domingo, 21 de maio de 2023

MÃE DE CASA, Tantão Paiva

 

MÃE DE CASA, Tantão Paiva (Maria d Conceição Ximenes Paiva), Sobral Ceará, Editora Sertão, 2022, 84 páginas,  ISBN 978-65-5421-020-1

 




Tantão Paiva é professora da rede estadual em Groaíras, Ceará, e seu livro, “Mãe de Casa” foi-me passado por Pascoal, recomendando a leitura.

Ao chegar em casa, caí na página 14, onde começa a arte, com a intenção inicial de apenas ler um pedacinho para sentir o gosto. E duas horas depois, estava fechando o livro, na página 83, o ponto final, batendo palmas silenciosas, comemorando.

Peguei amizade com a gente do ”Vaquejador” e dos povoados em volta. Até viajei clandestino na ônibus da Auto Viação Groaíras fretado para a levar até o Canindé, onde habita o milagreiro São Francisco das Chagas. Misturei-me na anarquia, filando mãos cheias de farofa de toicinho e roendo pé de porco cozido. E na hora de ir ao mato, surrupiava sabugos de milho do saco do seu Abrahão (o distinto convidado da Muriçoca, que cochilava), pois também não me ajeito com estes papeis que mais espalham do que recolhem. Acompanhei, de joelhos nus, as 14 estações da via sacra pela avenida Francisco Cordeiro, desde a Igreja de Nossa Senhora das Graças até o Cristo Rei. Entrei na Basílica de São Francisco e me embasbaquei com o teto tocando no Céu. Ajoelhei-me em frente ao altar do santo e fiz promessas, para ter pé de, no próximo ano, vir outra vez, pagar as graças que alcançarei.

***

Mãe de Casa subia a mão pelas coxas e batia de leve nas suas intimidades dizendo: “Olha aí que pichado bonito”, falava sem pejo e com orgulho.

O viajante pediu um copo de água e, enquanto o bebia, viu que um cachorro chegou e bebeu diretamente do pote. Reclamou e a Mãe de Casa respondeu-lhe: “você queria que o pobrezinho morresse de sede”.

Tia Carmélia não lavava os pratos para servir a mesa, passava um pano seco e espanava o pó. “Pra que gastar água se é a gente que vai comer a mesma comida, feijão com toucinho e farinha seca”?

Meu pai negociava com frutas e a mesma tia aparecia à noite lá em casa e tacava a comê-las.  Um dia, perguntei-lhe se não fazia mal comer frutas à noite e ele respondeu:  “E a barriga sabe se é noite ou dia lá dentro”?

E tia Nega?

Foi dura com o médico que a mandou fazer regime para sarar das dores nas costas. “ O senhor quer que eu fique da grossura de um cipó”?

Criei-me nesse mesmo clima lá no meu povoado distante 1200 quilômetros de Groaíras. E pelos livros que tenho lido, o Brasil inteiro canta a mesma toada de sabedoria popular que nos faz parecidos, que nos une mais, estejamos no sertão de Goiás, nos pampas ou nas selvas do Amapá.

***

“Mãe de Casa” mostra-nos a nossa luta diária em busca de melhores dias. E prova que, para sermos grandes, basta querermos com empenho.

O estilo despojado da autora faz do livro uma obra de arte, que prende e encanta até o último ponto. A história é original nas coisas comuns, é grandiosa até nos desmantelos. O leitor sai falando bem, agradecido por ter tido a oportunidade de ler um livro especial.

Peguei tanta amizade com os personagens e aos lugares de Tantão Paiva, que o povoado “Vaquejador” virou minha distante Terra Vermelha de Itabaiana, em Sergipe, o cantinho acolhedor que sempre busco e que o bruxo Don Juan, em Viagem a Ixtlan, de Carlos Castanheda, me ensinou a identificar quando parasse nele.

 

Aracaju, 21 de maio de 2023, por Antônio FJ Saracura

           

 

sábado, 18 de março de 2023

A GAROTA NA TEIA DE ARANHA, Millenium 4, David Lagercrantz

A GAROTA NA TEIA DE ARANHA, Millenium 4, David Lagercrantz, 1.edição, São Paulo, tradução de Fernanda S. Akesson e Guilherme Braga, isn 978-85-35-92-6101.

