sábado, 4 de abril de 2020

CONTOS AMAZÔNICOS, Inglês de Souza


CONTOS AMAZÔNICOS, Inglês de Souza, Editora Martin Claret, 2005, 149 páginas, ISBN 979 – 85 – 7232 – 631 – 6



Inglês de Souza faleceu em 1918 e tem ligação com Sergipe, na época do império: foi presidente da província de Sergipe de 17 de maio de 1881 até 28 de janeiro de 1882. Ficou aqui menos de um ano. Era casado com uma sobrinha de José Bonifácio de Andrada e, logo em seguida, assumiu o governo do Espírito Santo.

Além de político, publicou livros, quase todos tratando da Amazônia e sua gente, como este “Contos Amazônicos”, de 1893.

xxx


Eu encontrei essa pequena resenha em meus alfarrábios virtuais, escrita por volta de 2014. Poderia apagá-la simplesmente. Mas não pude. Há um conto no livro que nunca esqueci, “Voluntário”, pelos motivos que exporei abaixo.  

É provável que eu não tenha lido todos os contos e, agora, depois desses anos todos, não vou investigar e nem reler. Localizei o livro esta semana em uma biblioteca auxiliar que mantenho na Coroa do Meio, em um sótão, numa casa que nem me pertence mais. Tenho um prazo para sair de lá que eu mesmo me dei. Por isso, de quando em quando, vou buscar livros para as bibliotecas de escolas e para a Geloteca que a Academia Itabaianense de letras instalou no Shopping Peixoto de Itabaiana. Esta semana, fui lá e trouxe um braçado de livros, entre os quais estava “Contos Amazônicos”, que nem sabia que ainda estava comigo. Também por isso,  resolvi recuperar a resenha.

xxx

“Cada história contada traz o jeito de ser do povo da região, suas crendices (feitiços), seus tabus e sua cultura nativa baseada em ervas e em fé. 

No conto “Amor de Maria” ... O narrador explica quão perniciosa é a crença de nosso povo em feitiços e feiticeiros. O tajá, que o povo chama Amor de Maria, “inculcado à pobre moça como infalível elixir amoroso, é um dos mais terríveis venenos vegetais do amazonas”.

E o “Voluntário” revela a face ingrata das guerras, no caso, a do Paraguai. Caboclos rudes eram pegos na marra (recrutados), arrancados de sua vida ingênua e levados para a frente de batalha nos chacos do estrangeiro. Tia Rosa possuía, de tudo na vida, um único filho (Pedro), tapuia como ela, que a mantinha, pois ela era doente. Seu guerreiro foi caçado e levado, junto com outros índios, à ferro, de navio, ao campo de batalha, servir de alvo fácil aos irmãos guaranis comandados por Solano Lopes. No caso específico de Pedro, um advogado se condoeu da mãe doente e tentou anular o recrutamento. O motivo era justo mas a autoridade local, para não manchar o prestígio do recrutador, autorizou o embarque. Nas guerras, a lei não vale nada. Um juiz se curva ante qualquer um que se diga preposto do mandatário (no caso o imperador Pedro II).

Como quase todos caboclos amazônicos, o tapuia Pedro jamais retornou.

“Ainda há bem pouco tempo vagava pela cidade de Santarém uma pobre tapuia doida (tia Rosa, mãe de Pedro). A maior parte do dia passava-o a percorrer a praia, com o olhar perdido no horizonte, cantando com a voz trêmula e desenxabida a quadrinha popular:

Meu anel de diamantes
Caio na água e foi fundo
Os peixinhos me disseram:
Viva Dom Pedro Segundo!”

xxx

E o conto me fez recordar de tio Omero, falecido há poucos anos, que foi recrutado para lutar na Segunda Mundial. Ele foi arrancado das Flechas (ele e mais outros) para uma guerra estranha no outro lado do mundo. As famílias protestaram e não houve jeito.  E os ferreiros rezaram tanto que, dois ou três meses depois, um rapaz alto e loiro bateu à porta do sobrado do sítio. Era tio Omero, fora dispensado, escapou de morrer na Itália, como morreram seus amigos agricultores que não tiveram a sorte de ter o coração virado para o lado direito.

