Francisco
Dantas é um escritor consagrado por suas obras anteriores. É o grande
ficcionista sergipano, um dos maiores do País na atualidade. Bem formado na
arte literária — ensinou literatura em universidades do Brasil e do exterior —,
trabalhou com a matéria que hoje pratica com maestria.
Eu nunca
havia lido uma obra sua inteira (até 2012), com a desculpa íntima de que isso
poderia influenciar — ou polarizar — minha escrita. Afinal, ele é o sol
sergipano... Como não me encandear?
Por isso,
acho — pois eram sentimentos fluidos —, eu apenas roubava trechos de seus
livros nas bibliotecas públicas, nas Rodas de Leitura e nas livrarias.
Banhos de
sol. Gloriosos!
E aí
aconteceu o lançamento de seu novo livro, Caderno de Ruminações, na
Livraria Saraiva, em 31 de maio de 2012. Misturei-me à multidão, entrei na fila
e consegui, calado, o meu autógrafo.
De posse do
livro, não havia como me furtar à leitura...
Quando
concluí a leitura, dois dias depois, quedei-me atribulado, como aconteceu com o
ferreiro Jánus, no conto de Mikszáth Kálmán. Ao dominar a arte da cirurgia,
suas mãos tremeram, e ele preferiu abandonar a profissão de cirurgião de
cataratas.
De que me
serviria criar uma obra inferior? Ou cegar o paciente?
Comecei a
rabiscar considerações sobre o livro lido, ainda meio encandeado, para ir me
acostumando com o novo tempo.
Caminhões
de elogios encharcaram minha cabeça. A empolgação cega qualquer um.
Amassei os
papéis e os joguei fora.
Parei por
dois dias, até encontrar uma beira de lagoa na Terra Vermelha onde o canto das
saracuras, no final da tarde, fosse o mesmo de antes da leitura.
Talvez
tenha esperado demais. O que me ocorreram agora são ruminaçõezinhas que, a
seguir, compartilho com você, que ainda me segue.
No início
da leitura, estive claudicante, como aluno de dança na primeira aula. Depois,
peguei o ritmo da escrita, o jeito da prosa. E o livro fluiu fácil, gostoso,
até o final.
Caderno de
Ruminações conta a história de um médico brilhante que
entra em decadência. Tudo o que tenta ou faz dá errado. E, a cada dia, sobe
mais em seu monte Calvário.
O autor do
livro está por perto e não perdoa: acompanha-o, vasculha suas dúvidas (são
muitas), seus orgulhos falidos (não são menos) e sua paixão suicida por uma
prima do ramo perverso da família, que o maltrata. Essa Analice, mesmo
aparecendo pouco, acelera a trama. É gasolina de alta octanagem, capaz de fazer
o avião romper a barreira da lógica. Uma Iracema do circo de Zé Bezerra, que
fazia os espectadores esquecerem a família para segui-la pelo mundo.
Foi o que
aconteceu com Zé Bigodinho, vendedor de bilhetes de loteria em Itabaiana, e foi
o que quase aconteceu comigo, na condição de leitor dessas ruminações de
Francisco Dantas, quanto à foguenta Analice.
Há um
perfeito entrosamento entre as palavras, as frases e as partes do enredo. Nada
sobra, nada falta. As figuras, embora apareçam em profusão, ajudam na criação
dos climas. As palavras e construções eruditas são assimiladas facilmente,
graças ao contexto bem definido.
Acho que
qualquer autor deve utilizar todos os recursos que a língua oferece. Quem os
conhece sorri contente; os outros (meu caso), que se sintam numa sala de aula proveitosa e
aprendam.
O romance é
ambientado em Aracaju, o que me deixou envaidecido. Estamos deixando de ser o
fim do mundo desprezado até pelos seus poetas populares.
Recomendo a
leitura de Caderno de Ruminações .
E para mim,
em especial, recomendo a leitura dos demais livros de Francisco Dantas. Onde estiver
à venda, darei um jeito de comprá-los.
Perdi o
medo!
Depois do
impacto inicial, cresci na busca do tamanho do monstro (sagrado). Na verdade,
há espaço para todos. Eu preciso parar com essa busca desesperada pelo ótimo.
Preciso ter calma e usufruir daquilo que tenho. E tenho o melhor de todos aqui na cidade. Então,
que me influencie à vontade!
(Aracaju,
25 de junho de 2012. Antônio Saracura. Texto recuperado em 2 de junho de 2019.)
Nota: Revisão
rápida pelo ChatGPT gratuito.
Apresentada na ASL em 2020
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