 

Mikael Blomkvist ressuscita com uma reportagem  a revista Milenium, que caía aos pedaços e os novos donos já planejavam jogá-la no lixão. O grupo fundador compra de volta as ações da revista, que fora no passado a mais importante da Suécia. E Mikael retorna ao pódio que sempre foi dele, o maior jornalista investigativo do País, quiçá do mundo.

As grandes multinacionais envolvidas no escândalo (roubo de tecnologia e assassinatos) denunciado pela reportagem têm suas ações desvalorizadas na bolsa, provocando uma quebradeira em cadeia.

Ove Levin, o dono do grupo norueguês Serner, que monopolizava a área de comunicação nesta parte do mundo, “foi ver, naquela manhã, como andavam suas ações. Costumava ser um bom estimulo para as manhãs de ressaca. Pegou o celular a acessou sua conta bancária. A princípio, não entendeu nada, estava zerada. Suas ações haviam sofrido uma queda impressionante. A participação que possuía na Solifon (conglomerado foco da reportagem) havia quase desaparecido.

 

As novas reportagens vasculham o novo mundo da vigilância e da espionagem, em que as marcas que delimitam a fronteira entre o legal e o ilegal se apagaram. Os repórteres investigativos, tendo à frente Mikael, se envolvem numa perigosa trama internacional, enfrentam assassinos, hackes, espiões. E usam, eventualmente, as mesmas armas dos criminosos, como o hackeamento de bancos de dados, especialidade da espetacular Lisbeth Salander.

Sim, ela mesma, Salander. Efetiva, invencível, impiedosa.

“Uma heroína diferente de todas as outras. O clímax é um festim sangrento” (conforme The Times).

E sua irmã gêmea, a bela e má Camile, vem da Rússia tenebrosa onde manobra a triste herança do pai, que usurpou. Mas não é desta vez que uma das irmãs vai eliminar a outra. Camile perde a batalha e some na escuridão para reorganizar sua tropa e talvez retornar outro dia.

Ufa! Haja fôlego!

Um romance do mesmo nível dos três anteriores escritos pelo criador da série, Stieg Larson. 

Foi bom demais o ler, pois eu andava dispersivo, abandonando livros nas páginas iniciais e já achando que a culpa era minha. Li as 484 páginas de “A Garota na Teia de Aranha” de um fôlego só.

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Este é o primeiro livro da série Milenium em que o autor não é mais Stieg Larson, falecido quando concluiu a primeira trilogia, composta pelos romances: “Os homens que não amavam as mulheres”, “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”.  

“A Garota na teia de aranha” é de autoria de David Lagercrantz, jornalista sueco, autor de diversos romances. Ele já publicou mais dois romances na série (vou correndo à Estante Virtual comprar, pois quero ler também): “O Homem que buscava sua sombra” e “A Garota marcada para morrer“. 

meu ver, David substitui Stieg a contento. 

  Aracaju, 2023mar18, Antônio FJ Saracura


 


quarta-feira, 15 de março de 2023

O CORAÇÃO DAS TREVAS, Joseph Conrad

 

O CORAÇÃO DAS TREVAS, Joseph Conrad, edição especial, Nova Fronteira, 2017, tradução de Mascos Santarrita, 128 páginas isbn 978-85-209-3575-0


 

“Logo aos 17 anos, o polonês Joseph Conrad começava a sua carreira como marinheiro. E poucos anos depois, partia rumo ao Congo, em nome de uma companhia de comércio Belga.

Lá, viveu na pele a realidade da colonização, desde a crueldade obscena até a completa indiferença para com o sofrimento alheio. E foi nesse ambiente, em meio à miséria e à doença, onde conheceu com os próprios olhos o “Coração das Trevas”, o qual viria a retratar magistralmente anos depois.[1].

O livro “O Coração das Trevas” é um clássico da literatura universal e tem 120 páginas na edição especial da Nova Fronteira.

