quinta-feira, 4 de junho de 2026

EXPEDITO E SUA OBRA, sobre a arte literária


 

EXPEDITO E SUA OBRA, sobre a arte literária

 




Passei mais de 40 anos sendo chamado de Jesus, com muito mais portas abertas por isso. Jesus  foi o meu nome de guerra dado por Expedito Souza quando datilografou minha admissão na Petrobras em 24/04/1967. 

Correu o tempo. Muito tempo. 35 anos dentro de Centros de Processamento de dados da Petrobras, Rhodia, Telebrás, Telergipe. 


Em 2003 eu estava aposentado e fazia bicos em uma imobiliária de Aracaju, onde um irmão, muito parecido comigo, era campeão de vendas. Todos o chamavam de Jesus. Ele também trabalhara na Petrobrás, foi admitido quando o outro Jesus (eu) fora transferido para São Paulo, deixando vago seu nome de guerra. 

Na segunda semana na imobiliária, eu vendi um apartamento de luxo achando que o cliente me conhecia de algum lugar, pois caíra em meus braços tão solícito! E comemorei comigo mesmo: "finalmente encontrei a mina de Belchior Moreia que busquei a vida toda.   Devo ter nascido com a bunda pra lua nessa difícil arte de vender, que somente agora experimentei.  

Meu irmão tomou-me a venda e exigiu que eu arrumasse outro nome, se quisesse ficar no ramo. Assim nasceu Saracura, resgatei o nome histórico de minha família dos socovões da grande Itabaiana desde priscas eras.

xxx

Expedito é meu amigo na minha admissão na  Petrobras (abril de 1967, outro dia falei disso aqui). 

Na época, eu fazia o curso superior de Ciências Econômicas e Expedito parara de estudar, conformara-se com o curso médio. Vendo-me empenhado nos estudos, ele achou que também podia e formou-se, mais tarde, no mesmo curso. 

Foi ele quem me avisou da medalha de honra ao mérito que a UFS me conferiu  e estava azinhavranda na gaveta do Assessor de Comunicação. 

Fui padrinho de seu casamento (olá, comadre Excelsa!) em uma de minhas férias em Aracaju.

Foi Expedito que guardou parte de meus livros quando fui transferido para a Petrobras em São Paulo (1971). Nos aptos de sampa, os que que cabiam no meu salário, não os cabiam. Recuperei-os trinta anos depois, joias preciosas, dos quais morri  de saudade este tempo todo.

Quando  Expedito leu meu primeiro livro (publicado em 2008), Os Tabaréus do Sítio Saracura, achou que podia publicar também e abriu a gaveta das especiarias.

Já publicou uma coleção de belas obras (Álbum de Aracaju, Memória de Aracaju: Bodegas, Relógio do Tempo...), com a qual revela a memória de nossa cidade e de nosso povo. 

Álbum de Aracaju mostra, em fotos feitas pelo autor, Aracaju saindo  chácaras para os arranha-céus, virando uma  metrópole moderna.

Bodegas capta a sociedade aracajuana vivendo com as cadernetinhas de crédito, com as entregas em cestos, com o comércio familiar praticado em pequenas mercearias chamadas de bodegas. Havia esquinas com quatro, cada uma com sua clientela própria e todas produzindo renda suficiente para os donos (famílias vindas do interior) se manterem com dignidade.

Relógio do Tempo, Tempos de Almas e Anjos... vêm do Riachão com seus espaços, moradores e causos: O bilhar de seu  Zuza,  os tanques de banho, a caça das lagartixas, o reisado da Carnaúba,  Maria Alice,  Zé Padre... Passam por Aracaju onde o autor  foi ajudante de bodegueiro nos estabelecimentos do pai e das tias,  respirou as  areias  em volta de tudo, falou dos primos que são doutores, da luta da família, dos carros e amigos antigos.

A obra literária de Expedito Souza é bem humorada, agradável, consistente. Revela, de forma indelével, um invejável cabedal histórico de nosso povo e lugar, E é parelha, puxada para cima,  de outras produzidas pelos considerados donos exclusivos da nossa memória.

Tenho a felicidade de ser contemporâneo, conterrâneo e desfrutar de sua amizade.  

Obrigado, José Expedito de Souza, pela parte que me toca (ou que penso que me toca)  em sua grandeza. 

Por Antônio FJ Saracura, em 31 de maio de 2026.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário