NAS TRILHAS DA NARRATIVA, Joseane Souza da Fonsêca. Aracaju: Infographics, 2015, 117 páginas. ISBN 978-85-68368-60-2.
Há um bom tempo, em 2023, participei de uma palestra no campus da
UFS sobre a obra do escritor Francisco Dantas, proferida pela professora de
Campo do Brito, Joseane Souza da Fonsêca. Ao final do evento, Joseane
presenteou-me com um exemplar de seu livro “Nas Trilhas da Narrativa”, do qual
agora dou notícia em meu blog (SOBRE LIVROS LIDOS).
O livro foi publicado em 2015 e conta com um alentado prefácio do
professor da UFS, Carlos Magno Gomes, sobre a produção literária sergipana, com
foco no consagrado casal Francisco J. C. Dantas e Maria Lúcia Dal Farra.
A Parte 1 do miolo é composta por três artigos sobre Dantas: Os Segredos da Personagem, Fragmentação do Espaço e Suspensão da Onisciência do Narrador.
Em boa parte de seus livros, Dantas apresenta-se como o narrador (ele
mesmo ou um personagem em seu nome) e, por isso, a narrativa poderia limitar-se
às suas percepções, pensamentos e sentimentos... Mas ele encontra o seu jeito e
cria quando precisa, “espiões” que lhe sopram a visão ampla eventualmente
requerida.
Em Os Desvalidos (1993), apresenta-nos Coriolano, um comerciante
fraco do lugar e poeta popular; a Lampião, cheio de dores de consciência e de
mil dificuldades, mas firme em sua malvadeza; a Zerramo, cujo poder torna-se
insignificante diante de um maior; e a Maria Melona, a mulher que brilha como
as demais mulheres em toda a obra de Dantas.
As mulheres exaltam a sedução e o poder. Até mesmo as mais resignadas à
sua condição — sejam pobres ou doentes — representam, de modo determinante, os
contornos da subjetividade feminina. As personagens femininas, se sofrem,
sofrem pela mão de homens maus ou injustos.
Dona Senhora, em Cartilha do Silêncio, numa fase da vida em que
explodia vitalidade, sofria, além do desprezo da sociedade em volta, a
repreensão mal-agradecida do marido, acompanhada do silêncio brutal e do jejum
sexual. Mais tarde, ele morre (sem ter culpa alguma), mas “mata” também Dona
Senhora antes da hora. E essa morte traz consigo um dos mais desgraçados vilões
da literatura: o desembargador Belizário, tio de Romeu, que deveria ajudar, mas
destrói Dona Senhora e a sua família, financeira e mentalmente. Dona Senhora
(assim como a eficiente Arcanja) não merecia nada disso e sai do romance direto
para os oratórios dos adoradores dos grandes personagens da literatura
universal.
O estado de Sergipe é o principal cenário das obras de Dantas, o que
muito nos honra. A Bahia e Alagoas misturam-se conosco pela proximidade ou
porque Sergipe é tão pequeno e cheio de conteúdo que vasa pelas beiradas (kkk).
Os vizinhos beliscam, aqui e acolá, a honra de sediar locação da trama, como em
Cabo Josino Viloso (Bahia) e em Cartilha do Silêncio (Dona
Senhora era alagoana da gema).
Dantas utiliza mais o ambiente rural, as pequenas vilas onde o campo se
mistura com as ruas. O rural é refrigério; a grande cidade é castigo. Em Cartilha
do Silêncio, o autor tem os vagos momentos na Varginha como o refúgio
ideal, enquanto Aracaju (o casarão de quartos sombrios), onde quase toda a
trama acontece, é o centro difusor da perversão moral, dos sofrimentos das
mulheres, das esquisitices de Cassiano, da decadência...
A Parte 2 do miolo trata da obra de Maria Lúcia Dal Farra e compõe-se de
dois artigos: A Intertextualidade Lírica e O Entrelugar do Tempo e do Espaço.
Joseane paira na dimensão entre a linguagem natural das pessoas (a
entonação da voz, a gestualidade do corpo, o olhar, a postura, a emoção...) e a
linguagem literária da poeta (símbolos, concretude, etc.).
Como o poeta substitui as mil armas de que o falador dispõe e usa?
Os belos poemas de Dal Farra conseguem isso, e com sobra, pelo que
depreendemos. A poeta alcança uma imagem da ideia que, mesmo não sendo a
original pensada, fica tão interessante quanto. Às vezes até melhor, pois o seu
lirismo tem poderes mágicos.
Por minha conta, relembro o poema de Augusto dos Anjos, “A Ideia” (os
dois tercetos finais do soneto), porque me assusta e gratifica, ao mesmo tempo,
constatar de que apenas a poesia consegue representar tão bem a Ideia original e
pura.
“Vem do
encéfalo absconso que a constringe,
chega em
seguida às cordas da laringe,
tísica,
tênue, mínima, raquítica...
Quebra a
força centrípeta que a amarra,
Mas, de
repente, e quase morta, esbarra
No molambo
da língua paralítica!”
xxx
Joseane tece considerações sobre o livro A Inquilina do Intervalo
(2005), que tenho aqui comigo na fila, esperando a vez de ser lido por
inteiro...
“O que surpreende de imediato neste livro é a juventude da voz, infância
desabrochando na adolescência, ocupada em crescer, compreender, sentir,
confundir-se, perder...” (diz nas orelhas e num cantinho da capa a escritora
Vilma Aréas).
Os contos analisados (quatro) fizeram-na concluir que “Maria Lúcia é
dona de uma escrita que conduz o corriqueiro, o feminino, o fantástico, o
histórico, o subjetivo ao espaço múltiplo e fértil da ficção. (...) Por isso, o
leitor torna-se, facilmente, inquilino desta inteligência imaginativa”.
Nas “Considerações Finais”, Joseane ratifica a importância de a academia
(UFS) em estudar a obra dos consagrados Francisco e Maria Lúcia, mas insiste que
precisa estudar também outros autores que Sergipe tem, pois vale muito a pena conhecer
e apreciar a escrita que representa o imaginário cultural do nosso povo.
(Por Antonio
FJ Saracura, em 24 de setembro de 2026).
xxx
(Nota1): Revisão rápida pelo IA do Crome.
(Nota2): Nem tudo o que Joseane Fonsêca escreveu eu
assimilei como queria e precisava. Por isso, aqui e acolá, parece que estou a
tratar de outro livro, não do de Joseane.
E ouso apontar a culpa alheia, pois há também a mea culpa pela
minha incompetência técnica.
Os tratados da academia (pareceres, avaliações, teses, etc.) não são
claros, não são diretos. Os seus autores usam palavras que pouco dizem, fazem
citações que nada acrescentam e constroem frases sem pés nem cabeça. E encompridam
tanto o texto que, talvez, até eles mesmos se percam. Quem mandou afastar-se
tanto do foco? Talvez achem que os seus professores (mestres e doutores)
aprovem as suas teorias com louvor quando se sentirem incapazes de as entender
— seja devido ao “esmero” da feitura ou por estarem “cansados” de tanto ir e
vir lendo uma narrativa chata.
Seria algo como: confundir vale mais do que esclarecer; protelar
prevalece sobre concluir.

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