Um marinheiro em uma escuna encalhada no Tâmisa, enquanto espera que a maré suba, narra para uma roda de colegas conquistas na marinha inglesa pelos mares do mundo. Os ouvintes entediados estão quase a dormir, pois a noite chega e a escuridão toma tudo em volta. 

Então, Morlow, um dos ouvintes, toma-lhe a palavra, acorda a plateia e conta a sua própria história, vivida no coração da África. “Sempre fui marinheiro do mar e aceitei  este emprego na África porque  era um tempo de emprego difícil e eu  não aguentava mais esperar o navio que nunca ficava pronto e nem a promessa de emprego no mar que não se concretizava. A  companhia holandesa que me  contratou precisava de um capitão para conduzir um vapor no Rio Congo, região onde explorava riquezas. Eu sabia  que os civilizados saqueavam o continente negro, matando e escravizando nativos, roubando tudo de valor sobre a terra e embaixo dela.”

Quando cheguei na África encontrei meu vapor  afundado. Precisava fazê-lo submergir e o reparar. No entreposto da companhia, enquanto fazia o serviço, o clima era ruim demais, ninguém confiava em ninguém. Escravos e nativos eram degolados à revelia. Os líderes se digladiavam na surdina ou abertamente. Tive a sensação que entrara em uma briga no escuro, com inimigos por todo lado. 

A primeira missão (o vapor finalmente ficou pronto) foi para  resgatar um missionário-colonizador da Companhia dona do navio, o doutor Kurtz, que sumira na selva, não prestava contas à companhia e agia como um Messias. Um grupo de selvagens fanáticos e sanguinários o seguia cegamente. A informação que se tinha era de que o doutor acumulara imensa riqueza em marfim (o ouro de então) e que estava muito enfermo, corria risco de vida.”

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O vapor mal reconstruído penetra pelo rio no coração da África para cumprir a missão. O clima em volta e nos portos é de suspense, de desgraça anunciada. Eventos surreais, assombrosos. Uma imensa Treblinka é pintada por cegos e os pincéis são cabeças decepadas.

A trama do romance não é linear. Não é clara no rumo e nem das conexões de pontos, que se soltam e se prendem incessantes. Surgem fatos aparentemente sem lógica que assombram. Não há mocinhos. Seres se debatem sem liderança em uma terra de ninguém. O leitor se revolta, se indigna, sente-se vítima dessa absurda insegurança. Dá-lhe uma impaciência, uma agonia, uma tristeza... “Um terror, um terror” conforme o missionário enfermo, finalmente resgatado, pronuncia ao morrer.

Xxx

E eu me pergunto:  como Francis Coppola extraiu o monumental filme “Apocalipse Now” deste pequeno romance de Joseph Conrad? 

Assisti agora, no youtube, o trailer para relembrar e penso que “O Coração das Trevas” entrou com o clima insustentável, o alopramento dos seres humanos, o pouco caso à vida, a insensatez dos atos, a horrenda rapacidade branca contra as demais raças. 

No livro de Conrad, os povos africanos são massacrados e no filme de  Coppola, são  asiáticos do Vietnam, em guerra com os Estados Unidos. A selva africana  naquele, são neste as selvas asiáticas  onde se  esconde o Kutz de então. O horror do romance tomou conta do filme, e de quem ler o primeiro e assiste o segundo. 

Os senhores da vida nos dois momentos flagrados são eternos, e jamais morrerão, estão dentro de cada um de nós aguardando o momento para agir. 

 

Aracaju, 2023fev06, Antônio FJ Saracura.

 

 

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[1] Texto colado do “Clube de Literatura Clássica” e publicado no Facebook.

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

VENCEDORES DO SERTÃO, a história escrita por Roseilde Francisca de Santana Santos

 

VENCEDORES DO SERTÃO, a história escrita por Roseilde Francisca de Santana Santos, HOJE Edições, 2021, 196 Páginas, 14 por 21 cm, Isbn 978-65-88008-02-7.

