ROTEIRO AFETIVO, Francisco J.C Dantas, Franca, SP. Cavalo Azul, 2026, 134 páginas, ISBN 978-65-01-98500-8
E de chofre, quando todos
aguardávamos um novo romance azougado, o professor Reginaldo de Jesus me
informou que Chico Dantas mandara rodar, em uma editora independente, um
opúsculo em homenagem aos conterrâneos do Riachão: seria um roteiro afetivo no
qual visitava, agora montado no ginete azul da memória, pessoas e lugares da
infância, alguns celebrizados em pseudônimos (ou não) na vasta e aplaudida literatura
produzida por ele mesmo.
E Reginaldo acrescentou:
“Vai doar cada exemplar, pessoalmente,
aos homenageados ou aos descendentes quando os primeiros não puderem comparecer
por estarem descansando nos pagos silenciosos, em um ajuntamento no Riachão”.
E o prometido aconteceu numa
tarde/noite concorrida em 15/05/2026, sexta-feira estiada, no Centro Cultural
do Riachão, que tem o nome do filho mais universal.
Compareci na qualidade de
intruso, com a secreta má intenção de aplicar alguma trapaça e obter um exemplar,
pois eram destinados aos amigos da infância, que, num lugar não tão grande,
como o Riachão, era quase todo mundo.
Mas consegui pegar o meu,
fiquei no rumo das balas, como outros que (deu para perceber no andamento do
evento), também vestidos de cordeiro, também persistentes, também apaixonados
pela a magia do romancista, ganharam um exemplar.
Tão assoberbado estive em
organizar minha emoção composta de dúvidas resolvidas, comemorações prudentes
para não ser flagrado, medo de cachorro magro que “rouba” o bocado e corre para
o comer escondido e não ser forçado a devolver, nem me toquei em pedir o
autógrafo do autor, que ainda hoje não tenho.
Em casa, sem riscos, li
cada linha, cada palavra.
Não é um romance, realmente,
mas vale tanto quanto, por tudo, especialmente por arrebatar o leitor para a
garupa do cavalo azul, onde já se acomodam, no maior conforto, milhões de
leitores, pois todos, mesmo já devidamente alimentados, continuam conchos, e, pelo
seu gosto, eu jamais desmontaria.
O ótimo Chico Dantas nos desconjunta
e espanta, desde os atoleiros sugadores de gente da estrada do Engenho Salgado
em tempo de chuva, até o meio da carga entre dois sacos de 60 quilos de açúcar
artesanal puro como baba de anjo. E nos faz andar no trote da tropa de mulinhas
ensinadas se torcendo carregadas, no final da safra, em demanda ao Lagarto, pelo
rojãozinho desenvolvido.
Também na reabilitação de
palavras perdidas, meninas tão bonitas injustamente cobertas de borralho, mas as
únicas capazes de recuperar a memória enganchada nos musgos do tempo. Muitas já
se davam como perdidas e comemoram e sorriem se emocionam com o leitor
gratificado.
Buranhém (página 131, que
cheira a relho, chibata ou macaca de tropeiro, pois estala no ar para tanger a
tropa).
Gamboa (página 103, curral
de alimentação de animais, descende talvez dos currais de pegar peixe que
Aurélio acatou).
Zune (página 126, “O
sol chega zune”, de tão quente: o sol também grita, trinca, tine”).
Librina (página 28, mais bela
que mãe, aqui nas baixadas úmidas do sertão do Riachão, como no espelho da
lagoa da Obra Fina no sítio Saracura).
Boutade
(página 36, o professor Alexandre Eulálio se safaria com uma boutade
(tirada espirituosa) qualquer, na certa).
Zapá (página 102, “o canzil
forçando a zapá dos calos que não desmancham”. Um plural das paletas os das
pás que caiu como uma luva).
Desorbitante
(página 101, “o telhadão desorbitante do Engenho Salgado”. Resquícios do
espanhol que nos dominou por três gerações (1580-1640) e que vai sumindo triste)
Perruche
(página 96, “uma tachada de doce: é groselha... é perruche... é araçá...”. O
que é perruche, meu Deus, que em Itabaiana não tem?).
