sexta-feira, 24 de junho de 2016

O PODER LOCAL E RELAÇÃO DE DOMINAÇÃO (Itabaiana 1945-1963), Antônio Carlos dos Santos

O PODER LOCAL E RELAÇÃO DE DOMINAÇÃO (Itabaiana 1945-1963), Antônio Carlos dos Santos, Redes Editora, 2015,144p,isbn 978-85-61638-82-5




É algo que me intriga e incomoda: esses preâmbulos que não acabam mais, essas fugas do tema, esses volteios nas imediações. Também a persistente busca em clássicos o que talvez nem exista, nem precisaria existir, de conceitos que fundamentem o trabalho acadêmico desenvolvido e objeto de um livro. Em livros produzidos na academia das Universidades; talvez não todos, mas os que caíram até hoje em minhas mãos.

Não nego a necessidade do embasamento teórico. Pelo contrário. É que esses embasamentos expostos, quase sempre me parecem enganação, encheção de linguiça, cumprimento de protocolo inútil. E poderiam muito bem estar implícitos no corpo do tema desenvolvido, sutilmente, com citações parcimoniosas, consistentes, atinentes. Especialmente atinentes. Nada vago, nada que deixe o leitor inseguro ainda mais do que se ele não existisse. Imagino que essa burocracia acadêmica, pro forma, perderá força e será um dia letra morta.

Senti isso ao concluir as dezesseis páginas do capítulo 1 do livro “O Poder Local...”.   Muitas referências a estudiosos para provar nada, pois nenhum chegou ao âmago da questão.  Bastava uma página, e eu agradeceria, sobraria tempo para ler com mais vagar e carinho o capítulo 2, que merece muito mais, é onde está o ouro, certamente, a meu ver.

Que importância tem de Euclides e Manuel Teles serem coronéis ou não?  Por que teríamos que incluí-los nesse teórico departamento virtual? Um povo não vive pela cartilha dos teóricos mas pela multiplicidade dinâmica da própria vida.

E já que a academia faz questão de enquadrar, que sejam mesmo chamados de “cononéis”. O fato de morarem na cidade e viverem dela não invalida a titulação, no meu ponto de vista, à revelia dos teóricos. Itabaiana era uma cidade (e ainda é) intimamente rural. Com vínculos profundos com o campo. E os próprios personagens políticos, além de comerciantes, eram fazendeiros, possuíam terras, o próprio autor inventaria ao final do livro. E ambos nasceram e começaram suas vidas em pequenas propriedades rurais, tinham dentro de si a alma do campo. Mesmo que não possuíssem uma tarefa de terra sequer, seus dominados e eleitores de cabresto, seus fuxiqueiros e puxa sacos, a maioria deles era da zona rural (ou veio dela) e todos os seguiam como se fossem vassalos de um “feudo”. Sei por ter vivido o momento ou sobras dele.

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Para mim, o livro começou na página a 55 e, mesmo curto, tem um rico conteúdo. O autor não gasta palavra vãs, tudo que diz precisava ser dito. Não encomprida a reza para enrolar santo, ganhar a graça pelo cansaço. Argumenta, embasa, fundamenta, exatamente onde cabe fazer isso. Não provoca tédio, mesmo ao leitor universal. Até ao doméstico, enriquece a informação, fixa o conceito. O livro ficou devendo uma análise mais detalhada do período em que Manuel Teles reinou em Itabaiana (até 1950). Limitou-se as dispersas e esparsas informações. Por isso, transformou-se em uma ode à Euclides Paes Mendonça. Quem falou que ode é louvação? Mas, ao final, fica a impressão de que o “coronel” Euclides (que estranho soa!) modernizou a cidade, inflou o ego dos “serracenos” pois fez o que quase todos gostariam de fazer: desafiou o poder maior e impôs-se a ele, não pagou impostos, disse o que quis, fez o que pensou fazer. E todos se curvaram à sua imagem. Um herói subliminar.

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O tema desenvolvido é polêmico e recente. Trata de dois adversários políticos. Há testemunhas vivas e ainda apaixonadas por Euclides ou Manuel. A verdade ainda nada em paixão. Não assentou e vai demorar ainda.  E a paixão é um privilégio de todos. Ninguém escapa.  Nem o velado autor dessas considerações.