xxx

Apenas para cumprir o cerimonial, são os seguintes os contos que compõem o livro:

Voluntário (citado acima)
A feiticeira
Amor de Maria (citado)
Acauã
O donativo do capitão Silvestre
O gado do Valha-me-Deus
O baile do Judeu
A quadrilha de Jacó Patacho
O rebelde (uma novela)”

Aracaju,11 de maio de 2014, revisão para o blog em 2020abr03)

Post scriptum:
O livrinho pertence a uma coleção que fica nas gôndolas de livros populares nas livrarias (inclusive Escariz Aracaju), lá atrás.


CASA-DE-FARINHA E OUTROS ESCRITOS, Cléa Maria Brandão


CASA-DE-FARINHA E OUTROS ESCRITOS, Cléa Maria Brandão, J. Andrade (2005), 180 páginas, sem isbn.


Peguei o livro emprestado com um amigo que faz editoração eletrônica (Walfredo). Ele guarda, à vista das visitas, algumas joias raras. Emprestou-me com relutância, temendo, talvez, que não o devolvesse.

Casa-de-Farinha é uma viagem interessante, ilustrativa e bucólica ao povoado Pedro Gonçalves, em General Maynard, uma cidadezinha de nada aqui da zona açucareira sergipana. O povoado parece ser o berço da autora ou de seus ancestrais, alguns ainda morando lá.
São vinte capítulos tratando de um Brasil singelo e bonito que funciona.

As chaminés fumacentas dos fogões de lenha lembraram-me os sítios de Terra Vermelha do meu tempo de menino, quando o fogão a gás ainda não chegara.

Há os quiabos, ainda tenros, quebradinhos no pé; há dona Rosa perdendo os dedos no rodete porque teimava em ficar ouvindo as conversas das raspadeiras de mandioca; há a faquinha marinheira afiada que descascava a mandioca e escalavrava os dedinhos inocentes; há o defunto que suspira (que me lembrou o conto “O Testemunho do Tropeiro Morto”); há a simpatia para mudar a direção da fumaça das castanhas assando; há a tapagem da casa no sopapo (em um dia nascia uma nova casa - por que não foge logo outra moça?); há o velório viaje Vasp; há a manipueira venenosa, se ingerida mata, a menos que que o envenenado tome um copo de mijo de Sancho preto... Que horror!

O livro, nesta parte que fala da Casa de Farinha, é adereçado com exclamações fechando os textos: que horror! Uma fera! Imaginem! Coitada! Piedade! Essa é incrível! A minha mãe que o diga! A cachacinha no estilo! Acepipes! Eu não ia ficar sozinha, claro! Fica a lição!..
Elas dão um sabor especial de intimidade. Como se o autor não se contivesse e deixasse escapar sua emoção, saindo do formal e caindo de vez no jeito do povo falar, no meu jeito de ler conversando com meus personagens: brigando, aplaudindo, considerando. Ora como o narrador formal, ora como autor mesmo, saindo de seu gabinete e entrando na história para dar palpite.

Casa-de-farinha me permitiu uma viagem agradável ao passado, que é meu também... Agora é! E saborear um estio despojado, coloquial, com o compromisso exclusivo de mostrar esse povo do povoado Pedro Gonçalves vivendo decentemente. E viver momentos mágicos que jamais esquecerei.

“Outros Escritos” é composto por segmentos estanques: Discursos; Crônicas; Ensaios; Poesias; Perfis, Tipos inesquecíveis e contribuições. Destaco as crônicas publicadas em jornais e que falam de pessoas e instituições e que me reavivaram a lembrança ou me ensinaram coisas de que não sabia.

Aracaju dez/2010, ajustes em 04 de abril de 2020)

CHÃO EM CHAMAS, Juan Rulfo


CHÃO EM CHAMAS, Juan Rulfo,Edibolso, 2015, tradução de Eric Nepomuceno,174 páginas, Isbn978-85-7799-461-8



Li “Chão e Chamas” um ano atrás e abandonei no terceiro ou quarto conto, achei cansativo, me fazia cochilar. Um mundo de pobreza imensa, de azar maior ainda (se é possível haver). Imbecis, aproveitadores, gente ruim, malvada... O livro não me fazia bem.