 


 

 

Roseilde Francisca de Santana Santos cuida do projeto Missão Sergipe, dentro da escola Senador Leite Neto, no povoado Várzea do Enxu, em São Miguel do Aleixo, Sergipe. E usa, no falar (e como isso me encanta!) o gostoso verbo “Ponhar”, de meu tempo de menino, que dona Zinha, minha professora do infantil, me ensinou a conjugar, e, depois, as escolas superiores quiseram arrancar de minha alma. Não conseguiram. Tá “ponhado” no meu imo ad aeternum

Ela trouxe uma caravana de alunos para a II Feira do Livro de Itabaiana (dias 04 a 06 de novembro de 2022) nos três dias. Eles se apresentaram no palco com as peças: Musical Diz, Coração Brasileiro e Deus não está morto; almoçaram, jantaram, lancharam, brilharam, ensinaram. E compraram livros com  os Vales Livros que receberam da organização do evento. 

E eu troquei livros com Roseilde. Dei-lhe  “O Menino Amarelo” e recebi “Vencedores do Sertão”... 

Sempre tento permutar livros com os escritores nas Feiras das quais participo.

Li as páginas de "Vencedores do Sertão" que são relembranças e respeitosamente corri rápido os olhos pelas páginas dedicadas à doutrina, que são o sustento do missionário. 

Há a mão de Deus mudando o mundo para melhor em cada canto. Há os escolhidos que dão a vida pela missão. O que seria dos pobres, sem comida e sem esperança, se não tivessem o amparo das mãos santas de Roseilde e as mãos  de milhões de abnegados: as mãos de Deus. E que força é esta que alimenta as mãos destes missionários frágeis;  humanos, como eu sou também?

Roseilde me contou, nos poucos minutos que estivemos juntos na Feira, coisas que jamais vou esquecer. 

“Eu precisava de 100 reais para dar lanche (melhor do que a farofa caseira que trazia) aos meninos que vinham comigo para a Feira do livro de Itabaiana. Mas eu não tinha um tostão no bolso. Além do transporte, não houve como conseguir mais aqui no lugar.

Então fui, mais uma vez, às redes sociais. Expliquei minha missão e pedi que três pessoas me dessem, cada uma, 30,00 reais. Talvez 90,00 fossem o suficiente. Então chegou a primeira doação: oitocentos reais. E a mão anônima bateu no meu ombro e falou: “Se precisar de mais, me avise”.

“Como Deus é bom! Quando as circunstâncias parecem contrárias, Ele trabalha em nosso favor” (página 148 de Vencedores do Sertão).

E a missionária prosseguiu: “Disse aos Grupos das Redes Sociais que não precisava mais de dinheiro. Em vez de lanche, os meninos puderam almoçar na praça da alimentação do shopping”.

E eu (agora sou eu, Saracura) fico comemorando este País e este povo, aos quais pertenço. E agradeço a Deus ter me feito parar uns minutos para conhecer a missionária Roseilde Santana, vinda de Limeira, São Paulo, que se bateu no sertão de Sergipe para comandar esses sertanejinhos inocentes e suas famílias carentes.

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A missão na Vargem do Enxu (e outros povoados do entorno) é mantida por uma célula da Igreja evangélica de Limeira, São Paulo, que se denomina “Missão Filadélfia”, e também atua no mundo todo.

O livro narra missão da autora em Angola (Luanda) na África, até que a Covid-19 a mandou de volta ao Aleixo. E a missão no  Ceará: Brejo Santo, São José do Belomonte e Porteiras... Em Jati, conheceu o menino que morava "logo ali...". O mundo fica pequeno quando se anda segurando na mão de Deus. E tudo fica pertinho, logo ali, mesmo que se tenha que caminhar horas e horas para chegar. Para este menino sem nome, o longe  era logo ali. O pertinho (de que falava) demorava demais para se chegar. 

