quarta-feira, 14 de outubro de 2026

SIRIRI: RETRATOS DE UM POVO, organização de

 

SIRIRI: RETRATOS DE UM POVO, organização de membros da Academia de Letras, Ciências e Artes de Siriri. 224 páginas com ilustrações, Editora Colosso, 2026. ISBN 978-65-84932-31-9.



“Uma das versões mais difundidas entre os moradores, afirma que a origem de Siriri remonta à instalação de uma aldeia indígena comandada por um líder chamado Siriri, irmão do cacique Serigy. Esse processo teria ocorrido durante o período das invasões holandesas no litoral nordestino, quando grupos indígenas foram forçados a deslocar-se para o interior. Foi num local conhecido como 'Pé do Banco' que encontraram condições favoráveis para estabelecer as suas famílias.


A ocupação territorial do espaço sergipano está diretamente relacionada com a expansão da pecuária. Nesse contexto, a povoação de Jesus, Maria e José do Pé do Banco (novo nome de Pé do Banco) teve origem a partir de um curral, ou seja, de um pequeno núcleo voltado para a criação de gado.

A criação da freguesia ocorreu de forma gradual, envolvendo não apenas aspetos religiosos — como a presença de um sacerdote —, mas também implicações políticas. Inicialmente, a freguesia estava subordinada à vila de Divina Pastora.

Em 1938, com a implantação de uma nova divisão territorial, administrativa e judiciária do estado de Sergipe, Siriri foi elevada à categoria de cidade-sede... consolidando, assim, a sua emancipação política.” (Excerto do artigo de Manoel Messias Santos, membro da Academia de Letras de Siriri, página 206).


Tenho aqui na minha estante, ao alcance da mão, livros similares a este (alguns com alentados perfis dos seus imortais) produzidos por muitas das academias do interior sergipano. Estas instituições surgiram da cabeça teimosa e da mão pródiga do escritor Domingos Pascoal de Melo — o “semeador de academias”, como é conhecido — ou dos seus apóstolos.

Satisfaz-me, de modo especial, essa busca pela identidade dos espaços e das coisas (povoados, ruas, pessoas, costumes, história, etc.) que cada academia de letras tem promovido desde a sua estruturação. Sergipe possui hoje quase setenta academias de letras instaladas. Destas, mais de sessenta brotaram dessa obsessão pascoalina.


"Retratos de um povo" é composto por setenta textos curtos (poemas, crónicas, memórias e artigos de opinião), quase todos resgatando aspetos da memória do lugar, à semelhança dos volumes das demais academias.

Nesta Antologia produzida pela Academia de Letras de Siriri, destacarei algumas crónicas, poemas e memórias, prestando uma homenagem também aos restantes autores, já que são tantos:

Ana Cláudia Mendonça, confreira lá da Academia Sergipana e que nasceu aqui, canta em versos o povoado Itaperoá, onde estão as suas raízes.

Tânia Marinho fez uma festa de Reis neste janeiro e chamou a banda do Sr. Zé Sem Nome: pífanos afinados, zabumba marcadeira, pandeiro alvoroçado... Quase não saí do terreiro da casa dela.

E o cronista fino Antônio Carlos Santana retornou ao Pé do Banco e contou-me que Siriri hoje respira prosa, fé e teimosia por entre nove distintos povoados: Sabinópolis, Itaperoá, Fazendinha (de baixo e de cima), Mata do Cipó, Castanhal, Vila Nova, Lagoa Grande, Siririzinho e Piranhas.

Maria Auxiliadora Santana disseca as cabacinhas, a "arma fatal de guerra" das brincadeiras que a população curte desde janeiro até ao Carnaval.

A poeta Maria Salete (Saletinha), rainha do cordel sergipano, ensinou-me no seu poema que, naquele Sergipe de 1637, havia 400 currais de gado, e que o situado no Pé do Banco era chamado de “Curral do Camarão”.

Valfredo Luiz da Silva aponta-me o Remanso, onde uma capelinha foi construída — talvez na taba de Japaratuba e dos seus dois filhos (também caciques) — e que hoje é a praça mais importante da cidade.

