segunda-feira, 28 de setembro de 2026

NAS TRILHAS DA NARRATIVA, Joseane Souza da Fonsêca

 

NAS TRILHAS DA NARRATIVA, Joseane Souza da Fonsêca. Aracaju: Infographics, 2015, 117 páginas. ISBN 978-85-68368-60-2.


Há um bom tempo, em 2023, participei de uma palestra no campus da UFS sobre a obra do escritor Francisco Dantas, proferida pela professora de Campo do Brito, Joseane Souza da Fonsêca. Ao final do evento, Joseane presenteou-me com um exemplar de seu livro “Nas Trilhas da Narrativa”, do qual agora dou notícia em meu blog (SOBRE LIVROS LIDOS).

O livro foi publicado em 2015 e conta com um alentado prefácio do professor da UFS, Carlos Magno Gomes, sobre a produção literária sergipana, com foco no consagrado casal Francisco J. C. Dantas e Maria Lúcia Dal Farra.



A Parte 1 do miolo é composta por três artigos sobre Dantas: Os Segredos da Personagem, Fragmentação do Espaço e Suspensão da Onisciência do Narrador.

Em boa parte de seus livros, Dantas apresenta-se como o narrador (ele mesmo ou um personagem em seu nome) e, por isso, a narrativa poderia limitar-se às suas percepções, pensamentos e sentimentos... Mas ele encontra o seu jeito e cria quando precisa, “espiões” que lhe sopram a visão ampla eventualmente requerida.

Em Os Desvalidos (1993), apresenta-nos Coriolano, um comerciante fraco do lugar e poeta popular; a Lampião, cheio de dores de consciência e de mil dificuldades, mas firme em sua malvadeza; a Zerramo, cujo poder torna-se insignificante diante de um maior; e a Maria Melona, a mulher que brilha como as demais mulheres em toda a obra de Dantas.

As mulheres exaltam a sedução e o poder. Até mesmo as mais resignadas à sua condição — sejam pobres ou doentes — representam, de modo determinante, os contornos da subjetividade feminina. As personagens femininas, se sofrem, sofrem pela mão de homens maus ou injustos.

Dona Senhora, em Cartilha do Silêncio, numa fase da vida em que explodia vitalidade, sofria, além do desprezo da sociedade em volta, a repreensão mal-agradecida do marido, acompanhada do silêncio brutal e do jejum sexual. Mais tarde, ele morre (sem ter culpa alguma), mas “mata” também Dona Senhora antes da hora. E essa morte traz consigo um dos mais desgraçados vilões da literatura: o desembargador Belizário, tio de Romeu, que deveria ajudar, mas destrói Dona Senhora e a sua família, financeira e mentalmente. Dona Senhora (assim como a eficiente Arcanja) não merecia nada disso e sai do romance direto para os oratórios dos adoradores dos grandes personagens da literatura universal.

O estado de Sergipe é o principal cenário das obras de Dantas, o que muito nos honra. A Bahia e Alagoas misturam-se conosco pela proximidade ou porque Sergipe é tão pequeno e cheio de conteúdo que vasa pelas beiradas (kkk). Os vizinhos beliscam, aqui e acolá, a honra de sediar locação da trama, como em Cabo Josino Viloso (Bahia) e em Cartilha do Silêncio (Dona Senhora era alagoana da gema).

Dantas utiliza mais o ambiente rural, as pequenas vilas onde o campo se mistura com as ruas. O rural é refrigério; a grande cidade é castigo. Em Cartilha do Silêncio, o autor tem os vagos momentos na Varginha como o refúgio ideal, enquanto Aracaju (o casarão de quartos sombrios), onde quase toda a trama acontece, é o centro difusor da perversão moral, dos sofrimentos das mulheres, das esquisitices de Cassiano, da decadência...

A Parte 2 do miolo trata da obra de Maria Lúcia Dal Farra e compõe-se de dois artigos: A Intertextualidade Lírica e O Entrelugar do Tempo e do Espaço.

Joseane paira na dimensão entre a linguagem natural das pessoas (a entonação da voz, a gestualidade do corpo, o olhar, a postura, a emoção...) e a linguagem literária da poeta (símbolos, concretude, etc.).

Como o poeta substitui as mil armas de que o falador dispõe e usa?

Os belos poemas de Dal Farra conseguem isso, e com sobra, pelo que depreendemos. A poeta alcança uma imagem da ideia que, mesmo não sendo a original pensada, fica tão interessante quanto. Às vezes até melhor, pois o seu lirismo tem poderes mágicos.

Por minha conta, relembro o poema de Augusto dos Anjos, “A Ideia” (os dois tercetos finais do soneto), porque me assusta e gratifica, ao mesmo tempo, constatar de que apenas a poesia consegue representar tão bem a Ideia original e pura.

“Vem do encéfalo absconso que a constringe,

chega em seguida às cordas da laringe,

tísica, tênue, mínima, raquítica...

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No molambo da língua paralítica!”

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Joseane tece considerações sobre o livro A Inquilina do Intervalo (2005), que tenho aqui comigo na fila, esperando a vez de ser lido por inteiro...

“O que surpreende de imediato neste livro é a juventude da voz, infância desabrochando na adolescência, ocupada em crescer, compreender, sentir, confundir-se, perder...” (diz nas orelhas e num cantinho da capa a escritora Vilma Aréas).