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Arrisco caminhar um pouco, a partir daqui, pela linha seguida por Antônio Carlos dos Santos, o autor, que é doutor reconhecido no mundo todo. Possui um curriculum que faz Itabaiana universal, “Potestas Montis”: a verdadeira riqueza que provem da Serra, a riqueza que conta.  

Em Itabaiana como na maioria das pequenas cidades, o homem da cidade é rural, e o homem do campo, “os sitiantes recebem forte influência ou dependência do centro urbano, tanto em virtude de fins comerciais, quanto para fins de entretenimento. O centro urbano funciona como lócus aglutinador de toda a região”. A casa grande do engenho, ou o palácio do senhor feudal.

Euclides e Manuel Teles são líderes carismáticos.  Sobressaía em Euclides uma “visão do mundo ampla e o desejo de aparelhar Itabaiana no que houvesse de mais moderno e sofisticado”. “A medida que a cidade crescia, as avenidas, praças e ruas eram abertas, em especial nos terrenos dos opositores, que não eram indenizados”.  O opositor prejudicado recorria aos tribunais e perdia a causa.

Itabaiana é a terra onde “as paixões politicas tanto se agitam”. “De pouco trato”.  “Onde a vida é a mercadoria mais barata”. Não é um lugar fácil de administrar. Só homens fortes, como foram Manuel Teles e Euclides (até 1963).  Especialmente Euclides soube se sair bem nesse mundo perigoso. Com o tempo, mais não muito, “anulou o principal adversário, levando-o quase à falência econômica e à inexpressividade política.” A nação serrana dobrou-se à seus pés pesados. Euclides dominou o povo e os poderes em volta. Criou uma guarda municipal com cem homens, sobrepondo o destacamento da polícia estadual que possuía apenas 6.

“Prendia as pessoas, sempre que o juiz e o opositor político estavam fora da cidade, ganhava, assim, tempo para castigar como achava certo, dobrar na marra. Mandava trazer o preso a seu armazém, deixava-o de pé por algumas horas, interrogava-o como se fosse o juiz. Criou um clima de temor. “Ao pressentir a ronda da polícia no povoado, Cícero de Souza corria com medo de novamente ser preso”.  Criou uma cadeia privada num velho sobrado, longe das vistas do Juiz.  “Colocou presa Jozina Rosa do Nascimento num quarto escuro, onde foi agredida fisicamente, inclusive com murros e tamancos, violência cometida pelo próprio Euclides Paes Mendonça”.

“O prefeito confundia inconscientemente, ou mesmo conscientemente, o público e o privado.  O Judiciário prendeu um caminhão de mercadorias. Assim que o fiscal ficou sabendo de quem era (Euclides) soltou-o imediatamente”. Mesmo sendo Euclides homem sensível às novidades e ao progresso, “o mesmo não ocorria com relação aos direitos civis e políticos”.
 “Animado com o apoio do governo Estadual, invadiu a cidade vizinha de Ribeirópolis e prendeu e espancou o senhor, Marinho, oposicionista político que estava sob proteção da força federal. E, depois, nada aconteceu a Euclicdes, como de hábito.

O Juiz José Bezerra declarou de “nunca haver tomado as providências necessárias que lhe competiam por temer o poderoso chefe político”. E fez bem. Pode criar seus filhos. De uma vez (por volta de 1962) em que contrariou Euclides, este, munido de uma lata de gasolina foi queimar casa do juiz, queria que o juiz estivesse dentro”.

De outra vez, irritado com a atitude do ex-governador, Leandro Maciel (declinara ao convite em participar de uma comemoração em Itabaiana) mandou o chofer buscar Leandro onde estivesse e o trouxesse mesmo que fosse amarrado. Leandro veio.

Finalmente...

Quem semeia vento, colhe tempestade. Por um motivo fútil, em uma “inocente” passeata de estudantes pedindo água encanada (que era também o sonho dele), Euclides foi fuzilado, juntamente com o filho, pela Polícia Militar do Estado.  “Maria Leite Bezerra, que estava no meio do tiroteio, disse que viu, “soldados atirarem de fuzil sobre o corpo do deputado, já sem vida, caído ao solo”.  