Para rever uma imagem que não me saía da cabeça, “um cara seco, chegando em uma vila fodida, onde não havia vivalma”, retomei emprestado o livro a Expedito (ele é o dono), porque “Pedro Páramo” (que era o que eu queria ler), onde imaginei que a imagem habitava, sumiu da minha pequena biblioteca, como sumiram misteriosamente outros dos quais tenho grande ciúme. 


Passei  os olhos no primeiro conto, ”E nos deram essa terra”. Um pedaço da imagem que eu buscava revelou-se: “quatro homens, a pé, atravessam o chapadão inóspito em busca de um povoado, que ficava além. Um lugar seco, pedregoso, sem vegetação e muito quente. Até um pingo de água avulso fazia sucesso. Nenhum dos quatro falava. “Aqui a gente fala, e as palavras ficam quentes dentro da boca por causa do calor que faz lá fora, e vão se ressecando na língua até a gente ficar sem fôlego.”.

Era a imagem que eu buscava, então, poderia para a leitura. 

Mas avancei. Pulei a “Colina das Comadres” e parei em “É que somos muito pobres”. Reconheci-o da primeira leitura mas fui até o final. Gostei demais! Quase que sou levado pela enchente do rio, embolado “no meio daquela água negra e dura feito terra corrediça.” E chorei com a menina Sacha, a perda da vaquinha, sua garantia de um futuro mais digno (dote de casamento);  pela minha “face correram (também) fiozinhos de água suja como se o rio tivesse entrado dentro de mim.” E fiquei de boca aberta, vendo “os dois peitinhos de Sacha se movendo para cima e para baixo, sem parar, como se de repente inchassem para começar a trabalhar pela sua perdição.”

O ”4. O Homem”, nem precisei reler todo, pois veio à minha mente cada segmento triste. O que não se esconde sob a bondade pode ser maldade pura!

Pulei páginas e parei em “12.Passo do Norte”. E encontrei aquele sonho que ponteia em "Pássaros do Entardecer": busca de um bom lugar pra viver, ou a fuga do lugar comum. Esse lugar aqui era após a fronteira com os EUA, onde o carrasco mata sem julgamento ou dó. Por que os filhos (alguns) acham que os pais devem protegê-los eternamente? Comi bredo cozido e fui buscar Tránsito, a esposa que não valia um tostão furado.
E na sequência, li “13.Lembre-se”. Pequeno e genial. No preâmbulo, a vida de uma família ou lugarejo (sempre trágica) com todos os seus ingredientes sujos e temperos ácidos.

“14. Você não escuta os cães latir” é econômico, profundo... uma escrita agradável mas cheia de mágoas. Tonaya que ficava logos após o monte (como  Alvide (de Cabo Josino) tomou chá de sumiço. O pobre pai tenta salvar o filho indigno e este, carregado na cacunda do velho, não consegue ouvir o latido do dos cães. Isso era muito mais fácil do que subir e descer serra com aquele peso nas costas. 

Parei a leitura de “15 O dia do desmoronamento”, quando o narrador (seria Meliton) começou a recordar o longo discurso do governador. O conto tem uma engenharia interessante mas precisava ser mais ágil.

“16.A herança de Matilde Arcángel” como os demais, há capricho na escrita. Aqui, um pai gordo menospreza um filho magrinho e quem conta a história é o padrinho do magrinho, que foi apaixonado pela mãe (atual esposa do gordo) no tempo de solteiro. Quando menina, a mãe “se infiltrava como água no meio de todos nós”. E, de uma hora para outra, virou moça e assumiu “um olhar de semissonho que cavoucava pregando-se dentro da gente como um prego que dá muito trabalho para desapregar”. O autor é um fissurado polidor de palavras e de imagens.

O "17. Anacleto Marones" se arrasta mas não solta o leitor, que quer saber o que essas dez mulheres foram buscar com Lucas Lucatero, um vaso torto que mora em um fim do mundo. E Lucas vai postergando com tramoias porque não se interessa em atendê-las. Cada uma vai sendo “expulsa” e, já noite, fica Francisca, que tem um bigode de Pancho Vila. Ele é pilantra mas nem chega aos pés do Santo Menino (Anacleto Marones), um João de Deus das Minas Gerais, papador de devotas e de crianças.

