segunda-feira, 17 de agosto de 2026

CARTA PARA SARACURA, Francisco J.C Dantas

 

Carta para Saracura, por Francisco J, C. Dantas

enviada por email em 23 de maio de 2020 às 19:05 horas





 

 



Francisco Saracura:

 Ao reportar-lhe que conclui a leitura de seus livros, você me pergunta, naquele inconfundível tom brincalhão, se terei alguma lição a lhe passar. Não, é claro que não tenho. E como você bem sabe: os pacotes-feitos, que certos livros e cursinhos impingem aos interessados, com a promessa de torná-los escritores, não ajudam muito. 

De modo semelhante, e num degrau mais alto da escala, alguns titulares, sacramentados no ramo, não se cansam de lembrar a nós, escritores provincianos, que a arte de narrar é soberana. E o é, de fato, na medida em que a narrativa aceita e abriga, na sua diversidade, a contribuição de todas as fontes do conhecimento. Mas não sem completar, como primeiro mandamento, que todo esse aporte terá um cunho apenas auxiliar, sujeito, portanto, ao império da própria ordem narrativa com o seu arsenal de recursos estilísticos, seus componentes retóricos, suas categorias internas. É neste ponto que ela exerce a sua soberania.

Em princípio – prosseguem os entendidos – os recursos disponíveis deverão ser manuseados numa gradação equilibrada e harmônica, de tal forma que ocultem as agruras e hesitações do narrador, as costuras da luta quase sempre inevitável, travada nos bastidores. E ainda recomendam que tais recursos, sendo parte intrínseca da narrativa, devem robustecer o seu sentido geral; que não exerçam apenas uma função intransitiva, que não se esgotem em si mesmas. Tomo como exemplo a descrição, categoria que vem sendo desprestigiada há mais de um século, (talvez por isso insisto nela, visto que é desenfastiante e desafiante nadar contra a corrente).  Pois bem, se ela, a descrição, for usada para delinear uma paisagem, é saudável que atue também como índice metafórico de algum sentido, ou como reforço para que as passagens levem ao leitor maior ressonância.

De fato, narrativa não é reportagem. Necessita de vida, substância, solidez, que serão injetadas na medida do talento e da aplicação de cada um. Os mesmos entendidos também nos encarecem que o leque das coordenadas da narrativa deve se entroncar, com vistas a fortalecer essa convergência. As técnicas mais arrojadas, como o fluxo-de-consciência – apesar de secular - e quaisquer outras, não se justificam por si mesmas. Mas, sim, na medida em que contribuem para a persuasão e o convencimento, colaborem no concerto da organicidade geral.

Como você sabe, Francisco Saracura, essas noções básicas, e bom número de outras, são incompletas e difusas, encontram-se em qualquer manual literário, mas pouco facilitam o nosso entendimento! Imagine-se então a sua aplicabilidade!  Não ajudam quase em nada.

         O testemunho dos narradores sobre o dilema do início da escrita, o enfrentamento da página em branco, por sua vez, também não ajuda muito. Há deles que se vangloriam de estocar na memória, tim-tim por tim-tim, a história já pronta, em vias de ser passada para o papel. Antes  de engatarem a primeira frase, planejam o enredo direitinho: estabelecem a divisão dos capítulos, ordenam a sequência dos episódios, estudam a psicologia das personagens. E ainda se dão ao luxo de bosquejar perfis em conformidade com a índole, e a função que esses seres de tinta e papel venham desempenhar. Fazem croquis do ambiente geográfico, mapas das estradas, guias dos labirintos, plantas de casas. E só então, apoiados nesse arsenal gráfico, onde, suponho, devem angariar alguma segurança, começam a narrar. Arre lá!

A solução divulgada por Guimarães Rosa também é, seguramente, seguida por outros escritores: ... adotei naturalmente o processo de acumular material e afiar as ferramentas, à espera de momentos propícios e decisivos, quando a oportunidade passa por perto e a gente  tem de segurá-la com mão firme, como um louco que se agarrasse no rabo de um cavalo a galope.       

Outros, porém, talvez mesmo a maioria, se chegam a arrumar algumas ideias, a planear um esboço prévio – e acho que chegam - poderão se afastar, mais adiante, da linha mestra da proposta inicial, geralmente arrebatados por uma imposição interior que germina e se engendra pouco a pouco, espontaneamente, sintonizada com a natureza e o humor do próprio escriba. Neste ramo, não é tão fácil nem comum seguir um plano inalterável. É natural que o narrador intercale e incorpore novos tópicos e efeitos estilísticos que o compensem, e dos quais somente durante o andamento da escrita, vai recebendo os seus estímulos.  

Sabe-se que os projetos são melhor cumpridos quando não contrariam o humor e a índole de seu executor. Caso contrário, a coisa ganha um ar de farsa. E uma hora a máscara cairá. A escrita é um processo íntimo, vivo, dinâmico. No seu percurso, alternativas novas vão de impondo. Geralmente germinam e se engendram, repito, a partir de uma faísca qualquer que não controlamos.

         Esse amoldamento do narrador ao texto que está em curso, pode se valer, inclusive, de recursos do imaginário. O mais comum, no entanto, Francisco Saracura, como você bem sabe e por onde incursiona habilmente,  é o narrador se voltar para o ambiente externo – no seu caso, também nativo - onde se insere, observa, participa de várias experiências e, afinal, se põe a decantar a caixa de ressonâncias que fora gravada no chão da infância. Aí, as marcas do “convívio” com as pessoas, os bichos, as coisas de casa são, com toda certeza, mais indeléveis. Mesmo que não compareçam de forma ostensiva, ao primeiro nível da escrita, subjazem nas entrelinhas, disfarçadas, mas presentes. E, bem enraizadas, saberão o que fazer... Lembro a lição de nosso Manoel Bandeira: Quando comparo esses quatro anos (6-10) de minha infância, a quaisquer outros quatro de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante. Ou a de Faulkner, mais longe de nós: Aprendi que, para se ser escritor, é necessário ser-se o mesmo de quando nascemos (...) É necessário lembrarmo-nos do que fomos.

