segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A PONTE DO TOURÃO, Vírman (Antônio de Oliveira Silva)

A PONTE DO TOURÃO, Vírman (Antônio de Oliveira Silva), 2017, Infographics, 251p, isbn 978-85-9476-059-3


O maior castigo contra o nosso semelhante não é odiá-lo mas ser indiferente a ele (Bernard Shaw falou algo parecido, na abertura da Ponte do Tourão, novo livro de Virman, que deixei mofando por quase um ano. A dedicatória é de 20/05/2017). Um lapso injusto porque Virman sempre leu meus livros ainda quentes. É tanta coisa que enche dia a dia de um pecador! Quando ele se dá conta, muito mais lhe escapou pelos dedos. Quase sempre as mais relevantes, como a leitura de um livro que vale a pena.
A título A Ponte do Tourão é apenas uma referência: aquele lugar que apeou e prendeu atolado o personagem, na infância, e seria a plataforma de voo à liberdade das implicâncias da vida, agora na velhice. Mas Tourão é uma ponte rasa em um rio seco. Veio-me à cabeça, nesse segundo momento do vale de lágrimas, a ponte sobre o rio Vaza Barris entre as cidades de São Domingos e Lagarto. São 87 metros de profundidade. Um definitivo mergulho ao além tranquilo. Ainda bem que longe demais de um Ari atribulado, desorientado.  

Ari e Lia: a sorte os aproximou, o acaso os uniu à uma vida feliz, certamente. Mas “engringolou...”. 

Pequenos gestos ou a falta deles. Ínfimas ofensas, palavras mal colocadas. Um paraíso pode virar um inferno. Um inferno de vida que nem vale a pena viver. Duas almas puras podem deliciar-se mutualmente, ajustar-se, mas digladiam-se sem trégua, cada uma se achando mais justa, não arredando o pé de posições desconfortáveis, simulam recuar para retomar a trincheira com muito mais fel.  Nessa lida são cento e cinquenta páginas em um livro de 250. São mais de 50 anos em uma vida de 80. Foi sofrido acompanhar a procissão de mistérios dolorosos (lendo a história de Ari e Lia). Que dirá carregar a Cruz, como os dois fizeram! Ficou-me a impressão que ambos foram culpados (desde as pequenas intransigências, os silêncios, as agressões explícitas ou implícitas) e muito mais mártires (ninguém merece tanta sevícia).

A sorte é quem determinada o sucesso na vida. O azar é quem define o calvário. Tenho essa impressão. Bem que Ari tentou escapar da vida militar, fugiu da primeira armadinha, mas havia outras no seu caminho. Por que teve que reencontrar Wiliiam que nem precisava estar no Exército? Deus (o anjo da guarda) tentou ajudar, facilitando aqui e ali (o idiotismo, entre outros), mas era trabalho demais até para um anjo zeloso guardador.  

xxx

Como as pessoas jogam fora a graça que recebem de Deus! Um menino pobre, sem nenhuma chance de estudar, sem ter como arrumar trabalho no local onde vivia, ganha o prêmio de ser aceito em um seminário. Estudo raro e de graça, da melhor qualidade. Comida, dormida, lazer. Bastava segurar o volante que o carro iria em frente.

Mas vem o fogo prematuro da carne, que nem fora de verdade, apenas um leve calor. Vem a consciência ingênua que poderia aquietar-se ou ser silenciada. Custava esperar mais um pouco, até concluir um curso superior, como era praxe? A vocação que o demônio alardeava ter sumido poderia apenas estar sufocada. Retornaria depois revivida. Mesmo que não retornasse, sempre seria tempo de mudar de rumo, então pronto à vitória.  

A apostasia (quebra de votos) lembrou-me o onanismo (a santa masturbação, que quase me faz decepar-me, encurralado pelas teorias medievais de São Tomás de Aquino). Ari foi vencido pelo medo de renegar a fé eu adotei a masturbação como minha oração fugaz e secreta ao diabo, antes da missa. Mas isso não me livrou do pecado maior de sair seminário como fez Ari. Quase entro no exército (marinha). Escapei por um triz. Em vez de secretário do bispo cuidei de um jornal da diocese (A Cruzada) que me deu degraus seguros. Tive sortes em seguida! E até a honra de ser citado em A Ponte do Tourão, que nem sei como agradecer, além do obrigado inclusive por me lembrar do professor de música, Alfeu, que era mesmo muito engraçado.  

A Ponte do Tourão poderia muito bem ser um livro autobiográfico. Certamente é um romance de vida, de análise sem trégua da dura realidade da vida a dois. Sem véus, sem paliativos. A realidade maltrata, mas precisa ser mostrada, mesmo que seja para a glória da boa ficção.

O autor, Vírman (Antônio de Oliveira Silva), é um dos bons escritores sergipanos. Pertence à Academia de Letras de Tobias Barreto, sua terra natal. É poeta premiado, cronista de mão-cheia, colunista da revista Perfil com fã clube estabelecido. Este é o sexto livro publicado, todos consagrados por quem teve a sorte de os ler.  


Aracaju, 12 de fevereiro de 2018. 