São 17 contos com frases bem formadas e encadeamento do enredo elogiável. Mas um tanto monótonos, como se o autor os alisou tanto que nublou a espontaneidade. Há um mistério na escrita de Juan... Até os diálogos alegres parecem com tristes monólogos; vitórias têm sabor de derrota; em cada curva há um morto. A escrita soa como voz tenebrosa em caverna escura socada em selva e habitada por morcegos e aranhas antropófagas. Dá medo, mas são bons!

(Aracaju, 03 de abril de 2020, Antônio FJ Saracura).

quinta-feira, 2 de abril de 2020

AS CRÔNICAS DE NÁRNIA, C. S. Lewis


AS CRÔNICAS DE NÁRNIA, C. S. Lewis, volume único, 2009, Martins Fontes, 2 edição, 751 pag, isbn 978-85-7827-069-8


Eu comprei o exemplar que custava na véspera 99,00. A Saraiva botou em oferta por 39,00. Uma oferta relâmpago, para premiar retardatários que só saem do shopping tangidos pelos vigilantes. Na verdade, comprei, mais por causa dos livros de JRR Tolkien (Hobit e Senhor dos Anéis) que me encantaram. J.S Lewis e Tolkien cultivaram na vida uma bonita amizade, e a isso eu dou valor sem tamanho.

Tanto um como o outro foram professores de Oxford, de matérias ligadas ao inglês arcaico e a às raízes do povo, e participavam de um empreitada mútua e singular: escreverem livros de fantasia que mostrassem o passado do povo anglo saxão,  como os vikings possuíam, cheios de mitos e lendas. Teriam que inventar. O trato era que Lewis (natural da Escócia) escrevesse sobre a exploração do espaço sideral e Tolkien, inglês, da terra antiga. Eu achava difícil se obedecer à essa de definição de fronteiras, pois, na fantasia, as fronteiras se diluem na imaginação do autor. Tanto é que, Roverandom, de Tolkien, é a história de certo cachorro mandado ao espaço por um mago irritadiço. Então, os dois autores andaram aqui e acolá invadindo a seara do amigo, mas riam, apenas das tentações.


“As Crônicas de Nárnia” é um clássico da literatura mundial. São sete livros encapsulados, daí a quantidade avultada de páginas. A obra pertence à literatura fantástica (quando os bichos avoam e falam como gente) e foi composta entre os anos de 1949 e 1954. E é o sétimo livro mais vendido no mundo, com 110 milhões de exemplares, atrás apenas de O Senhor dos Anéis, Peter Rabit, O Corão, Livro Vermelho de Mao Tse Tung, Harry Poter e a Bíblia Sagrada. Há vários filmes tratando de cada uma das crônicas ou de partes delas que são sucesso entre a garotada e os madurões.

O primeiro livro do conjunto, “O Sobrinho do Mago” tem 97 páginas apenas e acabo de o ler. Conta das aventuras de um garoto e uma garota que caem numa armadilha de um velho mago (tio André) e, por meio de anéis, viajam no tempo ou espaço até mundos encantados. E veem coisas de arrepiar as penas do papo das saracuras. E eles assistem a criação do reino de Nárnia, que é o palco de todos os sete livrinhos, pelo que sei por outras fontes. Há o leão Aslan, há a maga má Jadis (que me lembrou Melkor de Tolkien), há um rei Franco (cocheiro importado das ruas de Londres) e sua esposa, a rainha Helena, antes uma dona de casa comum. Há passagens belas e empolgam até um coroa de mais de setenta como eu. Histórias das carochinhas, encantamentos, fadas más, princesas lindas. Ainda há as mesmas árvores que habitam os tempos gloriosos dos reis elfos de Silmarilion (Tolkien).
E ha mil imagens que preciso anotar (algumas) : “Era uma dessas casas que ficam muito quietinhas e aborrecidas durante a tarde e que sempre cheiram a carne de carneiro”. “Era um silêncio morto, gelado e vazio.” “Tinha-se a impressão de ouvir as árvores bebendo água com suas raízes.” ... São batidas? Até podem ser, mas bom contexto, me fizeram sorrir contente.