E Maria Anunciada dos Santos relembra: "Mata do Cipó é o povoado onde nasci. É aqui que nasce também o Rio Siriri. Brota do sangradouro, parte dividindo Capela de Siriri, atravessa as fazendas Pau-ferro, Faustino e Roça de Dentro, banha Siriri (o antigo Pé do Banco) a caminho do rio Japaratuba, a caminho do mar.”


Todos os textos são bem escritos, bem editados e de uma leitura muito agradável. Cada autor vem biografado no rodapé das suas páginas, sendo todos imortais da novel academia de letras do município de Siriri.

(Por Antonio FJ Saracura, Aracaju, 14 de outubro de 2026).

Nota: Revisão rápida pelo IA Google.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

TOBIAS BARRETO DE MENEZES: A VERSATILIDADE DE UM GÊNIO, Tancredo Wanderley

 

TOBIAS BARRETO DE MENEZES: A VERSATILIDADE DE UM GÊNIO, Tancredo Wanderley  de Carvalho Filho, 1.ª edição, Tobias Barreto/SE, Phislan Gráfica e Editora, 2022, 148 páginas, ISBN 978-65-00-46537-2.



O autor, Tancredo Wanderley, é presidente da Academia de Letras de Tobias Barreto e autor de vasta obra poética, religiosa, de costumes...

Tenho-o encontrado mais em feiras literárias com um stand bem produzido que se destaca e atrai mais visitantes. Numa dessas feiras, comprei o livro, “Tobias Barreto de Menezes (A versatilidade de um gênio)”, e ganhei uma simpática dedicatória: “Ao nobre escritor e amigo, para momentos prazerosos de leitura. Com carinho, do escritor Tancredo Wanderley, em 18.05.2024”.


Passei o livro à frente na fila especial de leitura (ele é curtinho e tem letras grandes). Pedi perdão a “O Romance de Tobias Barreto”, de Junot Silveira, e a “Tobias Barreto: o Desconhecido Gênio e Desgraça”, de Sebrão Sobrinho. No primeiro, pescara trechos salteados para fazer amizade; no segundo (uma cópia xerox quase invisível), lera o belo capítulo chamado “Itabaiana, Paraíso de Tobias Barreto”.

Pois bem!

Vou começar a resenha lendo parte do capítulo denominado “A ascendência materna de Tobias”, que começa na página 67 do livro:

“O notável Tobias Barreto de Menezes, por ascendência materna, traz em si o DNA dos Afonseca de Itabaiana. Sua mãe, Emerenciana Maria de Jesus, branca, jovem, bonita e inteligente, prendada, excelente dona de casa, sabia ler e escrever, dançava bem e era costureira.

A linda jovem Emerenciana era descendente do itabaianense Brás de Afonseca, fundador da Tapera da Serra. Seu pai, o Alferes Antônio José da Fonseca, casado com Raimunda Maria de Sá, parenta dos Sá Souto Maior, da Torre Tatuapara.

Os dignos Afonseca se espalharam por Campo do Brito, Lagarto, Riachão, Vila de Campos do Rio Real, Itapicuru, etc. Deles descende, dentre outros, o ilustre jornalista, bibliógrafo, pesquisador, documentarista, historiador e pesquisador sergipano Epifânio da Fonseca Dória e Menezes.

Os pais de Emerenciana, em 1818, resolvem acompanhar seu parente e protetor, o padre Francisco Xavier de Góis e Amaral, que fora, em 16 de abril de 1818, indicado para vigário da Freguesia de Nossa Senhora Imperatriz dos Campos do Rio Real de Cima.

Em 11 de junho de 1836, com apenas cinquenta anos de idade, o pai de Emerenciana, morre de uma queda da própria altura, deixando-a órfã e a mãe viúva.

Emerenciana era ainda adolescente quando perdera o pai; a jovem crescera sob o olhar atento e carinhoso de sua mãe e a proteção de seu tio e protetor, o Padre Amaral.

Desfrutando da flor da idade, a menina-moça, doce, meiga e inocente, provavelmente em uma das noites de festa alusivas à Nossa Senhora no ano de 1838, conhecera Pedro Barreto de Menezes, alferes do Exército e tabelião do cartório da Vila de Campos — homem garboso, sensual e conquistador, traço peculiar, ainda hoje, aos Barretos de Menezes —, que encantou e conquistou a jovem Emerenciana, que, mesmo ante os protestos de sua mãe, cedera aos caprichos do amor...”