 Na zona rural do Riachão, há décadas e décadas, cresci pegando de ouvido a palavra arremediado, para designar aqueles que tinham modestas posses, um pedaço de terra onde lavouravam, mais um gadinho com a ajuda do beiço das estradas. Ainda ouço-lhes a autoestima reverberando, pelo fato de se regerem por conta própria. Não tinham patrão, não moravam em terra alheia. Socavam a mão no peito. Falavam em liberdade. Era bonito. Na década de 50 isso ali valia muito. Vejo, agora, que a palavra em itálico, tão evocativa da minha infância, não é abonada pelos dicionários. O Aurélio a registra, mas não sem comer-lhe a primeira sílaba. De qualquer forma serve ao nosso propósito, visto que nos remete ao mesmo sentido.

         Bem, em sua semântica, a palavra arremediado é hoje meio vaga. Alcança um sem-número de profissões, de empregados e, conforme seja, seu emprego convém ser ajustado. Pelo dito, (me corrija se não for) me deixe dizer que você, Francisco Saracura, provém de uma família arremediada, sediada em terra própria, de onde retirava o sustento, evangelicamente, com o suor do próprio rosto. Sem nenhuma força de expressão. A família inteira, dia a dia, sol a sol, infatigável no serviço duro, pesado, cruel, estafante. Não encontro sinônimo para qualificar o trabalho com enxada, enxadeca, picareta, chibanca, foice, estrovenga e outras ferramentas rudimentares empregadas na lavoura.

 Você mesmo sugere, Francisco Saracura, que só se submetia à enxada quem não tinha outra saída. Cultivava-se mandioca, aipim, inhame e outros “legumes”, em conformidade com a tradição que elevaria o nome de Itabaiana Grande a celeiro de nossa gente. A mais, vocês Saracuras, dinâmicos empreendedores, não dormiam no ponto. Eram farinhadas, negócios miúdos, uma grade de vender farinha no mercado central, um punhado de rezes para acudir nas urgências imprevisíveis. Família grande, pouca instrução, luxo nenhum. Sem escola por perto, sem posto de saúde. E, sobretudo, convém frisar, sem perspectiva para moços e rapazes se encaminharem na vida - a não ser o cabo da enxada. Condições adversas para um futuro de escritor.

         Imagino que essa é a moldura onde se encaixa a sua infância, o menino que, nas Flechas, chegou a puxar cobra para os pés, como se dizia, em Riachão, de quem trabalhava na enxada. É o ambiente onde começou a ser forjada sua personalidade, gestada sua futura obra, a despeito e sem querer minimizar as suas conquistas posteriores, mercê de encrespado enfrentamento de venha o que vier. Obra que, a esta altura, e no que concerne à duração – decerto já está dando quinau nos ferros batidos na tenda de todos os ferreiros da família. Suas conquistas posteriores, como dizia meu pai quanto se referia a um esforço descomunal, foram uma luta romana. Anos de seminário, licenciatura plena, emprego na imprensa, na Petrobrás, a experiência apanhada em Brasília e em São Paulo, e tantas qualificações a mais, - a par de desconforto, de privações, de sacrifícios, – lhe facultaram, com justiça, a mobilidade social suficiente que o fez chegar a escritor, onde apuraria seus dotes pessoais.    

Toda essa arenga, esse chove-não-me-molha é para ressaltar o que você já sabe e tem feito. Que a sua pujança de locomotiva jamais saia dos trilhos. E que, de quando em quando, vá engatando mais um vagão na esteira dos que já andam circulando, para reforçar a mensagem que nos tem passado.

Volto a encarecer a infância. É um território inesgotável. “Minha pátria é a infância”, disse Baudelaire. E quando o narrador está forrado com a adesão do menino que há dentro dele, do menino de olho vivo, partícipe da vida da família, do sítio, do povoado - a expectativa é boa.

Se o menino esteve sob o jugo daquela humilde condição social até engrossar o pescoço; se, ao tomar as rédeas da própria caminhada, persevera nos atributos do seu ser de classe; se, ao se tornar escritor, continua estritamente fiel a seu passado, orgulhoso de sua gente; se, além de administrar  bem a palavra, não abandona a sua origem - a expectativa passa a muito boa.

 Isso não é pouco, Francisco Saracura. Mas talvez não baste pra qualificar um escritor. Esta palavra pesa muito. Vamos adiante. Sua obra mostra e comenta com perspicácia, sob o olho inquieto do menino, os segredos, os costumes, a lida da família de lavradores, o marasmo na vidinha sem perspectivas do povoado e suas adjacências. O narrador sonha em largar o cabo da enxada, em aprimorar a instrução em busca de um destino mais sofrível. A par deste sonho enraizado, vai registrando farto material, delineando matizes do ambiente físico e social, salienta a rotina das relações familiares nos bons e maus momentos. Nada é poupado. Vai muito além das biografias encamisadas no pudor. Essa matéria toda, esse inventário de costumes constitui um manancial de informações, muito mais rico do que relatórios de associações, de sindicatos, e de quaisquer registros feitos, porventura, sob iniciativa dos poderes constituídos. Ao dissecar esse ambiente, Francisco Saracura, você não reconstrói apenas a sua meninice. Está sendo o porta-voz de todos os meninos de sua igualha. Os meninos da Terra Vermelha, de toda a zona rural de Itabaiana, de Sergipe, do Nordeste inteiro. Daqueles desafortunados, muitos dos quais jamais saberão que você existe.