Mas vou parar a leitura. Ficarei devendo seis obras primas (resto do livro). Que me perdoem o autor e a imensidade de leitores. Porque? Como o primeiro, o enredo de todos, de certa forma, já me são conhecidas devido às fontes variadas que a vida me deu. E, por outro lado, há livros outros que serão surpresas da primeira à última página esperando por mim, impacientes, na fila.

Eu não quero morrer sem os ler.

(Aracaju, 02/04/2020, Antônio Saracura)

sábado, 28 de março de 2020

CABO JOSINO VILOSO, Francisco J. C. Dantas


CABO JOSINO VILOSO, Francisco J. C. Dantas, Planeta,2005, 150 páginas, isbn 978-857-76-650-676 (85-7665-067-3)


De início, senti o cheiro longe dos descampados e dos personagens de Juan Rulfo. Logo a seguir, o singular perfume do Cabo Josino Viloso (nada a ver com a catinga horrível de seu corpo suado: “Puxa a gola da túnica, assopra nos cabelos da titela; de volta, recebe o bafo morno que fica exalando o fartum ardido em sua cara (página 17)” ficou tão familiar que me deixei embeber e segui em frente na leitura.

 

Este Cabo da Polícia Baiana é um homem inseguro (eu também) até ante o conhecido. Ora, todos os urubus cagam em sua cabeça; ora, São Migué o favorece inesperadamente. Quando vai ser massacrado pelos malfazejos convictos do antro chamado Alvide, o santo levanta o queixo deles... A cabeça do Cabo era um malho de pedra maciça cravado nos ombros. Todos olham e se benzem atrapalhados. Aquele intruso bruto, no jogo de cabeça domingueiro (similar a luta de carneiros marrentos do Cazaquistão) seria a desgraça dos adversários. O que não provocaria uma cabeçada dele na boca do rim de um infeliz. E resolvem recuar. Era a primeira vitória, o início da improvável amizade, que começa com o respeito (temor).

 

O Cabo, inconscientemente, cria seus mundos de sofrimento e de consolo. Sua mente reverte o revés em vitória. Ele aumenta o poder do inimigo para que a derrota possa ser vista, por ele mesmo, como até uma pequena vitória. Está fadado ao fracasso, mas surpreende com o sucesso. Comemora os percalços, banaliza-os. Gaba-se porque não foi recebido à bala ou à cacetada no povoado (respeito/temor dos moradores). A indiferença dói mas não tanto. E, em Zeca Papão, que o esnobou, encontra mérito: “parou suas cobranças para vir falar comigo um tiquinho!”

 

A revolução de 1964 chegou a Alvide caçando comunista. O Cabo se borrou de medo. Esse País perde tempo à toa! Depois, quando os caçadores foram embora, fanfarreou grosso (de longe, óbvio) esnobando-os.

Lembrei-me de  meu avô Totonho Bernardino quando Lampião levantou o acampamento do riacho das Flechas.

 

Francisco Dantas, pela boca de um ou de outro personagem, especialmente pela lógica primitiva e lúcida de Josino Viloso, vai protestando contra os desmandos do Brasil. Heróis não reconhecidos; aproveitadores enriquecidos; a imbecilidade pisando na cabeça do mérito. O trabalho dobrado da polícia, que prende e a justiça solta. As promessas fúteis dos políticos... E aí, o Cabo entra na variante e distribui empregos fictícios na Polícia Baiana aos desconfiados paisanos. Quem não deseja um futuro digno aos filhos?

 

E Papão (ótimo nome) propõe um negócio de ouro: em vez de jogar o meliante em um buraco tenebroso (que invenção da gota serena!), devia cobrar fiança. O Cabo reage, bate pé contra, e pede pra explicar melhor. E, mais à frente (não sei se pagando royalties à Zeca) pratica a fiança. Há aqui a aplicação da lei da compensação: se você não me paga um salário digno, eu arrumo um jeitinho de me recompensar. Ou não?

 

O que não faz o amor que se revela tardio?