 (Veja o final no  próprio livro, a partir da página 67. Leia o livro todo que vale a pena),

O livro foi produzido com letras garrafais, fotos em grafite, textos enxutos, fáceis de absorver e contem 64 capítulos rápidos, dos quais destacamos:

Os alemães e Tobias;

Itinerário Tobiático: 4 estados e 18 cidades;

O homem plural: poliglota, filósofo, político, professor, sociólogo...

A jurisprudência, os amores, os jornais...

Tobias – herói da pátria: seu nome está no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília;

Tobias e sua relação com Deus;

Análise da poesia (distribuída em capítulos).

Para concluir, deixo os dois tercetos do soneto “Ignorabimus”, que revelam a grandiosidade da poesia de Tobias:

“Se os reis são sempre os reis, se o povo ignavo

Não deixou de provar o duro freio

Da tirania, e da miséria o travo,

 Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,

Se o homem chora e continua escravo,

De que foi que Jesus salvar-nos veio?...”


 (Por Antonio FJ Saracura, em 13 de outubro de 2026)

 Nota: Revisão rápida feita pelo IA do Google.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 

NO LIMIAR DA LITERATURA SERGIPANA, Joseane Souza da Fonsêca (org.), Aracaju, Artner, 2019, 160 p. ISBN 978-85-69567-55-4.

“A literatura é o sonho acordado das civilizações”.

Assim, Joseane Fonseca começa sua antologia (o segundo livro dela que me cai às mãos), citando Antônio Cândido em O Direito à Literatura (1988), e complementa: “Ela nos possibilita uma reflexão sobre a dialética (investigação do conhecimento baseado no confronto de ideias) da vivência humana ao longo da história da civilização”.

O livro compõe-se de sete artigos que tratam de figuras ilustres e suas obras, escritos por acadêmicos com os quais a autora, Joseane Fonsêca, conviveu na UFS, onde é mestre e doutora em Literatura.


Wagner Gonzaga Lemos escreve sobre Gizelda Morais (Da poesia infantil à consolidação da literatura):

Wagner Lemos, que tenho o prazer de conhecer e admirar, fala aqui de Gizelda de Morais. Ele faz uma espécie de biografia, como se fosse a prévia (ou a súmula) de um livro biográfico que está escrevendo e que talvez já esteja nas livrarias.

Conheci Gizelda nas Rodas de Leitura da Biblioteca Pública Epifânio Dórea há bom tempo. Li alguns de seus bons livros e os guardo com zelo na minha pequena biblioteca: Preparem os Agogôs, Feliz Aventureiro, Rosa dos Tempos, Veleiro da Esperança, À Procura de Jane, Ibiradiô e Absolvo e Condeno. Sobre os quatro últimos, escrevi resenhas que podem ser lidas no meu blog “Antonio Saracura Sobre Livros Lidos”.


Márcio Carvalho da Silva escreve sobre Alina Paim (Uma romancista que dispensa toda e qualquer apresentação):

O artigo refere-se ao resgate crítico da obra de Alina (que gerou a publicação de um livro) feito por Maria Leal Cardoso. Alina foi (e ainda é) uma escritora marginalizada pelo cânone literário. Publicou romances tão bons quanto os de seus colegas contemporâneos, mas os seus não tiveram o mesmo sucesso; foram “tornados invisíveis” pela crítica machista.

Alina Paim nasceu em Estância, criou-se em Salvador (até os seis anos) e em Simão Dias (com os avós paternos), passando depois por Salvador outra vez, Rio de Janeiro e outros estados do Sul. Atuou como professora, tradutora, jornalista, escritora, ativista política (em prol dos direitos das mulheres) e militante comunista; faleceu no Mato Grosso com mais de noventa anos. Alina publicou dez romances e algumas obras de literatura infantil, tudo de alto nível. Teve livros prefaciados por Jorge Amado e por Graciliano Ramos. O romance O Céu do Meio-dia foi coroado com o prêmio Manoel Antônio de Almeida (1961) da ABL.