E não venham me dizer que o escritor deve ser pinçado entre os intelectuais progressistas, como recomendara certo filósofo, e que só deve ser abonado de assentar sua bateria naquilo que ele designa como discurso crítico. Caso contrário, onde se encaixaria um Guimarães Rosa com as suas novelas lúdicas? Que não me venham com conversa. Os seus livros, Francisco Saracura, estão aí e suponho que podem servir de fonte para auxiliar os estudos de Sociologia e de Antropologia Social. Estão aí para tocar a nossa sensibilidade, para puxar as orelhas de nossas lamúrias, para consolo de nossas perdas, para lembrar-nos dos semelhantes, para reparar as injustiças. E, também para expor as carências e o excesso de rigor que atravancaram a sua vida de menino, e que podiam barrar a sua caminhada. E que são relatados – eis mais um dado importante para o escopo do escritor - sem autopiedade, sem mágoas bestas, sem ressentimento, sem apelo a proselitismos, sem chororô. Isso conta ponto. A boa literatura não acolhe proselitismos. Aqui, a expectativa passa a excelente.

         Hemingway nos assegura que a coisa mais difícil do mundo é escrever uma prosa direta e honesta sobre os seres humanos. Primeiro, tem se conhecer bem o assunto; depois, tem de se saber escrever. E mais, os livros devem ser sobre gente que conhecemos, que amamos e odiamos, não sobre assunto a cujo respeito vagamente estudamos alguma coisa. Nesta mesma linha, Graciliano disse: só me abalanço a expor a coisa observada e sentida. E repreende Lins do Rego: Estranhei Zé Lins afastar-se da bagaceira e do canavial, tratados com segurança e vigor em obras anteriores, discorrer agora sobre Fernando de Noronha, onde nunca esteve. E ainda completa. Pessoa de tanta experiência, de tanto exame, largar fatos observados, aventurar-se a narrar coisas de uma prisão distante. (...) Zanguei-me com o Zé Lins. Por que se havia lançado àquilo? O começo do livro de Zé Lins torturava-me. Quase desejei ver o meu amigo preso. Manoel Bandeira também tira o seu sarro, ao dizer que Zé Lins só queima bem a bagaço de cana.

         Bem, recapitulo Hemingway: conhecer bem o assunto, e saber escrever são os dois pré-requisitos inquestionáveis para se ser escritor. Já vimos que você, Francisco Saracura, tem domínio sobre o assunto que expõe. Quanto à outra parte, saber escrever, você sabe muito bem, tanto quanto eu, que não há uma receita ou fórmula mágica para tal. Trata-se de uma prática muito pessoal. Quero evitar falar em dom, mesmo porque, se suponho bem, o escritor não depende somente disso. A explicação mais plausível e robusta que encontrei, e que serve a todos nós, indiscriminadamente, é a de Onetti:Há um só caminho. E que houve sempre. Que o criador de verdade tenha a força de viver solitário, e olhe dentro de si. Que compreendam que não temos pegadas a seguir, que o caminho haverá de fazê-lo cada um, tenaz e alegremente, cortando a sombra dos montes e os arbustos anões.” Como Onetti era agnóstico, não serve àquele monte de candidatos que acreditam em milagres...

         Pois bem, acho que você já percorreu o caminho que Onetti recomenda. Já se ajuda com aquele peso a que me referi. Já encontrou o seu lugar que, no entanto, como ocorre com outros autores, sempre pode ser aperfeiçoado. É evidente que não leio tudo o que circula entre nós. Mas, do pouco que conheço aqui, não me lembro de ter encontrado um escritor que, vindo de uma infância tão desfavorecida de conforto e de oportunidade, um dia tenha exposto o seu ambiente de formação com tanta fidelidade ao menino que um dia foi. O determinante aqui não é a estado de pobreza. Você sabe que há escritores que vieram de uma condição mais humilde do que a sua. Mas nem esses, nem os mais afortunados, conseguiram traçar com tal propriedade, o perfil de uma família rural como era a sua, no seu tempo de menino. Essas pegadas reaparecem constantemente, mesmo quando você situa suas histórias em outro ambiente. Em Meninos que não queriam ser padres, leio os episódios transcorridos aqui em Aracaju, inclusive a cena do afogamento na Atalaia, como se escutasse o menino das Flechas. É uma “dicção” inconfundível.

         Só encontro paralelo em Carmo Bernardes que, como você sabe, procede de uma família rural pobre, desassistida, carente, bem mais humilde do que a sua, sob todos os aspectos sociais. Alfabetizou-se, tornou-se membro da Academia de Letras de Goiás, e escreveu 17 livros. É outro que nunca abjurou o seu nível social, que nos deixou uma herança cultural inestimável, que tinha um estilo inimitável.

         Guerra da Cal tem uma definição de estilo que serve ao que digo, porque destaca a substância interior, onde se desenrola o ato da criação. O estilo literário vai muito além do meramente verbal. Ter um estilo não é possuir uma técnica de linguagem, mas principalmente ter uma visão própria do mundo e haver encontrado uma forma adequada para expressar nossa paisagem interior.

         Trago essa citação como respaldo ao que vou dizer, visto que nesta matéria sou um simples diletante. Quem fala aqui ainda é, na verdade, o adolescente que foi passando a selecionar as leituras ainda em Riachão. Fixei em negrito a palavra adequada porque ela define bem a acomodação de sua linguagem ao assunto. Entre os escritores, aqueles que o leitor pode, honestamente, identificar apenas pelo estilo inconfundível, pela maneira pessoal de escrever – havemos de convir que são poucos.  

