O NOBRE SEQUESTRADOR, Antônio Torres, Record,2003,254
páginas, isbn978-850-106-732-6
Depois de “Meu Querido Canibal” (2013), Antônio Torres
retorna ao romance histórico. Agora, com “O Nobre Sequestrador” (2013) vai ao
exterior, à França, e traz o corsário René Duguay-Trouin para o Rio de Janeiro
que invade a cidade.
Torres é romancista do sertão baiano e, com o romance “Essa Terra” (1976), foi traduzido para Francês, Inglês, Italiano alemão, holandês, hebraico e espanhol. A Europa então passou a ser um pouco sua terra. E ficou mais ainda com este romance de capa e espada meio francês.
Os livros didáticos de minha infância fizeram esse nome
estranho, Duguay-Trouin, familiar. Na terra Vermelha, no tempo que estive matriculado
na escola de Bernardete de Dona, o corsário Duguay era mais conhecido do que o coronel
Sebrão. Sempre caía nas provas, e "ai" de quem não escrevesse essa mistura de letras
corretamente.
Por volta de 1710, o mundo civilizado resumia-se a algumas
nações navegadoras da Europa governadas por reis parentes e sempre um de olho
no trono do outro. Reinava na França, Luiz XIV, e seu reino estava na rabeira,
atrás de Portugal, Espanha, Inglaterra, Holanda e de quem fosse. Quebrado, em
contínuas guerras, acumulando derrotas. Mas seus corsários varriam os mares preando
navios carregados de ouro e prata vindo da América. Era um refrigério.
A ideia de invadir uma cidade no outro lado do oceano, o Rio
de Janeiro, com pouco mais de 10 mil habitantes, teve a ver com a libertação de
franceses presos e mal tratados, de uma invasão frustrada comandada por Jean
Duclerc no ano anterior. E porque o Rio já era meio francês desde que Villegagnon
foi seu dono de 1555 a 1563. E, especialmente, porque o ouro de Minas Gerais
era embarcado no porto do Rio.
Dugauy-Trouin chegou com uma força de 18 navios de guerra e 5
mil homens. Dominou as defesas da cidade rapidamente. A população rica fugiu
para o interior (casas de campo) inclusive o governador. Os demais moradores se
aproximaram do invasor para se proteger. Duguay saqueou o que quis e ainda
cobrou um resgate fabuloso para ir embora sem queimar tudo. Ficou no Rio 50
dias. Sua esquadra sumiu nas brumas da baía de Guanabara carregada com tudo de
valor e mais o resgate pago de 600 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200
bois. Iria a Salvador liberar outros franceses presos da mesma expedição fracassada
de Duclerc, mas foi envolvida em uma tormenta terrível. Navios naufragaram com cargas
preciosas e seus marinheiros. Mesmo assim, os investidores de Saint Malo tiveram
lucro de 92%.
O livro narra essa aventura (abordagens em alto mar, tempestades incessantes, pura adrenalina), investiga os dois lados, os antecedentes, as consequências. O autor palmilhou cidades da França e cada porto por onde passou o corsário. Vasculhou arquivos, debruçou-se sobre diários, relatórios, processos...
A primeira parte do livro tem ritmo alucinante. Depois,
quando o narrador assume o antagonismo e vasculha Saint Malo e outras locações na
Europa (páginas 124 até a 172), arrasta-se junto com o paciente minerador
da história. Depois, com “Esta Viagem” (página 173) recupera o mesmo ritmo de
capa e espada da primeira parte e assim termina.
Antônio Torres nos brinda mais uma vez com a boa escrita
jornalística, eficiente, sem arrodeio; atira no alvo e acerta em cheio. Ele é autor
de livros breves mas consistentes; histórias curtas, mas conclusivas. “O Nobre
Sequestrador” tem 254 páginas, mas pode ser lido em um final de semana.
Escrevi resenhas (blog “Antônio Saracura Sobre Lidos”) sobre “Meu Querido Canibal”, “Essa Terra” e “Meninos eu conto”. Desses três, o último tem apenas três contos pequenos e setenta e sete páginas espaçadas. Mas é um grande livro.
Como este "O Nobre Sequestrador".
(Antônio FJ Saracura, Aracaju, 2020ago29).
Li na ASL em 2020
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