Maria Leal é quem testemunha: “Garimpamos suas obras nas livrarias e sebos de todo o país, o que não foi fácil, pois quase todas tiveram apenas uma edição (magra)”. Ao se sentir atingida pela "equipe justiceira" da biógrafa Maria Leal, da UFS, Alina Paim exclamou: “Estive esquecida no meu mundinho por 30 anos. Agora, com mais de 90 anos de idade, velha e cega, você me faz retornar a velhos tempos, lembrar de pessoas da minha vida literária... Por acaso, tenho essa importância toda?”

(Para mim, este artigo, mesmo sendo da Academia, foi comunicativo na forma, no conteúdo e no tratamento das referências. Uma escrita focada, uma leitura agradável).


Jeane de Cássia Nascimento Santos e Raquel Pereira Lima escrevem sobre Antonio Carlos Viana (Das Dores: mercadoria sem nome):

Eu já li boa parte da obra de Viana e gostei do que vi. Por mais absurda que seja a violência sofrida pela mulher “das Dores” no conto, ela é real, enraizada e atual. E cobra da mulher “moderna” sacrifícios extras, como o risco do feminicídio — que está cada vez mais em voga, impulsionado pela extrema-direita radical, para quem a mulher continua sendo “um homem inferior”. Assim como o nordestino, assim como os desvalidos...

E sobre o conto “Das Dores” e parte da literatura de Viana, as autoras afirmam: “É uma literatura que incomoda e, mesmo assim, nos prende e nos faz mergulhar na complexidade do tema”.


Sérgio Murilo Fontes de Oliveira Filho escreve sobre Francisco Dantas (Leitura, cultura e refúgio em Sob o Peso das Sombras):

Sérgio Murilo faz-me sentir Francisco Dantas como meu irmão de hábito da mesma congregação ao citá-lo:

“A literatura tem que se abastecer no contexto de formação de cada escritor. Que só podemos escrever exuberantemente quando nos abandonamos e colocamos todos os sentidos em sintonia com as forças inconscientes que nos rodeiam e alimentam a nossa formação” (página 119, citando obra constante na bibliografia).

O artigo se propõe a analisar dois fatores: a leitura de livros e a cultura na vida de Justino Vieira (em Sob o Peso das Sombras). Na vida de todos nós, portanto.

E o texto deixa que o próprio Justino sinta a má influência dos livros nos viciados em leitura: ele está tendo muita dificuldade em reatar vínculos de amizade com o povo de Alvide, do qual se sentia, no íntimo, parte integrante.


Aretha Ludmilla Pacheco Lira Lopes escreve sobre Francisco Dantas (Literatura e geografia: uma leitura de Cabo Josino Viloso):

A autora, entre as considerações sobre este livro, deixa implícito (entendi assim) que o cabo Viloso lucrou com sua ida para Alvide, mesmo tendo enfrentado privações ainda maiores. Em Alvide, ele era a autoridade (era o chefe), mesmo que fosse sobre o nada. Então, sobrou-lhe espaço para utilizar seu livre-arbítrio (mesmo influenciado e ferindo princípios próprios) para, de certa forma, se recompensar.


Joseane Souza da Fonsêca escreve sobre Maria Lucia Dal Farra (Ressignificando a tradição na poética de MLDF):

 

“O AMOR (para Jaci dos Santos)

 

São tantos de nós a vigiar o beijo

que é preciso fechar os olhos

para estarmos a sós.


Beijamos a nossa solidão –

porque ali a encontramos melhor.”

(Dal Farra, página 44).

Aqui, coube este poema... Melhor do que uma síntese (se é que fosse possível fazê-la) do tratado de Joseane (uma daquelas aulas para aluno desistir do curso) sobre a poética de Maria Lucia.


Joseane escreve sobre Francisco Dantas (As aproximações estéticas com William Faulkner):

Entendi (pois não conhecia) que Faulkner é consagrado pela matriz regionalista de seus textos (no sul dos Estados Unidos). Em vez do Rio das Paridas, ele tem o seu condado de Yoknapatawpha. Como Dantas, que tem sua matriz e dela não abre mão: “Eu sou nordestino, de Sergipe, e estou comprometido com minha terra, com meus valores e com minha gente”. A poética de Faulkner não está amarrada a correntes literárias fixas, assim como a de Francisco Dantas, que também rejeita o alinhamento com as escolas literárias.

Para serem mais parecidos, bastava que Francisco Dantas ganhasse o Nobel de Literatura, que bem merece.

