domingo, 2 de junho de 2019

CADERNO DE RUMINAÇÕES, Francisco J. C. Dantas

CADERNO DE RUMINAÇÕES, Francisco J. C. Dantas Alfaguara/Objetiva, 2012,402páginas, ISBN: 978-85-7962-133-8.



Francisco Dantas é um escritor consagrado por suas obras anteriores. É o grande ficcionista sergipano, um dos maiores do País na atualidade. Bem formado na arte literária — ensinou literatura em universidades do Brasil e do exterior —, trabalhou com a matéria que hoje pratica com maestria.


Eu nunca havia lido uma obra sua inteira (até 2012), com a desculpa íntima de que isso poderia influenciar — ou polarizar — minha escrita. Afinal, ele é o sol sergipano... Como não me encandear?

Por isso, acho — pois eram sentimentos fluidos —, eu apenas roubava trechos de seus livros nas bibliotecas públicas, nas Rodas de Leitura e nas livrarias.

Banhos de sol. Gloriosos!

E aí aconteceu o lançamento de seu novo livro, Caderno de Ruminações, na Livraria Saraiva, em 31 de maio de 2012. Misturei-me à multidão, entrei na fila e consegui, calado, o meu autógrafo.

De posse do livro, não havia como me furtar à leitura...

Quando concluí a leitura, dois dias depois, quedei-me atribulado, como aconteceu com o ferreiro Jánus, no conto de Mikszáth Kálmán. Ao dominar a arte da cirurgia, suas mãos tremeram, e ele preferiu abandonar a profissão de cirurgião de cataratas.

De que me serviria criar uma obra inferior? Ou cegar o paciente?

Comecei a rabiscar considerações sobre o livro lido, ainda meio encandeado, para ir me acostumando com o novo tempo.

Caminhões de elogios encharcaram minha cabeça. A empolgação cega qualquer um.

Amassei os papéis e os joguei fora.

Parei por dois dias, até encontrar uma beira de lagoa na Terra Vermelha onde o canto das saracuras, no final da tarde, fosse o mesmo de antes da leitura.

Talvez tenha esperado demais. O que me ocorreram agora são ruminaçõezinhas que, a seguir, compartilho com você, que ainda me segue.


No início da leitura, estive claudicante, como aluno de dança na primeira aula. Depois, peguei o ritmo da escrita, o jeito da prosa. E o livro fluiu fácil, gostoso, até o final.

Caderno de Ruminações conta a história de um médico brilhante que entra em decadência. Tudo o que tenta ou faz dá errado. E, a cada dia, sobe mais em seu monte Calvário.

O autor do livro está por perto e não perdoa: acompanha-o, vasculha suas dúvidas (são muitas), seus orgulhos falidos (não são menos) e sua paixão suicida por uma prima do ramo perverso da família, que o maltrata. Essa Analice, mesmo aparecendo pouco, acelera a trama. É gasolina de alta octanagem, capaz de fazer o avião romper a barreira da lógica. Uma Iracema do circo de Zé Bezerra, que fazia os espectadores esquecerem a família para segui-la pelo mundo.

Foi o que aconteceu com Zé Bigodinho, vendedor de bilhetes de loteria em Itabaiana, e foi o que quase aconteceu comigo, na condição de leitor dessas ruminações de Francisco Dantas, quanto à foguenta Analice.

Há um perfeito entrosamento entre as palavras, as frases e as partes do enredo. Nada sobra, nada falta. As figuras, embora apareçam em profusão, ajudam na criação dos climas. As palavras e construções eruditas são assimiladas facilmente, graças ao contexto bem definido.

Acho que qualquer autor deve utilizar todos os recursos que a língua oferece. Quem os conhece sorri contente; os outros (meu caso),  que se sintam numa sala de aula proveitosa e aprendam.

O romance é ambientado em Aracaju, o que me deixou envaidecido. Estamos deixando de ser o fim do mundo desprezado até pelos seus poetas populares.

Recomendo a leitura de Caderno de Ruminações .

E para mim, em especial, recomendo a leitura dos demais livros de Francisco Dantas. Onde estiver à venda, darei um jeito de comprá-los.

Perdi o medo!

Depois do impacto inicial, cresci na busca do tamanho do monstro (sagrado). Na verdade, há espaço para todos. Eu preciso parar com essa busca desesperada pelo ótimo. Preciso ter calma e usufruir daquilo que tenho.  E tenho o melhor de todos aqui na cidade. Então, que me influencie à vontade!

(Aracaju, 25 de junho de 2012. Antônio Saracura. Texto recuperado em 2 de junho de 2019.)

Nota: Revisão rápida pelo ChatGPT gratuito.  

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