O Cabo mergulhou na cachaça e nas artes, virou escultor. Os três são sempre bons parceiros (paixão, bebida e artes).

 

Francisco Dantas constrói uma obra bem humorada, erudita, digna. Uma obra universal. O gênero picaresco comemora. Há Cancão de Fogo, Mazaropi, Malazarte, João Grilo... E muito mais. Há espaço de sobra para boas gargalhadas, para a arte da convivência e para a arte paciente da negociação. Há o linguajar padronizado impecável e o informal (oral) bruto e belo. Consagra nossas palavras fortes, que o povo simples usa, e que não fazem arrodeios. Os dicionaristas têm que as catar para enriquecer seus léxicos limitados. Estão na urdidura da trama, como fios de ouro entranhados. Penso que é uma ação corajosa e louvável e marca registrada do mago do Riachão.

 

Leiam Cabo Josino Viloso (a Estante Virtual possui vários exemplares à venda).

 

Leiam a literatura sergipana! (Eu não podia me deixar de fora).

 

(Eu vivo no meio intelectual de Sergipe (academias de letras e encontros literários) desde 2008 quando publiquei Os Tabaréus do Sitio Saracura. Nesse tempo todo, ninguém me recomendou a leitura de Cabo Josino Viloso.  Sequer falou desse pequeno grande livro que, desde esse ano (ou um pouco depois) esteve  na minha fila de livros a ler e foi passado pra trás algumas vezes.

Por que será?)

 

 

Antônio Saracura, 2020mar26, em Aracaju (na quarentena do Corona).

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            





quarta-feira, 25 de março de 2020

UMA JORNADA COMO TANTAS, Francisco Dantas,


UMA JORNADA COMO TANTAS, Francisco Dantas, 2019, Alfaguara, 239 página, isbn 978-85-5652-093-7.

É a narração de uma viagem entre um povoado (Borda da Mata) e a cidade que o detém (Rio-das-Paridas). Menos de quatro léguas. Em um carro de boi e numa época de intensa chuva (meio do inverno). Assim, a estrada é um atoleiro sem fim. Levando uma mulher, à morte, com um menino enganchado no útero, que as parteiras do povoado não deram jeito. A esperança é que se chegue à tempo de transportá-la à maternidade da capital (Aracaju) em uma ambulância que há no posto médico do Rio-das-Paridas.

O autor é um dos grandes romancistas da língua portuguesa. Autor de clássicos como Coivara da Memória e os Desvalidos... Detentor de prêmios, entre os quais: o Internacional da União Latina de Literaturas Românticas (2000, em, Palermo/ Itália).

E não deixa por menos. Esmiunça o carro de boi, disseca desde o carreiro até canto dolente do eixo de baraúna nos cocões de sucupira. As pessoas de uma sociedade perdida no fim do mundo com seus caprichos, manias, jeito de ser, sabedorias. A solidariedade e a discriminação política, econômica, geográfica. Os equipamentos que suportam esse povo desprezado.

Inicialmente, me causou espanto, Madrinha, às êtas, com um filho encalacrado imerso numa hemorragia sem tamanho, embarcar em um carro de bois, trem lento demais e sem molejo nenhum.

Os fios do telégrafo passavam por cima do povoado mas nem desciam para ouvir a dor dos moradores. Todos esperavam que a parteira Sinhá Amália desatasse o nó e, quando entregou os pontos, não havia mais tempo demandar Valdomiro montado em Castainho buscar socorro. Seriam três viagens. Por que não se pegou um carro de feira ou a marinete fantasma? A chuva que já vinha caindo há dias, desmanchou as estradas, isolou a comunidade.

Sobrou o carro de bois do enigmático Zé Carreiro: “O mundo pode desabar a sua volta desde que não afete a pachorra de seus bois”. 
Fiquei fã.

Teodoro é o pai do menino enganchado. Um gigante fragilizado. Ruivo como um irlandês e inventivo como um judeu na Matapoã. Carpina, marceneiro, escultor. “Cavacos e lascas menores avoam aleatoriamente e zunem no ar parado... O fio do machado abre uma boca funda que fere até o âmago”. Delícias que só um bom doceiro consegue cozer.