Sobre as personagens femininas de Faulkner e Dantas, a autora traça um paralelo amplo, mas me retenho a Eula e a Dona Senhora, como sendo “mulheres que enfeitiçam os homens e afrontam a tradição do recato feminino...”.


Nas Considerações Finais do livro, a organizadora (Joseane, a quem bato palmas), seguindo o pensamento de Antônio Cândido, constata que, “além do deleite, o contato com a literatura favorece a construção e a reconstrução de nossas identidades... A palavra literária atinge o nosso inconsciente, favorecendo o reconhecimento de quem somos”.

(Por Antônio FJ Saracura), 7 de outubro de 2026).

(Nota: Revisão rápido pelo IA do Google)..



segunda-feira, 28 de setembro de 2026

NAS TRILHAS DA NARRATIVA, Joseane Souza da Fonsêca

 

NAS TRILHAS DA NARRATIVA, Joseane Souza da Fonsêca. Aracaju: Infographics, 2015, 117 páginas. ISBN 978-85-68368-60-2.


Há um bom tempo, em 2023, participei de uma palestra no campus da UFS sobre a obra do escritor Francisco Dantas, proferida pela professora de Campo do Brito, Joseane Souza da Fonsêca. Ao final do evento, Joseane presenteou-me com um exemplar de seu livro “Nas Trilhas da Narrativa”, do qual agora dou notícia em meu blog (SOBRE LIVROS LIDOS).

O livro foi publicado em 2015 e conta com um alentado prefácio do professor da UFS, Carlos Magno Gomes, sobre a produção literária sergipana, com foco no consagrado casal Francisco J. C. Dantas e Maria Lúcia Dal Farra.



A Parte 1 do miolo é composta por três artigos sobre Dantas: Os Segredos da Personagem, Fragmentação do Espaço e Suspensão da Onisciência do Narrador.

Em boa parte de seus livros, Dantas apresenta-se como o narrador (ele mesmo ou um personagem em seu nome) e, por isso, a narrativa poderia limitar-se às suas percepções, pensamentos e sentimentos... Mas ele encontra o seu jeito e cria quando precisa, “espiões” que lhe sopram a visão ampla eventualmente requerida.

Em Os Desvalidos (1993), apresenta-nos Coriolano, um comerciante fraco do lugar e poeta popular; a Lampião, cheio de dores de consciência e de mil dificuldades, mas firme em sua malvadeza; a Zerramo, cujo poder torna-se insignificante diante de um maior; e a Maria Melona, a mulher que brilha como as demais mulheres em toda a obra de Dantas.

As mulheres exaltam a sedução e o poder. Até mesmo as mais resignadas à sua condição — sejam pobres ou doentes — representam, de modo determinante, os contornos da subjetividade feminina. As personagens femininas, se sofrem, sofrem pela mão de homens maus ou injustos.

Dona Senhora, em Cartilha do Silêncio, numa fase da vida em que explodia vitalidade, sofria, além do desprezo da sociedade em volta, a repreensão mal-agradecida do marido, acompanhada do silêncio brutal e do jejum sexual. Mais tarde, ele morre (sem ter culpa alguma), mas “mata” também Dona Senhora antes da hora. E essa morte traz consigo um dos mais desgraçados vilões da literatura: o desembargador Belizário, tio de Romeu, que deveria ajudar, mas destrói Dona Senhora e a sua família, financeira e mentalmente. Dona Senhora (assim como a eficiente Arcanja) não merecia nada disso e sai do romance direto para os oratórios dos adoradores dos grandes personagens da literatura universal.

O estado de Sergipe é o principal cenário das obras de Dantas, o que muito nos honra. A Bahia e Alagoas misturam-se conosco pela proximidade ou porque Sergipe é tão pequeno e cheio de conteúdo que vasa pelas beiradas (kkk). Os vizinhos beliscam, aqui e acolá, a honra de sediar locação da trama, como em Cabo Josino Viloso (Bahia) e em Cartilha do Silêncio (Dona Senhora era alagoana da gema).

Dantas utiliza mais o ambiente rural, as pequenas vilas onde o campo se mistura com as ruas. O rural é refrigério; a grande cidade é castigo. Em Cartilha do Silêncio, o autor tem os vagos momentos na Varginha como o refúgio ideal, enquanto Aracaju (o casarão de quartos sombrios), onde quase toda a trama acontece, é o centro difusor da perversão moral, dos sofrimentos das mulheres, das esquisitices de Cassiano, da decadência...