         Você é um deles, Francisco Saracura. Sua escrita é fluente, espontânea, agradável. Tem selo próprio. Pode registrar sua patente. Depois de tudo o que disse, se você me permite, faço-lhe as últimas considerações. Não se trata de detalhes. Não costumo cuidar disso.

         Talvez haja, nos seus livros em geral, uma certa hesitação. A partir  - em alguns, pelo menos – da ficha catalográfica. São romances e ao mesmo tempo memórias. Não acha que um dos gêneros devia prevalecer? Bem, mas isso é apenas um indício, você poderá contra argumentar. Mas o que chamo de hesitação, também se reflete e se abriga nos textos. E como, em termos estruturais, o romance é mais exigente do que o gênero memórias, que é bem  mais flexível, quando o leitor leva isso em conta, percebe uma leve contaminação, um certo trânsito que termina incomodando. Talvez você também pudesse arrefecer certas repetições, distribuir a matéria mais colada à mensagem que queira passar ao leitor. Enfim, rearrumar. Levar sempre em conta que o narrador não pode se desmandar pra lá e pra cá. Algumas dispersões estranhas ao eixo da narrativa, em qualquer autor, sempre podem ser podadas. De qualquer forma, suponho assim que a sua obra circulará ainda com mais conforto no âmbito da literatura.

           Por fim, como você também sabe, essas impressões devem ser relativizadas. Qualquer leitura termina privilegiando o ângulo pessoal. Os mestres consagrados – aliás, todos mortos – também não foram perfeitos. Mas são a fonte mais confiável. Os únicos que nos servem de lição.

 

Francisco J. C. Dantas

sábado, 15 de agosto de 2026

ROTEIRO AFETIVO, Francisco J.C. Dantas

 

ROTEIRO AFETIVO, Francisco J.C. Dantas, Franca, SP. Cavalo Azul, 2026, 134 páginas, ISBN 978-65-01-98500-8


E de chofre, quando todos aguardávamos um novo romance azougado, o professor Reginaldo de Jesus me informou que Chico Dantas mandara rodar, em uma editora independente, um opúsculo em homenagem aos conterrâneos do Riachão: seria um roteiro afetivo no qual visitava, agora montado no ginete azul da memória, pessoas e lugares da infância, alguns celebrizados em pseudônimos (ou não) na vasta e aplaudida literatura produzida por ele mesmo.

E Reginaldo acrescentou: “Vai presentear cada exemplar, pessoalmente, aos homenageados (ou descendentes destes) em um ajuntamento no Riachão”.

 

E o prometido aconteceu numa tarde/noite concorrida em 15/05/2026, sexta-feira estiada, no Centro Cultural do Riachão, que tem o nome do filho mais universal.

Compareci na qualidade de intruso, com a secreta má intenção de aplicar alguma trapaça e obter um exemplar, pois eram destinados aos amigos da infância, que, num lugar não tão grande, como o Riachão, era quase todo mundo.

Mas consegui pegar o meu, fiquei no rumo das balas, como outros que (deu para perceber no andamento do evento), também vestidos de cordeiro, também persistentes, também apaixonados pela a magia do romancista, ganharam um exemplar.

Tão assoberbado estive em controlar minha emoção, composta por dúvidas resolvidas, por comemorações silenciosas para não ser flagrado, pelo medo de cachorro magro que “rouba” o bocado e corre para o comer escondido e não ser forçado a devolver, que nem me toquei em pedir o autógrafo do autor. 

Em casa, sem riscos, li cada linha, cada palavra.

Que não seja um romance, mas vale tanto quanto, por tudo, especialmente por arrebatar o leitor para a garupa do cavalo azul, de onde não vai querer descer jamais. 

O ótimo Chico Dantas nos desconjunta e espanta, desde os atoleiros sugadores de gente da estrada do Engenho Salgado em tempo de chuva, até o meio da carga entre dois sacos de 60 quilos de açúcar artesanal puro como baba de anjo. E nos faz andar no trote da tropa de mulinhas ensinadas se torcendo carregadas, no final da safra, em demanda ao Lagarto, pelo rojãozinho desenvolvido.

Também na reabilitação de palavras perdidas, meninas tão bonitas injustamente cobertas de borralho, mas as únicas capazes de recuperar a memória enganchada nos musgos do tempo. Muitas já se davam como perdidas e comemoram e sorriem e se emocionam com o sorriso grato do leitor: Buranhém (página 131, que cheira a relho, chibata ou macaca de tropeiro, pois estala no ar para tanger a burrarana). Gamboa (página 103, curral de alimentação de animais, descende talvez dos currais de pegar peixe que Aurélio acatou). Zune (página 126, “O sol chega zune”, de tão quente: o sol daqui também grita, trinca, tine”). Librina (página 28, mais bela que mãe, aqui nas baixadas úmidas do sertão do Riachão, como no espelho da lagoa da Obra Fina no sítio Saracura). Boutade (página 36, o professor Alexandre Eulálio se safaria com uma boutade (tirada espirituosa) qualquer, na certa). Zapá (página 102, “o canzil forçando a zapá dos calos que não desmancham”. Um plural das paletas os das pás que caiu como uma luva)...

Em especial, me espantou o fato de que, sendo Riachão longe da Terra Vermelha, é tão parecida nas expressões que o povo usa para momentos indescritíveis: “Tem comido um tampado” (página 93, para lidar com imensas dificuldades). “É um Deus nos acuda” (página 109). Nunca vi puxões de orelha vadiarem” (página 106).  “Abraçando o próprio corpo para espantar o frio” (página 102). “O que foi lá?” (página 104, inquirir, com dureza, o motivo de algum enguiço, malfeito, etc...) ...