Encontrei velhos amigos (palavras e expressões, como em Coivara da Memória), alguns desinibidos e cheios de graça; outros, eu sabia que eram amigos, mas não atinava onde os vira na vida. Tive que ir ao dicionário. Eles me contaram histórias de um tempo junto. E mais outros que eu sentia que eram amigos, pelo som, pelo jeitão, mas, mesmo depois de vasculhar os léxicos, não achei nada que os ligasse formalmente a mim. Adotei-os e os guardei no mesmo compartimento dos demais amigos: “Numa boa, caindo pelas tabelas, não se manca, ferrado, bungada, gastura, quinto dos infernos, ofendido de cobra, cortado, maninho, punir por ela, quebrar a frieza, filho da mãe...”

Há trechos do livro que o leitor não respira, arrebatado. Eu tenho o fôlego curto pela idade e por sequelas de remédios errados que tomei, corri risco sério de vida. Mas morreria feliz, iria para o Reino Celeste que tia Amália não se cansa de encomendar.

“De repente, escutamos o estrépito de um animal a galopar em nossa retaguarda... Era Saturnino, envolto em um capote colonial, salpicado de lama, e amontoado numa burra alazã, Medalha.”

Eu saltei da rede (onde lia o livro) para ver de perto. Abri a boca, meu ar sumiu.

“Ele salta da burra, endireita os óculos que lhe dançam na cara, com uma haste mais curta remendada a arame, mal amarrado sobre as orelhas. Os vidrinhos das lentes sujos demais.”

Isso é ouro puro em pó, que entope o nariz do cristão.

O carro de boi é engolido pela cratera alagada na vereda das matas do Balbino. Não pode retornar, fazer curva ou seguir frente. Atolado até a tampa. O velho Saturnino exige o impossível. O embate entre o forte e o fraco. Medição de força. Há um momento em que o poder (força maior de Saturnino) não manda mesmo. Como o silêncio é potente! E Zé Carreiro, com uma reza primitiva, faz o improvável milagre.

E a boiada de nelore investe contra os bois de carro (Página 155). Que ciúme besta! Meu sangue parou. Esturros viajam pelo vento, desafiadores. E o rei vem balançando a toalha para briga. Zé Carreiro com uma vara de ferrão não é nada. Mas ele sabe falar a língua dos brutos. Tiro o chapéu e abano meu rosto em busca de ar.

Finalmente o Rio-das-Paridas (meio do capitulo 23). Saturnino (sempre com os óculos lêfos e embaçados) entrega a rédea da burra a Valdomiro e corre ao posto médico, adiantar o socorro à Madrinha.

Até o último parágrafo do livro (vinte e três páginas cheias) meus pulmões retrancaram. Não ia perder nem um suspiro do triller. Ô Canutinho filho de uma puta! É como qualquer um que tem o poder, desde o rei, ao mendigo de rua. Mas a prepotência desse prefeito nojento ultrapassou as raias do impossível. Se Medalha não lhe tivesse comido um naco do braço (foi pouco) eu, mesmo como leitor, lhe faria uma desfeita qualquer. Até Valdomiro, menino frouxo, que só vai prestar para ser padre ou professor, ensaia uma brabeza, que dá em nada.

E aparece Teodoro (São Jorge, Gandalf e Aragon, em uma só pessoa) como o cavaleiro salvador, “cortando” o cavalo de Manuelzinho do Salgado. A Ambulância sem chave (escondida pelo prefeito), sem o cabo de bateria e o platinado (idem) é transformada em um bola de lata.

E passa roncando, à frente do posto, o jipe de um exausto fazendeiro retornado da roça. Aracaju é longe mas o céu ainda é mais.

Eu não morri sufocado, mas Teodoro vai sofrer o diabo no próximo romance da série; talvez ele morra.

(Aracaju, 21 de março de 2020, Antônio Saracura)

 (...)


COIVARA DA MEMÓRIA, Francisco J. C. Dantas


COIVARA DA MEMÓRIA, Francisco J. C. Dantas, Estação Liberdade (2001, terceira edição),isbn: 85-85865-13-x (9 788585 865139)


COIVARA DA MEMÓRIA, Francisco J. C. Dantas

Por Antônio FJ Saracura *

Sempre folheava livros de Francisco Dantas, lendo pedacinhos aqui e acolá. 