Emails trocados com o autor após a divulgação da resenha acima: 
A ponte do tourão
4 mensagens

Antônio Francisco de Jesus Saracura <afjsaracura@gmail.com>12 de fevereiro de 2018 19:06
Para: virman36@hotmail.com
Boa noite, caro amigo Tonho virman,
 Finalmente li seu livro. Gostaria de ter lido muito antes, mas não me comando. Envolvi-me com mil diabos que não me deixam fazer o que gostaria de fazer: a vida. 
Aproveitei o carnaval quando eles foram às ruas cuidar de uma roça muito mais pródiga, e li seu livro.  E antes que retornem para me consumir, escrevi quatro linhas sobre minha leitura, que submeto à sua apreciação.  
Um grande abraço, 
Tonho Saracura.


A PONTE DO TOURÃO, Vírman (Antônio de Oliveira Silva), 2017, Infographics, 251p, isbn 978-85-9476-059-3
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Antonio Silva <virman36@hotmail.com>15 de fevereiro de 2018 11:48
Para: Antônio Francisco de Jesus Saracura <afjsaracura@gmail.com>
Saracura, bom dia
Eu sei que não adianta reclamar: a velhice chegou e pronto. Não que ela seja tão má. Inclusive encheu-me de experiências e direitos, principalmente depois que atingi a 4ª idade, a partir de quando comecei a ser "prioritário" até entre os da 3ª idade. O problema são os inconvenientes. É uma dor que surge na base do crânio, com formigamento e calor ascendentes, associados a uma tontura de segundos; é outra dor que desce pela junção das colunas cervical e torácica, aumentando na coccídea e se alastrando por toda a região glútea, seguindo pernas abaixo até as cãimbras nas plantas dos pés. Não bastasse, dei agora para cochilar em qualquer lugar onde sente, sem respeito aos presentes nem às horas, como se fora um velho. Por isto que demorei a escrever, agradecendo-lhe os valiosos comentários ao meu "A Ponte do Tourão". Sua inteligente interpretação dos fatos ali contados bem demonstram a perspicácia do ilustre acadêmico, de quem tenho a honra de gozar da amizade. 
Receba um grande abraço, com os votos de uma quaresma voltada para o amor de Cristo, culminando com Sua gloriosa ressurreição, razão da nossa fé. 
Do seu,
Vírman


De: Antônio Francisco de Jesus Saracura <afjsaracura@gmail.com>
Enviado: segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018 17:06
Para: virman36@hotmail.com
Assunto: A ponte do tourão
 
[Texto das mensagens anteriores oculto]

Antônio Francisco de Jesus Saracura <afjsaracura@gmail.com>15 de fevereiro de 2018 12:34
Para: Antonio Silva <virman36@hotmail.com>
Amigo Vírman,
RAPAZ, você ainda é um jovem senhor e tem que mandar essas inhacas embora. Apele até pra rezador, mas não lhes dê guarida. Um bom terapeuta (aconselho Sandro que tem consultório aqui pertinho de onde moro) que faz mágicas em caras como eu e você: desentortando artérias, nervos e ossos (carne quebrada osso rendido)... êle não deixa o cara novo mas o deixa funcionando como se fosse, por uns dias, até a próxima sessão.  
Temos que buscar a fonte da juventude até no leito derradeiro:no céu só entra quem sonha, quem zela pelos dons que recebeu;  e viver é o maior deles. 
(Desculpe-me, acho que me empolguei).
Os poetas cochilam: é quando engendram seus melhores versos. Os "outros" têm que entender.
Um grande abraço,do irmão que não gira bem de jeito nenhum:
Tonho Saracura 
(Também tou cheio do mesmo jeito, quase. Falei para mim tb).

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Antonio Silva <virman36@hotmail.com>15 de fevereiro de 2018 15:36
Para: Antônio Francisco de Jesus Saracura <afjsaracura@gmail.com>
Tonho
Após seguir toda a lógica médica, isto é, ser atendido por todo tipo de "picialista", socorri-me do homem das agulhas. Depois de dez sessões, parece que a acupuntura fez algum efeito, pois algumas dores tiveram medo e fugiram, e outras nem tanto. Já fiz também RPG, como você pode ver na poesia que lhe envio.
Como moro na roça, fica difícil frequentar o consertador de coluna, mas se me decidir morar em Aracaju, entrarei em contato com você para descobrir-lhe o endereço.
Sou um teimoso comigo mesmo. A matéria diz NÃO. PRA VOCÊ NÃO TEM MAIS JEITO e eu respondo: NÃO ACEITO, e continuo lutando. Mas quantas vezes penso numa coisa, a mente sabe o que é, quero mudar o passo e, quando procuro as pernas não as encontro? Não faz parte de mim o desistir. Mas é que, com tantas dores em todo o corpo, fica difícil realizar os sonhos. É tanto que meu "Deu a Louca no Olimpo", que já tem mais de 100 páginas A-4 prontas, faz mais de 2 meses que não me vê. Espero voltar a ele na próxima semana.
Receba um grande abraço de 
Tonho de dona Maninha



De: Antônio Francisco de Jesus Saracura <afjsaracura@gmail.com>Enviado: quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018 10:34
Para: Antonio Silva
Assunto: Re: A ponte do tourão
 
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HORAS ETERNAS - Enviada p

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