E que prazer reencontrar aqui no Roteiro velhos amigos de outros livros de Chico: Zerramo (página 132, o tropeiro fortão de Os Desvalidos e que teve um final doloroso, seria um trabalhador? Pois eu “avistara o tropeiro Zé de Camilo sumindo nas sombras em procura de Zerramo”). O Riacho da Limeira (página 107, “o caldo de cana afunila-se numa calha reta, prossegue viajando por uma bica que prossegue até despencar no parol. E pode levar o sentido do visitante para bem longe, evocando um riachinho”). Dorico (página 62, “Resta dizer que tenho boa lembrança de Dorico que, semanalmente, negociava um boi com meu avô, conforme relatei em Cartilha do Silêncio”). ...

E feliz em conhecer personagens marcantes, que serão meus amigos a vida toda: (Página 35 – “Esse meu primo Élder atravessaria uma fase, em Estância, de esgotamento nervoso, como então se divulgava... Tirante aquelas sobrancelhas que lembravam o pelo de um urso, os outros traços de fisionomia e do talhe, éramos, espiritualmente, muito parecidos. Calados, discretos, encabulados. Diante da aproximação de qualquer estranho, emburrávamos"). (Página 37-40 Nininha tinha sob sua tutela a regência daquela casa imensa e trabalhosa, com batentes incontáveis, sem mencionar os depósitos. Entre si e a família de quem cuidava (o casal Fiel e Cezarina, meus bisavôs, donos do engenho Olho-de-boi ) erguia-se uma muralha que a isolava de qualquer intimidade e lhe destinava qualquer afazer. Há outras “Nininhas”, “Marocas, “Marizetes”, meninas ganhadas, crias da casa, bem domesticadas desde garotinhas, que passam a vida inteira servindo à família como se fossem livres). (Página 34 “Minha mãe, dona Miralda era espontânea, sem bondades, arrodeava o assunto em questão com aquela paciência que só vendo...”). Tem o Olho de Boi, a rua do Tanque... tem Muçu, Zé de Camilo, tem um exército de fantasmas gratos pelo reconhecimento. 

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Tem a tropa de bestas na Gamboa aguardando a vez de fazer rodar as engrenagens do Engenho. Tem o Engenho Salgado, intenso, fogo vivo que jamais deixará de fornecer latinhas do mágico mel à vizinhança ávida e sacas de açúcar da melhor qualidade ao mercado de Lagarto e além... 

Senti-me tão íntimo da comunidade (lugares e pessoas) como se tivesse, no passado, vivido lá. 

Mas me esqueci (não é novidade nenhuma, estou com 81!) do nome do senhor do Engenho Salgado, meu querido avô de consideração, que me tratou bem até nas minhas inconveniências. 

Mesmo vasculhando cada página do livro, depois, com meu olho de lince ativado, não  achei e nem lembrei de nada... Diacho! 

“Esteja onde estiver, minha avó esposa do Senhor do Salgado, ajude-me a achar um documento dele nessas gavetas de tralhas que o cupim poupou"(1).

Roteiro Afetivo tem humor, tem trama... tem o Riachão do Dantas bucólico e o seu povo cheio de sabedorias, manhas e manias.

E que leitura agradável? 

(Por Antonio FJ Saracura, em 11 de agosto de 2026).

(1) Post: Seria Manoelzinho Saturnino que, no meio de lamaçal de Uma Jornada como Tantas“salta da burra, endireita os óculos que lhe dançam na cara, com uma haste mais curta remendada a arame e com os vidrinhos das lentes sujos demais"?



sábado, 18 de julho de 2026

BATISTAS EM MARUIM (1926-2026), Sandra Maria Natividad

 

BATISTAS EM MARUIM (1926-2026), Sandra Maria Natividade, Edição comemorativa ao centenário dos Batistas em Maruim/SE, projeto Centenário – Fragmentos, Criação, Aracaju, 2026, 220p, 32cm, ISBN 978-85-8413-742-8.

O professor Franklin Rolim de Almeida escreve as orelhas do livro e apresenta a autora, Sandra Maria Natividade, como uma escritora que construiu uma reputação sólida pelo rigor acadêmico e compromisso com a preservação da memória religiosa de Sergipe.

Sandra Natividade, antes deste livro “Batistas em Maruim” publicou um estudo aprofundado sobre a Primeira Igreja Batista de Aracaju, além de obras tratando temas ligados à área técnico-profissional e à fé Cristã.

Batistas?  


O nome aparece em 1609 (A reforma protestante de Lutero vem de 1517) quando dois dissidentes da Igreja Anglicana inglesa, Thomas Helwys e John Smyth, formaram uma congregação independente na qual o batismo seria por imersão em adultos conscientes e o Estado ficava fora (imagino que a política partidária brasileira também). Os dois pioneiros precisaram migrar para Holanda levando alguns seguidores e, lá, a Congregação cresceu e se transformou na Igreja Batista que chegou até nós.

No Brasil, em 1865, imigrantes sulistas EUA derrotados na Guerra de Secessão (1861-1865) aportaram aqui com o intuito de reconstruir suas vidas e fortunas, criando a Colônia de Santa Bárbara do Oeste, na Província de São Paulo. Em 1871 foi formalizada criação da Igreja Batista de Santa Bárbara do Oeste que ficou sob o pastoreio de Richard Ratclif. Três anos depois, este mesmo pastor, com oito companheiros da colônia, criou a loja maçônica George Washigton.

