quarta-feira, 18 de novembro de 2015

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, José Samarago

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, José Samarago, Caminho, 9. Edição, 19995, isbn 972-21-1021-7.




Para que introdução, prefácios e apresentações? Neste livro até caberia. Um bem técnico, mostrando a biografia do autor, ganhador de um prêmio Nobel de literatura, único em nossa língua.
Para que capítulos definidos e titulados? Para que pontuação? Para que diálogos didáticos com clara indicação de quem perguntou e de quem respondeu? Para que isso tudo se o livro é bom ou ruim. No primeiro caso não lhe aumentará o valor. No segundo, não lhe acrescentará nada.
Este “Ensaio sobre a cegueira” não têm nada disso e se impõe.
Pode haver algum leitor que reclame do amontoado de letras a que não está acostumado (eu faço), mas o fará bem baixinho, se o fizer.
O bom livro dispensa acessórios.

xxx

Um caminhão de diamantes que às vezes nem parece tanto. O complicado é controlar (dar conta) de tanta riqueza assim amontoada. Apesar do valor que acabo de outorgar ao livro, “Ensaio sobre a cegueira” é complicado lê-lo.  Tudo misturado. Não há pontos para descanso, pausa para se respirar.  Recomeçar a leitura abandonada no dia anterior é sempre uma tarefa árdua. Onde foi mesmo que eu parei ontem? Mas compensa, com infinitas sobras.
Vivi momentos  monótonos aparentemente repetitivos. Confesso que pensei em parar, como fiz alguns anos atrás com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, do mesmo autor.
Mas há trechos que jamais se apagarão de minha memória, antológicos.

E não vai contar a história, como manda a ciência da resenha?

Não!

Não vou privá-lo do raro prazer de pegar com suas mãos os diamantes no caminhão.

(Publicado na Perfil 16/2).



PADE KIBA, Carlos Mendonça

PADE KIBA, Carlos Mendonça, Infographics editora, Aracaju, 2015, 242 páginas, isbn 978-85-68368-46-6


Pode ser a narrativa da vida sacerdotal de Tolentino Kibaliano (popularmente designado de Pade Kiba) ou apenas as travessuras de um par de proeminentes Coleones (atente à origem latina). Em um ou outro, o herói é um sertanejo vingativo, despachado, que mantém um harém de mulheres apaixonadas, um exército de jagunços, um rifle de papo amarelo com uma fileira de balas na agulha e uma língua afiada. Tenório Cavalcante com sua lourdinha e a batina preta. O caboco Capiroba, comedor de gente, pai de meio mundo de novos brasileiros em uma interpretação livre do que narra João Ubaldo Ribeiro (Viva o povo brasileiro). Um novo João Grilo, ou Cancão de Fogo, ou seu Lunga? O quinquagéssimo segundo cavaleiro da Távola Redonda da corte do rei Arthur. Ou mesmo um Lampião criado na imaginação do surpreendente escritor itabaianense. Quem sabe, alguém malandro, desavergonhado, invencível, que os cordelistas podem transformar em um novo herói da nossa literatura brejeira.
O vidente e poeta popular, cego mas não mudo, Zé Mulambo, personagem marcante na obra, toma minha voz e, com sua cantoria, acompanha o Pade Kiba, passo a passo, antecipando os acontecimentos, na galhofa, na ironia:

Agora a coisa danou-se
A peste vai arrufar
O muleque de Pau Grande
Resolveu ir estudar
Pelo qui estou preveno
Vai se tornar revereno
Para vir nos cunfessar.
(página 36, mudança de destino do menino peralta)

Agora a peste fedeu
A égua desimbestou
Mataro o pai do pade
Tudo disassossegou
Num sabe cum quem mexeu
Os istupim sacendeu
E o diabo sacordou
(página 52, o sacerdote abandona o apostolado e retorna ao sertão)

Tamem eu num vi aqui
Seu Domingo o coroné
Cum certeza tá haveno
Arguma coisa quarqué
Na minha primunição
Ta haveno uma armação
E vou lhe dizer qual é.
(página 103, a trama para o assassinato do desafeto)

