EXPEDITO E SUA OBRA, sobre a arte literária
Passei
mais de 40 anos sendo chamado de Jesus, com muito mais portas abertas por isso.
Jesus foi o meu nome de guerra dado por Expedito Souza quando datilografou
minha admissão na Petrobras em 24/04/1967.
Correu o tempo. Muito tempo. 35 anos dentro de Centros de Processamento de dados da Petrobras, Rhodia, Telebrás, Telergipe.
Em
2003 eu estava aposentado e fazia bicos em uma imobiliária de Aracaju,
onde um irmão, muito parecido comigo, era campeão de vendas. Todos o chamavam
de Jesus. Ele também trabalhara na Petrobrás, foi admitido quando o outro Jesus (eu) fora transferido para São Paulo, deixando vago seu nome de guerra.
Na segunda semana na imobiliária, eu vendi um apartamento de luxo achando que o cliente me conhecia de algum lugar, pois caíra em meus braços tão solícito! E comemorei comigo mesmo: "finalmente encontrei a mina de Belchior Moreia que busquei a vida toda. Devo ter nascido com a bunda pra lua nessa difícil arte de vender, que somente agora experimentei.
Meu irmão tomou-me a venda e exigiu que eu arrumasse outro nome, se quisesse ficar no ramo. Assim nasceu Saracura, resgatei o nome histórico de minha família dos socovões da grande Itabaiana desde priscas eras.
xxx
Expedito é meu amigo na minha admissão na Petrobras (abril de 1967, outro dia falei disso aqui).
Na época, eu fazia o curso superior de Ciências
Econômicas e Expedito parara de estudar, conformara-se com o curso médio.
Vendo-me empenhado nos estudos, ele achou que também podia e formou-se, mais
tarde, no mesmo curso.
Foi
ele quem me avisou da medalha de honra ao mérito que a UFS me conferiu e estava azinhavranda na gaveta do Assessor de Comunicação.
Fui
padrinho de seu casamento (olá, comadre Excelsa!) em uma de minhas férias em
Aracaju.
Foi
Expedito que guardou parte de meus livros quando fui transferido para a
Petrobras em São Paulo (1971). Nos aptos de sampa, os que que cabiam no meu
salário, não os cabiam. Recuperei-os trinta anos
depois, joias preciosas, dos quais morri de saudade este tempo todo.
Quando Expedito leu meu primeiro livro (publicado em 2008), Os Tabaréus do Sítio Saracura,
achou que podia publicar também e abriu a gaveta das especiarias.
Já publicou uma coleção de belas obras (Álbum de Aracaju, Memória de Aracaju: Bodegas, Relógio do Tempo...), com a qual revela a memória de nossa cidade e de nosso povo.
Álbum de Aracaju mostra, em fotos feitas pelo autor, Aracaju saindo chácaras para os arranha-céus, virando uma metrópole moderna.
Bodegas
capta a sociedade aracajuana vivendo com as cadernetinhas de crédito, com as
entregas em cestos, com o comércio familiar praticado em pequenas mercearias
chamadas de bodegas. Havia esquinas com quatro, cada uma com sua clientela
própria e todas produzindo renda suficiente para os donos (famílias vindas do
interior) se manterem com dignidade.
Relógio
do Tempo, Tempos de Almas e Anjos... vêm do Riachão com seus espaços, moradores
e causos: O bilhar de seu Zuza, os tanques de banho, a
caça das lagartixas, o reisado da Carnaúba, Maria
Alice, Zé Padre... Passam por Aracaju onde o autor foi
ajudante de bodegueiro nos estabelecimentos do pai e das
tias, respirou as areias em volta de tudo,
falou dos primos que são doutores, da luta da família, dos carros e amigos
antigos.
A
obra literária de Expedito Souza é bem humorada, agradável, consistente. Revela, de forma
indelével, um invejável cabedal histórico de nosso povo e lugar, E é parelha,
puxada para cima, de outras produzidas pelos considerados donos exclusivos da nossa memória.
Tenho
a felicidade de ser contemporâneo, conterrâneo e desfrutar de sua amizade.
Obrigado,
José Expedito de Souza, pela parte que me toca (ou que penso que me toca) em sua grandeza.
Por
Antônio FJ Saracura, em 31 de maio de 2026.


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