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Somente em 15/10/1882 foi organizada a primeira Igreja Batista do Brasil, na cidade de Salvador, com a presença de cinco missionários norte-americanos: William Buck Bagby, Anne Luther Bagby, Zacharias Taylor, Catherine Stevens Taylor e o ex padre nascido em Alagoas, Antônio Teixeira de Albuquerque, que foi consagrado o primeiro pastor.

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Em Sergipe, a primeira Igreja Batista foi criada em 19/09/1913, pelos irmãos alagoanos da cidade de Penedo, onde a igreja existia desde 1901.

A partir daí, em treze anos, foram criadas as igrejas batistas de Aracaju, Propriá, Vila nova, Brasileira de Aracaju (a segunda na capital) e a igreja Batista de Maruim.

Esta última, de Maruim, de que trata amiúde este livro de Sandra Natividade, começou a ser gestada em 1924, quando membros da Primeira Igreja Batista de Aracaju sob a liderança de José Goiaba, passou a evangelizar no município. Em 25 de abril de 1926, sob a liderança do pastor Coriolano Costa Duclerc, foi instalada oficialmente a Primeira Igreja Batista de Maruim, em uma casa alugada, como ficou anos em várias pela cidade.

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Atualmente há cerca de 90 igrejas batistas ou afiliadas em Sergipe. Em Maruim há três. E no País há 8.900 igrejas vinculadas à Convenção Batista Brasileira- CBB, somando 1,7 milhão de membros. Que grandeza! 

O livro conta a luta de homens/mulheres de fé para quebrar barreiras, ocupar espaços, fazer prosperar sua messe, salvar almas. Trata de filosofia, obra missionária, de protagonistas (missionários, pastores, evangelistas, etc.) e nos oferece uma rica iconografia focada em Maruim. Conta com textos (prefácios, apresentações, orelhas) de destacadas figuras, como o Pastor Maurílio Mendes de Farias, presidente da Convenção Batista Sergipana; a pesquisadora e escritora Maria Lúcia Marques Cruz e Silva, presidente da Academia Maruinense de Letras e Artes; além do professor Franklin Rolim de Almeida, presidente da Academia de Letras de Aracaju, já citado.

“Batistas em Maruim” é um ótimo livro que resgata (com admirável empenho da autora) a memória religiosa de nosso povo, no que refere aos Cristãos Batistas.

E os Sabatistas? Tem a ver?

A título de curiosidade, Sabatistas são uma variante dos Batistas ou de outras igrejas (adventistas do sétimo dia sãos os mais famosos) que guarda o sábado como o dia de descanso e não abre mão.

(Antonio FJ Saracura, em 16 de julho de 2026).

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A PRINCESA DESASTRADA: O MISTÉRIO DO REI, Maidy Lacerda

 

A PRINCESA DESASTRADA: O MISTÉRIO DO REI, Maidy Lacerda, com ilustrações de Renata de Souza, Editora Planeta, São Paulo, 2026, 336 páginas, ISBN 978-85-422-4113-6.


Que magia é essa que faz com que um livro seja lido compulsivamente por todo mundo, especialmente por pré-adolescentes, mesmo sendo parrudão e tendo um enredo comum?

Pietra Pinheiro Caetano tem oito anos mal completados, estuda o 3B no colégio Babylândia, uma escola infantil de Aracaju. Apareceu aqui em casa com um livro grosso nas mãos, já lido a metade, dizendo que fora emprestado por uma colega de sala e que havia outras esperando na fila.

Eu comemorei. Finalmente alguém de minha família (ela é minha neta mais nova) seguia-me os passos.

Três dias depois, Pietra acabou o livro e me contou a história, ganhando as tradicionais cinco pilas.

Na sequência, “comeu” mais dois da mesma coleção, parrudões também, emprestados pelas coleguinhas.

Eu fui investigar nas livrarias da cidade e vi que a coleção “Diário de uma Princesa Desastrada” é sucesso absoluto no Brasil todo, com filas de espera para os próximos lançamentos.

O quarto tomo, comprado pelos pais como prêmio merecido, após lido, Pietra me emprestou, furando a fila das coleguinhas: “Mas o senhor ande ligeiro”.

Gastei três dias.

Adorei.

Vivi a luta de Amora, somei-me aos amigos abnegados, especialmente à princesa Olívia, irmã de Amora, que não vacila em transformar raios assassinos em bolhinhas de sabão.

Amaldiçoei sapos gosmentos, bruxas malvadas...

Peguei amizade com gnomos, fadas, sereias, elfos, princesas, reis, rainhas...

Voei em vassouras que transportam no tempo e no espaço, cheirei flores venenosas e sobrevivi.

O conteúdo alterna textos e gravuras; o palavreado trafega pelo idioma neologista que os jovens usam, mas eu me sentia jovem também.

O enredo, na forma de diário de uma princesinha chamada Amora, trata de um reino cercado por outros que o antecederam e foram encantados. Amora possui poderes sobrenaturais (quase todo mundo aqui tem algum) e busca encontrar o pai, vítima de bruxas no passado, com a ajuda da irmã Olívia, dos amigos Sadi, Lila e Sophia, do namoradinho evasivo Skorpio...

Como salvar o pai da prisão onde está sob correntes e feitiço desde a queda de seu reino?

Como levá-lo a Florentia, onde está sendo procurado como criminoso condenado?

Como mantê-lo escondido até o Festival Lunar, quando a sua magia destruirá o poder do vilão maior, possibilitando a ressurreição do reino apagado?

Após muitas voltas, o grupo rebelde está no Festival Lunar para cumprir a missão salvadora, para destruir os opressores. A rainha Amora esfrega as mãos ansiosa. A malvada Persephone nem desconfia da armadilha em que vai cair com seus seguidores. Ou desconfia?

Chega o momento azado...

E dá zebra.