Pelo que foi apurado
Logo no primeiro plano
O pade vai padecer
Pois o bispo diocesado
Vai lhe incaminhar
Pra ele se explicar
Diante do vaticano
(página 116, perseguição da igreja corrupta ao padre heroi)

Uma égua bunita
Safada e donzela
Bem feita de corpo
no pelo e na sela
Cuma ventania
Quem não gostaria
De samontar nela
(página 117, as trapalhadas entre o Pade e o bispo Dom Pedro Priquita)

Tu é home mas num é,
É home de faz de conta
Só vive de gabulice
De qui faz e qui apronta
Mas nessa vida inteira
Toda sua cumpanheira
Vive lhe butano ponta
(página 148, Difamação ao coronel Teodoro, desafeto do Pade Kiba)

Os fazendeiros ricos e prepotentes armam o pano de fundo de um sertão feudal, com políticos corruptos, votos de cabresto, eleição fraudada, trabalho escravo, pistolagem. Nem tão feudal assim! Lampião e o cangaço vingativo, Antônio Conselheiro e o sonho de uma comunidade igual, a igreja oportunista e interesseira também dão cores às presepadas do padre esperto. E, por conta, Zé Mulambo sai-se com essa trova, que nem chega a declamar:

Essa terra é um problema
Difici de resolver
O homem trabalhadô
Nem arruma o dicumê
Inquanto qui o fazendero
Siafoga no dinheiro
E abusa do puder.

Eu acompanhei (à distância) a criação do livro e a sua anunciação. Por um ano inteiro as redes sociais mostraram um homem de batina preta pulando muros, homiziado atrás de pedras com espingarda apontada ao vazio, gretando fechaduras, arrombando portas, exorcizando endemoniados, jogando baralho, subindo em pau de sebo, confessando pecadoras... E pulando cercas... Quando o livro foi lançado, filas se formaram, todos queriam saber a história anunciada do Pade Kiba. Entrevistado por um “freelancer” do jornal Capital Serrana (que nem chegou a publicar a matéria), o autor falou rateado: “Eu vendo livros porque escrevo o que as pessoas querem ler. Se não queriam, passaram a querer com a propaganda cerrada que fiz. Gastei um dinheirão, mas valeu a pena”. Carlos Mendonça dar-se ao luxo de lançar dois livros no mesmo dia. Junto com O Pade Kiba, lançou “Evolução do comércio de Itabaiana”. Público garantido, como em todos que lançou na curta carreira, desde que fechou sua lojinha de picolés e mudou de profissão, virou escritor. O livro Chico de Miguel possui uma reserva de mercado garantida nos eleitores fieis do lendário político; Mons. Eraldo Barbosa e Padre Manoel Araujo têm a comunidade católica que não vai arriscar o inferno, então compra os livros, até para tê-los em casa, provando a fé. Tenente Gervásio, os militares pagam pelo gosto de ter um herói, mesmo sem guerra nenhuma. E há melhor presente, no dia das mães, do que um livro que as louve? Euclides e Manoel Teles são figuras míticas na região e, como Lampião no Brasil, têm mercado garantido. O caminhoneiro de Itabaiana... Em cada família há um ou dois representantes no ramo e citados nos versos de Carlos, que não tem nada de tolo, como diria Zé Mulambo, acompanhado de sua viola afinada:

O gaguinho iscritor
É bom em prosa e poesia
Cada livro iscrivido
Le aumenta a friquisia
No batido que ele vai
Eu acho que é capaz
Dintrá numa academia

Sobre a escrita simples, sem rebuscamento, às vezes relaxada, com deslizes aqui e acolá, o porta voz, Zé Mulambo, pinicou a viola, trauteou, mas, estranhamente, pegou o saco arreado aos pés, e guardou o instrumento. Balançou a cabeça e foi saindo. Nem se despediu de mim. Para não ficar falando sozinho... toquei no rumo de casa, fui reler algumas passagens que me intrigaram no bom PADE KIBA.


