terça-feira, 22 de setembro de 2026

TENDAS DA MINHA ALMA, Paulo Rodrigues, poemas

 

TENDAS DA MINHA ALMA, Paulo Rodrigues, poemas e crônicas, Aracaju, Infographics, 2023, 213 páginas, ISBN 978-65-5730-190-6.


Paulo Rodrigues vive a poesia desde criança (seu pai, Neu Mulatinho, era violeiro e trovador dos bons). A poesia está em seu cheiro, na aura, na postura com que se apresenta (para mim), aqui sessões das segundas à tarde da Academia Sergipana de Letras:

Terno escuro com lenço de pontas no bolso esquerdo do colete. Óculos de duas lentes tipo Pince-nez equilibrando-se no meio do pau da venta;  corrente dourada e brilhante de um lado ao outro, à frente, no cós da calça, prendendo o Patek Filipp no bolsinho do relógio. 

Paulo corta os cabelos curtos,  mas os vejo lisos, cobrindo a nuca, que se ondulam e se alçam no ardor das declamações.

Mas o que  Paulo traz mesmo no bolso do colete da memória, são belos poemas — seus e de grandes poetas —, que declama quando tem chance, como nas sessões das segundas-feiras à tarde na Academia Sergipana de Letras.

Além de poeta consagrado, é mestre do saber nos vários segmentos da cultura, especialmente da história e do folclore do Baixo São Francisco, com destaque para o que toca a Cedro de São João e suas lagoas piscosas que se transformam em roças de arroz no tempo certo.

Tendas de Minha Alma, o livro que tenho em mãos, é uma coletânea escolhida de poemas produzidos no dia a dia, diuturnamente (dá essa impressão) desde muitos anos atrás. Canta momentos marcantes, o orgulho pátrio, a gratidão a pessoas do convívio, lições de vida e sentimentos profundos: amor, humor, dor, felicidade... 

Os poemas de Paulo são orações de louvor à  Deus e à vida de beduíno nessa travessia sofrida em que todos nos empenhamos; são oásis ou tendas para a alma do próprio Poeta e deleite de quem desfruta de sua moradia. (Ele mesmo diz na capa do livro).

“Cada verso meu faz-se tenda de minha alma / fonte rutilante de toda poesia...”

Boa parte desta seleção incluída no livro é contextualizada com uma crônica que narra o mote, a musa e a história do poema. Além dos versos ao violão ou na declamação emocionada, artes em que Paulo é mestre, temos um compêndio didático que se presta ao entendimento da alma do autor e da própria arte da poesia o momento da criação.

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Um livro de poesia é como uma biblioteca: nem de todos os livros a gente vai dar conta de ler e, mesmo dos livros lidos, alguns poderão não ser absorvidos. Poesia requer comunhão, estado de graça.  Se apenas um dos poemas me apaixonar em um livro, isso já me satisfaz 

Como dar conta de mil mulheres que me atraem?

Basta-me “Navios Negreiros”, em Espumas Flutuantes, de Castro Alves; basta-me “Ignorabimus”, em Dias e Noites, de Tobias Barreto; basta-me “Alma minha gentil que te partiste ”, na obra de Camões, basta-me “O acendedor de Lampiões” de Jorge de Lima.

Não que os demais poemas de cada poeta sejam menores — até podem ser mais belos —mas em mim não cabem tantos.

Por isso, aqui me basta “Volta, Zé, para o Sertão”, em Sombras de Minha Alma, de Paulo Rodrigues:

 

“Que fazes, Zé, envolto em folhas de jornal

debaixo de marquise nesta capital

para onde vieste tentar uma nova sorte?

Volta para o Sertão, que te assistiu nascer

Lá acharás o pão que precisas comer

Pois aqui, assim sofrendo, encontrarás a morte...”


 Esta é apenas uma das dez estrofes que o poema contém.

De uma maneira ou de outra, cada um dos poemas deste livro de Paulo Rodrigues (como nos demais livros das bibliotecas do mundo) poderá ser, aleatoriamente, a tenda para a alma de pessoas iguais (ou não) ao Zé, que passa frio sob uma marquise qualquer.

(por Antonio FJ Saracura, Aracaju, 22 de setembro de 2026)

(Nota): Revisão rápida feita pelo IA do Google.

(Nota1): O Poema

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua,
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!


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