Os vilões tomam o controle, dominam os guerreiros de Amora. E o pior! Dominam com o aparente apoio (parece ser) do rei Edrian (pai de Amora), de Scorpio (seu namoradinho), da rainha Stena (mãe de Amora).

Amora consegue se safar pelas mãos de magias aparentemente inimigas, é jogada no fundo do mar, acolhida por uma fada amiga-peixe, e mantida escondida.

Um caos!

A última página convida os leitores a aguardar o próximo livro da série que logo chegará às livrarias, botando tudo em pratos limpos. Ninguém precisa entrar em desespero. Como o mundo aqui é de fantasia, tudo pode acontecer, inclusive uma inversão do que aconteceu no Festival Lunar.

A eterna briga entre heróis e vilões, comum ao mundo real (onde se pode quase nada) também está no fantástico (onde se pode quase tudo).

“O Mistério do Rei”, de Maidy Lacerda, levou-me a “O Senhor dos Anéis”, de JRR Tolkien, um dos livros mais lidos do mundo. Sem traçar paralelos literários, digo (li toda a obra de Tolkien com imenso prazer) que os dois podem ser sofregamente desfrutados por uma criança como Pietra ou por um ancião de mais de 80, como eu que sou. Então ambos são detentores daquela magia escorregadia que incessantemente busco para meus livros.

(Aracaju, 30 de junho de 2026, por Antonio FJ Saracura)

 

 

 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O PACIENTE DO LEITO 7, José Denivaldo dos Santos

 

O PACIENTE DO LEITO 7, José Denivaldo dos Santos, Aracaju, Editora Brasil Casual, 2023, 214 p. ISBN 078-65-86316-55-1


Li este “Paciente do Leito 7” há mais de seis meses e, incontinenti, me envolvi na preparação e realização da Feira do Livro de Itabaiana. Mal rabisquei uma pequena resenha, mas a esqueci completamente quando a lida da Feira amainou.

E aqui estou ante um texto estranho que encontrei boiando em um dos meus arquivos temporários, que são gavetas de trecos espalhadas em um computador mal arrumado.

Mas não é sobre aquele bom livro do poeta declamador Denivaldo?


E tento ler meus rabiscos, devagar, traduzindo as palavras mal escritas pelos apressados dedos na digitação.

Agonio-me!

Em que outro quarto estaria o paciente, que tanto me aguardou?

Encontro o livro na estante dos inconclusos com um lápis grafite atravessando seu corpo, marcando não sei o quê.

Ainda bem que as minhas anotações nas margens das páginas continuam lá. Corro os olhos por elas e cenas vão se revelando em minha mente, ganhando vida.

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Antônio, meu xará e contemporâneo, infarta e baixa hospital desenganado. Mas mantem a consciência. Até a morte anunciada, passa um pente-fino na vida pregressa, criando o combustível e organizando argumentos, talvez, para um eventual julgamento no andar de cima.

E descobre que ações corriqueiras tomadas por comodismo ou covardia na juventude prejudicaram vidas alheias. E as lembranças se fazem acompanhar de pessoas que o visitam no hospital e que, a seu pedido ou por vingança, revelam pontas de linhas que trazem a luz um mundo que  nunca desconfiou que houvesse.

Todo o romance consiste em uma sucessão de lembranças, narradas com esmero, que prendem o leitor, a exemplo do assassinato acidental do pai de Antônio (Joaquim) a mando do futuro sogro (Saturnino) apenas porque fora este preterido no amor por Gertrudes (a jovem esposa de Joaquim e a mãe prematura de Antônio).

Que o tribunal dos juízes celestiais tome sua decisão, seja lá qual for. Que o meu julgamento aconteça à minha revelia, basta-me a sentença. Não há como evitar as sujeiras que fiz ou que me fizeram. Quero morrer de repente, sem tempo para comemorar ou lamentar atos.  

Parabéns, escritor José Denivaldo dos Santos pela trama engendrada que produziu romance de agradável leitura.

(Por Antonio FJ Saracura, em 15 de junho de 2026)

 

 

 

sábado, 6 de junho de 2026

A RUA DO MEIO, Jorge Oliveira

 

A RUA DO MEIO, Jorge Oliveira, Memória autobiográfica, Aracaju, Brasil Casual, 2026, 292 p., ISBN 978-85-69888-96-3.

 

Jorge Oliveira me apareceu contando uma história que achei minha, mesmo eu tendo passado a infância nos sítios de Itabaiana em uma época anterior. Deve haver semelhança entre as infâncias vividas em qualquer lugar e tempo, nas condições normais. É nela que nos é permitido fazer, sem grande risco, experimentos, descobertas, definição de limites, ajustes... O pequeno bicho-do-mato percebe que há outros em volta com unhas afiadas também.

Virei uma fera quando o irmão comemorou com exagero a vitória dele na partida de futebol de botão.


Tomei com gosto o geladinho que a vizinha fazia com a água que deu banho no cachorro.

Manguei do colega Inácio, que tinha a cabeça de tacho, furado por cima e tapado por baixo.

Não gostei do baiano rançoso que sacudiu o pó das sandálias ao retornar, “para não contaminar sua terra com a lama de Sergipe”.

Travei a língua com a aranha que arranha a rã...

Errei meu potente chute no cachorro que me atacou em sonho e acertei, em cheio, na parede do quarto, fazendo um rombo...

(Nem tudo na vida é sonho).

Depois que levei aquele soco no olho, nunca mais quis provocar briga com colegas aparentemente mais fracos.

Fiz uma festa com a premiação no concurso literário da Secretaria de Educação de Sergipe, que marcou minha infância e me abriu para além da Rua do Meio.