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Um livro para ler como a um romance, um triler policial ou de espionagem.
(Aracaju, 24/06/2016)


Incluo a seguir, com a devida licença do autor (verbalmente, implicitamente) a crônica de Vladimir Souza Carvalho, também lídimo Potestas Montes (a riqueza quem provem da serra), publicada no Correio de Sergipe de 11 de maio de 2016:


Poder local e relação de dominação 1
ONTEM, O FATO; HOJE, A HISTÓRIA

Vladimir Souza Carvalho

Foi lendo, com imensa curiosidade, como faço com tudo que se reporta à história de Itabaiana e me chega as mãos, o excelente Poder Local e Relação de Dominação - Itabaiana 1945-1963, de Antonio Carlos dos Santos, extraindo dos escombros dos fatos ocorridos em 1963 os seus antecedentes mais diretos e a explosão final, verificada em 1967,  já fora do âmbito de 1963, mas dele originada, uma verdade que me tocou, traduzida no fato de estar a ver, pregado em livro, uma realidade eminentemente local, transformada agora em história, que eu testemunhei e participei.

Quatro datas imediatas se unem na trajetória sangrenta dessas páginas da história de nossa tribo, uma desencadeando e justificando a seguinte, começando com uma discussão na manhã de 20 de abril de 1963, na feira, entre Euclides Paes Mendonça, cercado pela Guarda Municipal,  e Manoel Teles, tentando ser impedido de avançar pelo seu balconista João Andrade. Seguiu a  seguinte, 21 de abril, domingo à noite, na troca de tiros entre a Guarda Municipal e a Polícia Militar, na mistura do grotesco com o trágico, fatos que prepararam o 08 de agosto, na passeata dos estudantes do então Ginásio Estadual de Itabaiana, quando a Polícia Militar matou, na Praça da Matriz, Euclides Paes Mendonça e seu filho Antonio de Oliveira Mendonça, se encerrando quatro anos depois, em 31 de agosto de 1967, no esperado assassinato de Manoel Teles, símbolo maior da vingança anunciada.

Fruto da leitura de Poder Local e Relação de Dominação, me vi tomado por uma sensação até então inédita: ser guinado a condição de testemunha e participante de alguns dos fatos mais fundamentais ali analisados. Ou seja, não na condição do curioso que escrevia algo sobre a história de sua aldeia de tempos de antanho, focando fatos praticados por homens que não conhecera, mas do aldeão menino de treze e dezessete anos, respectivamente, que viu, transformadas em história, ocorrências que se desenrolaram a poucos metros de seus olhos [20 de abril de 1963], que ensejaram disparos de armas de fogo que ouviu [21 de abril de 1963], que viu areias da construção da sede da Banco do Brasil, na Praça da Matriz, transformadas em trincheira de guerra [22 de abril de 1963], que esteve na passeata de 08 de agosto [de 1963], presenciou o sepultamento de Euclides e do filho [09 de agosto de 1963] e, finalmente, em 01 de setembro de 1967, acompanhou o enterro de Manoel Teles e ouviu o comovido discurso de Manoel Cabral Machado à beira da sepultura.

Então, aqueles fatos, que foram, e ainda são, motivos de longas e renováveis exposições/discussões entre os da minha geração, galgaram um patamar superior,  ao ser enquadrados como exemplos do coronelismo urbano, temática central do livro de Antonio Carlos dos Santos, na linha de ensaio anterior de Ibarê Dantas, ali citado, enquanto que, para nós - que neles estávamos como curiosas testemunhas - a preocupação maior se resume em fixar os fatos em seus devidos lugares, na tentativa de explicar como tudo aconteceu. Afinal, a narração das ocorrências fica a cargo de quem viu; o estudo, de quem entende.  O que ninguém podia imaginar é que, pela sua importância no contexto local, ficassem, como ficaram, sedimentados na memória dos que deles viram e passaram adiante, para, depois, como última etapa, atracarem em livros, sob o batismo da história, o que já começa a ocorrer. (Correio de Sergipe, 11 de junho de 2016).

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