segunda-feira, 10 de agosto de 2020

JUNTA-CADÁVERES, Juan Carlos Onetti

 

JUNTA-CADÁVERES, Juan Carlos Onetti, Planeta Literário, tradução Luiz Reyes, 2009, 349 páginas, Isbn 978-85-7665-452-0

 



Francisco Dantas perguntou-me, no final de junho, se eu já havia lido Onetti. Eu nunca havia lido. Até três meses atrás, nem ouvira falar dele. De uruguaios, que me lembrasse, só lera pouquinho de Eduardo Galeano (As veias abertas da América Latina, comum) e Mário Arregui (Cavalos do Amanhecer, excelente). De Onetti (Juan Carlos) conhecia o que o próprio Francisco Dantas me revelara, em carta,  em março. Uma definição do que seria  “saber escrever”: “Há só um caminho (para saber escrever). E que sempre houve. Que o criador de verdade tenha a força de viver solitário, e olhe dentro de si. Que compreenda que não temos pegadas a seguir, que o caminho haverá de fazê-lo cada um, tenaz e alegremente, cortando a sombra dos montes e os arbustos anões”.

Quem seria esse irmão em pensamento? Aguçara-me todo.

E Dantas respondeu-me catedrático: “um dos melhores escritores que conheço.”

Ante minha infantil sinceridade e catecumenice literária, mandou-me “Junta-cadáveres”, como já fizera, me apresentando ao goiano Carmo Bernardes, este com três livros radicais que li atônito e publiquei resenhas em meu blog “Sobre Livros Lidos”. Quando puder, leia os dois!  

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“Junta-cadáveres” começa com a chegada na estação de trens de Santa Maria (cidade imaginária) de três putas gastas trazidas pelas mãos do velho gigolô, Larsen-Junta-cadáveres, chamado assim porque é especialista em sobras da noite e vive às custas delas.

E se encerra, também na estação de trens, quando as três putas, conformadas, e o gigolô, indignado, vão embora da cidade por ordem expressa do governador.

E nesse meio tempo, o mundo inteiro é recriado com seus pedaços esparsos de gente, lugares e momentos: O jornal El-liberal, a colônia dos suíços, o rio silencioso, a praça da matriz, a casinha recolhida de portas celestes... O doutor Diaz Grey, o poeta Jorge Malabia, o farmacêutico Barthê, o padre Bergner, o velho revisor Lanza, a basca Insurralde cheia de mistérios... As cartas anônimas, a invasão do prostíbulo, a iniciação do adolescente...

Onetti constrói locações, personagens e momentos com soltas pinceladas, como um adendo qualquer. A própria Santa Maria não é articulada, com ruas e praças. São pedaços que o leitor tem que arrumar mentalmente para levantar residências, fixar a igreja, ver o rio passando... O personagem Junta-cadáveres, que mais consome tinta, tem uma história fragmentada. Também os demais, como Lanza, o velho revisor do jornal, que poderia ser o “alter-ego” do narrador/autor e até Jorge Malabia, que o é de verdade...

A narrativa prende por artifícios insólitos, fazendo arrodeios, despertando mundos que o autor (talvez) nem tenha querido despertar. As frases se formam com adjetivos aparentemente mal colocados. Segmentos incoerentes. Sons, seres, ideias misturadas, até inconsistentes. 

O autor não se gasta com descrições óbvias. Deixa saírem palavras, imagens, frases que, a primeira vista, parecem não ter nada a ver com o que quer narrar. E o produto gerado desafia como um painel surrealista. O leitor suspeita que há links por baixo conectados e raciocina. Não se enfada. E descobre então que todo emaranhado de dizeres agregou valor inestimável à descrição.]

 “Aquele sorriso levantava apenas as pontas dos lábios, expressava humildade e bem aventurança, mas não era para mais do que um desenho insignificante, e saltava em minha direção, desde o canto dos lábios e desde o centro, desde o ponto onde o lábio superior e da minha cunhada viúva sobressaía inchado, erguendo-se como de um bebê de peito.”

A morte de Julita é um flash rápido e o leitor constrói mil hipóteses, agonia-se, cria expectativas que podem dar em nada. Os incidentes relacionados consomem apenas meia dúzia de linhas, ficam mais subentendidos e, ao mesmo tempo, plenamente esclarecidos por informações disparadas aleatoriamente.  

