terça-feira, 20 de julho de 2021

A CASA QUE SÓ TINHA JANELAS

 

A CASA QUE SÓ TINHA JANELAS, Aderbal Bastos Barroso, J. Andrade, 2021, 204 páginas, 21 cm, isbn 978-65-993739-5-4

 


Mais um livro do profícuo Aderbal Barroso, presidente da Academia de Letras e Artes de Neópolis. Em pouco tempo nos presenteou com "No Remanso do Rio" (2014), "À Sombra dos Oitizeiros" (2017), "Agridoce Melaço de Cana e Jabuticabas Maduras" (2018), "Carvão Aceso" (2019), e este, "A Casa que só tinha Janelas", em 2021. Achei todos bons. Nesse meio tempo, organizou/participou de Antologias, como “Neópolis Academia de Letras”, que a tenho. Ela contempla a produção intelectual de membros da arcádia (poesia, crônicas, músicas com endereços do áudio no Youtube, artes plásticas) e inclui sucinta história de Neópolis e da academia de letras (atas iniciais e biografias dos patronos e os membros fundadores de cada cadeira.

“A Casa de só tinha janelas”, o mais recente, que tenho aqui, são crônicas curtas e tratam de acontecidos na beira do Rio São Francisco (cenário recorrente na obra de Aderbal). Canoeiros, pescadores, lobisomens, mães d’água... Zé Mandin, Gato Vagalume, Roque das Mulas, Joãozinho Barroso (JB), Cila do Brejo da Conceição, Zé Simão, Alemão de Água Doce, tia Nanã, Sebastião Salomé...

Personagens mitológicos ou venerados no beiradão imenso do grande rio ou na imaginação privilegiada do poeta e prosador.

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"A Casa que só tinha janelas” possuía portas, nas sempre fechadas.

Em certa manhã, eles estavam na mesma praça da Casa que só tinha janelas, seu Adroaldo amolava a foice na soleira da porta de sua casa, preparando a amiga para o trabalho e seu Zé de Lídia (seria Aderbal?) ia à padaria e, em sua cabeça, amolava a caneta de contar histórias. Atônitos, os dois viram portas abertas na casa. Seu Adroaldo ficou paralisado. Mas Zé de Lídia foi lá, subiu a escada, olhou o interior tão carregado de segredos. Entrou na casa e pasmou ante cantoria de igreja, o cheiro de incenso, o tilintar de turíbulo fumegante na capelinha de Nossa Senhora Menina. Tudo se configurava real. Abriu caminho por entre a gente toda que já estava circulando na casa e chegou em um imenso salão iluminado por velas. No meio, estava um caixão azul-celeste, cheio de flores amarelas, que escondiam um corpo do qual aparecia apenas o nariz. 

Naquele dia, Zé de Lídia chegou a casa da avó sem os pães que toda manhã ia comprar, mas em compensação, trouxe um braçado de boas histórias para contar, que eram o segredo que se perdia nesta misteriosa casa que só tinha janelas.

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Apresento, a seguir, três excertos que dão o batido da prosa de Aderbal nas histórias vividas ou ouvidas, como confessa, de pessoas do rio e alagados em volta. Tesouro pouco e explorado pela literatura, que agora ganha seu Homero ribeirinho. Neópolis, Brejão dos Negros, Brejo Grande, Santana do São Francisco na margem de cá, e outras localidades da banda de lá, nas Alagoas.

“A patroa estava inconformada por causa do achaque de indiferença do macho da casa, ultimamente ele não estava conseguindo uma levantadura suficiente para o gasto” (Fumo de Rolo)”.

“Todo fato, por mais simples que fosse, quando caía na roda e era tecido no fio da conversa, se transformava de vez em um senhor acontecimento” (Quem Herda não Furta)”.

“Ela era muito animada e se realizava em contar sua vida na lavoura e nos currais de gado leiteiro de seu patrão, o coronel José Guimarães, o Zé Padre, como era conhecido nas aguadas de Parapitinga, hoje chamadas Brejo Grande”. (Xícaras Azuis).

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Um livro que dá gosto ler. 

Aracaju, 20 de julho de 2021, revisada em julho 2022, Antônio FJ Saracura.

 

 

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