chamavam de veado por isso.

Quando entrou no ginásio (no mais importante colégio do interior do estado), ou estava na sala de aula ou na biblioteca. Nos finais de semana, aproximou-se da igreja matriz, integrou-se a grupos de jovens (a mãe adorou), que discutia política, catequese, vocações sacerdotais...

Quando não era apedrejado, colocavam-no na berlinda. A garota bonita tentou conquistá-lo na beira da fonte do sítio (talvez a pedido da prática mãe): “Por que você é assim?”. “Pergunte a meu pai (a Deus) foi ele que me fez. Não tive escolha.”.

Aos quinze anos foi selecionado para estudar em um seminário (colégio católico) no sudeste do país.

“A partir dali, ganhei o mundo”. (Vejam a satisfação brilhando nas letras da frase acima e em meu rosto cético)

Por Antônio FJ Saracura, Aracaju, 2025abr20)

(fim)

Post scriptum:

Para não perder minhas anotações de leitura, listo abaixo algumas que até podem ser equívocos e são irrelevantes. 

(Página 41) “fui amarrar em cada arvoredo o sinal do luto". (Não seria em cada árvore?).

(Pagina 156) “Nessa época, nem fósforo havia.” (Havia sim, pois eu ainda menino,  nasci em 1945, quando ia pra rua, passava nas paneleiras e nas fabriquetas de fósforo. Os produtos ficavam nos terreiros pegando sol. Seria mais justo dizer: “Nessa época, lá em casa ainda não se usava fósforo”).

(Página 157) “Mamãe abriu a boca do novilho”. (Acho que seria do bezerro, pois o novilho só existe quando desmama e vive independente)” .

(Página 166) “...desse processo de putrefação”. (Essa putrefação faz parte da fabricação da massa puba. Para a farinha de mandioca universal, a raiz é raspada e ralada in natura, de preferência sem deixar a massa dormir, para que fique adocicada. Sua receita está errada).

(Página 200) ‘‘... e as obrigações do sítio.” (Caberia mudar para: “algumas obrigações do sítio”.

(Página 201) “...de alguns de seus componentes”. (Pelo que me consta havia apenas “certo” elemento. Você cria um subset de conjunto desconhecido do leitor).

(A Luta desigual): Capítulo cansativo, com relutância e redundâncias. Como se o autor está tendo dificuldade em ser sincero. Encoraja-se e não consegue. Como tivesse feito uma cópia-cola do diário escrito na época do ocorrido naturalmente cheio de dúvidas e medos. 

(Dúvidas): Idem o que falei do anterior. Além de enigmático.

(A vida simples do campo): Belo texto. Instiga, segura o leitor, encanta. Meu romance ideal).

(fim).

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

ARYCURANA, Constantino Souza

ARYCURANA, Constantino Souza, Unicamp, organizado pelo professor Moisés Santos Souza. Originalmente, o romance foi publicado no periódico Semana Ilustrada (1874-1875). Esta edição da Unicamp trata-se da primeira em 150 anos desde a publicação original em folhetins.



O jornalista José Afonso Nascimento postou no seu “facebook” em 18/02/2025: “Não é novidade nem exagero afirmar que Sergipe é terra de esquecimento. Entretanto, isso não é absoluto. Várias forças lutam quase sozinhas para jogar luz em pessoas e acontecimentos que foram apagados. É assim que surge Constantino José Gomes de Souza, médico, poeta, romancista e dramaturgo, nascido em Estância em 1825.”



“Constantino foi um escritor do romantismo brasileiro que conviveu e travou contatos com as mais destacadas figuras da época, como os romancistas Machado de Assis e Joaquim Manuel de Macedo, com o ator João Caetano e o tipógrafo Francisco de Paula Brito,” conta Moisés Santos Souza, professor da História da UFS em Lagarto, Sergipe, que tem trabalhado para recuperar Constantino e sua obra.

 Eu baixei o PDF da Internet. Era para ler só um pouquinho, mas fui até o final. Romance da época, ufanista, indianista, dramático, lírico, nativista, previsível. Na mesma linha de outros da época como José de Alencar (O Guarani, Iracema), seu contemporâneo. Muito bem escrito, ortografia atual, usa muitas palavras e expressões em Guarani, que são explicadas nos rodapés das páginas.