O autor mantem Marcos vivo, mesmo hibernado por páginas e páginas, desde que se indigna com o prostíbulo. Quando reaparece durante a campanha de cartas anônimas, nada tem a ver diretamente com elas. E lá no fim do livro, quando toma uma decisão intempestiva de matar gente e invade o prostíbulo de arma em punho, senta-se para conversar socialmente com o judeu que incrimina. E quando o prostíbulo é fechado, Marcos nada tem a ver diretamente com o fato. Sua culpa no cartório é evidente mas não pode ser comprovada para efeito de incriminação.

Por isso tudo (e muito mais) Onetti me parece inexaurível. Pode ser relido e parece outro. Estou sempre retornando páginas para sentir melhor cheiros que só desconfiara que havia. E havia bem mais. É desafio constante a cada página. Eu fico tentando adivinhar, tentando ajuntar os temperos, chegando a meias conclusões, mas sei nunca serão definitivas. É uma escrita que instiga enquanto sacia.

E Francisco Dantas, ante meus espantos, ensina o que eu já deveria saber: “a gente só cresce com os livros que desafiam o nosso entendimento, que excedem a nossa capacidade de interpretação, que são irredutíveis à primeira leitura. E a outras. Qualquer pedagogo nos dirá que "aprender" é lutar com o desconhecido e desbravá-lo.”

Vou usar uma definição para poesia, que me pareceu irmã de meu pensamento, embora não tenha vínculo com o enredo básico do romance em foco. Peguei em uma conversa casual dos dois personagens (Lanza e Jorge), proferida pelo primeiro: 

“Um livro de versos nunca pode ser definitivo no sentido que nos interessa; é sempre um princípio; um caminho que se abre. Porque a poesia é feita com o que nos falta, com o que não temos.” 

A prosa também não?

(por Antônio Saracura, 2020ago09, durante a reclusão pela pandemia do Corona Virus).

 

terça-feira, 4 de agosto de 2020

OS DESVALIDOS, Francisco J.C. Dantas


OS DESVALIDOS, Francisco J.C. Dantas, Alfaguara, 3 edição,2012,250 páginas, isbn 978-85-7962-137-6



Acabei de ler ontem à noite, com o nariz entupido e me pelando de medo do Corona, “Os Desvalidos”, de Francisco Dantas. Foi uma releitura, que eu devia a mim mesmo, pois, na primeira vez, pulei trechos, como se um trem pudesse saltar estações para chegar mais rápido à festa, se estava nela desde a primeira página.

Agora, outra vez, pecador renitente, também pela cabeça povoada de vírus reais e dos que a fantasia inventa, tão perigosos quanto, me enganchei nas mudanças de cenário e quase pulo estações na via-sacra de “O Cordel de Coriolano” (primeira parte do livro). De novo? Seria diabólico. Então aguentei firme.

Na segunda parte, “Jornada dos Pares no Aribé”, o livro pegou fogo. Escrita febril. O encadeamento das ideias e dos fatos arrebata. O leitor é possuído pelo enredo.  

Não precisa haver fatos espetaculares para se ter um grande romance; basta estar perfeitamente escrito, como esse “Os Desvalidos”. Um incidente secundário, fora da trajetória conhecida do bandoleiro Lampião, é transformado em epopeia grega... 

O bando de Lampião encurralado (como sempre viveu), espoliado pelos poderosos que o usou e nunca pagou, corrido pelas "volantes" muito mais sanguinárias, chega às vizinhanças do Aribé, ao mundo miúdo de Coriolano, o sítio cascalhado com uma estalagem decadente.

Em noite de insônia, o autor junta o corcunda tamanqueiro Coriolano (“nem no céu em quero entrar como tamanqueiro”), o ousado Zerramo (“Esse sim é que é homem de dar fama a cemitério”), o resignado tio Filipe (cativou o coração da fogosa Maria Melona, que se aquietou) e outros desvalidos, de um lado... e do outro, Virgulino Ferreira (sujo, fedido, acossado), coronéis manhosos, volantes impiedosas, miseráveis cheios de inveja... 

O ar seco de uma anunciada última noite de vida povoa-se de relembranças dolorosas e líricas. 

Coriolano quer apenas tocar a pequena estalagem em paz, que foi o que conseguiu produzir por ele mesmo; Virgulino quer criar com Santinha os meninos como todo mundo cria. Sonhos parecidos aos de Zerramo, de tio Filipe, aos nossos, desvalidos também. Também ao sonho da cangaceira Saitica, que já foi Zé Queixada, indo pra Serra Negra olhar o filho único, já rapaz feito, que nunca mais pode ver, de sua única barriga, parido já sem pai para o acarinhar, mas levando jeito dele, a conversa manhosa e agradadeira. Sonhos justos, simples e naturalmente viáveis em qualquer lugar do mundo.

