Autor: Francisco J.C. Dantas | Editora: Planeta, 2004 | Páginas: 367 | ISBN: 9788576650126.
Os primeiros dois capítulos são aterrorizantes. Quis entrar na briga. Cheguei a maldar da integridade do gênero e da sanidade de princípios de Jileu Bicalho Babão, diretor da Faculdade de Mitologia — princípios que, até o final do livro, mantive sob suspeita. Tipo singular, caracterizado de maneira cirúrgica e impiedosa (merecia mais) pelo narrador, que o segura assim até o último capítulo. E lá, ainda o premia com uma nababesca aposentadoria de vereador, com cadeiras em academias literárias e com a honra de ser o prefaciador oficial de qualquer um que resolva publicar um livro. Bicalho é o estereótipo natural de quem tem poder. Quantas vezes na vida eu não o encontrei? Quantas vezes eu não o fui?
Justino Vieira treme e se diminui a ponto de, no seu recôndito, machucar células sadias que se revelarão, anos depois, em um agressivo e impiedoso caranguejo.
O tio, padre Barbarino, usa a força da fé; urge apaziguar a tensão: “Sem
humildade cristã, sem renegar a soberba... você é um homem sem futuro”.
Presto continência ao soldado Divino Melenguê (que azar da porra
encontrar aquele pedófilo safado, o cabo Elesbão, que o queria papar a qualquer
custo). Divino merecia um romance só para ele (já disse antes), pelo brilho
aqui e em Cabo Josino Viloso. E ainda acho pouco para esse irlandês
sarará do Raso da Catarina (Romã de Riba), campeão no jogo das cabeçadas, que
nem vi treinando. Não foi criado para ser coadjuvante.
Leopolda, a cunhada desejada a vida toda, que lisa escapulia, chega para
morar e tomar conta de tudo: “Você está morrendo, sim, mas uma metade de medo e
a outra de desleixo”. Com a esposa falecida e os filhos ausentes, de que mais
um pecador precisa? E ganha, “sem ter que mover uma palha, tudo por obra e
graça do destino”, uma maravilhosa aleluia: “Ela move os braços para o alto,
arranca do pescoço sua camisola que avoa tal qual pluma alvejada das asas
brancas de uma garça rufando e rompendo as sombras”.
A professora Camerinda recebia o pagamento mensal com a assinatura a
rogo de alguém (que boa professora o Alvide tinha!), entretanto, era cheia de
outras sapiências: “Esse sobrinho seu, seu Melenguê, é um tapado. Mais valia
ter um caco de torrar mamona [no lugar do coco]”.
Dona Zinha falou assim de mim (em Os Tabaréus do Sítio Saracura),
mas, no meu caso, ela estava coberta de razão.
Serafim Leitão, professor de Mitologia, aparece como um ponto de ciúme,
servindo para revelar os podres das universidades e das periferias agregadas. E
como há podres!
E surge o médico Ricardo Ferrão, que ferra fazendo graça. Nasceu para
sacanear a clientela: “É câncer mesmo, apenas uma cabecinha de alfinete...
sortudo!”.
Precisava chegar mais perto da dor e deixar de deboches. Médico amigo às
vezes prejudica o doente.
Então chega Agripina, na maior naturalidade, para tomar conta do lugar
de Leopolda, que se vai como veio. Quem mandou Justino pisar na bola pegando
nos peitos da enfermeira? Não lhe sobra mais nada a não ser apreciar as formas
redondas de Agripina, que foge de seus agrados.
O cabo Josino Viloso, o exator Zeca Papão e outros do Alvide passam de
passagem... Alguns até deram com a mão — acho que foi para mim —, podem ter me
reconhecido e, por isso, sorri agradecido.
O povoado Alvide, que povoa a mente doente de Justino, é o símbolo do
nada. Mas guarda aquele sonho restante ao qual, desesperado, ele se agarra para
não tombar junto na cova onde jazem todos os amigos que teve na vida: “Ocupado
dia e noite em cavar a terra, é bem possível que essa zoadeira toda que me
chega das ruas e dos homens (Coronavírus, Moro, Mandela, fake news,
assombrações...) me fosse indiferente no Alvide”.
E os nobres doutores da universidade que se afinaram? Quem manda passar
a vida caçando ideias estapafúrdias pelo prazer de exibirem, nas reuniões
aparatosas, teorias de fabuloso preparo, entretanto inúteis?
E vêm mais espirros, como uma defesa na derrota iminente... Parecem o
sopro de Deus para ajudar o mais fraco. Mesmo assim, após cada espirro de
Justino, ajeitei minha máscara de cabra medroso nessa quadra de peste rondando.
Sem especificar dias, Sob o Peso das Sombras é o diário de
Justino Vieira, um intelectual recatado (leu todos os livros do mundo),
composto com capricho, subindo e descendo, na alegria e na dor, acelerado e
paciente, atrapalhado e consciente, enquanto o câncer avança inexorável sobre
si. É catarse purificadora e prestação de contas. Talvez a vingança possível
pelos azares a que foi exposto neste vale de lágrimas.
São 367 páginas sem concessões. Com acurada visão e apurado senso
crítico. Diz o que tem a dizer, doa a quem doer e, quase sempre, dói mais ao
próprio narrador. Tridente ferino contra a hipocrisia, pétalas macias para dona
Leopolda (que pena ser uma mulher cismada), parcimonioso louvor às pessoas
dignas — que sempre há...
Testamento cabal.
Cabe uma fortuna para quem tiver a chance de o ler. Seja de carapuças ou
de sabedorias.
(Aracaju, 26 de abril de 2020 — Antônio FJ Saracura)
(Nota): Revisão rápida pelo IA Google.

Apresentado na Asl EM 2020
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