O livro “Vencedores do Sertão” narra a epopeia da missionária Roseilde, desde a infância de migrantes sergipanos no sul ilusório.  Andou pelo caminho espinhoso de criança pobre, sem casa digna,  sem mesa e sem conforto. Em jovem, estudou pouco e com grande sacrifício. Buscou, incansável, uma vaga no mercado de trabalho. Aprendeu a arte de cabelereira e trabalhou por conta própria em casa. Foi microempresária e quebrou. Levantou-se e quebrou de novo. Casou, criou família, construiu seu mundinho de esperança, que se desmanchou com a perda do marido. Viveu discriminada nas rodas da religião e nas rodas sociais. Em forte depressão e quase acidentalmente, entrou em um templo evangélico e recebeu "o chamado". Outros recusariam, estava cansada de derrotas, mas Roseilde aceitou. Corria o ano de 2004. De católica fervorosa  que sempre foi, passou a evangélica ardorosa.  Desde 2010, (já são 13 anos), a missionária Roseilde provê dignidade aos poucos favorecidos do sertão de Sergipe.  

Já aqui, graduou-se em Serviço Social pela UNIT, em Itabaiana e fez especialização em Planejamento de Gerenciamento de Serviço Social. 

Ela sabe congregar forças que nem se tocavam que serviam para se congregar. Com  paciência, vem transformando a vida do povo da Várzea do Enxu, de Caiendas e de Malhada dos Negros para melhor. Também  de outros povoados do São Miguel do Aleixo, de Ribeirópolis  e de Nossa Senhora da Glória.  

Roseilde tem boas pernas para andar, teve uma motinha 88 quebradeira, tem Alex que sabe dirigir, que é seu companheiro de vida agora e fiel sacristão. Tem um carrinho de terceira mão e está querendo comprar um mais novo para chegar mais longe, logo e sem falta. Tem o reconhecimento do Poder Público, a gratidão do povo, a força de Deus à mão. 

Recomendo a leitura do livro da missionária Roseilde.

(Por Antônio FJ Saracura, Aracaju, 22 de janeiro de 2023).

Contato com a autora: 

079 99998-0508 (wsap)

roseildesantana@hotmail.com  (email)

 

sábado, 7 de janeiro de 2023

MOEDA VENCIDA, Francisco J. C. Dantas

 

MOEDA VENCIDA, Francisco J. C. Dantas, Alfaguara, 2022, Rio de Janeiro, 1.edição, ISBN 978-85-5652-146-0.




Ler os livros de Francisco Dantas é como assistir a uma aula especial de Literatura. Dantas foi professor dessa arte a vida inteira na Universidade Federal de Sergipe e em outras no mundo, em todas é doutor e lenda.

Seus livros são ágeis, thrillers azougados assim como as aulas de História Econômica do professor Alberto de Carvalho, que tive a glória de as assistir no curso de Economia da UFS nos idos de antigamente. No meio do deserto de silêncios, só se ouvia a voz do professor itabaianense, criando mundos espetaculares habitados por infernais magos. Os gazeteiros inveterados davam um jeito de aparecer; as salas vizinhas corriam para as janelas da nossa sala, mas eu nem dava fé, só as percebia no aplauso que explodia quando a aula se acabava.

Infelizmente não pude assistir às aulas de Francisco Dantas na faculdade; aconteceram quando eu habitava outros mundos. Mas me sinto recompensado pois posso ler seus livros. Assisto à aula particular, com privilégios: sou o único aluno na sala, interrompo a leitura para apreciar melhor a paisagem e para entender mais bem a trama; retrocedo e recupero íntegro aquele lance que passou rápido demais; consulto o dicionário sempre solícito e as imagens assumem clareza inquestionável. Babo e choro de prazer. Cida, minha esposa caminhadeira, ao passar pela sala, me flagra enxugando com as costas das mãos meu rosto nu. E eu nem me constranjo, porque sei que ela espera a vez de gozar também.

Se “Moeda Vencida” se limitasse apenas ao poema/prosa que consta nas últimas 22 páginas (capítulo 19, 20 e 21) estava bom demais para mim. Aqui é a apoteose à convivência de homens calcinados pelas guerras sem fim, entre si, com os animais brutos e com o meio inóspito. Desfilam marcantes: o inconveniente tangido pela pinga e o fazendeiro mal demais; o conciliador Desidério e o velho Monteiro iludido; o vaqueiro Cipriano que advinha o que o patrão astucia...