E esses dois mundos (Coriolano e Lampião) se esbarram sob o teto da estalagem com o sol nascendo.

Virgulino Lampião mal guarnecido de cabras e Coriolano sem qualquer proteção, porque ele, tio Felipe e Zerramo não são nada diante de um rifle carregado. E uma carga de fogo e chumbo desmancha o gigante inteligente cheio de estratégias e ousadias, Zerramo. Coriolano, virou-se num rato e sorrateiro escapa para capoeira, some do Aribé. Tio Filipe é arrancado da morte por Saitica (Maria Melona, a ex esposa agravada), que o joga na garupa do cavalo e parte em disparada. Bem à frente, cai nas garras da impiedosa volante. O filho a espera em vão. E o esperto amansador de cavalo, o caixeiro viajante vocacionado, tio Filipe, assiste sua Maria sendo estuprada pelo batalhão de Cachimbos... 

Tempos depois, tio Filipe aparece puxando uma carroça de um fueiro pelas ruas sujas de Rio das Paridas. Coriolano olha o tio assim, uma sombra de nada... e nem mais tem um fio de pestana para puxar.

A fortuna dos desvalido é fortuita. Os que ficam ricos, findam sem nada, como se fosse uma maldição do destino. Aqui não cabe senhores. Lampião, as tropas volantes, o paisano de um modo geral. Até os gandolas, como os coronéis que financiam as volantes e ludibriam os cangaceiros vivem se escondendo com medo da vingança.

O romance encanta pela escrita irretocável. Não me lembro de ter lido textos tão eficazes. Palavras fortes que a pressa dos novos tempos jogou fora ressuscitam desenhando mundos inimagináveis. É uma daquelas obras na qual parece que o autor coloca nela toda sua arte. Tintas nobres. Pincéis finos. Alma lúcida. Melodia, perfume, sabor que saciam...Todos os sentidos se combinam para gerar a sensação de privilégio único, que o leitor, como eu, acha que ganhou.

Não sei de ninguém que escreva sobre Sergipe (ou não) que chegue perto de Francisco Dantas. Mesmo assim, tem sido meio despercebido até pelos leitores que ainda há. Se temos todo o ouro do mundo aqui em casa... Vamos a ele, ler Francisco Dantas!

(Aracaju, 01 Agosto de 2020, extraída do blog: Antônio Saracura Sobre Livros Lidos).

sábado, 18 de julho de 2020

ANTÔNIO JOSÉ GOES, uma vida missionária de pioneirismo


ANTÔNIO JOSÉ GOES, uma vida missionária de pioneirismo e de dedicação aos Yanomani do Amazonas, Leonardo Ferreira de Almeida, 2020, Criação Editora, isbn 978-65-990483-7-1.


O padre Antônio José de Góes seria um herói brasileiro sergipano, itabaianense esquecido até de seus conterrâneos. Mais um! Apenas conhecido no nicho religioso dos salesianos, que deve estar entulhado de heróis, sendo padre Antônio mais um. Caso esse oportuno livro não existisse.


Quando ouvi falar de que um sobrinho de Nandinho de Sizino (que é meu amigo, lê meus livros e ainda os dá de presente em aniversários), chamado Leonardo Ferreira de Almeida, estava escrevendo um livro sobre padre de Itabaiana, Antônio José de Góes, que catequizou índios no Amazonas eu vi um erro: não seria padre, mas frade. É que eu desfrutava (e ainda desfruto) da amizade de um homônimo, frade, que atuou no Amazonas catequizando índios, também nascido em Itabaiana. Conversei com o autor e ele me garantiu que eram dois santos distintos.

Mas que Itabaiana é essa, meu Deus? De tudo que é bom e que outros lugares tem um ou nenhum, ela tem dois ou mais.

Deixando o frade (ele merece um livro igual e ainda vive enclausurado no Convento do Santo Antônio lendo a boa literatura, inclusive a minha, só lhe falta Pássaros do Entardecer), navego pelo trabalho de pesquisa (este livro), apresentado de maneira clara, revelando a surpreendente vida do padre Antônio José Góes.

O padre nasceu no povoado Pinhão, em 1918, quando o Pinhão era o coração de Itabaiana. Ordenou-se padre salesiano aos 27 anos, em 1945. Exerceu várias funções na cadeia educativa salesiana pelo Brasil até que, em 1946, foi designado para a escola de Tupiraquara, atualmente, Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas.