Os contos analisados (quatro) fizeram-na concluir que “Maria Lúcia é dona de uma escrita que conduz o corriqueiro, o feminino, o fantástico, o histórico, o subjetivo ao espaço múltiplo e fértil da ficção. (...) Por isso, o leitor torna-se, facilmente, inquilino desta inteligência imaginativa”.

Nas “Considerações Finais”, Joseane ratifica a importância de a academia (UFS) em estudar a obra dos consagrados Francisco e Maria Lúcia, mas insiste que precisa estudar também outros autores que Sergipe tem, pois vale muito a pena conhecer e apreciar a escrita que representa o imaginário cultural do nosso povo.

(Por Antonio FJ Saracura, em 24 de setembro de 2026).

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(Nota1): Revisão rápida pelo IA do Crome.

(Nota2): Nem tudo o que Joseane Fonsêca escreveu eu assimilei como queria e precisava. Por isso, aqui e acolá, parece que estou a tratar de outro livro, não do de Joseane.

E ouso apontar a culpa alheia, pois há também a mea culpa pela minha incompetência técnica.

Os tratados da academia (pareceres, avaliações, teses, etc.) não são claros, não são diretos. Os seus autores usam palavras que pouco dizem, fazem citações que nada acrescentam e constroem frases sem pés nem cabeça. E encompridam tanto o texto que, talvez, até eles mesmos se percam. Quem mandou afastar-se tanto do foco? Talvez achem que os seus professores (mestres e doutores) aprovem as suas teorias com louvor quando se sentirem incapazes de as entender — seja devido ao “esmero” da feitura ou por estarem “cansados” de tanto ir e vir lendo uma narrativa chata.

Seria algo como: confundir vale mais do que esclarecer; protelar prevalece sobre concluir.

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

TENDAS DA MINHA ALMA, Paulo Rodrigues, poemas

 

TENDAS DA MINHA ALMA, Paulo Rodrigues, poemas e crônicas, Aracaju, Infographics, 2023, 213 páginas, ISBN 978-65-5730-190-6.


Paulo Rodrigues vive a poesia desde criança (seu pai, Neu Mulatinho, era violeiro e trovador dos bons). A poesia está em seu cheiro, na aura, na postura que se me apresenta assim, aqui sessões  segundas à tarde da Academia Sergipana de Letras:

Terno escuro com lenço de pontas no bolso esquerdo do colete. Óculos de duas lentes tipo Pince-nez equilibrando-se no meio do pau da venta;  corrente dourada e brilhante de um lado ao outro, à frente, no cós da calça, prendendo o Patek Filipp no bolsinho do relógio. Paulo corta os cabelos curtos,  mas os vejo lisos, cobrindo a nuca, que se ondulam e se alçam no ardor das declamações.

Mas o que  Paulo traz mesmo no bolso do colete da memória, são belos poemas — seus e de grandes poetas —, que declama quando tem chance, como nas sessões das segundas-feiras à tarde na Academia Sergipana de Letras.

Além de poeta consagrado, é mestre do saber nos vários segmentos da cultura, especialmente da história e do folclore do Baixo São Francisco, com destaque para o que toca a Cedro de São João e suas lagoas piscosas que se transformam em roças de arroz no tempo certo.

Tendas de Minha Alma, o livro que tenho em mãos, é uma coletânea escolhida de poemas produzidos no dia a dia, diuturnamente (dá essa impressão) desde muitos anos atrás. Canta momentos marcantes, o orgulho pátrio, a gratidão a pessoas do convívio, lições de vida e sentimentos profundos: amor, humor, dor, felicidade... Os poemas de Paulo são orações de louvor à  Deus e à vida de beduíno nessa travessia sofrida em que todos nos empenhamos; são oásis ou tendas para a alma do próprio Poetas para deleite de quem desfruta de sua moradia. (Ele mesmo diz na capa do livro).

“Cada verso meu faz-se tenda de minha alma / fonte rutilante de toda poesia...”

Boa parte desta seleção incluída no livro é contextualizada com uma crônica que narra o mote, a musa e a história do poema. Além dos versos ao violão ou na declamação emocionada, artes em que Paulo é mestre, temos um compêndio didático que se presta ao entendimento da alma do autor e da própria arte da poesia o momento da criação.

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Um livro de poesia é como uma biblioteca: nem de todos os livros a gente vai dar conta de ler e, mesmo dos livros lidos, alguns poderão não ser absorvidos. Poesia requer comunhão, estado de graça.  Se apenas um dos poemas me apaixonar em um livro, isso já me satisfaz Como dar conta de mil mulheres que me atraem?

Basta-me “Navios Negreiros”, em Espumas Flutuantes, de Castro Alves; basta-me “Ignorabimus”, em Dias e Noites, de Tobias Barreto; basta-me “Alma minha gentil que te partiste ”, na obra de Camões, basta “O acendedor de Lampiões” de Jorge de Lima.

Não que os demais poemas de cada poeta sejam menores — até podem ser mais belos —mas em mim não cabem tantos.

