BECOS DA MEMÓRIA, Conceição Evaristo, 3. ed.
Rio de Janeiro, Pallas, 2017, 220 p. ISBN 978-85-347-0520-2.
Conceição Evaristo, a autora, com palavras certas e frases cheias de
sentido, quase sempre se confundindo com Maria-Nova, apoiada na sabedoria de Vó
Rita, sobe e desce as ladeiras e passa de lado nos becos estreitos da favela.
Apresenta-nos tipos inesquecíveis e locais singulares com sua memória
justiceira e pedagógica. Denuncia, sem papas na língua, o que nem parece ter
remédio, pois pertence ao mundo do destino, mas que, vendo bem, até tem. Faz
isso contando e ambientando casos soltos acontecidos na sua infância e começo
da adolescência. Pode até ser ficção, pois o livro é um romance, mas tem todo o
cheiro de história verdadeira, sofrida na pele.
Tio Totó: Chegou são, salvo e sozinho do rio cheio. Onde
ficaram Miquilina e Catita, que entraram no mesmo rio pelo outro lado? Totó
continuou lá, covarde, sem coragem de entrar e resgatar tudo o que era seu.
Virou a cara, seguiu em frente e se perdeu na primeira favela da grande cidade
além.
Bondade: O anjo da favela apareceu com seu andar manso
e macio, como um gato andando nos telhados. Olhou a menina e sentiu uma ternura
intensa. Maria-Nova podia ser sua filha. Então, sentiu-se covarde por
compartilhar com ela tantas dores.
Ladislau: O dono do grande armazém vendia mantimentos
fiado e dava festas para a garotada, distribuindo lanches e doces. Também
vendia banhos em casinhas de madeira, de onde homens saíam molhados e nus da
cintura para cima.
NegraTuína: É como se o Coronel Jovelino e o rio das
Mortes me trouxessem inteiro o universo de Torto Arado, com as terras
ancestrais sendo tomadas a tiro por herdeiros duvidosos. Salomão das Águas
Pretas matava afogados, um a um, os membros morredores da família Zica, que
teimavam em não vender a terra onde viviam. O “Homem” (que bem poderia ser
Negro Alírio) organizou o enfrentamento com o coronel, mas Zé Melecas virou a
folha. Por isso, chamei, em segredo, Maria Miúda, montada pelo Encantado e
vestida de Santa Bárbara pescadeira, para resolver, a seu jeito, essa questão.
Negro Alírio: Assim foi na padaria, na fábrica de tecidos,
na construção do Porto... Por onde passasse, motivava todo mundo a aprender a
ler, a questionar, a lutar pelos direitos. Os companheiros gostavam dele; os
patrões o odiavam. Lá fora, sem que a favela saiba, ele já está sendo procurado
como subversivo.
Dora: Seu barracão era bem na esquina de um beco que
se bifurcava em três outros becos, os quais originavam novas vielas. O que se
ouvia cá de fora, vindo de dentro desse barraco, eram sussurros, gemidos
prazerosos de amor. Ela não queria nem casar, nem ter filhos, nem barriga.
Deitou aquele dia e deitava sempre, apenas pelo prazer.
“A Outra”: Vó Rita dormia embolada com ela. Quem era esta
Outra, misteriosa e presente? No coração de Vó Rita havia espaço para tudo e
para todos.
Maria-Nova: Ela acha seu espaço também como puxadeira de
terço, o que, prodigamente, havia em toda a favela. Lia em latim a ladainha de
Nossa Senhora (Mater creatoris) e o grupo de mães sofridas fazia coro
com o “ora pro nobis”. Seria também rezadeira, como queria ser. Um dia
ela iria escrever tudo, prometia.
Há Custódias, Negras Tuínas, Filós Gazogênias, tios Tatões, Jorges
Balalaikas e muitos outros — todos, também, gente boa demais.
xxx
O livro não tem pontos de parada que se possam usar como referência. É
um ônibus desgovernado em disparada contínua numa favela mal arrumada de becos
apertados. Vou apelar para o número da página. Ainda bem que o modismo que
assola a literatura não o eliminou.
Pois bem!
Na página 142, a narrativa entra em parafuso, como se fosse outro livro.
O ônibus desliza no mesmo lugar, perseguindo-se renitente, tentando ir
corcoveando, mas ficando. É redundante, cansativa, desinteressante. Até o tipo
da letra reduziu de tamanho, senti isso. Nada conta além do que já contara ou
do que o leitor já percebera. Se terminasse assim, seria essa a parte do diabo
no discurso longo, na qual o pregador queima a boa plantação que fez junto com
Deus até então.
Mas...
Na página 161, outra vez o livro assume o protagonismo ante o leitor e o
arrebata.
Ditinha...
Uma mulher acabara de chegar à favela, vinda da cadeia... Era Ditinha, a
empregada doméstica que roubara da patroa a pedra verde-bonita-suave que até
parecia macia. Ela nem queria roubar, pois isso não resolveria suas precisões;
não sabia o que fazer com a joia que lhe feriu o seio, tanto que a jogou no
meio da merda, na fossa de sua casa, onde se perdeu para sempre. Ditinha é a
grande estrela do romance (merecia-o todo) e sai de cena enigmaticamente, ao
embarcar no caminhão do desfavelamento, sorrindo pela primeira vez e quebrando
a imensa vergonha que a dominou desde o roubo da maldita pedra.
Apesar do senão abaixo, que agora mais parece defeito do leitor do que
da autora, Becos da Memória é um livro útil, uma boa leitura.
O senão: essa moda de começar a primeira linha dos parágrafos duas letras antes, em vez de três letras após, incomodou-me o tempo todo. Mais páginas para passar e aquela sensação de intromissão.
Como outros modismos
(notadamente o de não usar letra maiúscula ou o de eliminar os parágrafos
estratégicos), são mais frescura, a meu ver. Que me perdoe o irretocável e
imenso José Saramago pela parte que lhe toca!
(Por Antonio FJ Saracura, Aracaju, 16 de setembro de 2026)
Nota: Revisado, a meu pedido, pela IA do Google,