Sete anos decorridos, em setembro de 1952, soube que índios selvagens (macus do mato) haviam sido contatados por caboclos navegadores. A informação foi levada aos salesianos de Tupiraquara. Deus conduziu os caboclos. Padre Antônio era o diretor na escola resolveu embarcar com os navegadores para a região do pico da Neblina, a um encontro já marcado para dois meses à frente.

Mas os índios não estavam lá no dia marcado. Precisaram ser caçados por vários dias na selva...

Assim começa a obra missionária do padre Antônio José de Góes até a morte prematura, em 27 de fevereiro de 1976, com 57 anos de idade, 30 de sacerdócio e 22 de dedicação missionária aos índios Yanomamis.

O livro narra epopeia nesses 22 anos. Há aventura, há derrotas, vitórias e muita fé em Deus. É um resgate respeitável feito em variadas fontes: jornais da época; arquivos da congregação; escritos do própria padre; filmes, como o documentário, “Meu caminho é o rio”, feito por visitantes estrangeiros; memória dos sobreviventes (através de entrevista); a família (parte ainda mora no povoado de origem e a outra dispersou-se pelo mundo, inclusive um irmão do padre Antônio, também salesiano, padre Paulo Leandro de Góes, outro irmão, a freira Josefa Germana).

Sublinhei algumas passagens na leitura  que mostram o tamanho do personagem (Padre Antônio) e a portentosa obra que ele, pela congregação salesiana, executou nas brenhas no Brasil.

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“Quando eles começaram a confiar em mim, me levaram para conhecer sua aldeia”.

O começo foi muito difícil com muita desconfiança e perigo. Os Yanomanis viviam guerreando por caça, por mulheres e iam se dizimando uns aos outros. O padre Antônio virou o grande chefe, aquele que aconselha e mostra o caminho certo. Ele se destacava pelo seu porte, pela barba longa de capuchinho, até entre os estrangeiros que visitavam a selva. E mais pela fé, pela determinação, pela amizade que semeava, pelo respeito com que tratava os índios e os auxiliares na sua missão. 

Recebeu visitantes estrangeiros (biólogos, botânicos, antropólogos, cinegrafistas, que sempre andam pela selva) e mereceu deles consistente registro nos livros que escreveram ou nos filmes que rodaram; foram importantes fontes para essa obra. 

A orientação do Concilio Vaticano II com seu decreto “Ad Gentes” sensibilizou o padre Antônio que, assim, encontrou campo propício para sua catequese.

E o Pico da Bandeira com seus 2.891 metros na Serra do Caparaó perde a primazia de ser o mais alto do Brasil. O Padre Antônio morava no sopé do Pico na Neblina (3.100 metros) desde oito anos antes de chegarem os demarcadores, que ele ajudou. A linha que divide o Brasil da Venezuela deixa, por apenas 687 metros, o Pico da Neblina do lado do Brasil.

Padre Antônio celebrou missa embaixo de árvores, em palhoças improvisadas no meio da floresta. Sempre que viajava levava seu kit sagrado, com altar, cálices, hóstias e outros apetrechos usados na cerimônia.

Muitos índios Yanomanis têm sobrenome Góes, apenas em consideração ao grande chefe que curava doenças, que ensinava a ler, que dava bons conselhos aos chefes, que os ensinava a plantar e colher nos tempos de fome, que os tratava com dignidade. No batismo, eles mantinham o nome Yanomani e acrescentavam sobrenomes de seu gosto.

Padre Antônio participou das cerimônias indígenas como se fosse também um pagé, cheirando o Paricá, e acompanhou os Reahus, que é a cremação dos corpos mortos, como se fosse um índio. Os yanomanis queimam os mortos e comem a cinza com mingau de banana, em grandes festas.

“Eu sou um homem do mato, eu sou um homem da natureza. Então eu vivo com meus índios, foi isso que eu quis pra minha vida. Para isso me ordenei”. Padre Antônio viveu na selva por ideal e por prazer. Foi Feliz, pena que faleceu tão cedo.

Através das ondas do radioamadores, no que se tornou usuário exímio, trouxe remédios aos doentes, chamou helicópteros para salvar índios picados de cobra venenosa, trouxe mantimentos. O radioamador, nesse mundo imenso e silencioso, que era então, faz com que a dor ou a alegria de um seja sentida por todos.

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Mesmo sendo um livro reportagem, uma dissertação acadêmica (poderia ser), li com gosto, com orgulho de que filho de Itabaiana, mais um deles, mesmo sem o reconhecimento oficial da igreja (ainda), é um taumaturgo;  seria um santo da Igreja.