Porisso, aqui me basta falar de “Volta, Zé, para o Sertão”, em Sombras de Minha Alma, de Paulo Rodrigues:

 

“Que fazes, Zé, envolto em folhas de jornal

debaixo de marquise nesta capital

para onde vieste tentar uma nova sorte?

Volta para o Sertão, que te assistiu nascer

Lá acharás o pão que precisas comer

Pois aqui, assim sofrendo, encontrarás a morte...”

 Esta é apenas uma das dez estrofes que o poema contém.

De uma maneira ou de outra, cada um dos poemas deste livro de Paulo Rodrigues (como nos demais livros das bibliotecas do mundo) poderá ser, aleatoriamente, a tenda para a alma de pessoas iguais (ou não) ao Zé, que passa frio sob uma marquise qualquer.

(por Antonio FJ Saracura, Aracaju, 22 de setembro de 2026)

(Nota): Revisão rápida feita pelo IA do Google.

(Nota1): O Poema

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua,
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A PONTE, breve história do maior desafio de Sergipe, Ricardo Leite

A PONTE, breve história do maior desafio de Sergipe, Ricardo Leite. 1.ª edição, Porto Velho, Temática Editora, 2020. 96 pág. ISBN: 978-65-89078-05-0 (Livro digital).



Uma surpresa agradável este livro, “A Ponte”, que trata da construção da ponte Aracaju-Barra ou Construtor João Alves, ligando Aracaju à cidade de Barra dos Coqueiros.

A ponte tem 1.800 metros de extensão, é do tipo estaiada, suspensa por cabos e com dois mastros. A construção deu-se em dois anos, na última metade do governo de João Alves (desde o batimento da pedra fundamental até a entrega).



Quando inaugurada, era a segunda maior ponte urbana do Brasil e a maior do Nordeste. Possui quatro pistas para veículos, ciclovia e passarela de pedestres. Quem diria que João iria fazê-la, e tão rápido? Mas quem, além dele, poderia?

João Alves Filho nasceu em 03/07/1941. Foi um engenheiro ativo e dono de uma grande construtora, a Habitacional, que criou ainda jovem. Foi governador (1983-1987, 1991-1994, 2003-2007), prefeito (pela primeira vez de 1975-1979, e a segunda de 2013-2016) e ministro de Estado do Interior (1987-1990) no governo Sarney. Faleceu de Covid em 24/11/2020, aos 79 anos. Em 30/11/2020, foi sepultado em Aracaju, onde nasceu.

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“A Ponte” é um livro digital e está sendo distribuído gratuitamente na Internet; basta baixar. É de autoria de um escritor consagrado (Ricardo Leite), que tem bons livros publicados (nota ao final). Há no começo uma sinopse de cada capítulo. Pra quê? O leitor muito ocupado não larga o livro sem ler as sinopses, que são curtinhas e bem-feitas. E, ao ler, pensa assim: “Já que estou aqui, vou beber este vinho todo, pois me parece bom”.

Mesmo sendo um livro que trabalha fatos de nossa história (considerados com rigor científico), Ricardo Leite dá-lhe ares de romance em momentos especiais:

Como na difícil decisão de João Alves de fazer uma ponte (um projeto histórico e dispendioso) ao final de um governo que corria o risco de não se renovar por conta do contexto político do momento e do carisma do provável adversário, Marcelo Déda.

Como na luta insana para conseguir os recursos necessários, inviáveis pela situação fiscal do Estado, que estava com a "ficha suja". Quase mudou a direção do vento; teve que rasgar a lei.

Como na busca do local ideal, onde as indenizações fossem as menores, onde o leito do rio fosse mais firme, onde as correntes marítimas, as correntes de ar e as correntes da oposição política fossem mais toleráveis...

Como na escolha do nome da ponte... O governador planejava prestar uma justa homenagem a seu pai, e a mídia exacerbava o debate, chamando-a de Zé Peixe, herói popular que trazia a salvo os navios pelos perigosos caminhos submarinos da foz do rio Sergipe.

“Zé Peixe era nadador exímio e amava o rio e o mar, mas nunca falou da necessidade de uma ponte, mesmo porque ele atravessava a nado, com facilidade de peixe, a extensão de cerca de mil metros na região de sua casa modesta, na avenida que margeia o rio...”.

A campanha mantida pela oposição esvaiu-se e o nome oficial da ponte pegou para sempre, Construtor João Alves, junto com outro mais simples e incapaz de constranger: Ponte Aracaju-Barra.

Como não participar da festa de inauguração da ponte que construiu "na tora", proibido pela justiça eleitoral por estar concorrendo à reeleição para governar o Estado? A cerimônia aconteceu em 24/09/2006, às 18h, sem pompa nenhuma; o construtor e a esposa não estavam presentes.

Como no destino das tototós, acostumadas a atravessar o rio por muitos anos levando passageiros... João criara projetos para incendiar o turismo em Aracaju: urbanizou os alagados da Treze de Julho, construiu hotéis e incentivou empresários do ramo a investirem em Sergipe. As tototós poderiam vender passeios inesquecíveis aos turistas que descobriam, finalmente, Sergipe.

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“A Ponte” é um livro de leitura agradável e inclui, nas linhas e entrelinhas, uma concisa e rica biografia desse titã sergipano, João Alves Filho, além de uma interessante crônica de um momento peculiar brasileiro — a ditadura militar — e da política da província em diversos momentos de dor e de glória.