A Parte 2 do miolo trata da obra de Maria Lúcia Dal Farra e compõe-se de dois artigos: A Intertextualidade Lírica e O Entrelugar do Tempo e do Espaço.

Joseane paira na dimensão entre a linguagem natural das pessoas (a entonação da voz, a gestualidade do corpo, o olhar, a postura, a emoção...) e a linguagem literária da poeta (símbolos, concretude, etc.).

Como o poeta substitui as mil armas de que o falador dispõe e usa?

Os belos poemas de Dal Farra conseguem isso, e com sobra, pelo que depreendemos. A poeta alcança uma imagem da ideia que, mesmo não sendo a original pensada, fica tão interessante quanto. Às vezes até melhor, pois o seu lirismo tem poderes mágicos.

Por minha conta, relembro o poema de Augusto dos Anjos, “A Ideia” (os dois tercetos finais do soneto), porque me assusta e gratifica, ao mesmo tempo, constatar de que apenas a poesia consegue representar tão bem a Ideia original e pura.

“Vem do encéfalo absconso que a constringe,

chega em seguida às cordas da laringe,

tísica, tênue, mínima, raquítica...

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No molambo da língua paralítica!”

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Joseane tece considerações sobre o livro A Inquilina do Intervalo (2005), que tenho aqui comigo na fila, esperando a vez de ser lido por inteiro...

“O que surpreende de imediato neste livro é a juventude da voz, infância desabrochando na adolescência, ocupada em crescer, compreender, sentir, confundir-se, perder...” (diz nas orelhas e num cantinho da capa a escritora Vilma Aréas).

Os contos analisados (quatro) fizeram-na concluir que “Maria Lúcia é dona de uma escrita que conduz o corriqueiro, o feminino, o fantástico, o histórico, o subjetivo ao espaço múltiplo e fértil da ficção. (...) Por isso, o leitor torna-se, facilmente, inquilino desta inteligência imaginativa”.

Nas “Considerações Finais”, Joseane ratifica a importância de a academia (UFS) em estudar a obra dos consagrados Francisco e Maria Lúcia, mas insiste que precisa estudar também outros autores que Sergipe tem, pois vale muito a pena conhecer e apreciar a escrita que representa o imaginário cultural do nosso povo.

(Por Antonio FJ Saracura, em 24 de setembro de 2026).

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(Nota1): Revisão rápida pelo IA do Crome.

(Nota2): Nem tudo o que Joseane Fonsêca escreveu eu assimilei como queria e precisava. Por isso, aqui e acolá, parece que estou a tratar de outro livro, não do de Joseane.

E ouso apontar a culpa alheia, pois há também a mea culpa pela minha incompetência técnica.

Os tratados da academia (pareceres, avaliações, teses, etc.) não são claros, não são diretos. Os seus autores usam palavras que pouco dizem, fazem citações que nada acrescentam e constroem frases sem pés nem cabeça. E encompridam tanto o texto que, talvez, até eles mesmos se percam. Quem mandou afastar-se tanto do foco? Talvez achem que os seus professores (mestres e doutores) aprovem as suas teorias com louvor quando se sentirem incapazes de as entender — seja devido ao “esmero” da feitura ou por estarem “cansados” de tanto ir e vir lendo uma narrativa chata.

Seria algo como: confundir vale mais do que esclarecer; protelar prevalece sobre concluir.

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

TENDAS DA MINHA ALMA, Paulo Rodrigues, poemas

 

TENDAS DA MINHA ALMA, Paulo Rodrigues, poemas e crônicas, Aracaju, Infographics, 2023, 213 páginas, ISBN 978-65-5730-190-6.


Paulo Rodrigues vive a poesia desde criança (seu pai, Neu Mulatinho, era violeiro e trovador dos bons). A poesia está em seu cheiro, na aura, na postura que se me apresenta assim, aqui sessões  segundas à tarde da Academia Sergipana de Letras:

Terno escuro com lenço de pontas no bolso esquerdo do colete. Óculos de duas lentes tipo Pince-nez equilibrando-se no meio do pau da venta;  corrente dourada e brilhante de um lado ao outro, à frente, no cós da calça, prendendo o Patek Filipp no bolsinho do relógio. Paulo corta os cabelos curtos,  mas os vejo lisos, cobrindo a nuca, que se ondulam e se alçam no ardor das declamações.