E, na última página, escrevi com minha letra ligeira, ilegível dois dais depois, com o lápis me acompanhou na leitura, “Parabéns, bela e útil obra!”

(Aracaju, 2020jul18, por Antônio FJ Saracura).

terça-feira, 7 de julho de 2020

A VIDA ME QUER BEM, Amaral Cavalcante



A VIDA ME QUER BEM, crônicas da vida sergipana, Amaral Cavalcante, 2019, Edise, 356p, isbn 978-85-53178-45-2




Amaral Cavalcante é um cronista esmerado, mago das palavras e sua obra (prosa ou poesia) trata de temas corriqueiros, do dia a dia, como até sugere o subtítulo do recente livro “Vida me quer bem”, que ora resenho. É um livro massudo mas não representa nem um décimo da coleção de crônicas geniais que Amaral espalhou pelos jornais e revistas e redes sociais, desde garoto quando veio de Simão Dias para Aracaju.




Eu convivi com Amaral desde muito cedo quando trabalhei na imprensa (Jornal A Cruzada e na Rádio Cultura). Conviver é uma força de expressão, porque meu mundo era o católico quadrado, o que convinha a um ex seminarista. Ele era do mundo alternativo, dos pecadores, da boemia, que circulava em volta dos jornais leigos. Mesmo assim, estivemos juntos na criação do Clube de Cinema de Sergipe, pelos idos de 1967, com mais meia dúzia de cineastas e críticos de cinema.

Depois, quando retornei do mundo da tecnologia da informação, e,  por volta de 2008, e publiquei meu primeiro livro Os Tabaréus do Sítio Saracura, reencontrei Amaral, tido e sido como a melhor pena da cidade.

E mais à frente, com a Cumbuca senti que ele me acolhia com muita consideração. Na Cumbuca (a cara de Sergipe sério) eu tive o prazer de estar em suas páginas por algumas ocasiões. Recentemente, ele me deu, na edição de dezembro último, 6 páginas artisticamente trabalhadas para mostrar “Os Tabaréus do Sítio Saracura”. Não me lembro de ter visto outro livro sergipano ganhar tão nobre e grande exposição em todas as edições (este é o oitavo ano da revista). Talvez haja, entretanto, para mim o que valeu foi o que me coube. É o que devo ligar.

E ontem, às 11:49 da manhã, Amaral postou de seu punho no Messeger para mim "Grande Saracura. Meus parabéns", pelo meu aniversário.  Eu nem imaginei que ele estivesse doente, eu nem agradeci.

O livro  “A Vida me quer bem” está segmentado (foi organizado pela professora Maria Rosineide Santana, que recolheu as crônicas nos velhos jornais) em quatro partes:
Primeiro, “O Mundo doce de açúcares e memórias” contem 35 peças da melhor qualidade que, pelos títulos se depreende o conteúdo: Aventuras na pra Formosa, Os cheiros do sabão de alcatrão, na Bodega de seu Cipriano, Alçapão de pegara sanhaço...
Segundo, “A Vida me Quer Bem” com 28 obras primas e que falam do dia a dia, do ensaio na vida, da descoberta dos rumos voláteis, das pessoas que sempre encontramos: E os títulos cumprem a mesma missão do grupo anterior, vou citar três: Um brinde a Santo Souza, o jornalista Zeca Deda, Em busca do coração de Luiz Antônio, A sombra etílica...
O terceiro, “Guarda de Inúteis segredos” e consta 25 crônicas antológicas. Títulos para instigar o gosto. Antigos carnavais, aquilo se chama beiju, no Colodiano, em cima de um caminhão.
E o quarto e último, “De bar em bar” são 26 crônicas, e tem a ver mais com a vida boêmia, as homéricas bebedeiras. Alguns dos títulos imperdíveis: Do Vaqueiro ao Manequito; penetrando na Atlética, o Cacique Chá, Gosto Gostoso e a boate de Lourinha.

Excerto de O Colodiano (Pagina 201) que pertence ao terceiro segmento: “Guarda de Inúteis segredos”.

