segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

AGRIDOCE MELAÇO DE CANA E JABUTICABAS MADURAS


AGRIDOCE MELAÇO DE CANA E JABUTICABAS MADURAS, Aderbal Bastos Barroso, São Paulo, Scortecci, 2018,111 páginas, isbn 978-85-366-5692-2




Aderbal é o presidente da Academia e artes e letras de Neópolis, nascido em Carrapicho, hoje Santana do São Francisco. Autor de dois livros interessantes, No Remanso do Rio (que li e gostei muito, fala de famílias, de propriedades, de costumes do povo da beirada do Rio)  e que possui um subtítulo instigante: “por onde andei com meus antepassados, da fazenda Carrapicho à Lagoa Funda, passando pelo Curral das Pedras.  E de outro livro, À Sombra dos Oitizeiros, que não li mas do qual ouvi falar bem.  
Agora, está nas livrarias, um livro de poesia, e eu nem sabia que Aderbal era poeta também, além de historiador e memorialista.  


A prefaciadora, Vera Duarte, ilustre do Cabo Verde, do além mar, escreve que “a poesia de Aderbal canta, de forma insofismável, o amor entre um homem e uma mulher com recurso aos elementos da natureza. O amor como substantivo concreto que aquece os enamorados ao anoitecer, o prazer que exalta os corpos dos amantes no calor da paixão, a volúpia do desejo, o pecado do prazer, a liturgia da entrega que se cumpre em êxtase e transe, a libido que se extravasa na visão febril do corpo idolatrado. Mas também um amor amordaçado, estilhaçado, que traz soluções e lágrimas e se devora no seu próprio veneno”.
O próprio autor confessa, na apresentação (que ele chama de prólogo ou prefácio também) que selecionou os poemas em 2003 e, por falta de ousadia, por receio em desnudar-se, despir-se, apenas agora os publica (2018). 
É que as jabuticabas amadureceram e, antes que os passarinhos do céu viessem chupar todas, ele nos convida ao sítio para saboreá-las. Sem medo e sem reservas, conforme garante. Sem medo mais de nada.
Vi o livro lá num cantinho da Escariz passei-lhe a vista como faço com todos que chegam. Gostei da arte da capa (jabuticabas virgens, tentadoras), do título (sabores terra que me fazem um bem danado), da fluidez dos poemas (único alvo para cada tiro certo). São poemas curtinhos, alguns com o sabor agridoce da jabuticaba madura mas tendo sempre a mulher como pano de fundo ou sem pano nenhum que é o trem mais espetacular criado por Deus.
Claro que não percebi (devido a mim mesmo, pois a poesia ronda em volta e teima em fugir do meu alcance) o sabor, o teor, e a melodia de todos os poemas de Aderbal. Mas em um livro de 90 poemas, se apenas 4 encantam o leitor, já valeu a pena os vinte e cinco reais que custou e o tempo que ficou lendo.
Permitam-me citar, a seguir, um dos quatro (houve mais), este da página 29 e chamado: Paixões Clandestinas:

Amar você
É vencer todos os riscos
É permanecer no ar, e sempre em equilíbrio,
Ao atravessar assustadores abismos.

Amar você
É sobreviver a todas as avalanches
É resistir, mesmo sem ser herói,
A inúmeras tempestades.  

Amar você
É reescrever o destino
É despertar os deuses que adormecidos
Velam os amores clandestinos.

   Aracaju, 25 de fevereiro de 2019, Antônio FJ Saracura
     

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