Desidério ponteia poderoso, desde a lida com o milho, nas primeiras páginas e confabula em gestos silenciosos com o cavalo Suveni, que apareceu de uma cena de terror em páginas, bem antes, e permanece após o livro acabado...

Scadufax escuta o afago de Gandalf na tábua do pescoço (no caminho de Edoras) e entende: “Corra amigo e mostre-nos o significado da pressa" [1].

“Suveni, de rédeas moles, baixa a cabeça para cheirar onde anda o perigo, sonda e apalpa a lama da beirada com as patas dianteiras, até apontar o ponto mais seguro da passagem. Pressente os arredores cheios de vida... Apressa mais a andadura como se o coração palpitasse alegrado... Desobrigado, avança num bonito troca-pés, com os cascos chamegando na camada de areia solta, a esta hora de poeira apagada, devido ao sereno neste quebrar da madrugada... O cavaleiro se apura pra que o cavalo continue convencido de que é o dono do mundo. De que erra em benefício do próprio deleite. E ambos, nessa pisada, vão ganhando terreno pouco a pouco, até alcançarem o destino demarcado...”.

***

Você precisa fazer essa viagem. Estonteante! E muito mais há...

Há Sebastião que vem cuidar da vaca borboleta para que tenha uma morte digna, se não pelas beberagens que não mais carecem, pelas práticas paliativas que até os animais precisam ter. Tem o frade glutão que pesca as fontes das propriedades alheias, chafurdando a água, fazendo o gado sedento recuar com nojo. Tem a amizade entre Prego e o jegue Capitão, que tentou cruzar com uma égua no cio de Duarte Pirão e se deu mal... Tem o poder do mal dominando silencioso as vizinhanças, depilando passarinhos, matando cachorro na estrada e urubu no céu, aprontando presepadas de arrepiar, impondo servidões.

E há aquele Reitor ou vice cara-de-pau da Universidade Federal que premia seu melhor comandante com medalha de sabão, pijama, e palmadinhas nas costas. Também! O general demonstrava "recusa obstinada aos instrumentos digitais, à parafernália didática moderna, recomendada sob pretexto de aliviar a aprendizagem".  Quantos  mestres brilhantes foram, precipitadamente, estocados nas prateleiras acadêmicas?  Neste caso, quem ganhou foi a soltura das  Candeias e fomos nós, matriculados somente na  escola da vida.  

Para mim, um simples leitor de alma aberta, sem teorias ou preconceitos aos quais deva continência, este gostoso e ligeiro (apenas 191 páginas), “Moeda Vencida”, foi um dos grandes romances que tive o prazer de ler. E gostaria que você o lesse também. Nunca me conformei em comer sozinho um banquete assim fausto e supimpa. 

(Por Antônio FJ Saracura, em 07 de janeiro de 2023).

Nota: Lendo a dedicatória que o autor escreveu no livro que enviou à minha casa, “Ao grande Antônio Saracura, com um abraço, Francisco Dantas, em Lajes Velhas, 03 dez de 2022”, perguntei-lhe por que me chamou “grande”, se sou baixotinho. Respondeu-me: “chamo assim todos meus grandes amigos”. Então, na hora, já me senti grandão. 

 

Saiu outra resenha sobre o livro e me chegou pelas mãos do professor Reginaldo de Jesus. Não achei jeito de recuperar o word, apenas capturei a tela de meu celular com a página do jornal da  Cidade, que reproduzo a seguir (caso queira muito, você conseguirá ler. Eu consegui).


Conheça o oitavo livro do romancista sergipano, Francisco Dantas, pela visão do jornalista Márcio Santana Sobrinho, publicada no Jornal da Cidade, de Aracaju, em 11/04/2023.
Graças a Deus um grande jornalista de nossa terra se debruça sobre “Moeda Vencida” e, agora, certemente, você vai querer muito ler o livro.
O romancista é um dos maiores do Brasil de todos os tempos. Sem excluir qualquer outro. Nesse universo há infinitos tronos.