Era só descer do ônibus no terceiro ponto da 13 de julho e embarcar nas canoinhas de tábua até o outro lado. O Colodiano, território sem incômodos da lei, oferecia maconha livre e grandes baratos. Era o território livre da contracultura dos anos 1970, bem ali, pertinho dos bens bons da cidade, Mas distante da repressão que nos incomodava.
(...)
Lá dando bola com a contravenção, vivemos a marginália dos anos 70 na maior “naice”. Cabeça feita, depois do futebol, um peixe torrado aqui, um guiamun cevado, ou comer uma carne frita, feitinha na hora mesmo. Com farinha e pimenta custava poucos cruzeiros. Caro, e de grande valor, era o respeito de cada um por fada cada qual no território livre do Colodiano.
O Colodiano, hoje bestamente chamado de Coroa do Meio, é uma ponta instável, sedimentada de marés malucas, que pegam terra da Barra dos Coqueiros e a jogam para cá.”
(...)
Ao final do livro, foram incluídos depoimentos sobre o autor de personalidades da terra: Ilma Fontes, Jorge Carvalho Nascimento, Luciano Correia, Marcelo Deda Chagas, Marcos Cardoso, Rian Santos, Silvia Leroy, Terezinha Oliva.
O design do livro é de Germana Gonçalves Araújo, a apresentação de Carlos Cauê, e o prefácio de Jeová Santana.
Amaral cultivou uma literatura alegre, chistosa, de fino acabamento. Cada crônica é uma tela de Joel Dantas (vocês precisam conhecer esse pintor). Um pouco indecente como é a vida, como foi sua vida de jovem boêmio zoando em Aracaju. Com farras, drogas e anarquia. Mas tudo dentro de razoável, nada que agrida sequer a um casto seminarista ou a uma aluna interna de colégio de freira.
Amaral completaria 74 anos no próximo dia 11 de julho.
Vocês estão dando muita sorte, porque o livro de Amaral, “A Vida me Quer bem” está à venda nas lojas Escariz de Aracaju.

(Aracaju, 07 de julho de 2020, por Antônio FJ Saracura, na quarentena da Pandemia dos Corona Virus que matou Amaral ontem à noite).

segunda-feira, 29 de junho de 2020

O CICLO DOS SETE, a ascensão das entidades,Gabriel


O CICLO DOS SETE, a ascensão das entidades,Gabriel Machado Dias, Infographics, 2019 isbn 978-859-476-21-22


Parte I (em revisão) 

O mais importante em um livro é a sua construção. O autor, munido de poderes sobrenaturais, pode criar e destruir mundos tão reais, que os leitores viveriam ou morreriam neles satisfeito.

E foi isso que fez o garoto Gabriel Dias, com sua primeira obra, “O Ciclo dos Sete”, uma fantasia que narra o despertar, aparentemente terrível, dos sete Pecados Capitais, erradicados fisicamente do nosso meio (selados em tumbas subterrâneas) há sete mil anos. E o autor manipula, como perito matemático e químico esperto, a misteriosa magia, a força das famílias sagradas, a tecnologia futura, o heroísmo dos abnegados, a perseverança, a disciplina militar e a sorte que todos temos, sejamos quem formos...

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Uma gruta explode e a floresta em volta pega fogo. Gaile, menino ainda, procura, entre as cinzas, o pai e o irmão gêmeo, Vain, e toda a gente que estava na gruta no momento da explosão. Nem a polícia localizou qualquer vestígio depois.

O tempo passa...

Agora, Gaile é conceituado coronel da Guarda Real de Rogorod. Outra explosão misteriosa (que o envolve) deflagra o rumo do romance e Gaile parte com a missão suspeita de impedir que os Pecados Capitais despertem (se libertem) e retornem a ocupar a posição de destaque que desfrutaram antes de serem selados em urnas subterrâneas.

A trama se desenvolve em uma geografia complexa para quem chega de sopetão do mundo real, que foi o meu caso. Cortei campos, florestas, mares, grutas com nomes exóticos que não constavam em minha lembrança e nem em nenhum mapa de meu conhecimento. Junto com Gaile e um mago que apareceu, chamado Umbrior Kalahan, vivi e lutei em reinos e cidades singulares: Vyerm, Jetum, Menoik, Anmabion, Dilimandil, Ragarod, Kielgan... Palmilhei impérios (Famim, Menoikanos, Rebibas, Kamoti...) e estudei povos heroicos (humanos, Kamotis, Anões, Floonai, Keno, Nemedianos...).

Me encantei com a magia de Umbricor (parceiro na missão), com a arte futurista do professor Haki com seu cajado e com o protético reconstrutor de membros humanos, Barito, além da poderosa e articulada Lanin.

E fugi dos Ghuls, monstros que comem carne humana, meio parecidos com os Trolls do folclore escandinavo, que Tolken adotou.

E o povo, dizimado anonimamente e sem pena, produz tipos marcantes, como a esperta Maeli, que impede a ressurreição do Pecado Nartera da Inveja.

