segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

HISTÓRIA DE SERGIPE (e parte da vida), Acrísio Torres Araujo

QUEM É ESSE ACRÍSIO TORRES ARAÚJO?

(homenagem a um imortal falecido).

Por Antônio FJ Saracura, escritor.

O cearense ganhou fama de andarilho, está em todo mundo negociando redes, empreendendo turismo, nas boas posições do serviço público, donos de grandes empresas ou de oficinas em fundo de quintal, trabalhando duro. Construiu São Paulo, se bem que, nessa empreitada, teve ajuda dos demais conterrâneos do Nordeste.
Eu poderia falar de muitos desses nômades, a começar por José de Alencar, um dos mágicos que encantaram minha juventude, escritor clássico e imortal da Academia Brasileira de Letras. Mas ficarei com Acrísio Torres Araújo, que também escreveu livros, foi imortal da Academia Sergipana de Letras e professor catedrático da Universidade de Brasília. Um meio sergipano que aportou em Aracaju sutilmente, na década de 60...
Acrísio não está mais em nosso meio. Na sua ânsia de correr mundo, foi para o céu no final de 2015. Nas três últimas décadas, nem morava em Aracaju, onde pouco aparecia: uma vez, na célebre recepção a João Oliva Alves na Academia Sergipana, e depois, em rápidas e esporádicas visitas sociais.
Eu o conheci na época em que militei na imprensa, rádio “Cultura” e Jornal “A Cruzada”, 65 a 68. A idade tem me privado o acesso fácil aos arquivos que guardei com zelo à vida toda. Ou nem é a idade! Talvez a chave às camadas mais profundas tenha se perdido nos atropelos de uma vida intensa, ou a fechadura emperrou pelo excesso de dados guardados estufando a porta. Hoje, pouco consigo recuperar sobre Acrísio Torres...
Ele veio visitar um irmão e ficou por aqui. Teria cansado na caminhada ao sul que todo cearense tem que fazer na vida? Então, começou a fazer contatos, a criar amigos, estabelecer território. Aproximou-se de mim na redação do jornal “A Cruzada”, estabelecida na rua Propriá, num terreno que ainda hoje existe,  entre mangueiras frondosas. Eu era o redator-chefe e estava fechando uma edição conflituosa. Ele apareceu à minha frente e, vendo-me assoberbado, estendeu-me a mão e, com um sorriso dócil (talvez doce mesmo), disse que voltaria depois, queria conversar comigo sobre jornalismo. Entendeu que eu não poderia ser interrompido naquele momento. Fiquei-lhe devendo obrigação por isso. No dia seguinte, ou em outro qualquer, depois que a edição do jornal foi para a rua, ele apareceu. Apertei sua mão como a de um amigo de velha data.
Fizemos camaradagem e passamos a andar juntos pela cidade, entrevistando pessoas, documentando situações, debatendo temas polêmicos, tomando cerveja e quebrando caranguejo nos quiosques da Atalaia. Aprendi com ele a ciência das patinhas do caranguejo. Não mais importava se havia carne entranhada ou apenas felpas. O sabor, o prazer estava agora no ritual: o martelinho de madeira batendo cadenciado; a patinha reagindo, querendo escapar. Os sentidos imersos naquela cerimônia. O mundo inteiro apagava-se. Não mais uma mesa de bar, não mais manchetes ofensivas ou tipos empastelados, mas um altar de consagração.
Acrísio possuía um automóvel. Quando eu estava disponível, ele aparecia. Fomos ao bispo, e o levaria ao Papa se morasse em Aracaju. Talvez tenhamos ido, em alguma tarde morna, ao sítio Saracura, na Terra Vermelha de Itabaiana... Sempre o destino irreversível e inconsciente. Os meus amigos passaram a ser também os dele. E, em troca, ele conseguiu para mim muitos novos amigos que conquistara com seu jeito afável de cativar.
Fino, leve, rosto afilado, andando sempre ligeiro, olhos à espreita. O biotipo dos habitantes dos meus povoados rústicos. Poderia ser um professor do grupo escolar nas Flechas, um plantador de amendoim no Pé do Veado, um negociante de farinha no mercado de Aracaju. De avental branco seria um autêntico enfermeiro dos arquivos mortos, que passou a ser com dedicação religiosa.
Quando entrei na Petrobras, Acrísio comemorou. E,  tal qual um pai zeloso, ou um irmão mais velho, buscou-me ensinar a lidar com muito dinheiro (como se fosse), e a investir para o futuro (como se eu não soubesse).
Terrenos é a melhor opção, dizia agoniado. Aracaju vai explodir...
Varamos um areal imenso, cruzamos riachos e nos batemos em um sítio de cajueiros que estava sendo loteado, no meio do mundo. Acrísio comprara dois lotes e reservara uma quadra para mim. Queria-me como vizinho. O idoso proprietário abaixou o preço, dividiu o valor de acordo com meu salário. Relutei, perdi-me em dúvidas e não comprei. O terreno ficava no coração do atual bairro Jardins.
Acrísio envolveu-se com os velhos livros da Epiphânio Dória, com os arquivos empoeirados do Instituto Histórico e do Acervo Público, de onde saiu sua obra literária, a começar com a História de Sergipe, um opúsculo para subsidiar seus alunos. Ganhou fôlego. O livro preencheu um vazio, transformou-se em um sucesso de vendas. E foi seguido por outros, geografia, literatura...
Acrísio mergulhou no colunismo da Gazeta de Sergipe, e eu abandonei o jornalismo. A Petrobras e a faculdade de Economia me absorviam inteiro, e ainda era pouco. Daí a pouco, como um cearense nômade, em São Paulo, Brasília e outras plagas, iniciei uma vida de quarenta anos povoada de algoritmos, filas de espera, tempos de resposta, bugs escorregadios, aplicativos redondos e outros nem tanto assim. E sempre havia um romance socado no list dos programas, como refrigério, para arejar a cuca. Varei o mundo...
Um dia, em Brasília, no Centro Comercial Gilberto Salomão, bati-me com o amigo cearense, que desde a remota Aracaju, não via, nem soube mais. Trajava um avental branco, e trazia sob o braço um amarrado de livros (três ou quatro) como se fosse uma matalotagem de retirante. Imaginei-o espanando arquivos, aprisionando desgarrados fantasmas. Juro que era ele. Abordei-o e levei o maior fora: “Quem é esse Acrísio Torres Araújo?”.

(publicado no jornal do dia 07/01/2015)

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