sábado, 7 de dezembro de 2019

CABEÇAS DO VENTO, Emanuel Neri


CABEÇAS DO VENTO, Emanuel Neri,2013,168 pag, Conteúdo Editorial, Isbn 978-85-61001-13-1

Numa dessas tardezinhas, quando desço de meu conforto e vou à libraria Escariz Jardins divulgar a literatura da nossa terra, encontrei Gilson Neri, que comprou meu livro “Os Tabaréus do Sítio Saracura”. Um mês ou dois depois, ele me apareceu na mesma livraria reclamando de que eu não dou atenção aos leitores, pois não respondo e-mails que me enviam. Fiquei atônito, pois é o que faço e religiosamente: dar retorno a leitores. Os emails chegam tão poucos e me fazem tanto bem que não teria sentido eu não os responder.
Fui compulsar a caixa de “enviados” do celular de Gilson e identificamos a causa, havia um “r” a mais em algum lugar no endereço do destinatário.
Dois dias depois, Gilson deixou na portaria de meu prédio, o livro (prometido no email), “CABEÇAS DO VENTO”, de autoria de seu irmão, Emanuel Nery.
Nem ia ler logo, estava no meio de outro e sem um pé de largá-lo, mas comecei e só parei na última linha. É um livro magro, 163 páginas, incluindo um álbum de fotos e uma sessão de depoimentos dos filhos de seu Nilo e dona Isabel (um esquadrão de quinze).
Bem escrito, revelando São Miguel do Gostoso (nascida de Touros), no Rio Grande do Norte, na esquina do mapa brasileiro, o ponto de convergência de várias ventanias que, em busca de novo rumo, estiram e alisam carapinhas, de que só ouvira falar uma vez, em uma viagem ao exterior. Duas moças de lá não se cansavam de louvar a terra Natal. Até prometi visitar, mas, agora, nem me lembrava mais da promessa.
“Cabecas do Vento” é uma história de família, com as dificuldades e a luta braba que forjam um povo digno. As rusgas do casal. O pouco carinho da mãe severa. Pai rigoroso e zangado mas com momentos de afagos. A palmatória das professoras, as cipoadas de Isabel, os sermões de seu Nilo, a reza do terço inacabável, a vigilância crítica do exército de irmãos. Também a guerra surda da mãe, com seu gênio estudado, manhoso... Como uma mulher possui armas poderosas e estratégias vencedoras: o silêncio prolongado, tesando até o limite da tolerância, inchando por dentro e desarmando o general prepotente.
Até na abastança (o casal possuía fazendas e casa de comércio, forte ligação com o mundo político) vive-se fases de penúria, que também ajudam a temperar o ferro que não quebra.
Quando Nilo faleceu, Isabel submissa até então, revelou-se uma máquina empreendedora. Abriu horizontes à família, que viu o mundo como deles. Investiu em São Miguel do Gostoso, que cresceu junto com seus negócios e sua política contagiante. Saiu do borralho e levou seu brilho à sociedade. Só não aceitei os foguetões molhados secando no forno aceso.
O autor navega pelas origens dos Neri, faz a longa caminhada dos ancestrais até aquela praia varrida pelo vento. Pega pela mão os judeus de Espanha e Portugal, da Itália, e sabe-se lá de onde mais, como eu tentei pegar em Os Tabaréus do Sítio Saracura.
É uma vida comum que, agora, nos encanta, graças a um livro gerado das anotações (poderiam ser histórias contadas) de uma mãe de família que assumiu a missão de construir um futuro melhor para os descendentes e para o seu lugar gostoso.
A sensação que fica é a de que famílias como essa Neri povoam o Brasil de fora a fora, em cada rincão de Sergipe, de São Paulo, do Acre, de todo lugar, fazendo-o sério e digno. Por que então não o é?
(Antônio Saracura, Aracaju, 07 de dezembro de 2019)

Xxx

De: Gilson Neri <gltneri@gmail.com>
Data: 6 de agosto de 2019 18:07:25 BRT
Para: afjsaracjura@gmail.com
Assunto: Os Tabareus do sitio Saracura