Mas o que  Paulo traz mesmo no bolso do colete da memória, são belos poemas — seus e de grandes poetas —, que declama quando tem chance, como nas sessões das segundas-feiras à tarde na Academia Sergipana de Letras.

Além de poeta consagrado, é mestre do saber nos vários segmentos da cultura, especialmente da história e do folclore do Baixo São Francisco, com destaque para o que toca a Cedro de São João e suas lagoas piscosas que se transformam em roças de arroz no tempo certo.

Tendas de Minha Alma, o livro que tenho em mãos, é uma coletânea escolhida de poemas produzidos no dia a dia, diuturnamente (dá essa impressão) desde muitos anos atrás. Canta momentos marcantes, o orgulho pátrio, a gratidão a pessoas do convívio, lições de vida e sentimentos profundos: amor, humor, dor, felicidade... Os poemas de Paulo são orações de louvor à  Deus e à vida de beduíno nessa travessia sofrida em que todos nos empenhamos; são oásis ou tendas para a alma do próprio Poetas para deleite de quem desfruta de sua moradia. (Ele mesmo diz na capa do livro).

“Cada verso meu faz-se tenda de minha alma / fonte rutilante de toda poesia...”

Boa parte desta seleção incluída no livro é contextualizada com uma crônica que narra o mote, a musa e a história do poema. Além dos versos ao violão ou na declamação emocionada, artes em que Paulo é mestre, temos um compêndio didático que se presta ao entendimento da alma do autor e da própria arte da poesia o momento da criação.

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Um livro de poesia é como uma biblioteca: nem de todos os livros a gente vai dar conta de ler e, mesmo dos livros lidos, alguns poderão não ser absorvidos. Poesia requer comunhão, estado de graça.  Se apenas um dos poemas me apaixonar em um livro, isso já me satisfaz Como dar conta de mil mulheres que me atraem?

Basta-me “Navios Negreiros”, em Espumas Flutuantes, de Castro Alves; basta-me “Ignorabimus”, em Dias e Noites, de Tobias Barreto; basta-me “Alma minha gentil que te partiste ”, na obra de Camões, basta “O acendedor de Lampiões” de Jorge de Lima.

Não que os demais poemas de cada poeta sejam menores — até podem ser mais belos —mas em mim não cabem tantos.

Porisso, aqui me basta falar de “Volta, Zé, para o Sertão”, em Sombras de Minha Alma, de Paulo Rodrigues:

 

“Que fazes, Zé, envolto em folhas de jornal

debaixo de marquise nesta capital

para onde vieste tentar uma nova sorte?

Volta para o Sertão, que te assistiu nascer

Lá acharás o pão que precisas comer

Pois aqui, assim sofrendo, encontrarás a morte...”

 Esta é apenas uma das dez estrofes que o poema contém.

De uma maneira ou de outra, cada um dos poemas deste livro de Paulo Rodrigues (como nos demais livros das bibliotecas do mundo) poderá ser, aleatoriamente, a tenda para a alma de pessoas iguais (ou não) ao Zé, que passa frio sob uma marquise qualquer.

(por Antonio FJ Saracura, Aracaju, 22 de setembro de 2026)

(Nota): Revisão rápida feita pelo IA do Google.

(Nota1): O Poema

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua,
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A PONTE, breve história do maior desafio de Sergipe, Ricardo Leite

A PONTE, breve história do maior desafio de Sergipe, Ricardo Leite. 1.ª edição, Porto Velho, Temática Editora, 2020. 96 pág. ISBN: 978-65-89078-05-0 (Livro digital).



Uma surpresa agradável este livro, “A Ponte”, que trata da construção da ponte Aracaju-Barra ou Construtor João Alves, ligando Aracaju à cidade de Barra dos Coqueiros.

A ponte tem 1.800 metros de extensão, é do tipo estaiada, suspensa por cabos e com dois mastros. A construção deu-se em dois anos, na última metade do governo de João Alves (desde o batimento da pedra fundamental até a entrega).



