quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 

NO LIMIAR DA LITERATURA SERGIPANA, Joseane Souza da Fonsêca (org.), Aracaju, Artner, 2019, 160 p. ISBN 978-85-69567-55-4.

“A literatura é o sonho acordado das civilizações”.

Assim, Joseane Fonseca começa sua antologia (o segundo livro dela que me cai às mãos), citando Antônio Cândido em O Direito à Literatura (1988), e complementa: “Ela nos possibilita uma reflexão sobre a dialética (investigação do conhecimento baseado no confronto de ideias) da vivência humana ao longo da história da civilização”.

O livro compõe-se de sete artigos que tratam de figuras ilustres e suas obras, escritos por acadêmicos com os quais a autora, Joseane Fonsêca, conviveu na UFS, onde é mestre e doutora em Literatura.


Wagner Gonzaga Lemos escreve sobre Gizelda Morais (Da poesia infantil à consolidação da literatura):

Wagner Lemos, que tenho o prazer de conhecer e admirar, fala aqui de Gizelda de Morais. Ele faz uma espécie de biografia, como se fosse a prévia (ou a súmula) de um livro biográfico que está escrevendo e que talvez já esteja nas livrarias.

Conheci Gizelda nas Rodas de Leitura da Biblioteca Pública Epifânio Dórea há bom tempo. Li alguns de seus bons livros e os guardo com zelo na minha pequena biblioteca: Preparem os Agogôs, Feliz Aventureiro, Rosa dos Tempos, Veleiro da Esperança, À Procura de Jane, Ibiradiô e Absolvo e Condeno. Sobre os quatro últimos, escrevi resenhas que podem ser lidas no meu blog “Antonio Saracura Sobre Livros Lidos”.


Márcio Carvalho da Silva escreve sobre Alina Paim (Uma romancista que dispensa toda e qualquer apresentação):

O artigo refere-se ao resgate crítico da obra de Alina (que gerou a publicação de um livro) feito por Maria Leal Cardoso. Alina foi (e ainda é) uma escritora marginalizada pelo cânone literário. Publicou romances tão bons quanto os de seus colegas contemporâneos, mas os seus não tiveram o mesmo sucesso; foram “tornados invisíveis” pela crítica machista.

Alina Paim nasceu em Estância, criou-se em Salvador (até os seis anos) e em Simão Dias (com os avós paternos), passando depois por Salvador outra vez, Rio de Janeiro e outros estados do Sul. Atuou como professora, tradutora, jornalista, escritora, ativista política (em prol dos direitos das mulheres) e militante comunista; faleceu no Mato Grosso com mais de noventa anos. Alina publicou dez romances e algumas obras de literatura infantil, tudo de alto nível. Teve livros prefaciados por Jorge Amado e por Graciliano Ramos. O romance O Céu do Meio-dia foi coroado com o prêmio Manoel Antônio de Almeida (1961) da ABL.

Maria Leal é quem testemunha: “Garimpamos suas obras nas livrarias e sebos de todo o país, o que não foi fácil, pois quase todas tiveram apenas uma edição (magra)”. Ao se sentir atingida pela "equipe justiceira" da biógrafa Maria Leal, da UFS, Alina Paim exclamou: “Estive esquecida no meu mundinho por 30 anos. Agora, com mais de 90 anos de idade, velha e cega, você me faz retornar a velhos tempos, lembrar de pessoas da minha vida literária... Por acaso, tenho essa importância toda?”

(Para mim, este artigo, mesmo sendo da Academia, foi comunicativo na forma, no conteúdo e no tratamento das referências. Uma escrita focada, uma leitura agradável).


Jeane de Cássia Nascimento Santos e Raquel Pereira Lima escrevem sobre Antonio Carlos Viana (Das Dores: mercadoria sem nome):

Eu já li boa parte da obra de Viana e gostei do que vi. Por mais absurda que seja a violência sofrida pela mulher “das Dores” no conto, ela é real, enraizada e atual. E cobra da mulher “moderna” sacrifícios extras, como o risco do feminicídio — que está cada vez mais em voga, impulsionado pela extrema-direita radical, para quem a mulher continua sendo “um homem inferior”. Assim como o nordestino, assim como os desvalidos...