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[1] (O Senhor dos Anéis, de JR Tolkien).

domingo, 11 de dezembro de 2022

UM BATIM NAS MEMÓRIAS DE UM MENINO PROPRIAENSE

 UM BATIM NAS MEMÓRIAS DE UM MENINO PROPRIAENSE, José Alberto Amorim, 2. Edição, Performance (Arapiraca-Alagoas, 2021, 155 páginas, isbn 978-65-87637-85-3.

 


Fui à I Feira Literária de Propriá realizada nos dias 9 e 10 de novembro de 2022, quando nem acabara ainda a Feira do Livro de Itabaiana (dias 4, 5 e 6), estropiado pela luta que é organizar uma feira de livro de três dias. Fui porque me intimou Ronpelim (Ronaldo Pereira Lima), cronista admirável do beiradão, a participar de uma mesa de debates.

E lá chegando de carona com José Ginaldo de Jesus, que lançaria seu “Chistis” na comunidade católica (ele é líder nesse mundo santo), comecei a conhecer pessoas abnegadas, como os componentes do CCP (Centro Cultural de Propriá) que organizou a Feira no peito, destaque para o próprio Ronpelim e sua esposa Macléia, para o escritor Amorim,  para o empresário  Franklin, para Sérgio, entre outros.

O meu livro “O Menino Amarelo” foi adotado por visitantes da Feira e viajou (doei exemplares) a escolas que demonstraram interesse nele.

E com o escritor José Alberto Amorim, autor de “Um Batim nas Memórias de um Menino Propriaense” fiz permuta de "O Menino Amarelo", com o dele, procedimento que me agrada e sempre busco, porque meu livro se espalha e tenho a chance de conhecer novos autores.

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Acabei de ler o livro de Amorim, que é um batim (brincadeira de pular no rio provocando baticum, espanando água, sem registro no Aurélio) nas memórias de Propriá. Em cada caso contado, em cada tipo apresentado transparece a cidade meio rural e ribeirinha com sua cultura, suas manias, seus jeitos próprios de viver.

São 154 páginas enxutas, tratando inicialmente das pessoas próxima, dos amigos de infância (muitos perduram), entrando em tipos folclóricos, nos portentosos e nos doidos que em todo lugar há, nos artistas... E sempre o rio São Francisco deslizando manso no leito ou brabo invadindo espaços.

A ponte que fez um bem danado pois integrou o País fez muito mal ao lugar: deixou a cidade de lado, como se fosse agora apenas uma peça de decoração. Adeus os cinemas lotados, os clubes sociais festeiros, o comércio ativo, os mecanismos de conexão que geria.

As relembranças discorrem gostosas, dando vida ao lugar que se foi no passado, pela pena hábil do autor enquanto menino.

“Dona Querubina me mandava pegar uma lata de areia grossa na beira do rio. Peneirava e colocava a areia no fogo em uma panela de barro. Quando estava quente tinindo, jogara caroços de milho alho em cima, tapando-a com um texto. Todos ficávamos torcendo e esperando os papôcos dos caroços virando a saborosa pipoca, que algumas vezes era a principal refeição do dia”.

“Na padaria de seu Pedro Pinto, quem levasse uma mochila ganhava um pão de graça. E Tânia, muito esperta, se oferecia para comprar os pães de Dona Dalina e comia a vantagem na rua mesmo. Era sua paga”.

“Em abril de 1964, começaram as prisões de cidadãos que os militares suspeitavam serem comunistas. Na rua Capela morava o açougueiro e vereador Eronides Trindade (conhecido por Lila). De manhãzinha, Lila percebeu que sua casa estava cercada, soldados batiam na porta para o prender. Tentou fugir pelos fundos, também havia lá um soldado de plantão. Alcançou um galho da goiabeira do vizinho e, de comum acordo, subiu no muro e se escondeu lá em cima até não aguentar mais. Então desceu e tentou negociar com os soldados. O tenente exigiu, para não o prender, que ele assinasse documentos incriminando o prefeito, doutor Geraldo e o irmão deste, Deputado Cleto Maia. Lila se irritou: ‘Pois me levem pra rua e me fuzilem ou me prendam, não assinarei em falso testemunho, eles são homens de bem, só ajudaram os pobres”. Lila foi algemado e pegou cadeia por 62 dias”.