Narra a história de um amor impossível, tipo Romeu e Julieta (se bem que, aqui, o final é meio feliz, apesar da trajetória até mais sofrida). Neste, a filha do cacique Siriri, chamada Arycurana, prometida (foi criada junto) ao primo, Jukeriorana, filho do cacique Seregipe (Serigy, acho). apaixona-se por Borapitinga, filho do cacique Muribeca, desafeto dos dois primeiros.

O cenário é a vida no lugar atualmente chamado Sergipe nos idos de 1590, antes, durante e após a conquista, pelos portugueses de Cristóvão de Barros. Consta que todas as tribos viviam em estado contínuo de guerra.

Eitha! povinho briguento!

Há colocações no romance que me causaram estranheza pois contradizem o que sempre li nos livros da escola:

Que o motivo da invasão portuguesa foi apaziguar os índios que se matavam em guerras contínuas. Que Cristóvão de Barros era mais evangelizador do que conquistador militar. Que os índios sergipanos escolheram a guerra em vez de uma paz proposta. E que, mesmo assim, Cristóvão, estando aqui, relutou, negociou, adiou o ataque, pois era admirador do povo nativo. E que o cacique Muribeca (pai de Borapitinga), que tinha sua taba sobre a opulenta Serra da Miaba (entre Itabaiana Lagarto) era de caráter covarde, traiçoeiro e invejoso. Entretinha com Seregipe e Siriri relações aparentemente amistosas, mas, na realidade, ele era o mais encarniçado inimigo de ambos, pela inveja que lhes tinha.”

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Jukeriorana escapou do grande massacre (os índios perderam feio) e se escondeu com guerreiros na Pedra Furada (caverna calcárea no povoado Machado no atual município de Laranjeiras com o comprimento de 2 km). Empreendeu visitas noturnas aos outros caciques propondo aliança. Entres estes, Muribeca e seu filho, traidores do primeiro momento, e Japaratuba, Pindaíba e Pacatuba, que, nesse meio tempo, já haviam se aliado aos portugueses. Por fim, consegue montar um exército razoável (não muito confiável, mostrou-se depois) e chega a São Cristóvão já fundada, mas não ataca. Manda um mensageiro com intimação ao governador que embarque de imediato com os portugueses para a Bahia. Mas o mensageiro, orientado pelos outros caciques traidores, informa as posições dos guerreiros de Jukeriorana.

Os portugueses atacam, massacrando e prendendo os sobreviventes. Os caciques traidores haviam retirado seus índios para retaguarda, bloqueando a fuga dos índios fiéis a Jukeriorana.

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O escritor cria um final feliz para o casal romântico pelas mãos de Frei Gil. O missionário consegue converter Jukeriorana e Arycurana (já presa), e fazê-los se aceitarem como um casal (finalmente).

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Além deste romance que agora é ressuscitado, já li “Ibiradiô” (1990) de Gizelda Morais que trata do mesmo momento em Sergipe. Em Gizelda, constam outros caciques não citados por Constantino, como: Surubi, Indiaroba, Aperipê, Arauá, Baopeba... E Gizelda mostra outro perfil do conquistador Cristóvão, caracterizado na carta de despedida que escreve ao seu substituto:

“Continuarás a guerra justa até que o último desses comedores de gente se curve a nosso mando ou seja exterminado.”

O fatiamento de todo o território conquistado entre os soldados e congregações religiosas, como se não tivesse dono, mostra o real objetivo do conquistador.

 

(Por Antonio FJ Saracura, Aracaju, 2025fev27)

Notas:

Obras do autor:

Dezena de dramas destacando-se “O Espectro da Floresta” (1856), “A filha

do salineiro”(1860), “O enjeitado” (1860) e os romances “O desengano” (1871), “A filha sem mãe” (1873), “O grumete” (1873/1874), “Arycurana” (1874/1875) e “O cego" (1877/1878).

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