Parabéns, Ricardo Leite, pela boa leitura que me proporcionou.

(Por Antônio FJ Saracura, em 18 de setembro de 2026).

Nota:
Ricardo Leite é advogado, jornalista e servidor público federal nascido em Aracaju. É autor dos livros: Júlio Leite, o chefe invisível (2004), Jorge Prado Leite, um homem chamado trabalho (2008) e 1912: Vitória na Selva (Temática Editora, 2020). É membro da Academia Rondoniense de Letras. Para falar com o autor: ricardoleite@infonet.com.br

(Usei para revisar este texto, o Google IA, e gostei).   

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

BECOS DA MEMÓRIA, Conceição Evaristo

 

BECOS DA MEMÓRIA, Conceição Evaristo, 3. ed. Rio de Janeiro, Pallas, 2017, 220 p. ISBN 978-85-347-0520-2.


Conceição Evaristo, a autora, com palavras certas e frases cheias de sentido, quase sempre se confundindo com Maria-Nova, apoiada na sabedoria de Vó Rita, sobe e desce as ladeiras e passa de lado nos becos estreitos da favela. Apresenta-nos tipos inesquecíveis e locais singulares com sua memória justiceira e pedagógica. Denuncia, sem papas na língua, o que nem parece ter remédio, pois pertence ao mundo do destino, mas que, vendo bem, até tem. Faz isso contando e ambientando casos soltos acontecidos na sua infância e começo da adolescência. Pode até ser ficção, pois o livro é um romance, mas tem todo o cheiro de história verdadeira, sofrida na pele.

Tio Totó: Chegou são, salvo e sozinho do rio cheio. Onde ficaram Miquilina e Catita, que entraram junto no mesmo rio na outra margem? Totó continuou lá, covarde, sem coragem de entrar e resgatar tudo o que era seu. Virou a cara, seguiu em frente e se perdeu na primeira favela da grande cidade além.

Bondade: O anjo da favela apareceu com seu andar manso e macio, como um gato andando nos telhados. Olhou a menina e sentiu uma ternura intensa. Maria-Nova podia ser sua filha. Então, sentiu-se covarde por compartilhar com ela tantas dores.

Ladislau: O dono do grande armazém vendia mantimentos fiado e dava festas para a garotada, distribuindo lanches e doces. Também vendia banhos em casinhas de madeira, de onde homens saíam molhados e nus da cintura para cima.

NegraTuína: É como se o Coronel Jovelino e o rio das Mortes me trouxessem inteiro o universo de Torto Arado, com as terras ancestrais sendo tomadas a tiro por herdeiros duvidosos. Salomão das Águas Pretas matava afogados, um a um, os membros morredores da família Zica, que teimavam em não vender a terra onde viviam. O “Homem” (que bem poderia ser Negro Alírio) organizou o enfrentamento com o coronel, mas Zé Melecas virou a folha. Por isso, chamei, em segredo, Maria Miúda, montada pelo Encantado e vestida de Santa Bárbara pescadeira, para resolver, a seu jeito, essa questão.

Negro Alírio: Assim foi na padaria, na fábrica de tecidos, na construção do Porto... Por onde passasse, motivava todo mundo a aprender a ler, a questionar, a lutar pelos direitos. Os companheiros gostavam dele; os patrões o odiavam. Lá fora, sem que a favela saiba, ele já está sendo procurado como subversivo.

Dora: Seu barracão era bem na esquina de um beco que se bifurcava em três outros becos, os quais originavam novas vielas. O que se ouvia cá de fora, vindo de dentro desse barraco, eram sussurros, gemidos prazerosos de amor. Ela não queria nem casar, nem ter filhos, nem barriga. Deitou aquele dia e deitava sempre, apenas pelo prazer.

“A Outra”: Vó Rita dormia embolada com ela. Quem era esta Outra, misteriosa e presente? No coração de Vó Rita havia espaço para tudo e para todos.

Maria-Nova: Ela acha seu espaço também como puxadeira de terço, o que, prodigamente, havia em toda a favela. Lia em latim a ladainha de Nossa Senhora (Mater creatoris) e o grupo de mães sofridas fazia coro com o “ora pro nobis”. Seria também rezadeira, como queria ser. Um dia ela iria escrever tudo, prometia.

Há Custódias, Negras Tuínas, Filós Gazogênias, tios Tatões, Jorges Balalaikas e muitos outros — todos, também, gente boa demais.

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O livro não tem pontos de parada que se possa usar como referência. É um ônibus desgovernado em disparada contínua numa favela mal arrumada de becos apertados. Vou apelar para o número da página. Ainda bem que o modismo que assola a literatura não o eliminou.

Pois bem!

Na página 142, a narrativa entra em parafuso, como se fosse outro livro. O ônibus desliza no mesmo lugar, perseguindo-se renitente, tentando ir corcoveando, mas ficando. É redundante, desinteressante. Até o tipo da letra ficou menor, eu senti isso. E nada conta além do que já contara ou do que o leitor já percebera. Se a narrativa terminasse assim, seria essa a parte do diabo no discurso longo, na qual o pregador queima a boa plantação que fez junto com Deus até então.

