NO LIMIAR DA LITERATURA SERGIPANA, Joseane
Souza da Fonsêca (org.), Aracaju, Artner, 2019, 160 p. ISBN 978-85-69567-55-4.
“A literatura é o sonho acordado das civilizações”.
Assim, Joseane Fonseca começa sua antologia (o segundo livro dela que me
cai às mãos), citando Antônio Cândido em O Direito à Literatura (1988),
e complementa: “Ela nos possibilita uma reflexão sobre a dialética
(investigação do conhecimento baseado no confronto de ideias) da vivência
humana ao longo da história da civilização”.
O livro compõe-se de sete artigos que tratam de figuras ilustres e suas
obras, escritos por acadêmicos com os quais a autora, Joseane Fonsêca, conviveu
na UFS, onde é mestre e doutora em Literatura.
Wagner Gonzaga Lemos escreve sobre Gizelda Morais (Da poesia infantil à consolidação da literatura):
Wagner Lemos, que tenho o prazer de conhecer e admirar, fala aqui de
Gizelda de Morais. Ele faz uma espécie de biografia, como se fosse a prévia (ou
a súmula) de um livro biográfico que está escrevendo e que talvez já esteja nas
livrarias.
Conheci Gizelda nas Rodas de Leitura da Biblioteca Pública Epifânio
Dórea há bom tempo. Li alguns de seus bons livros e os guardo com zelo na minha
pequena biblioteca: Preparem os Agogôs, Feliz Aventureiro, Rosa
dos Tempos, Veleiro da Esperança, À Procura de Jane, Ibiradiô
e Absolvo e Condeno. Sobre os quatro últimos, escrevi resenhas que podem
ser lidas no meu blog “Antonio Saracura Sobre Livros Lidos”.
Márcio Carvalho da Silva escreve sobre Alina Paim (Uma romancista que dispensa toda e qualquer apresentação):
O artigo refere-se ao resgate crítico da obra de Alina (que gerou a
publicação de um livro) feito por Maria Leal Cardoso. Alina foi (e ainda é) uma
escritora marginalizada pelo cânone literário. Publicou romances tão bons
quanto os de seus colegas contemporâneos, mas os seus não tiveram o mesmo
sucesso; foram “tornados invisíveis” pela crítica machista.
Alina Paim nasceu em Estância, criou-se em Salvador (até os seis anos) e
em Simão Dias (com os avós paternos), passando depois por Salvador outra vez,
Rio de Janeiro e outros estados do Sul. Atuou como professora, tradutora,
jornalista, escritora, ativista política (em prol dos direitos das mulheres) e
militante comunista; faleceu no Mato Grosso com mais de noventa anos. Alina
publicou dez romances e algumas obras de literatura infantil, tudo de alto
nível. Teve livros prefaciados por Jorge Amado e por Graciliano Ramos. O
romance O Céu do Meio-dia foi coroado com o prêmio Manoel Antônio de
Almeida (1961) da ABL.
Maria Leal é quem testemunha: “Garimpamos suas obras nas livrarias e
sebos de todo o país, o que não foi fácil, pois quase todas tiveram apenas uma
edição (magra)”. Ao se sentir atingida pela "equipe justiceira" da
biógrafa Maria Leal, da UFS, Alina Paim exclamou: “Estive esquecida no meu
mundinho por 30 anos. Agora, com mais de 90 anos de idade, velha e cega, você
me faz retornar a velhos tempos, lembrar de pessoas da minha vida literária...
Por acaso, tenho essa importância toda?”
(Para mim, este artigo, mesmo sendo da Academia, foi comunicativo na
forma, no conteúdo e no tratamento das referências. Uma escrita focada, uma
leitura agradável).
Jeane de Cássia Nascimento Santos e Raquel Pereira Lima escrevem sobre
Antonio Carlos Viana (Das Dores: mercadoria sem nome):
Eu já li boa parte da obra de Viana e gostei do que vi. Por mais absurda
que seja a violência sofrida pela mulher “das Dores” no conto, ela é real,
enraizada e atual. E cobra da mulher “moderna” sacrifícios extras, como o risco
do feminicídio — que está cada vez mais em voga, impulsionado pela
extrema-direita radical, para quem a mulher continua sendo “um homem inferior”.