“A rua de Serapião é um dos mais tradicionais logradouros da cidade. Quase tudo acontece nela e por perto. E logo na esquina, morava seu João Lampião, o irmão mais novo do rei do cangaço. Quando a molecada debochava dele, a reação era ameaçar com espingarda. Quem defendia os meninos era a irmã Vilma, que morava com dona Francisquinha, a mãe de João, mais à frente”.

“Que risco corríamos para roubar frutas no farto pomar de seu Martinho Bravo. Quando estávamos no bem bom, ouvia-se o pipocar da espingarda soltando sal em pedras. Como escapar, no desespero, cinco meninos por um buraco onde só cabia um”.

 “Os melhores pastéis da rua de Serapião eram os de dona Djalva, que todos chamavam Vavinha. Massa fina, com recheio de saburica (camarão sossego), batatinha, arroz xerém, verduras e alguns segredos”.

“O Sapateiro José de Castro, homem de atitudes diretas, não admitia conversinhas fiadas, era o nosso ‘seu Lunga’”...

E por aí vai...

Uma riqueza imensa de memórias que faz do livro “O Batim nas memórias de um menino propriaense” rico, divertido, um documento de valor, que, no mínimo, será fonte de pesquisa para historiadores, como escrevia Luiz Antônio Barreto a revém dos livros de outro autor, Antônio Saracura, em artigo publicado no Jornal do Dia, de 20/05/2011.

Por Antônio FJ Saracura, em 2022dez11)

 














domingo, 4 de dezembro de 2022

CONVERSANDO COM AS GALINHAS, Irinéia Borges Carvalho

 

CONVERSANDO COM AS GALINHAS, Irinéia Borges Carvalho, 2021, Artner, Aracaju, 80 páginas, isbn 978-65-88562-45-1

 


Pascoal mandou-me um livrinho de 80 página que agora li e estou de boca aberta, “Conversando com as galinhas”. São contos bem escritos sobre quais darei uma noção para que você se interesse leia também.  

Conto primeiro:

Sento-me em um banco na praça do coreto, à sombra de um pé de Benjamim, gasto o resto de meus dias feliz (meu corpo alquebrado não dói, nem minha alma gasta ânsia), puxando conversa com os passantes apressados e também com as galinhas que aparecem.

Conto segundo:

Moro na casa de pensão de dona Ruth lá numa cidadezinha, quase vila, no interior de São Paulo. Vi quando ela hospedou um senhorzinho, chamado Leonel. Os hóspedes de dona Ruth eram viajantes que ficavam uma noite ou duas, mas este disse que ficaria um mês ou mais. Seu Leonel era um velho médico, sem ninguém, e buscava um bom lugar para morrer.  Quem adivinharia?

Conto terceiro: 

Eu  fui com Corine, de trem, de Pittsburg até Philadélfia, visitar a tia dela, Abgail, que a chamara com urgência. Corine reencontra o destino que perdera vinte anos atrás por conta de duas palavras mau entendidas...

Contos outros:  

Há no livro mais quatro contos/crônicas/textos pequenos (quiçá relembranças):

“Janelas abertas”, “Aprendendo bons modos”, “Meus amores reais”,  e “Colhendo palavras”. Todas têm a ver com o cotidiano, com a missão de ensinar, com o gosto pelos recantos sagrados nas almas, letras e  palavras. 

“Colhendo palavras” me tirou da sintonia que os contos iniciais criaram. São anotações na forma coloquial que me sacolejaram pra lá e pra cá, sem me levarem a lugar nenhum. Mais me pareceu matéria prima para subsidiar trabalho acadêmico a ser desenvolvido  sobre o uso das palavras em seus mil e tantos significados e nuances. Algo da vanguarda que me deixou perdido no meio do galinheiro.

(Por Antônio FJ Saracura, em 2022dez03).