Prezado Antonio

Estava uma tarde procurando um livro  na Livraria Escariz, Jardins, sobre um romance de uma negra africana que veio como escrava para o Brasil, todo o seu sofrimento desde da sua terra natal, a perda de sua família, talvez  uma nova “Cabiria” do Filme de Felline , não sei o final,  pois ainda não terminei o livro. Só que nessa procura, apareceu um senhor que me lembrou meu pai, oferencendo um livro de um escritor Sergipano,  " Os Tabaréus  do Sitio de Saracura" em que ele era o autor.
No primeiro momento, parei para ouvi-lo por educação, todavia, o senhor começa a relatar algumas passagens do seu livro que comecei a fazer um paralelo. Comentei que dos escritores Sergipanos tinha lido era o Antonio Viana , com destaque o livro O jeito de matar lagartas, Aberto está o inferno, entre outros.
Mais ao chegar em casa, comecei a lê o seu livro, de uma leitura fácil, gostosa, fui na livraria e comprei para dar de presente o livro  Meninos que não queriam ser Padres, para meu cunhado Dr. Domingos Sávio, também potiguar.
Apesar da dureza dos seus pais em criarem tantos filhos em um sítio com princípios valores e ética, descrevendo os costumes, a cultura e a vida dura de um nordestino que de tempo em tempo sofre com o período de grandes estiagens todos eles pelo seu cordel também venceram na vida.
E assim em Sergipe, como em qualquer estado do Nordeste brasileiro,  mais por ser homem forte venceu na vida, e assim comparei com a minha família nordestina do interior do Rio Grande do Norte, também de uma família grande, 15 irmãos , todos vivos, e pais determinados para darem melhores condições aos filhos do que eles tiveram, uma história com focos diferentes mais relatam os mesmos desafios da Família Saracura do Sitio  Terra Vermelha  com a minha família “Neri” de São Miguel do Gostoso-RN, em que meu irmão Emanuel Neri, Jornalista, escreveu sobre ela nos contos do livro “Cabeças do Vento” A historia e as estórias de São Miguel do Gostoso sob o olhar da família Teixeira Neri, a partir de relatos e memórias  da matriarca Isabel Neri,  em que quero  presente-lo ao colega petroleiro.
Grande abraço


Gilson Neri


Antônio Francisco de Jesus Saracura <afjsaracura@gmail.com>
21 de nov. de 2019 20:48
para Gilson

Estou aqui numa cerimônia de posse de acadêmico da Academia Sergipana de Letras, mas não resisti e fui olhar seu email. Estou num cantinho meio discreto.
Estou querendo logo Cabeças de Vento, então, quando você tiver tempo me avise que vou  até você buscá-lo.
Sua cidade tem um nome muito gostoso de que já ouvi falar, alguém de lá eu encontrei em alguma dessas viagens. Instiga ver in loco.

Ainda bem que você gostou de Os Tabaréus, agradeço não ter me enxotado  quando o interpelei na Livraria. Você é um gentleman.
Um grande abraço,
Saracura

Enviado do meu iPhone

domingo, 13 de outubro de 2019

CARTAS DE HERMES FONTES (ANGÚSTIA E TERNURA)


CARTAS DE HERMES FONTES (ANGÚSTIA E TERNURA), J. Andrade, 2006, Páginas: 267 com ilustrações, sem isbn




Ana Medina tem nos dado obras impagáveis, como “Efemérides Sergipanas”, de Epifânio Dórea, “Mário Cabral” e este “Cartas de Hermes Fontes - Angústia e Ternura”. Só para citar três. Foi nessas obras que aprendi muito sobre vultos da nossa intelectualidade, orgulhando-me mais ainda de minha terra.
O livro “Cartas de Hermes Fontes“ está agora comigo. Peguei-o emprestado com Carlos Leite, meu professor na infância e meu amigo a vida toda. Uma empatia espontânea.



É uma pena que o livro foi impresso em papel nobre e a cola usada e não teve o mesmo nível de nobreza. Deve ter ficado tímida. As folhas se soltam a medida que vamos lendo, apesar de ser uma publicação recente, de 2006. Mas este é apenas um detalhe bobo, diante da magnitude do trabalho de Ana Medina.