Mas...

Na página 161, outra vez o livro assume o protagonismo ante o leitor e o arrebata.

Ditinha: Uma mulher acabara de chegar à favela, vinda da cadeia... Era Ditinha, a empregada doméstica que roubara da patroa a pedra verde-bonita-suave que até parecia macia. Ela nem queria roubar, pois isso não resolveria suas precisões; não sabia o que fazer com a joia que lhe feriu o seio, tanto que a jogou no meio da merda, na fossa de sua casa, onde se perdeu para sempre. Ditinha é a grande estrela do romance (merecia-o todo) e sai de cena enigmaticamente, ao embarcar no caminhão do desfavelamento, sorrindo pela primeira vez e quebrando a imensa vergonha que a dominou desde o roubo da maldita pedra.

Apesar do senão abaixo, que agora mais parece defeito do leitor do que da autora, Becos da Memória é um livro útil, uma boa leitura, choca e encanta. 

O senão constitui-se nessa moda de começar a primeira linha dos parágrafos duas letras antes, em vez de três letras após. Incomodou-me o tempo todo. Mais páginas para passar e aquela sensação de intromissão, um pentelho enganchado no fundo da garganta.  

Como outros modismos (notadamente o de fazer o livro inteiro com letras minúsculas (caixa baixa),ou o de eliminar os parágrafos estratégicos), são mais frescura, a meu ver. Que me perdoe o irretocável e imenso José Saramago pela parte que lhe toca!

(Por Antonio FJ Saracura, Aracaju, 16 de setembro de 2026)

Nota: Revisado, a meu pedido, pela IA do Google,  


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

TODA A OBRA DE SARACURA, por Francisco J.C Dantas

 

TODA A OBRA DE SARACURA,  por Francisco J. C. Dantas

Conteúdo enviado por email em 23 de maio de 2020 às 19:05 horas


Não é um livro que eu tenha lido, gostado e escrito uma de minhas resenhas publicadas aqui neste blog. 
É  o que vou chamar opúsculo, pois nem chega a dez paginas se for publicado, mas vale como um livro inteiro para mim.
Li e reli várias vezes e não consegui produzir uma resenha menor ou que instigasse mais o leitor do que o próprio texto, como as resenhas devem ser. Então, publiquei aqui o original integral, que é meu romance preferido, que será a melhor resenha para meus amigos comemorem comigo essa homenagem que recebi do grande Chico Dantas.

"Francisco Saracura:

 Ao reportar-lhe que conclui a leitura de seus livros, você me pergunta, naquele inconfundível tom brincalhão, se terei alguma lição a lhe passar. Não, é claro que não tenho. E como você bem sabe: os pacotes-feitos, que certos livros e cursinhos impingem aos interessados, com a promessa de torná-los escritores, não ajudam muito. 

De modo semelhante, e num degrau mais alto da escala, alguns titulares, sacramentados no ramo, não se cansam de lembrar a nós, escritores provincianos, que a arte de narrar é soberana. E o é, de fato, na medida em que a narrativa aceita e abriga, na sua diversidade, a contribuição de todas as fontes do conhecimento. Mas não sem completar, como primeiro mandamento, que todo esse aporte terá um cunho apenas auxiliar, sujeito, portanto, ao império da própria ordem narrativa com o seu arsenal de recursos estilísticos, seus componentes retóricos, suas categorias internas. É neste ponto que ela exerce a sua soberania.

Em princípio – prosseguem os entendidos – os recursos disponíveis deverão ser manuseados numa gradação equilibrada e harmônica, de tal forma que ocultem as agruras e hesitações do narrador, as costuras da luta quase sempre inevitável, travada nos bastidores. E ainda recomendam que tais recursos, sendo parte intrínseca da narrativa, devem robustecer o seu sentido geral; que não exerçam apenas uma função intransitiva, que não se esgotem em si mesmas. Tomo como exemplo a descrição, categoria que vem sendo desprestigiada há mais de um século, (talvez por isso insisto nela, visto que é desenfastiante e desafiante nadar contra a corrente).  Pois bem, se ela, a descrição, for usada para delinear uma paisagem, é saudável que atue também como índice metafórico de algum sentido, ou como reforço para que as passagens levem ao leitor maior ressonância.

De fato, narrativa não é reportagem. Necessita de vida, substância, solidez, que serão injetadas na medida do talento e da aplicação de cada um. Os mesmos entendidos também nos encarecem que o leque das coordenadas da narrativa deve se entroncar, com vistas a fortalecer essa convergência. As técnicas mais arrojadas, como o fluxo-de-consciência – apesar de secular - e quaisquer outras, não se justificam por si mesmas. Mas, sim, na medida em que contribuem para a persuasão e o convencimento, colaborem no concerto da organicidade geral.

Como você sabe, Francisco Saracura, essas noções básicas, e bom número de outras, são incompletas e difusas, encontram-se em qualquer manual literário, mas pouco facilitam o nosso entendimento! Imagine-se então a sua aplicabilidade!  Não ajudam quase em nada.