E sobre o conto “Das Dores” e parte da literatura de Viana, as autoras afirmam: “É uma literatura que incomoda e, mesmo assim, nos prende e nos faz mergulhar na complexidade do tema”.


Sérgio Murilo Fontes de Oliveira Filho escreve sobre Francisco Dantas (Leitura, cultura e refúgio em Sob o Peso das Sombras):

Sérgio Murilo faz-me sentir Francisco Dantas como meu irmão de hábito da mesma congregação ao citá-lo:

“A literatura tem que se abastecer no contexto de formação de cada escritor. Que só podemos escrever exuberantemente quando nos abandonamos e colocamos todos os sentidos em sintonia com as forças inconscientes que nos rodeiam e alimentam a nossa formação” (página 119, citando obra constante na bibliografia).

O artigo se propõe a analisar dois fatores: a leitura de livros e a cultura na vida de Justino Vieira (em Sob o Peso das Sombras). Na vida de todos nós, portanto.

E o texto deixa que o próprio Justino sinta a má influência dos livros nos viciados em leitura: ele está tendo muita dificuldade em reatar vínculos de amizade com o povo de Alvide, do qual se sentia, no íntimo, parte integrante.


Aretha Ludmilla Pacheco Lira Lopes escreve sobre Francisco Dantas (Literatura e geografia: uma leitura de Cabo Josino Viloso):

A autora, entre as considerações sobre este livro, deixa implícito (entendi assim) que o cabo Viloso lucrou com sua ida para Alvide, mesmo tendo enfrentado privações ainda maiores. Em Alvide, ele era a autoridade (era o chefe), mesmo que fosse sobre o nada. Então, sobrou-lhe espaço para utilizar seu livre-arbítrio (mesmo influenciado e ferindo princípios próprios) para, de certa forma, se recompensar.


Joseane Souza da Fonsêca escreve sobre Maria Lucia Dal Farra (Ressignificando a tradição na poética de MLDF):

 

“O AMOR (para Jaci dos Santos)

 

São tantos de nós a vigiar o beijo

que é preciso fechar os olhos

para estarmos a sós.


Beijamos a nossa solidão –

porque ali a encontramos melhor.”

(Dal Farra, página 44).

Aqui, coube um poema de Dal Farra... Melhor do que uma síntese (se é que fosse possível fazê-la) do tratado de Joseane (uma daquelas aulas para aluno desistir do curso) sobre a poética de Maria Lucia.


Joseane escreve sobre Francisco Dantas (As aproximações estéticas com William Faulkner):

Entendi (pois não conhecia) que Faulkner é consagrado pela matriz regionalista de seus textos (no sul dos Estados Unidos). Em vez do Rio das Paridas, ele tem o seu condado de Yoknapatawpha. Como Dantas, que tem sua matriz e dela não abre mão: “Eu sou nordestino, de Sergipe, e estou comprometido com minha terra, com meus valores e com minha gente”. A poética de Faulkner não está amarrada a correntes literárias fixas, assim como a de Francisco Dantas, que também rejeita o alinhamento com as escolas literárias.

Para serem mais parecidos, bastava que Francisco Dantas ganhasse o Nobel de Literatura, que bem merece.

Sobre as personagens femininas de Faulkner e Dantas, a autora traça um paralelo amplo, mas me retenho a Eula e a Dona Senhora, como sendo “mulheres que enfeitiçam os homens e afrontam a tradição do recato feminino...”.


Nas Considerações Finais do livro, a organizadora (Joseane, a quem bato palmas), seguindo o pensamento de Antônio Cândido, constata que, “além do deleite, o contato com a literatura favorece a construção e a reconstrução de nossas identidades... A palavra literária atinge o nosso inconsciente, favorecendo o reconhecimento de quem somos”.

(Por Antônio FJ Saracura), 7 de outubro de 2026).

(Nota: Revisão rápido pelo IA do Google)..



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