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De resenha em resenha, o autor consegue provocar Euclides Paes Mendonça (que já morreu) com o pacote de canais de televisão ou tentando pagar o jantar de cortesia do Jockey Clube.

As férias do final do ano eram no sul da Bahia, Itabuna; minha mãe era de lá. Esticava com a parentada imensa até a Fazenda Sergipana, perdida no Barro Preto onde, na época, só se chegava no lombo de animais, os adultos escanchados nas cangalhas e a criançada aprontando nos caçuás.

A Vassoura-de-Bruxa (como pôde?) dizimou meio país. De uma opulência sem tamanho, o Sul da Bahia quebrou pela cepa. Como extirpar todo cacaueiro plantado, desinfetar as terras e plantar novas mudas vacinadas? Ainda esperar dois ou três anos para frutificar? A Fazenda Sergipana (rica memória narrada) foi junto; a família a vendeu pelo valor que deu.

As Copas do Mundo de futebol, os regimes políticos pelos quais passamos, a evolução tecnológica que nos desorientou no início, os novos costumes, um absurdo! O Fluminense que me encanta, os bons filmes (revejam a primeira versão de Bem-Hur, de 1959), Airton Senna merece todo louvor.

Mesmo depois de formado, eu me ligava na leitura, pelo rádio, da relação dos aprovados no vestibular. Cada nome pronunciado (mesmo desconhecido) me emocionava como se fosse meu nome no passado.

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As memórias de Jorge fluem fáceis de sua boa cabeça pela pena maneira e se consolidam em uma importante fonte de referência para a nação de nordestinos que se espalha pelo país, e particularmente, na Bahia (de Salvador ao sul do estado) e em Sergipe (de Aracaju a Salgado).

Gostei de viver na companhia do escritor Jorge Oliveira desde a bucólica, agora, Rua do Meio.

Vamos prosseguir?

Por Antônio Fj Saracura, em 06 de junho de 2026.

 

 

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

NÃO QUEIME SEU FILME EM 2030, Fábio Azevedo

 

NÃO QUEIME SEU FILME EM 2030, Fábio Azevedo, 2023, ed. do autor, ISBN 978-65-00-72509-4.

Ganhei o livro “Não Queime o Filme” em uma reunião na Faculdade Amadeus com José Augusto Nascimento, quando eu pedia apoio financeiro para doar vales-livros na Feira do Livro de Itabaiana (IV Flita).

O autor do livro (Fábio Azevedo) é professor da casa e estava presente. Terminada a reunião, sacou da sacola o livro e fez dedicatória para mim.


Em casa, deixei-o à minha frente; não o joguei na prateleira onde os livros desaparecem de minhas prioridades e, depois, domem na caixa de doação.

Ninguém pode ler todos os livros que há.

Em 11/03/2026 (a tal reunião aconteceu em 11/02/2026), para amaciar a ansiedade que esta Feira me dá, abri o livro e li Introdução, que costumo pular. O livro grudou-se em mim, com as hard/inner/soft skills, com os filmes pedagógicos, à sombra ameaçadora da Inteligência Artificial.

Passou pela cabeça a minha vida profissional em TI. Por momentos senti-me o senhor do mundo e, em outros, um reles pato gordo que não consegue mais levantar voo. No segundo capítulo, retornei ao passado juvenil em busca de emprego para sobreviver na cidade grande (anos de 1964) e não conseguia: “você não tem experiência”.

E aprendi que um QI baixo não impede o sucesso profissional. Que consolo! O desafio maior é desenvolver o QA (quociente de aprendizagem) e o QC (quociente de conhecimento).

E mais que, antes de focar uma única profissão, escolher medicina ou direito ou até mesmo antes de fazer uma transição de carreira, é importante desenvolver suas habilidades internas (INNER SKILLS) para melhorar as habilidades sócio emocionais (SOFT SKILLS) e, assim, potencializar as habilidades técnicas (HARD SKILLS).

(...)

Então a Faculdade Amadeus esfriou a parceria proposta e a Feira chegava voraz. Por mais interessante que a leitura fosse, meu foco era achar quem pudesse resolver minhas pendências. Não podia queimar meu filme principal (a Flita).

O livro ficou parado na estante, na página 65.

Nos dias 24 a 26 de abril, o Shopping Peixoto regurgitou de escritores e leitores. A IV Flita excedeu as melhores previsões, foi um grande sucesso.

Um mês depois, no final de maio, retorno ao livro. Corro os olhos até o final com vontade de ficar mais. Mas agora tenho outras urgências.

Em gratidão ao professor Fábio pelo simpático gesto de me oferecer sua bela obra, anotei os nomes dos principais filmes (pretendo assisti-los) que embasam a teoria de que trata o livro, e os compartilho com você, como uma sugestão para assistir também.

(Filmes):

O Exterminador do Futuro (era da máquina);

Matrix (busca do mundo perfeito);

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (fantasia);

Moneyball (alfabetização digital);

A Sociedade dos Poetas Mortos (potencial criativo bloqueado);

A Estrada (mundo caótico e complexo);

Um Sonho de Liberdade (sobreviver em ambiente hostil);

Invictus (resiliência e automotivação);

Rocky Balboa (força da persistência);

O Rei Leão (a determinação, o foco firme);

A Menina que Roubava Livros (autoestima);

Rocky IV (autoconfiança);

Soul (O sopro de Deus, o entusiasmo);

A Procura da Felicidade (autocontrole);

O Pior Vizinho do Mundo (reconhecer-se);

O Cavaleiro das Trevas Ressurge (controlar emoções);

A Procura da Felicidade (o pensamento positivo);

The Karate Kid (disciplina é liberdade);


(Por Antonio FJ Saracura, em Aracaju, 26 de maio de 2026).