ANTÔNIO JOSÉ GOES, uma vida missionária de pioneirismo e de
dedicação aos Yanomani do Amazonas, Leonardo Ferreira de Almeida, 2020, Criação
Editora, isbn 978-65-990483-7-1.
O padre Antônio José de Góes seria um herói brasileiro
sergipano, itabaianense esquecido até de seus conterrâneos. Mais um! Apenas conhecido
no nicho religioso dos salesianos, que deve estar entulhado de heróis, sendo padre
Antônio mais um. Caso esse oportuno livro não existisse.
Quando ouvi falar de que um sobrinho de Nandinho de Sizino (que
é meu amigo, lê meus livros e ainda os dá de presente em aniversários), chamado
Leonardo Ferreira de Almeida, estava escrevendo um livro sobre padre de
Itabaiana, Antônio José de Góes, que catequizou índios no Amazonas eu vi um
erro: não seria padre, mas frade. É que eu desfrutava (e ainda desfruto) da
amizade de um homônimo, frade, que atuou no Amazonas catequizando índios,
também nascido em Itabaiana. Conversei com o autor e ele me garantiu que eram
dois santos distintos.
Mas que Itabaiana é
essa, meu Deus? De tudo que é bom e que outros lugares tem um ou nenhum, ela
tem dois ou mais.
Deixando o frade (ele merece um livro igual e ainda vive
enclausurado no Convento do Santo Antônio lendo a boa literatura, inclusive a
minha, só lhe falta Pássaros do Entardecer), navego pelo trabalho de pesquisa (este livro), apresentado de maneira clara, revelando a surpreendente vida do
padre Antônio José Góes.
O padre nasceu no povoado Pinhão, em 1918, quando o Pinhão
era o coração de Itabaiana. Ordenou-se padre salesiano aos 27 anos, em 1945.
Exerceu várias funções na cadeia educativa salesiana pelo Brasil até que, em
1946, foi designado para a escola de Tupiraquara, atualmente, Santa Isabel do
Rio Negro, no Amazonas.
Sete anos decorridos, em setembro de 1952, soube que índios selvagens
(macus do mato) haviam sido contatados por caboclos navegadores. A informação foi
levada aos salesianos de Tupiraquara. Deus conduziu os caboclos. Padre Antônio
era o diretor na escola resolveu embarcar com os navegadores para a região do
pico da Neblina, a um encontro já marcado para dois meses à frente.
Mas os índios não estavam
lá no dia marcado. Precisaram ser caçados por vários dias na selva...
Assim começa a obra missionária do padre Antônio José de Góes
até a morte prematura, em 27 de fevereiro de 1976, com 57 anos de idade, 30 de
sacerdócio e 22 de dedicação missionária aos índios Yanomamis.
O livro narra epopeia nesses 22 anos. Há aventura, há derrotas, vitórias e muita fé em Deus. É um resgate
respeitável feito em variadas fontes: jornais da época; arquivos da congregação;
escritos do própria padre; filmes, como o documentário, “Meu caminho é o rio”, feito
por visitantes estrangeiros; memória dos sobreviventes (através de entrevista);
a família (parte ainda mora no povoado de origem e a outra dispersou-se pelo
mundo, inclusive um irmão do padre Antônio, também salesiano, padre Paulo Leandro
de Góes, outro irmão, a freira Josefa Germana).
Sublinhei algumas passagens na leitura que
mostram o tamanho do personagem (Padre Antônio) e a portentosa obra que ele,
pela congregação salesiana, executou nas brenhas no Brasil.
xxx
“Quando eles começaram a confiar em mim, me levaram para
conhecer sua aldeia”.
O começo foi muito difícil com muita desconfiança e perigo.
Os Yanomanis viviam guerreando por caça, por mulheres e iam se dizimando uns aos
outros. O padre Antônio virou o grande chefe, aquele que aconselha e mostra o
caminho certo. Ele se destacava pelo seu porte, pela barba longa de
capuchinho, até entre os estrangeiros que visitavam a selva. E mais pela fé, pela determinação, pela amizade que semeava, pelo respeito com que tratava os índios e os auxiliares na sua missão.
Recebeu visitantes estrangeiros (biólogos, botânicos, antropólogos,
cinegrafistas, que sempre andam pela selva) e mereceu deles consistente registro
nos livros que escreveram ou nos filmes que rodaram; foram importantes fontes
para essa obra.
A orientação do Concilio Vaticano II com seu decreto “Ad
Gentes” sensibilizou o padre Antônio que, assim, encontrou campo propício para
sua catequese.
E o Pico da Bandeira com seus 2.891 metros na Serra do
Caparaó perde a primazia de ser o mais alto do Brasil. O Padre Antônio morava
no sopé do Pico na Neblina (3.100 metros) desde oito anos antes de chegarem os demarcadores,
que ele ajudou. A linha que divide o Brasil da Venezuela deixa, por apenas 687
metros, o Pico da Neblina do lado do Brasil.
Padre Antônio celebrou missa embaixo de árvores, em palhoças
improvisadas no meio da floresta. Sempre que viajava levava seu kit sagrado,
com altar, cálices, hóstias e outros apetrechos usados na cerimônia.
Muitos índios Yanomanis têm sobrenome Góes, apenas em consideração
ao grande chefe que curava doenças, que ensinava a ler, que dava bons conselhos
aos chefes, que os ensinava a plantar e colher nos tempos de fome, que os tratava
com dignidade. No batismo, eles mantinham o nome Yanomani e acrescentavam sobrenomes
de seu gosto.
Padre Antônio participou das cerimônias indígenas como se fosse também um pagé, cheirando o Paricá, e acompanhou os Reahus, que é a cremação dos corpos mortos, como se fosse um índio. Os yanomanis queimam os mortos e comem a cinza com mingau de banana, em grandes festas.
“Eu sou um homem do mato, eu sou um homem da natureza. Então
eu vivo com meus índios, foi isso que eu quis pra minha vida. Para isso me
ordenei”. Padre Antônio viveu na selva por ideal e por prazer. Foi Feliz, pena
que faleceu tão cedo.
Através das ondas do radioamadores, no que se tornou usuário
exímio, trouxe remédios aos doentes, chamou helicópteros para salvar índios picados
de cobra venenosa, trouxe mantimentos. O radioamador, nesse mundo imenso e
silencioso, que era então, faz com que a dor ou a alegria de um seja sentida por
todos.
Xxx
Mesmo sendo um livro reportagem, uma dissertação acadêmica
(poderia ser), li com gosto, com orgulho de que filho de Itabaiana, mais um deles, mesmo
sem o reconhecimento oficial da igreja (ainda), é um taumaturgo; seria um santo
da Igreja.
E, na última página, escrevi com minha letra ligeira, ilegível
dois dais depois, com o lápis me acompanhou na leitura, “Parabéns, bela e útil obra!”
(Aracaju, 2020jul18, por Antônio FJ Saracura).
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirQuerido Antônio Saracura, estou maravilhado com a resenha que fizestes acerca da obra e da vida do Padre Antônio Góes, um virtuoso itabaianense, que se dedicou aos belos e admiráveis índios Yanomami do Amazonas. Sinto-me feliz por receber de ti, um abnegado e exímio escritor sergipano, este retorno tão maravilhosos e fecundo para mim! Reforço a minha eterna Gratidão a ti!
ResponderExcluirVocê construiu uma obra digna do grande missionário itabaianense. Parabéns, Leonardo.
ResponderExcluir