Há cerca de um mês, li inteiro “Caderno de Ruminações” e, agora, criado o gosto, “Coivara da Memória”, livro celebrado por ícones da crítica.

É livro massudo. O fraseado segue um padrão, quase todo do mesmo tamanho. Frases gordas, com gosto de melado de engenho que escorre preguiçoso, já açucarando. Buriladas por ourives suíço (que seja de Itabaiana ou do Riachão). Escovadas com zelo para produzirem um brilho raro. Boa parte dos adjetivos são redondos, fatais, de som fechado (página 214), como mortais tacapes tupinambás.

Após pegar o ritmo da música, o texto escorrega macio, como um rio de planície, enchendo os olhos, e segurando guloso toda a atenção. Mas há momentos que toda aquela água se transforma em um regato cristalino cantando entre pedrinhas gastas do leito apertado. Outros que encachoeira arrastando o que encontra, até o surpreendido leitor.

As reminiscências (a vida pregressa do narrador), bem contadas, vão urdindo um mundo patriarcal violento, glorioso, decadente. É um romance denso que precisa ser estudado devagar, levantada cada palavra, cada entrelinha, examinada a cama, a composição, o efeito devastador de seu uso combinado. Francisco Dantas não precisa de pincéis, ele desenha as imagens com palavras. A um sopro seu, elas ganham vida e transformam a fantasia em realidade e vice-versa. É um mago. Só os magos podem libertar a magia das palavras presas pelo pouco uso ou uso inadequado.    

 “E minha avó, além de cumprir toda as obrigações de dona de casa, era, também, desde a hortelã que amanhava a terra para o cultivo de suas flores, ervas e verduras, até a artesã amestrada, cujas mãos de exímia bordadeira sabia arrematar com perfeição tudo o que produzia de útil para o consumo da gente. Lutava com tudo isso com a intenção de ajudar meu avô, de remediá-lo contra os gastos sem retorno de que ele tanto se queixava à medida que ia ficando mais velho, arrepiado contra o mundo...”(118-119).

Replico para sentirmos o poder da palavra bem usada. Pérolas assim estão espalhadas nas 395 páginas dessa coivara ardente.

“E via os tios aparecerem todas as semanas, obsequiosos, murmurando ou trocando segredinhos entre si, fazendo a ronda de urubus, e volta e meia dirigindo insolências aos que lhes eram desafetos, como se realmente já estivessem empossados do Murituba” (318).

Pessoalmente, fiquei gratificado, inclusive por me ter encontrado no livro com amigos rústicos (palavras e expressões que valem tesouros). Eles povoaram minha infância de poesia e, por motivos de etiqueta e frescura, depois na vida, os releguei a um meio esquecimento: “veio vindo... veio vindo”, “balangar (balangando)”, “aborrecimento medonho”, “embastida”, “ventas canadas de fumaça”, muito azuretado da vida”, “filipa de banana”, “puxar cobra para os pés”, “capotes coloniais”, “desasnara (que eu chamava desarnara)”, “ moças estampadas nas folhinhas (a glória ao adolescente seco)”, “desgramada”, “um homem de dimensões”, “gente posuda”(se afaste de mim!)...

O livro é inesgotável. Cada ideia que brilha é o link para mil outras que o leitor jamais dará conta de mastigar corretamente, a não que releia e releia.

É certo que discuti e briguei com o autor aqui de ali. Mas, ao final, fiz as pazes. E até pedi desculpas, o que foi fácil pela ausência do corpo. Eu é que, agoniado como sou, ainda não tinha alinhado adequadamente minha pisada, certamente me apressei demais.  

Viva o Povo Brasileiro, Sargento Getúlio, Grande Sertão Veredas, Vidas Secas, Coivara da Memória, Quatro Fazendeiros...

Eu queria muito estar nesse meio.

(Aracaju, dezembro de 2012, revista em 2020mar13).

(*) Escritor das Academias Itabaianense e Sergipana de Letras.