sábado, 15 de agosto de 2026

ROTEIRO AFETIVO, Francisco J.C Dantas

 

ROTEIRO AFETIVO, Francisco J.C Dantas, Franca, SP. Cavalo Azul, 2026, 134 páginas, ISBN 978-65-01-98500-8


E de chofre, quando todos aguardávamos um novo romance azougado, o professor Reginaldo de Jesus me informou que Chico Dantas mandara rodar, em uma editora independente, um opúsculo em homenagem aos conterrâneos do Riachão: seria um roteiro afetivo no qual visitava, agora montado no ginete azul da memória, pessoas e lugares da infância, alguns celebrizados em pseudônimos (ou não) na vasta e aplaudida literatura produzida por ele mesmo.

E Reginaldo acrescentou:




“Vai doar cada exemplar, pessoalmente, aos homenageados ou aos descendentes quando os primeiros não puderem comparecer por estarem descansando nos pagos silenciosos, em um ajuntamento no Riachão”.

 

E o prometido aconteceu numa tarde/noite concorrida em 15/05/2026, sexta-feira estiada, no Centro Cultural do Riachão, que tem o nome do filho mais universal.

Compareci na qualidade de intruso, com a secreta má intenção de aplicar alguma trapaça e obter um exemplar, pois eram destinados aos amigos da infância, que, num lugar não tão grande, como o Riachão, era quase todo mundo.

Mas consegui pegar o meu, fiquei no rumo das balas, como outros que (deu para perceber no andamento do evento), também vestidos de cordeiro, também persistentes, também apaixonados pela a magia do romancista, ganharam um exemplar.

Tão assoberbado estive em organizar minha emoção composta de dúvidas resolvidas, comemorações prudentes para não ser flagrado, medo de cachorro magro que “rouba” o bocado e corre para o comer escondido e não ser forçado a devolver, nem me toquei em pedir o autógrafo do autor, que ainda hoje não tenho.

Em casa, sem riscos, li cada linha, cada palavra.

Não é um romance, realmente, mas vale tanto quanto, por tudo, especialmente por arrebatar o leitor para a garupa do cavalo azul, onde já se acomodam, no maior conforto, milhões de leitores, pois todos, mesmo já devidamente alimentados, continuam conchos, e, pelo seu gosto, eu jamais desmontaria.

 

O ótimo Chico Dantas nos desconjunta e espanta, desde os atoleiros sugadores de gente da estrada do Engenho Salgado em tempo de chuva, até o meio da carga entre dois sacos de 60 quilos de açúcar artesanal puro como baba de anjo. E nos faz andar no trote da tropa de mulinhas ensinadas se torcendo carregadas, no final da safra, em demanda ao Lagarto, pelo rojãozinho desenvolvido.

Também na reabilitação de palavras perdidas, meninas tão bonitas injustamente cobertas de borralho, mas as únicas capazes de recuperar a memória enganchada nos musgos do tempo. Muitas já se davam como perdidas e comemoram e sorriem se emocionam com o leitor gratificado.

Buranhém (página 131, que cheira a relho, chibata ou macaca de tropeiro, pois estala no ar para tanger a tropa).

Gamboa (página 103, curral de alimentação de animais, descende talvez dos currais de pegar peixe que Aurélio acatou).

Zune (página 126, “O sol chega zune”, de tão quente: o sol também grita, trinca, tine”).

Librina (página 28, mais bela que mãe, aqui nas baixadas úmidas do sertão do Riachão, como no espelho da lagoa da Obra Fina no sítio Saracura).

Boutade (página 36, o professor Alexandre Eulálio se safaria com uma boutade (tirada espirituosa) qualquer, na certa).

Zapá (página 102, “o canzil forçando a zapá dos calos que não desmancham”. Um plural das paletas os das pás que caiu como uma luva).

Desorbitante (página 101, “o telhadão desorbitante do Engenho Salgado”. Resquícios do espanhol que nos dominou por três gerações (1580-1640) e que vai sumindo triste)

Perruche (página 96, “uma tachada de doce: é groselha... é perruche... é araçá...”. O que é perruche, meu Deus, que em Itabaiana não tem?).