E há aquele aliado circunstancial, judas do time pecador, Iolong da Preguiça, que, vez por outra, dá um jeito de soltar uma dica (mas exige pagamento) e ajuda os mocinhos a cumprirem sua missão.
...
Como me fizeram falta plantas e tabelas semelhantes às elaboradas por JRR Tolkiem, em “O Senhor dos Anéis”.

E “O Ciclo dos Sete” conclui que a luta de Gaile e o sacrífico imenso de outros para impedir a libertação dos Pecados Capitais, fora inútil. Melhor tê-los convivendo com as Virtudes, cada um buscando angariar simpatia e adeptos. Nos sete séculos em que as Virtudes reinaram soberanas, incentivaram guerras contra “infiéis”, além de punirem pessoas por não seguirem as regras impostas. Se as Virtudes conseguirem eliminar, de vez, os Pecados terão poder absoluto, incontestável, eterno.

Parte II (para o autor)

(Por Antônio FJ Saracura, 2020jun26,na quarentena do Corona Virus).






sábado, 27 de junho de 2020

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER, Svetylana Aleksiévitch,


A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER, Svetylana Aleksiévitch, 2016, Companhia das Letras,tradução do russo (Cecília Rosas), 390 páginas, isbn 978-85-359-2743-6


(Preâmbulo)

Livro de autoria da jornalista russa premiada com o Nobel de Literatura de 2015. É extensa e minuciosa reportagem construída com depoimentos de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial, em toda a Rússia. E que sobrevieram. A maioria na linha de frente: dirigindo tanques, Snipes laureadas, na infantaria, enfermeiras, médicas, telefonistas, espiãs, engenheiras, seguranças, cozinheiras, costureiras...

Muitas nem voltaram para casa, outras retornaram inválidas, outras traumatizadas. Boa parte retornou com o peito coberta de medalhas pelo heroísmo em campo. E, depois, com a paz, amoleceram o coração e foram mães; tiveram e criaram filhos para repovoar a Rússia devastada.

Os alemães chegaram ao em nossos lares, matando, inclusive os que rendiam. Como suprir as fileiras? As mulheres faziam questão de ir para o front defender a pátria, expulsar os invasores e, depois, devolvê-los à suas casas na Alemanha.

Um exército de saias, espetacular.

A autora fala do caminho percorrido para compor a obra: “Segui a pista da vida interior, fiz anotações na alma. O caminho da alma é mais importante do que o acontecimento. E não foi fácil penetrar em suas almas. Ah minha querida, já se passaram quarenta anos, mas na minha casa você não encontra nada vermelho. Desde a guerra, eu odeio vermelho’”

(Fala das guerreiras)
“Depois da sessão de tiros, fizemos o treinamento de camuflagem. O coronel veio inspecionar e parou sobre um montinho. Não se via nada. As meninas estavam bem escondidas. E aí, o montinho começou, embaixo dele, a implorar: ai, camarada coronel, eu não aguento, o senhor é muito pesado! O montinho era uma menina camuflada.”

“Quem esteve na guerra sabe que um civil se transforma em militar em apenas três dias.”

”Ratos saíam correndo da cidade para o campo antes dos bombardeios; eles farejavam a morte vindo.”.

“Naquela fase da guerra não havia armas suficientes. Davam pra gente duas ou três granadas e nos mandavam para o combate sem metralhadoras; íamos para o combate como quem vai para uma briga com a vizinha. A gente pegava fuzil, na batalha, de algum soldado morto.”

“Passávamos muita fome. Se dormíamos, sonhávamos com comida. Eu sonhava com bisnagas de pão voando sobre mim.”

“Fazia tanto frio que os passarinhos caíam no voo, congelados. Havia um soldado ainda menino que tinha uma lágrima congelada no rosto.”

“Havíamos nos transformado em dois bastões de gelo; não conseguíamos nos mover. Ficámos em pé nos apoiando uma na outra para não cair, para não nos partirmos em pedacinhos.”

“E como pesavam os feridos no inverno! Eles ficaram duros como cadáveres, enganavam a gente como se estivessem mortos.”

“Pergunte para mim o que é felicidade. Eu respondo que talvez seja encontrar entre os mortos, uma pessoa viva.”

 “Ele está morrendo e mesmo assim não acredita que esteja morrendo. E depois de morto, fica no rosto um espanto: é possível que eu tenha morrido?”

“O oficial soviético não podia se entregar ao exército alemão. Se o fizesse, era desertor. Se o libertássemos, seria julgado e condenado.”

“Eu me lembro de um soldado alemão ferido, que agarrava a terra com a mão. Nosso soldado então falou pra ele: não mexa nessa terra que é minha; a sua ficou lá de onde você veio.”