         O testemunho dos narradores sobre o dilema do início da escrita, o enfrentamento da página em branco, por sua vez, também não ajuda muito. Há deles que se vangloriam de estocar na memória, tim-tim por tim-tim, a história já pronta, em vias de ser passada para o papel. Antes  de engatarem a primeira frase, planejam o enredo direitinho: estabelecem a divisão dos capítulos, ordenam a sequência dos episódios, estudam a psicologia das personagens. E ainda se dão ao luxo de bosquejar perfis em conformidade com a índole, e a função que esses seres de tinta e papel venham desempenhar. Fazem croquis do ambiente geográfico, mapas das estradas, guias dos labirintos, plantas de casas. E só então, apoiados nesse arsenal gráfico, onde, suponho, devem angariar alguma segurança, começam a narrar. Arre lá!

A solução divulgada por Guimarães Rosa também é, seguramente, seguida por outros escritores: ... adotei naturalmente o processo de acumular material e afiar as ferramentas, à espera de momentos propícios e decisivos, quando a oportunidade passa por perto e a gente  tem de segurá-la com mão firme, como um louco que se agarrasse no rabo de um cavalo a galope.       

Outros, porém, talvez mesmo a maioria, se chegam a arrumar algumas ideias, a planear um esboço prévio – e acho que chegam - poderão se afastar, mais adiante, da linha mestra da proposta inicial, geralmente arrebatados por uma imposição interior que germina e se engendra pouco a pouco, espontaneamente, sintonizada com a natureza e o humor do próprio escriba. Neste ramo, não é tão fácil nem comum seguir um plano inalterável. É natural que o narrador intercale e incorpore novos tópicos e efeitos estilísticos que o compensem, e dos quais somente durante o andamento da escrita, vai recebendo os seus estímulos.  

Sabe-se que os projetos são melhor cumpridos quando não contrariam o humor e a índole de seu executor. Caso contrário, a coisa ganha um ar de farsa. E uma hora a máscara cairá. A escrita é um processo íntimo, vivo, dinâmico. No seu percurso, alternativas novas vão de impondo. Geralmente germinam e se engendram, repito, a partir de uma faísca qualquer que não controlamos.

         Esse amoldamento do narrador ao texto que está em curso, pode se valer, inclusive, de recursos do imaginário. O mais comum, no entanto, Francisco Saracura, como você bem sabe e por onde incursiona habilmente,  é o narrador se voltar para o ambiente externo – no seu caso, também nativo - onde se insere, observa, participa de várias experiências e, afinal, se põe a decantar a caixa de ressonâncias que fora gravada no chão da infância. Aí, as marcas do “convívio” com as pessoas, os bichos, as coisas de casa são, com toda certeza, mais indeléveis. Mesmo que não compareçam de forma ostensiva, ao primeiro nível da escrita, subjazem nas entrelinhas, disfarçadas, mas presentes. E, bem enraizadas, saberão o que fazer... Lembro a lição de nosso Manoel Bandeira: Quando comparo esses quatro anos (6-10) de minha infância, a quaisquer outros quatro de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante. Ou a de Faulkner, mais longe de nós: Aprendi que, para se ser escritor, é necessário ser-se o mesmo de quando nascemos (...) É necessário lembrarmo-nos do que fomos.

 Na zona rural do Riachão, há décadas e décadas, cresci pegando de ouvido a palavra arremediado, para designar aqueles que tinham modestas posses, um pedaço de terra onde lavouravam, mais um gadinho com a ajuda do beiço das estradas. Ainda ouço-lhes a autoestima reverberando, pelo fato de se regerem por conta própria. Não tinham patrão, não moravam em terra alheia. Socavam a mão no peito. Falavam em liberdade. Era bonito. Na década de 50 isso ali valia muito. Vejo, agora, que a palavra em itálico, tão evocativa da minha infância, não é abonada pelos dicionários. O Aurélio a registra, mas não sem comer-lhe a primeira sílaba. De qualquer forma serve ao nosso propósito, visto que nos remete ao mesmo sentido.

         Bem, em sua semântica, a palavra arremediado é hoje meio vaga. Alcança um sem-número de profissões, de empregados e, conforme seja, seu emprego convém ser ajustado. Pelo dito, (me corrija se não for) me deixe dizer que você, Francisco Saracura, provém de uma família arremediada, sediada em terra própria, de onde retirava o sustento, evangelicamente, com o suor do próprio rosto. Sem nenhuma força de expressão. A família inteira, dia a dia, sol a sol, infatigável no serviço duro, pesado, cruel, estafante. Não encontro sinônimo para qualificar o trabalho com enxada, enxadeca, picareta, chibanca, foice, estrovenga e outras ferramentas rudimentares empregadas na lavoura.

 Você mesmo sugere, Francisco Saracura, que só se submetia à enxada quem não tinha outra saída. Cultivava-se mandioca, aipim, inhame e outros “legumes”, em conformidade com a tradição que elevaria o nome de Itabaiana Grande a celeiro de nossa gente. A mais, vocês Saracuras, dinâmicos empreendedores, não dormiam no ponto. Eram farinhadas, negócios miúdos, uma grade de vender farinha no mercado central, um punhado de rezes para acudir nas urgências imprevisíveis. Família grande, pouca instrução, luxo nenhum. Sem escola por perto, sem posto de saúde. E, sobretudo, convém frisar, sem perspectiva para moços e rapazes se encaminharem na vida - a não ser o cabo da enxada. Condições adversas para um futuro de escritor.

