segunda-feira, 28 de setembro de 2026

NAS TRILHAS DA NARRATIVA, Joseane Souza da Fonsêca

 

NAS TRILHAS DA NARRATIVA, Joseane Souza da Fonsêca. Aracaju: Infographics, 2015, 117 páginas. ISBN 978-85-68368-60-2.


Há um bom tempo, em 2023, participei de uma palestra no campus da UFS sobre a obra do escritor Francisco Dantas, proferida pela professora de Campo do Brito, Joseane Souza da Fonsêca. Ao final do evento, Joseane presenteou-me com um exemplar de seu livro “Nas Trilhas da Narrativa”, do qual agora dou notícia em meu blog (SOBRE LIVROS LIDOS).

O livro foi publicado em 2015 e conta com um alentado prefácio do professor da UFS, Carlos Magno Gomes, sobre a produção literária sergipana, com foco no consagrado casal Francisco J. C. Dantas e Maria Lúcia Dal Farra.



A Parte 1 do miolo é composta por três artigos sobre Dantas: Os Segredos da Personagem, Fragmentação do Espaço e Suspensão da Onisciência do Narrador.

Em boa parte de seus livros, Dantas apresenta-se como o narrador (ele mesmo ou um personagem em seu nome) e, por isso, a narrativa poderia limitar-se às suas percepções, pensamentos e sentimentos... Mas ele encontra o seu jeito e cria quando precisa, “espiões” que lhe sopram a visão ampla eventualmente requerida.

Em Os Desvalidos (1993), apresenta-nos Coriolano, um comerciante fraco do lugar e poeta popular; a Lampião, cheio de dores de consciência e de mil dificuldades, mas firme em sua malvadeza; a Zerramo, cujo poder torna-se insignificante diante de um maior; e a Maria Melona, a mulher que brilha como as demais mulheres em toda a obra de Dantas.

As mulheres exaltam a sedução e o poder. Até mesmo as mais resignadas à sua condição — sejam pobres ou doentes — representam, de modo determinante, os contornos da subjetividade feminina. As personagens femininas, se sofrem, sofrem pela mão de homens maus ou injustos.

Dona Senhora, em Cartilha do Silêncio, numa fase da vida em que explodia vitalidade, sofria, além do desprezo da sociedade em volta, a repreensão mal-agradecida do marido, acompanhada do silêncio brutal e do jejum sexual. Mais tarde, ele morre (sem ter culpa alguma), mas “mata” também Dona Senhora antes da hora. E essa morte traz consigo um dos mais desgraçados vilões da literatura: o desembargador Belizário, tio de Romeu, que deveria ajudar, mas destrói Dona Senhora e a sua família, financeira e mentalmente. Dona Senhora (assim como a eficiente Arcanja) não merecia nada disso e sai do romance direto para os oratórios dos adoradores dos grandes personagens da literatura universal.

O estado de Sergipe é o principal cenário das obras de Dantas, o que muito nos honra. A Bahia e Alagoas misturam-se conosco pela proximidade ou porque Sergipe é tão pequeno e cheio de conteúdo que vasa pelas beiradas (kkk). Os vizinhos beliscam, aqui e acolá, a honra de sediar locação da trama, como em Cabo Josino Viloso (Bahia) e em Cartilha do Silêncio (Dona Senhora era alagoana da gema).

Dantas utiliza mais o ambiente rural, as pequenas vilas onde o campo se mistura com as ruas. O rural é refrigério; a grande cidade é castigo. Em Cartilha do Silêncio, o autor tem os vagos momentos na Varginha como o refúgio ideal, enquanto Aracaju (o casarão de quartos sombrios), onde quase toda a trama acontece, é o centro difusor da perversão moral, dos sofrimentos das mulheres, das esquisitices de Cassiano, da decadência...

A Parte 2 do miolo trata da obra de Maria Lúcia Dal Farra e compõe-se de dois artigos: A Intertextualidade Lírica e O Entrelugar do Tempo e do Espaço.

Joseane paira na dimensão entre a linguagem natural das pessoas (a entonação da voz, a gestualidade do corpo, o olhar, a postura, a emoção...) e a linguagem literária da poeta (símbolos, concretude, etc.).

Como o poeta substitui as mil armas de que o falador dispõe e usa?

Os belos poemas de Dal Farra conseguem isso, e com sobra, pelo que depreendemos. A poeta alcança uma imagem da ideia que, mesmo não sendo a original pensada, fica tão interessante quanto. Às vezes até melhor, pois o seu lirismo tem poderes mágicos.

Por minha conta, relembro o poema de Augusto dos Anjos, “A Ideia” (os dois tercetos finais do soneto), porque me assusta e gratifica, ao mesmo tempo, constatar de que apenas a poesia consegue representar tão bem a Ideia original e pura.

“Vem do encéfalo absconso que a constringe,

chega em seguida às cordas da laringe,

tísica, tênue, mínima, raquítica...

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No molambo da língua paralítica!”

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Joseane tece considerações sobre o livro A Inquilina do Intervalo (2005), que tenho aqui comigo na fila, esperando a vez de ser lido por inteiro...

“O que surpreende de imediato neste livro é a juventude da voz, infância desabrochando na adolescência, ocupada em crescer, compreender, sentir, confundir-se, perder...” (diz nas orelhas e num cantinho da capa a escritora Vilma Aréas).

Os contos analisados (quatro) fizeram-na concluir que “Maria Lúcia é dona de uma escrita que conduz o corriqueiro, o feminino, o fantástico, o histórico, o subjetivo ao espaço múltiplo e fértil da ficção. (...) Por isso, o leitor torna-se, facilmente, inquilino desta inteligência imaginativa”.

Nas “Considerações Finais”, Joseane ratifica a importância de a academia (UFS) em estudar a obra dos consagrados Francisco e Maria Lúcia, mas insiste que precisa estudar também outros autores que Sergipe tem, pois vale muito a pena conhecer e apreciar a escrita que representa o imaginário cultural do nosso povo.

(Por Antonio FJ Saracura, em 24 de setembro de 2026).

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(Nota1): Revisão rápida pelo IA do Crome.

(Nota2): Nem tudo o que Joseane Fonsêca escreveu eu assimilei como queria e precisava. Por isso, aqui e acolá, parece que estou a tratar de outro livro, não do de Joseane.

E ouso apontar a culpa alheia, pois há também a mea culpa pela minha incompetência técnica.

Os tratados da academia (pareceres, avaliações, teses, etc.) não são claros, não são diretos. Os seus autores usam palavras que pouco dizem, fazem citações que nada acrescentam e constroem frases sem pés nem cabeça. E encompridam tanto o texto que, talvez, até eles mesmos se percam. Quem mandou afastar-se tanto do foco? Talvez achem que os seus professores (mestres e doutores) aprovem as suas teorias com louvor quando se sentirem incapazes de as entender — seja devido ao “esmero” da feitura ou por estarem “cansados” de tanto ir e vir lendo uma narrativa chata.

Seria algo como: confundir vale mais do que esclarecer; protelar prevalece sobre concluir.

 

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