quinta-feira, 17 de setembro de 2026

BECOS DA MEMÓRIA, Conceição Evaristo,

 

BECOS DA MEMÓRIA, Conceição Evaristo, 3. ed. Rio de Janeiro, Pallas, 2017, 220 p. ISBN 978-85-347-0520-2.




Conceição Evaristo, a autora, com palavras certas e frases cheias de sentido, quase sempre se confundindo com Maria-Nova, apoiada na sabedoria de Vó Rita, sobe e desce as ladeiras e passa de lado nos becos estreitos da favela. Apresenta-nos tipos inesquecíveis e locais singulares com sua memória justiceira e pedagógica. Denuncia, sem papas na língua, o que nem parece ter remédio, pois pertence ao mundo do destino, mas que, vendo bem, até tem. Faz isso contando e ambientando casos soltos acontecidos na sua infância e começo da adolescência. Pode até ser ficção, pois o livro é um romance, mas tem todo o cheiro de história verdadeira, sofrida na pele.

Tio Totó: Chegou são, salvo e sozinho do rio cheio. Onde ficaram Miquilina e Catita, que entraram no mesmo rio pelo outro lado? Totó continuou lá, covarde, sem coragem de entrar e resgatar tudo o que era seu. Virou a cara, seguiu em frente e se perdeu na primeira favela da grande cidade além.

Bondade: O anjo da favela apareceu com seu andar manso e macio, como um gato andando nos telhados. Olhou a menina e sentiu uma ternura intensa. Maria-Nova podia ser sua filha. Então, sentiu-se covarde por compartilhar com ela tantas dores.

Ladislau: O dono do grande armazém vendia mantimentos fiado e dava festas para a garotada, distribuindo lanches e doces. Também vendia banhos em casinhas de madeira, de onde homens saíam molhados e nus da cintura para cima.

NegraTuína: É como se o Coronel Jovelino e o rio das Mortes me trouxessem inteiro o universo de Torto Arado, com as terras ancestrais sendo tomadas a tiro por herdeiros duvidosos. Salomão das Águas Pretas matava afogados, um a um, os membros morredores da família Zica, que teimavam em não vender a terra onde viviam. O “Homem” (que bem poderia ser Negro Alírio) organizou o enfrentamento com o coronel, mas Zé Melecas virou a folha. Por isso, chamei, em segredo, Maria Miúda, montada pelo Encantado e vestida de Santa Bárbara pescadeira, para resolver, a seu jeito, essa questão.

Negro Alírio: Assim foi na padaria, na fábrica de tecidos, na construção do Porto... Por onde passasse, motivava todo mundo a aprender a ler, a questionar, a lutar pelos direitos. Os companheiros gostavam dele; os patrões o odiavam. Lá fora, sem que a favela saiba, ele já está sendo procurado como subversivo.

Dora: Seu barracão era bem na esquina de um beco que se bifurcava em três outros becos, os quais originavam novas vielas. O que se ouvia cá de fora, vindo de dentro desse barraco, eram sussurros, gemidos prazerosos de amor. Ela não queria nem casar, nem ter filhos, nem barriga. Deitou aquele dia e deitava sempre, apenas pelo prazer.

“A Outra”: Vó Rita dormia embolada com ela. Quem era esta Outra, misteriosa e presente? No coração de Vó Rita havia espaço para tudo e para todos.

Maria-Nova: Ela acha seu espaço também como puxadeira de terço, o que, prodigamente, havia em toda a favela. Lia em latim a ladainha de Nossa Senhora (Mater creatoris) e o grupo de mães sofridas fazia coro com o “ora pro nobis”. Seria também rezadeira, como queria ser. Um dia ela iria escrever tudo, prometia.

Há Custódias, Negras Tuínas, Filós Gazogênias, tios Tatões, Jorges Balalaikas e muitos outros — todos, também, gente boa demais.

xxx

O livro não tem pontos de parada que se possam usar como referência. É um ônibus desgovernado em disparada contínua numa favela mal arrumada de becos apertados. Vou apelar para o número da página. Ainda bem que o modismo que assola a literatura não o eliminou.

Pois bem!

Na página 142, a narrativa entra em parafuso, como se fosse outro livro. O ônibus desliza no mesmo lugar, perseguindo-se renitente, tentando ir corcoveando, mas ficando. É redundante, cansativa, desinteressante. Até o tipo da letra reduziu de tamanho, senti isso. Nada conta além do que já contara ou do que o leitor já percebera. Se terminasse assim, seria essa a parte do diabo no discurso longo, na qual o pregador queima a boa plantação que fez junto com Deus até então.

Mas...

Na página 161, outra vez o livro assume o protagonismo ante o leitor e o arrebata.

Ditinha...
Uma mulher acabara de chegar à favela, vinda da cadeia... Era Ditinha, a empregada doméstica que roubara da patroa a pedra verde-bonita-suave que até parecia macia. Ela nem queria roubar, pois isso não resolveria suas precisões; não sabia o que fazer com a joia que lhe feriu o seio, tanto que a jogou no meio da merda, na fossa de sua casa, onde se perdeu para sempre. Ditinha é a grande estrela do romance (merecia-o todo) e sai de cena enigmaticamente, ao embarcar no caminhão do desfavelamento, sorrindo pela primeira vez e quebrando a imensa vergonha que a dominou desde o roubo da maldita pedra.

Apesar do senão abaixo, que agora mais parece defeito do leitor do que da autora, Becos da Memória é um livro útil, uma boa leitura.

O senão: essa moda de começar a primeira linha dos parágrafos duas letras antes, em vez de três letras após, incomodou-me o tempo todo. Mais páginas para passar e aquela sensação de intromissão. 

Como outros modismos (notadamente o de não usar letra maiúscula ou o de eliminar os parágrafos estratégicos), são mais frescura, a meu ver. Que me perdoe o irretocável e imenso José Saramago pela parte que lhe toca!

(Por Antonio FJ Saracura, Aracaju, 16 de setembro de 2026)

Nota: Revisado, a meu pedido, pela IA do Google,