“Todos queríamos viver até a vitória.”

“Somos de uma geração que acreditava que há coisas maiores do que a vida humana.”

“Casa é algo muito maior do que as pessoas que moram dentro, é maior do que a própria casa. É uma coisa. As pessoas precisam ter uma casa...”

“Acabada a guerra, quando cheguei em casa, meu irmão me mostrou minha certidão de óbito. O Exército russo havia me enterrado.”

“Antes da guerra tínhamos tantos rouxinóis! Depois eles sumiram com a terra tão revirada que veio à tona o esterco de nossos avós. Só retornaram muito depois de ararmos a terra mais de umas vez.”

“O amor é o único acontecimento pessoal da guerra. Tudo o mais é coletivo. Até a morte.”

(Conclusão)
Quase um milhão de mulheres russas lutou na Segunda Guerra Mundial. A autora ouviu centenas das que sobreviveram. Trouxe-nos pedaços das almas dessas mulheres que viveram situações extremas no treinamento, nas batalhas, até depois que retornaram para suas casas e famílias destruídas.  

Enfadei-me, algumas vezes. Os casos contados pareciam recorrentes, as mesmas dores sempre.
Mesmo únicos e terríveis para quem morreu ou para quem esteve junto, os casos são dourados por quem conta, amenizados.  A própria personagem (a mulher russa que lutou) não conseguiria recompor os seus casos com todas as cores da dor sentida no passado. Névoas de lirismo, de mágoa, de defesas, de esquecimento desejado já os contaminaram.

Muito menos a jornalista que o ouviu assim; e mais ainda eu, leitor de outro mundo, que nem uma guerra vi..

“A Guerra não rosto de mulher” é um livro que nos faz pensar como a paz precisa ser preservada a qualquer custo.


(Aracaju, 2020jun27, Antônio FJ Saracura)

terça-feira, 9 de junho de 2020

VIVÊNCIAS SOBRENATURAIS E OUTROS CASOS,


VIVÊNCIAS SOBRENATURAIS E OUTROS CASOS, Salete Nascimento,2016, Infographics, 206p, isbn 978-86-9476-0006-7



(novo estilo de resenhas)

Salete é poeta de cordel e poeta clássica de valor reconhecido. E prosista de primeira, haja vista o livro que tenho nas mãos e que se chama: Vivências Sobrenaturais...
Ai que medo!
Ela é dorense do Gado Bravo Norte, nasceu lá, e fundou a Academia Dorense de Letras. Ela é estanciana, viveu e trabalhou lá, onde fundou o clube do Poeta e a Academia Estanciana de Letras.

O livro Vivências Sobrenaturais deixará o leitor de sobressalto.

E eu vou viajar por ele.
E preciso atravessar, em silêncio, as noites lúgubres sob a luz mortiça de um candeeiro a querosene...

E se o candeeiro se apagar?
E se escutar gemidos de lamúria?
Eu pensei que era de dia. Quero não!
Só vou, se não tiver jeito mesmo.
Dessa vez tenho que ir porque assumi o compromisso com a autora que é minha amiga e não posso faltar.
Vou com os cabelos arrepiados, que Deus me proteja.
Aqui pra nós, eu gosto do pavor. Ele me espanta e me encanta.
Venha, você, comigo, seu espantado! Pra eu não não me encantar sozinho!

Vamos morrer de medo com as histórias assombrosas nas quais Salete encheu pingos de sangue e gritos de medo:
A santa cruz mal assombrada;
A pavorosa morte de morte do senhor Maneca;
O Curupira;
A Mortalha;
O Saci Pererê;
A Mula sem Cabeça;
O azar da Botija;
O carneiro encantado;
O homem Saco;
O Cemitério da Cruz Vermelha;
Um pai criminoso e suicida;

É muito?

Pois saiba que tem muito mais ainda. São vinte e três gritos de socorro. 
O livro é uma antologia. Todos os gritos foram ouvidos por Salete desde quando era menina.

xxx 

Hoje à noite eu vou dormir na cama de mamãe...
Como você me acompanhou em cada arrepio, e eu sei que gostou, corra pra cama da empregada, que também é fofinha.
E mande seus amigos comprarem (melhor pelo dia) o livro de Salete, que está à venda na Livraria Escariz  em Aracaju.  Se acabou o estoque da Escariz... mande-a telefonar para Salete e a autora fará a entrega pessoalmente. 

(Por Antônio Saracura, Aracaju 09 de junho de 2020)