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Em especial me espantou
muito a o fato de que, sendo o Riachão longe da Terra Vermelha, é tão parecida nas
expressões que o povo usa para momentos indescritíveis...
“Tem comido um tampado”
(página 93, para lidar com imensas dificuldades).
“É
um Deus nos acuda” (página 109).
“Nunca vi puxões de
orelha vadiarem” (página 106).
“Abraçando o próprio
corpo para espantar o frio” (página 102).
“O que foi lá?” (página
104, inquirir, com dureza, o motivo de algum enguiço, malfeito, etc...).
A tantas outras imagens
que dizem tudo com meia dúzia de palavras.
xxx
E que prazer reencontrar
aqui no Roteiro velhos amigos de outros livros de Chico.
Zerramo (página 132, o tropeiro
fortão de Os Desvalidos e que teve um final doloroso, seria um
trabalhador? Pois eu “avistara o tropeiro Zé de Camilo sumindo nas sombras em
procura de Zerramo”).
O Riacho da Limeira (página
107, “o caldo de cana afunila-se numa calha reta, prossegue viajando por uma
bica que prossegue até despencar no parol. E pode levar o sentido do visitante
para bem longe, evocando um riachinho”).
“Dorico (página 62,
“Resta dizer que tenho boa lembrança de Dorico que, semanalmente, negociava um
boi com meu avô, conforme relatei em Cartilha do Silêncio”).
xxx
E encontrar personagens
inesquecíveis, que serão meus amigos da vida toda:
(Página 35 – “Esse meu
primo Élder atravessaria uma fase, em Estância, de esgotamento nervoso,
como então se divulgava... Tirante aquelas sobrancelhas que lembravam o pelo de
um urso, os outros traços de fisionomia e do talhe, éramos, espiritualmente,
muito parecidos. Calados, discretos, encabulados. Diante da aproximação de
qualquer estranho, emburrávamos. Eu estive oito dias interno na clínica do
célebre Robim de Pinho, em Salvador...)”.
(Página 37-40 Nininha tinha
sob sua tutela a regência daquela casa imensa e trabalhosa, com batentes
incontáveis, sem mencionar os depósitos. Entre si e a família de quem cuidava (o
casal Fiel e Cezarina, meus bisavôs, donos do engenho Olho-de-boi ) erguia-se
uma muralha que a isolava de qualquer intimidade e lhe destinava qualquer
afazer. Há outras “Nininhas”, “Marocas, “Marizetes”, meninas ganhadas, crias da
casa, bem domesticadas desde garotinhas, que passam a vida inteira servindo à
família como se fossem livres).
(Página 34 “Minha mãe,
dona Miralda era espontânea, sem bondades, arrodeava o assunto em
questão com aquela paciência que só vendo...”).
Tem o Olho de Boi, a rua
do Tanque... tem Muçu, Zé de Camilo...
Tem a tropa de bestas na
Gamboa aguardando a vez de rodar as engrenagens.
Tem o Engenho Salgado,
intenso, fogo vivo que jamais deixará de fornecer latinhas do mágico mel à
vizinhança ávida e sacas de açúcar da melhor ao mercado de Lagarto e além.
Senti-me tão íntimo da comunidade
como se tivesse, no passado, vivido lá. Mas, não retive o nome deste teimoso
senhor do Engenho Salgado, meu querido avô.
Vasculhei cada página do
livro e, mesmo com meu olho de lince ativado, mesmo quase certo de ter visto na
leitura anterior, não localizei qualquer nome de gente que fosse o que eu
queria. Diacho!
“Esteja onde estiver, venha
aqui minha avó, e me ajude a achar um documento dele nessas gavetas de tralhas
que o cupim poupou.
Roteiro Afetivo tem humor, tem drama... tem o Riachão do Dantas bucólico e o seu povo cheio de sabedorias, manhas e manias.
O livro é de muito agradável
leitura.
(Por Antonio FJ Saracura,
em 11 de agosto de 2026).