Hermes Fontes estava sendo esquecido, como outros ilustres de nossa terra. Apenas nomes de ruas e monumentos depredados os nomeiam. Quem em Sergipe sabe que ele foi um menino prodígio, e aos dez anos decorava integralmente longos discursos que ouvia na Assembleia, repetindo-os em seguida, sem erro. Impressionou dois grandes da época, Laudelino Freire e Martinho Garcez.
E, ao contrário de Genário Pereira de Carvalho, meu primo das Flechas de Itabaiana, que também fazia a mesma coisa e nem foi percebido (apenas pelos vizinhos que o adoravam), Hermes foi adotado por Martinho Garcez e levado para o Rio de Janeiro, o reino da cultura. Para o seu mal e para o seu bem. Desfrutou da glória mas “estourou o crâneo buscando na morte a tranquilidade que não tivera na vida“, como estampou o jornal “A Noite” do Rio de Janeiro, em 27 de dezembro de 1930. Ele morreu aos 47 anos, e Genário aos 77.

No livro Ana Medina recupera toda correspondência da família à Hermes (e algumas dele) mostrando o ser humano que foi o poeta.

Além de compositor (Constelações, Luar de Paquetá), Hermes foi poeta de muitos livros (Apoteoses, Gênese, Ciclo da Perfeição...).

Vejam o poema (Messianeida), publicado no seu livro “A Fonte da Mata”:

“São Francisco de Assis pregou aos pássaros, e Santo Antônio aos peixes.
Mais corajoso do que São Francisco
e do que Santo Antônio,
Jesus pregou aos homens e às mulheres...
Perderam, todos eles, o seu tempo
e o seu sermão:
O mais sábio por certo,
o mais sábio de todos foi São João,
que pregou no deserto...”

(Aracaju, 17 de abril de 2011, por Antônio FJ Saracura)

CARTA ABERTA Á ESCRITORA CHRISTINA CABRAL






CARTA ABERTA Á ESCRITORA CHRISTINA CABRAL


Aracaju, 20 de outubro de 2013.

Querida amiga,



Há muito tempo que eu precisava escrever-lhe esta cartinha, respondendo a uma que me mandou e que reproduzo abaixo. Precisava agradecer as bonitas palavras da carta e o sorriso cordial com que me honrou ao encontrá-la dias depois.

Fiquei sabendo  hoje que a senhora viajou para o céu. Que azar o meu!

Preciso andar mais rápido em cuidar das pessoas que me tratam como a senhora me tratou, não perder tanto tempo escolhendo as palavras capazes de expressar meu sentimento, que nunca me vêm, talvez elas nem existam.
Bom céu para a senhora, poetisa!
Lamentei muito tê-la perdido aqui na terra. Mas o céu ganhou muito com a sua chegada, sem desmerecer os outros justos que moram lá.

Um beijo,

Antônio FJ Saracura, escritor.


Aracaju, 02 de maio de 2011

Querido amigo Antônio Saracura,

A literatura nos permite colecionar amigos no coração, mesmo sem conhecê-los ou ter com eles convívio. Estes amigos nos tomam as mãos e nos levam ao imaginário. De mãos dadas permitem-nos percorrer seu encantador passado e invadir, com espanto e êxtase, o seu íntimo sadio e puro. Refiro-me aos seus livros “Os Tabaréus do Sítio Saracura” e “Meninos que não queriam ser Padres”.

Monteiro Lobado com seu “Sítio do Pica-pau Amarelo”, lançou sua âncora amorosa e renovadora no Brasil e no Mundo. Abriu a imaginação para busca e exaltação do belo e, na sua riqueza de personalidades e temas nos permitiu, como você nos permite, integrar os nossos passados, viver com alegria ou emoção os nossos momentos, abraçar com ternura os nossos idos familiares ou amigos.

Você chegou de mala de cuia e tomou conta do “pedaço”. Nós o seguimos Saracura, com ansiedade e curiosidade pelos momentos de calma e bom humor que nos proporciona e pelas andanças nos caminhos de nossa memória.

