quarta-feira, 1 de julho de 2026

A PRINCESA DESASTRADA: O MISTÉRIO DO REI, Maidy Lacerda

 

A PRINCESA DESASTRADA: O MISTÉRIO DO REI, Maidy Lacerda, com ilustrações de Renata de Souza, Editora Planeta, São Paulo, 2026, 336 páginas, ISBN 978-85-422-4113-6.


Que magia é essa que faz com que um livro seja lido compulsivamente por todo mundo, especialmente por pré-adolescentes, mesmo sendo parrudão e tendo um enredo comum?

Pietra Pinheiro Caetano tem oito anos mal completados, estuda o 3B no colégio Babylândia, uma escola infantil de Aracaju. Apareceu aqui em casa com um livro grosso nas mãos, já lido a metade, dizendo que fora emprestado por uma colega de sala e que havia outras esperando na fila.

Eu comemorei. Finalmente alguém de minha família (ela é minha neta mais nova) seguia-me os passos.

Três dias depois, Pietra acabou o livro e me contou a história, ganhando as tradicionais cinco pilas.

Na sequência, “comeu” mais dois da mesma coleção, parrudões também, emprestados pelas coleguinhas.

Eu fui investigar nas livrarias da cidade e vi que a coleção “Diário de uma Princesa Desastrada” é sucesso absoluto no Brasil todo, com filas de espera para os próximos lançamentos.

O quarto tomo, comprado pelos pais como prêmio merecido, após lido Pietra me emprestou, furando a fila das coleguinhas: “Mas o senhor ande ligeiro”.

Gastei três dias.

Adorei.

Vivi a luta de Amora, somei-me aos amigos abnegados, especialmente à princesa Olívia, irmã de Amora, que não vacila em transformar raios assassinos em bolhinhas de sabão.

Amaldiçoei sapos gosmentos, bruxas malvadas...

Peguei amizade com gnomos, fadas, sereias, elfos, princesas, reis, rainhas...

Voei em vassouras que transportam no tempo e no espaço, cheirei flores venenosas e sobrevivi.

O conteúdo alterna textos e gravuras; o palavreado trafega pelo idioma neologista que os jovens usam, mas eu me sentia jovem também.

O enredo, na forma de diário de uma princesinha chamada Amora, trata de um reino cercado por outros que o antecederam e foram encantados. Amora possui poderes sobrenaturais (quase todo mundo aqui tem algum) e busca encontrar o pai, vítima de bruxas no passado, com a ajuda da irmã Olívia, dos amigos Sadi, Lila e Sophia, do namoradinho evasivo Skorpio...

Como salvar o pai da prisão onde está sob correntes e feitiço desde a queda de seu reino?

Como levá-lo a Florentia, onde está sendo procurado como criminoso condenado?

Como mantê-lo escondido até o Festival Lunar, quando a sua magia destruirá o poder do vilão maior, possibilitando a ressurreição do reino apagado?

Após muitas voltas, o grupo rebelde está no Festival Lunar para cumprir a missão salvadora, para destruir os opressores. A rainha Amora esfrega as mãos ansiosa. A malvada Persephone nem desconfia da armadilha em que vai cair com seus seguidores. Ou desconfia?

Chega o momento azado...

E dá zebra.

Os vilões tomam o controle, dominam os guerreiros de Amora. E o pior! Dominam com o aparente apoio (parece ser) do rei Edrian (pai de Amora), de Scorpio (seu namoradinho), da rainha Stena (mãe de Amora).

Amora consegue se safar pelas mãos de magias aparentemente inimigas, é jogada no fundo do mar, acolhida por uma fada amiga-peixe, e mantida escondida.

Um caos!

A última página convida os leitores a aguardar o próximo livro da série que logo chegará às livrarias, botando tudo em pratos limpos. Ninguém precisa entrar em desespero. Como o mundo aqui é de fantasia, tudo pode acontecer, inclusive uma inversão do que aconteceu no Festival Lunar.

A eterna briga entre heróis e vilões, comum ao mundo real (onde se pode quase nada) também está no fantástico (onde se pode quase tudo).

“O Mistério do Rei”, de Maidy Lacerda, levou-me a “O Senhor dos Anéis”, de JRR Tolkien, um dos livros mais lidos do mundo. Sem traçar paralelos literários, digo (li toda a obra de Tolkien com imenso prazer) que os dois podem ser sofregamente desfrutados por uma criança como Pietra ou por um ancião de mais de 80, como eu que sou. Então ambos são detentores daquela magia escorregadia que incessantemente busco para meus livros.

(Aracaju, 30 de junho de 2026, por Antonio FJ Saracura)

 

 

 

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