         Imagino que essa é a moldura onde se encaixa a sua infância, o menino que, nas Flechas, chegou a puxar cobra para os pés, como se dizia, em Riachão, de quem trabalhava na enxada. É o ambiente onde começou a ser forjada sua personalidade, gestada sua futura obra, a despeito e sem querer minimizar as suas conquistas posteriores, mercê de encrespado enfrentamento de venha o que vier. Obra que, a esta altura, e no que concerne à duração – decerto já está dando quinau nos ferros batidos na tenda de todos os ferreiros da família. Suas conquistas posteriores, como dizia meu pai quanto se referia a um esforço descomunal, foram uma luta romana. Anos de seminário, licenciatura plena, emprego na imprensa, na Petrobrás, a experiência apanhada em Brasília e em São Paulo, e tantas qualificações a mais, - a par de desconforto, de privações, de sacrifícios, – lhe facultaram, com justiça, a mobilidade social suficiente que o fez chegar a escritor, onde apuraria seus dotes pessoais.    

Toda essa arenga, esse chove-não-me-molha é para ressaltar o que você já sabe e tem feito. Que a sua pujança de locomotiva jamais saia dos trilhos. E que, de quando em quando, vá engatando mais um vagão na esteira dos que já andam circulando, para reforçar a mensagem que nos tem passado.

Volto a encarecer a infância. É um território inesgotável. “Minha pátria é a infância”, disse Baudelaire. E quando o narrador está forrado com a adesão do menino que há dentro dele, do menino de olho vivo, partícipe da vida da família, do sítio, do povoado - a expectativa é boa.

Se o menino esteve sob o jugo daquela humilde condição social até engrossar o pescoço; se, ao tomar as rédeas da própria caminhada, persevera nos atributos do seu ser de classe; se, ao se tornar escritor, continua estritamente fiel a seu passado, orgulhoso de sua gente; se, além de administrar  bem a palavra, não abandona a sua origem - a expectativa passa a muito boa.

 Isso não é pouco, Francisco Saracura. Mas talvez não baste pra qualificar um escritor. Esta palavra pesa muito. Vamos adiante. Sua obra mostra e comenta com perspicácia, sob o olho inquieto do menino, os segredos, os costumes, a lida da família de lavradores, o marasmo na vidinha sem perspectivas do povoado e suas adjacências. O narrador sonha em largar o cabo da enxada, em aprimorar a instrução em busca de um destino mais sofrível. A par deste sonho enraizado, vai registrando farto material, delineando matizes do ambiente físico e social, salienta a rotina das relações familiares nos bons e maus momentos. Nada é poupado. Vai muito além das biografias encamisadas no pudor. Essa matéria toda, esse inventário de costumes constitui um manancial de informações, muito mais rico do que relatórios de associações, de sindicatos, e de quaisquer registros feitos, porventura, sob iniciativa dos poderes constituídos. Ao dissecar esse ambiente, Francisco Saracura, você não reconstrói apenas a sua meninice. Está sendo o porta-voz de todos os meninos de sua igualha. Os meninos da Terra Vermelha, de toda a zona rural de Itabaiana, de Sergipe, do Nordeste inteiro. Daqueles desafortunados, muitos dos quais jamais saberão que você existe.

E não venham me dizer que o escritor deve ser pinçado entre os intelectuais progressistas, como recomendara certo filósofo, e que só deve ser abonado de assentar sua bateria naquilo que ele designa como discurso crítico. Caso contrário, onde se encaixaria um Guimarães Rosa com as suas novelas lúdicas? Que não me venham com conversa. Os seus livros, Francisco Saracura, estão aí e suponho que podem servir de fonte para auxiliar os estudos de Sociologia e de Antropologia Social. Estão aí para tocar a nossa sensibilidade, para puxar as orelhas de nossas lamúrias, para consolo de nossas perdas, para lembrar-nos dos semelhantes, para reparar as injustiças. E, também para expor as carências e o excesso de rigor que atravancaram a sua vida de menino, e que podiam barrar a sua caminhada. E que são relatados – eis mais um dado importante para o escopo do escritor - sem auto piedade, sem mágoas bestas, sem ressentimento, sem apelo a proselitismos, sem chororô. Isso conta ponto. A boa literatura não acolhe proselitismos. Aqui, a expectativa passa a excelente.

         Hemingway nos assegura que a coisa mais difícil do mundo é escrever uma prosa direta e honesta sobre os seres humanos. Primeiro, tem se conhecer bem o assunto; depois, tem de se saber escrever. E mais, os livros devem ser sobre gente que conhecemos, que amamos e odiamos, não sobre assunto a cujo respeito vagamente estudamos alguma coisa. Nesta mesma linha, Graciliano disse: só me abalanço a expor a coisa observada e sentida. E repreende Lins do Rego: Estranhei Zé Lins afastar-se da bagaceira e do canavial, tratados com segurança e vigor em obras anteriores, discorrer agora sobre Fernando de Noronha, onde nunca esteve. E ainda completa. Pessoa de tanta experiência, de tanto exame, largar fatos observados, aventurar-se a narrar coisas de uma prisão distante. (...) Zanguei-me com o Zé Lins. Por que se havia lançado àquilo? O começo do livro de Zé Lins torturava-me. Quase desejei ver o meu amigo preso. Manoel Bandeira também tira o seu sarro, ao dizer que Zé Lins só queima bem a bagaço de cana.