Assim como o nordestino, assim como os desvalidos...
E sobre o conto “Das Dores” e parte da literatura de Viana, as autoras
afirmam: “É uma literatura que incomoda e, mesmo assim, nos prende e nos faz
mergulhar na complexidade do tema”.
Sérgio Murilo Fontes de Oliveira Filho escreve sobre Francisco Dantas (Leitura, cultura e refúgio em Sob o Peso das Sombras):
Sérgio Murilo faz-me sentir Francisco Dantas como meu irmão de hábito da
mesma congregação ao citá-lo:
“A literatura tem que se abastecer no contexto de formação de cada
escritor. Que só podemos escrever exuberantemente quando nos abandonamos e
colocamos todos os sentidos em sintonia com as forças inconscientes que nos
rodeiam e alimentam a nossa formação” (página 119, citando obra constante na
bibliografia).
O artigo se propõe a analisar dois fatores: a leitura de livros e a
cultura na vida de Justino Vieira (em Sob o Peso das Sombras). Na vida
de todos nós, portanto.
E o texto deixa que o próprio Justino sinta a má influência dos livros
nos viciados em leitura: ele está tendo muita dificuldade em reatar vínculos de
amizade com o povo de Alvide, do qual se sentia, no íntimo, parte integrante.
Aretha Ludmilla Pacheco Lira Lopes escreve sobre Francisco Dantas (Literatura e geografia: uma leitura de Cabo Josino Viloso):
A autora, entre as considerações sobre este livro, deixa implícito
(entendi assim) que o cabo Viloso lucrou com sua ida para Alvide, mesmo tendo
enfrentado privações ainda maiores. Em Alvide, ele era a autoridade (era o
chefe), mesmo que fosse sobre o nada. Então, sobrou-lhe espaço para utilizar
seu livre-arbítrio (mesmo influenciado e ferindo princípios próprios) para, de
certa forma, se recompensar.
Joseane Souza da Fonsêca escreve sobre Maria Lucia Dal Farra (Ressignificando a tradição na poética de MLDF):
“O AMOR (para Jaci dos Santos)
São tantos de nós a vigiar o beijo
que é preciso fechar os olhos
para estarmos a sós.
Beijamos a nossa solidão –
porque ali a encontramos melhor.”
(Dal Farra, página 44).
Aqui, coube um poema de Dal Farra... Melhor do que uma síntese (se é que
fosse possível fazê-la) do tratado de Joseane (uma daquelas aulas para aluno
desistir do curso) sobre a poética de Maria Lucia.
Joseane escreve sobre Francisco Dantas (As
aproximações estéticas com William Faulkner):
Entendi (pois não conhecia) que Faulkner é consagrado pela matriz
regionalista de seus textos (no sul dos Estados Unidos). Em vez do Rio das
Paridas, ele tem o seu condado de Yoknapatawpha. Como Dantas, que tem sua
matriz e dela não abre mão: “Eu sou nordestino, de Sergipe, e estou
comprometido com minha terra, com meus valores e com minha gente”. A poética de
Faulkner não está amarrada a correntes literárias fixas, assim como a de
Francisco Dantas, que também rejeita o alinhamento com as escolas literárias.
Para serem mais parecidos, bastava que Francisco Dantas ganhasse o Nobel
de Literatura, que bem merece.
Sobre as personagens femininas de Faulkner e Dantas, a autora traça um
paralelo amplo, mas me retenho a Eula e a Dona Senhora, como sendo “mulheres
que enfeitiçam os homens e afrontam a tradição do recato feminino...”.
Nas Considerações Finais do livro, a organizadora (Joseane, a
quem bato palmas), seguindo o pensamento de Antônio Cândido, constata que,
“além do deleite, o contato com a literatura favorece a construção e a
reconstrução de nossas identidades... A palavra literária atinge o nosso
inconsciente, favorecendo o reconhecimento de quem somos”.
(Por Antônio FJ Saracura), 7 de outubro de 2026).
(Nota: Revisão rápido pelo IA do Google)..
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