Quando inaugurada, era a segunda maior ponte urbana do Brasil e a maior do Nordeste. Possui quatro pistas para veículos, ciclovia e passarela de pedestres. Quem diria que João iria fazê-la, e tão rápido? Mas quem, além dele, poderia?

João Alves Filho nasceu em 03/07/1941. Foi um engenheiro ativo e dono de uma grande construtora, a Habitacional, que criou ainda jovem. Foi governador (1983-1987, 1991-1994, 2003-2007), prefeito (pela primeira vez de 1975-1979, e a segunda de 2013-2016) e ministro de Estado do Interior (1987-1990) no governo Sarney. Faleceu de Covid em 24/11/2020, aos 79 anos. Em 30/11/2020, foi sepultado em Aracaju, onde nasceu.

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“A Ponte” é um livro digital e está sendo distribuído gratuitamente na Internet; basta baixar. É de autoria de um escritor consagrado (Ricardo Leite), que tem bons livros publicados (nota ao final). Há no começo uma sinopse de cada capítulo. Pra quê? O leitor muito ocupado não larga o livro sem ler as sinopses, que são curtinhas e bem-feitas. E, ao ler, pensa assim: “Já que estou aqui, vou beber este vinho todo, pois me parece bom”.

Mesmo sendo um livro que trabalha fatos de nossa história (considerados com rigor científico), Ricardo Leite dá-lhe ares de romance em momentos especiais:

Como na difícil decisão de João Alves de fazer uma ponte (um projeto histórico e dispendioso) ao final de um governo que corria o risco de não se renovar por conta do contexto político do momento e do carisma do provável adversário, Marcelo Déda.

Como na luta insana para conseguir os recursos necessários, inviáveis pela situação fiscal do Estado, que estava com a "ficha suja". Quase mudou a direção do vento; teve que rasgar a lei.

Como na busca do local ideal, onde as indenizações fossem as menores, onde o leito do rio fosse mais firme, onde as correntes marítimas, as correntes de ar e as correntes da oposição política fossem mais toleráveis...

Como na escolha do nome da ponte... O governador planejava prestar uma justa homenagem a seu pai, e a mídia exacerbava o debate, chamando-a de Zé Peixe, herói popular que trazia a salvo os navios pelos perigosos caminhos submarinos da foz do rio Sergipe.

“Zé Peixe era nadador exímio e amava o rio e o mar, mas nunca falou da necessidade de uma ponte, mesmo porque ele atravessava a nado, com facilidade de peixe, a extensão de cerca de mil metros na região de sua casa modesta, na avenida que margeia o rio...”.

A campanha mantida pela oposição esvaiu-se e o nome oficial da ponte pegou para sempre, Construtor João Alves, junto com outro mais simples e incapaz de constranger: Ponte Aracaju-Barra.

Como não participar da festa de inauguração da ponte que construiu "na tora", proibido pela justiça eleitoral por estar concorrendo à reeleição para governar o Estado? A cerimônia aconteceu em 24/09/2006, às 18h, sem pompa nenhuma; o construtor e a esposa não estavam presentes.

Como no destino das tototós, acostumadas a atravessar o rio por muitos anos levando passageiros... João criara projetos para incendiar o turismo em Aracaju: urbanizou os alagados da Treze de Julho, construiu hotéis e incentivou empresários do ramo a investirem em Sergipe. As tototós poderiam vender passeios inesquecíveis aos turistas que descobriam, finalmente, Sergipe.

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“A Ponte” é um livro de leitura agradável e inclui, nas linhas e entrelinhas, uma concisa e rica biografia desse titã sergipano, João Alves Filho, além de uma interessante crônica de um momento peculiar brasileiro — a ditadura militar — e da política da província em diversos momentos de dor e de glória.

Parabéns, Ricardo Leite, pela boa leitura que me proporcionou.

(Por Antônio FJ Saracura, em 18 de setembro de 2026).

Nota:
Ricardo Leite é advogado, jornalista e servidor público federal nascido em Aracaju. É autor dos livros: Júlio Leite, o chefe invisível (2004), Jorge Prado Leite, um homem chamado trabalho (2008) e 1912: Vitória na Selva (Temática Editora, 2020). É membro da Academia Rondoniense de Letras. Para falar com o autor: ricardoleite@infonet.com.br

(Usei para revisar este texto, o Google IA, e gostei).