         Bem, recapitulo Hemingway: conhecer bem o assunto, e saber escrever são os dois pré-requisitos inquestionáveis para se ser escritor. Já vimos que você, Francisco Saracura, tem domínio sobre o assunto que expõe. Quanto à outra parte, saber escrever, você sabe muito bem, tanto quanto eu, que não há uma receita ou fórmula mágica para tal. Trata-se de uma prática muito pessoal. Quero evitar falar em dom, mesmo porque, se suponho bem, o escritor não depende somente disso. A explicação mais plausível e robusta que encontrei, e que serve a todos nós, indiscriminadamente, é a de Onetti: “Há um só caminho. E que houve sempre. Que o criador de verdade tenha a força de viver solitário, e olhe dentro de si. Que compreendam que não temos pegadas a seguir, que o caminho haverá de fazê-lo cada um, tenaz e alegremente, cortando a sombra dos montes e os arbustos anões.” Como Onetti era agnóstico, não serve àquele monte de candidatos que acreditam em milagres...

         Pois bem, acho que você já percorreu o caminho que Onetti recomenda. Já se ajuda com aquele peso a que me referi. Já encontrou o seu lugar que, no entanto, como ocorre com outros autores, sempre pode ser aperfeiçoado. É evidente que não leio tudo o que circula entre nós. Mas, do pouco que conheço aqui, não me lembro de ter encontrado um escritor que, vindo de uma infância tão desfavorecida de conforto e de oportunidade, um dia tenha exposto o seu ambiente de formação com tanta fidelidade ao menino que um dia foi. O determinante aqui não é a estado de pobreza. Você sabe que há escritores que vieram de uma condição mais humilde do que a sua. Mas nem esses, nem os mais afortunados, conseguiram traçar com tal propriedade, o perfil de uma família rural como era a sua, no seu tempo de menino. Essas pegadas reaparecem constantemente, mesmo quando você situa suas histórias em outro ambiente. Em Meninos que não queriam ser padres, leio os episódios transcorridos aqui em Aracaju, inclusive a cena do afogamento na Atalaia, como se escutasse o menino das Flechas. É uma “dicção” inconfundível.

         Só encontro paralelo em Carmo Bernardes que, como você sabe, procede de uma família rural pobre, desassistida, carente, bem mais humilde do que a sua, sob todos os aspectos sociais. Alfabetizou-se, tornou-se membro da Academia de Letras de Goiás, e escreveu 17 livros. É outro que nunca abjurou o seu nível social, que nos deixou uma herança cultural inestimável, que tinha um estilo inimitável.

         Guerra da Cal tem uma definição de estilo que serve ao que digo, porque destaca a substância interior, onde se desenrola o ato da criação. O estilo literário vai muito além do meramente verbal. Ter um estilo não é possuir uma técnica de linguagem, mas principalmente ter uma visão própria do mundo e haver encontrado uma forma adequada para expressar nossa paisagem interior.

         Trago essa citação como respaldo ao que vou dizer, visto que nesta matéria sou um simples diletante. Quem fala aqui ainda é, na verdade, o adolescente que foi passando a selecionar as leituras ainda em Riachão. Fixei em negrito a palavra adequada porque ela define bem a acomodação de sua linguagem ao assunto. Entre os escritores, aqueles que o leitor pode, honestamente, identificar apenas pelo estilo inconfundível, pela maneira pessoal de escrever – havemos de convir que são poucos.  

         Você é um deles, Francisco Saracura. Sua escrita é fluente, espontânea, agradável. Tem selo próprio. Pode registrar sua patente. Depois de tudo o que disse, se você me permite, faço-lhe as últimas considerações. Não se trata de detalhes. Não costumo cuidar disso.

         Talvez haja, nos seus livros em geral, uma certa hesitação. A partir  - em alguns, pelo menos – da ficha catalográfica. São romances e ao mesmo tempo memórias. Não acha que um dos gêneros devia prevalecer? Bem, mas isso é apenas um indício, você poderá contra argumentar. Mas o que chamo de hesitação, também se reflete e se abriga nos textos. E como, em termos estruturais, o romance é mais exigente do que o gênero memórias, que é bem  mais flexível, quando o leitor leva isso em conta, percebe uma leve contaminação, um certo trânsito que termina incomodando. Talvez você também pudesse arrefecer certas repetições, distribuir a matéria mais colada à mensagem que queira passar ao leitor. Enfim, rearrumar. Levar sempre em conta que o narrador não pode se desmandar pra lá e pra cá. Algumas dispersões estranhas ao eixo da narrativa, em qualquer autor, sempre podem ser podadas. De qualquer forma, suponho assim que a sua obra circulará ainda com mais conforto no âmbito da literatura.

           Por fim, como você também sabe, essas impressões devem ser relativizadas. Qualquer leitura termina privilegiando o ângulo pessoal. Os mestres consagrados – aliás, todos mortos – também não foram perfeitos. Mas são a fonte mais confiável. Os únicos que nos servem de lição.

 

Francisco J. C. Dantas".