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Em especial me espantou muito a o fato de que, sendo o Riachão longe da Terra Vermelha, é tão parecida nas expressões que o povo usa para momentos indescritíveis...

“Tem comido um tampado” (página 93, para lidar com imensas dificuldades).

“É um Deus nos acuda” (página 109).

“Nunca vi puxões de orelha vadiarem” (página 106).

“Abraçando o próprio corpo para espantar o frio” (página 102).

“O que foi lá?” (página 104, inquirir, com dureza, o motivo de algum enguiço, malfeito, etc...).

A tantas outras imagens que dizem tudo com meia dúzia de palavras.

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E que prazer reencontrar aqui no Roteiro velhos amigos de outros livros de Chico.

Zerramo (página 132, o tropeiro fortão de Os Desvalidos e que teve um final doloroso, seria um trabalhador? Pois eu “avistara o tropeiro Zé de Camilo sumindo nas sombras em procura de Zerramo”).

O Riacho da Limeira (página 107, “o caldo de cana afunila-se numa calha reta, prossegue viajando por uma bica que prossegue até despencar no parol. E pode levar o sentido do visitante para bem longe, evocando um riachinho”).

“Dorico (página 62, “Resta dizer que tenho boa lembrança de Dorico que, semanalmente, negociava um boi com meu avô, conforme relatei em Cartilha do Silêncio”).

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E encontrar personagens inesquecíveis, que serão meus amigos da vida toda:

(Página 35 – “Esse meu primo Élder atravessaria uma fase, em Estância, de esgotamento nervoso, como então se divulgava... Tirante aquelas sobrancelhas que lembravam o pelo de um urso, os outros traços de fisionomia e do talhe, éramos, espiritualmente, muito parecidos. Calados, discretos, encabulados. Diante da aproximação de qualquer estranho, emburrávamos. Eu estive oito dias interno na clínica do célebre Robim de Pinho, em Salvador...)”.

(Página 37-40 Nininha tinha sob sua tutela a regência daquela casa imensa e trabalhosa, com batentes incontáveis, sem mencionar os depósitos. Entre si e a família de quem cuidava (o casal Fiel e Cezarina, meus bisavôs, donos do engenho Olho-de-boi ) erguia-se uma muralha que a isolava de qualquer intimidade e lhe destinava qualquer afazer. Há outras “Nininhas”, “Marocas, “Marizetes”, meninas ganhadas, crias da casa, bem domesticadas desde garotinhas, que passam a vida inteira servindo à família como se fossem livres).

(Página 34 “Minha mãe, dona Miralda era espontânea, sem bondades, arrodeava o assunto em questão com aquela paciência que só vendo...”).

Tem o Olho de Boi, a rua do Tanque... tem Muçu, Zé de Camilo...

Tem a tropa de bestas na Gamboa aguardando a vez de rodar as engrenagens.

Tem o Engenho Salgado, intenso, fogo vivo que jamais deixará de fornecer latinhas do mágico mel à vizinhança ávida e sacas de açúcar da melhor ao mercado de Lagarto e além.

Senti-me tão íntimo da comunidade como se tivesse, no passado, vivido lá. Mas, não retive o nome deste teimoso senhor do Engenho Salgado, meu querido avô.

Vasculhei cada página do livro e, mesmo com meu olho de lince ativado, mesmo quase certo de ter visto na leitura anterior, não localizei qualquer nome de gente que fosse o que eu queria. Diacho!

“Esteja onde estiver, venha aqui minha avó, e me ajude a achar um documento dele nessas gavetas de tralhas que o cupim poupou.

Roteiro Afetivo tem humor, tem drama... tem o Riachão do Dantas bucólico e o seu povo cheio de sabedorias, manhas e manias.

O livro é de muito agradável leitura.

(Por Antonio FJ Saracura, em 11 de agosto de 2026).