Esperando que esta cara seja fiel aos meus sentimentos de carinho e admiração, envio-lhe meu abraço amigo.

Christina Cabral, escritora e membro da Academia Portuguesa de Jovens Escritores, cadeira número 4..


À SOMBRA DA MANGUEIRA E OUTROS CONTOS, Adélia Mota

À SOMBRA DA MANGUEIRA E OUTROS CONTOS, Adélia Mota, infographics, 2019, 71 páginas, isbn 978-85-9476-203-0




Adélia Mota é professora e ensina no Colégio Mauá (e outros) e sempre a vejo de relance por onde ando nessa minha missão de escrever e divulgar livros. Eu gostei da escrita leve, ágil, consistente desse primeiro conto (já que sempre pulo prefácios e apresentações), “A Beleza do Óbvio” do livro magrinho, “À Sombra da Mangueira e outros Contos”, de Adélia Mota, itabaianenses universal. E, por isso, resolvi ler o livro inteiro...

Vi em Pedro arrebatado (a Moça com o livro de Bandeira), trair-se profissionalmente, o poema de Manoel Bandeira prende-o inapelavelmente à desconhecida moça que pagou a conta pela metade. Há um silêncio mágico na escrita que nos permite ouvir os corações pulsando, sentir a pureza das almas. Em meia página, o conto mostra uma vida inteira: comprimida, trágica, lírica.


Carlos Castanheda, em algum trecho de Viagem à Ixtlan, fala de um lugar acolhedor reservado para cada um de nós; até no meio do deserto de Sonora, camufla-se entre os cactos hirsutos ou na ventania que zoa. Se tivermos a sorte de achá-lo, desfrutaremos a essência de nosso ser, como se o paraíso fosse inteiramente nosso, os desejos íntimos, mesmo os não reconhecidos, realizam-se milagrosamente.
“No silêncio e na solidão (do quintal cheio de árvores de minha meninice) construí os melhores dias de minha infância”, escreve a autora logo no início do conto: À Sombra da Mangueira.

Se eu não tivesse também um lugar assim acolhedor, tomaria agora emprestado este, de Adélia, que, certamente, é o mesmo de que fala dom Juan em Ixtlan.

Ailton, como eu aposentando e claudicante, sentiu-se um cavalo selvagem e sai em busca de sonhos confusos. Felizes os que têm um anjo da guarda zeloso.

Dona Ritinha é a guardiã dos falsos valores que matam muito mais do que bala, câncer e solidão. “Boa noite, lindo rapaz, entre e venha tomar comigo um cafezinho com pão de ló!”

Pareceu (“Entre sapatos e chinelos”) uma história comum, até óbvia, mas há um cão andando junto que faz a gente, estranhamente, chorar.

A gata Mimi entrou sorrateira fugindo do dilúvio, aproveitou a porta aberta para a bicicleta passar. Só o olho do escritor atento vê fatos assim corriqueiros mas que dão vida à vida. A amizade faz-se forte até pela indiferença. E Mimi morta revela um mundo bruto que precisamos amansar.

“O Museu de lembrança” traz-me uma palavra de meu povoado (talvez de muito mais lugares ) numa frase cinematográfica: “Estava com a roupa rasgada, e com a boca cortada por um murro que levei de um garoto mais velho.”

Parei aterrorizado em “Quando Pedro enlouqueceu”, para anotar que a mãe não pode dar-se ao luxo de ficar louca, melhor que a filha engula os cordões das redes desfiadas.

...

Adélia escreve devagar, não deixa nada escapar, pinta o ambiente em volta e o mundo interior, mas apenas o que interessa mostrar. E o faz de um jeito peculiar, que encanta e que assombra.
Antônio Saracura, Aracaju 13 de outubro de 2019).  

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Biografia de Adélia, escrita por ela mesma, na página 72 de seu livro: “Adélia Mota pouco tem a dizer sobre si. É itabaianenses de coração, professora e, acima de tudo, leitora. Este livro é um exercício de terapia e criatividade para alguém que encontrou, nas palavras escritas, uma forma de expressar sentimentos e emoções.”.