sábado, 14 de novembro de 2015

O ENIGMA DO CASARÃO, J. Ribeiro Neto

O ENIGMA DO CASARÃO, J. Ribeiro Neto (Luminiscata o intruso),2015, Sercore, 176p, isbn 9787-8584-13053-5)



Desde 2010, quando ganhei o prêmio Mário Cabral de Crônicas pela Secult com o livro “Minha Querida Aracaju Aflita”, conheço J. Ribeiro Neto. Seu “Luminiscata o intruso” foi premiado na categoria romance. Encontros esporádicos nos shoppings da cidade, ele fuçando os jornais e eu compulsando livros ou plantando sementes em O Escritor na Livraria. Dedico a J. Ribeiro uma simpatia especial, também pela genética admirável que tem, ele é neto de José Ribeiro Filho, criador da Casa de Leitura do Santo Antônio e um dos fundadores da Academia Sergipana de Letras, nos idos antigos.  Gerações de intelectuais de renome o antecederam e estão a seu lado, como seus irmãos Wagner Ribeiro e Marcelo Ribeiro, poetas, cronistas que engrandecem Sergipe.
Tive a oportunidade de ler “Luminiscata o intruso” (o livro premiado) e teci comentários críticos que entreguei ao autor. Não me lembro se houve contestação ou réplica.  Mas como não mudou o seu tratamento civilizado comigo, creio que os tenha assimilado. E deve mesmo ter, pois, há cerca de um ano, entregou-me uma pasta com os originais de um novo romance, “O Estigma do Casarão”. Não costumo ler obras em elaboração, temo contaminar com meus equívocos um grande livro. E essas leituras  nunca  aprofundam. E avaliação apressada é melhor nem haver. Mas ele insistiu e, duas semanas depois, devolvi-lhe o calhamaço todo pintado de vermelho. Pedi-lhe desculpa, disse-lhe que nem precisava ler minhas observações críticas (um pedido de certa forma desnecessário, devido à minha letra mastigada, intragável).
Ontem encontrei J. Ribeiro em um shopping center.  E me deu, publicado, e com uma capa linda de Bené Santana (artista plástico genial), seu novo livro, “O Estigma do Casarão”. Acontecera o lançamento no espaço cultural da Assembléia e eu nem soube. Como ando desligado! Perco eventos simpáticos como esse a cada dia. Como posso dar conta de tanta coisa acontecendo nessa Aracaju que respira arte?
- “Cito você no livro”.
- “Eu? Cuidado! Eu sou de Itabaiana!”. 
J. Ribeiro sorriu econômico, que é seu jeito de sorrir. Eu fiquei com uma pulga atrás da orelha, segui meu destino.  Sabia que era um romance policial e bem que eu poderia ter ganhado uma pontinha como suspeito dos crimes que assolaram o clã dos Molgadícios, donos do casarão estigmatizado.  Ou o detetive Guilherme, perdido, atirando a esmo, me arrolou como suspeito. Ou mesmo ter sido assassinado, como vingança (demora, mas não tarda) pela minha indelicadeza naquelas observações críticas que citei acima.
Comecei a reler a obra. Logo no começo, encontrei-me (sessão de agradecimentos, ufa!) antecedido pelos impagáveis irmãos Wagner e Marcelo Ribeiro, e pelo mestre contista Paulo Fernando Teles de Morais. “Eu não posso (escreveu o autor) omitir a decisiva colaboração do escritor Antônio Francisco, que com o mesmo entusiasmo com que faz rufarem os Tambores da Terra Vermelha demoliu as estruturas do meu primeiro casarão, sobre os escombros do qual edifiquei  este que estou trazendo a público. Valeu, Saracura!”.
Menos apreensivo, prossegui a leitura.  Confesso que ainda me perdi (avoado como sou) no emaranhado dos personagens, Maria Ruth, Rutinha, Margoth, Lisbeth, Maria Laura, Laurinha, Rosalva Corró, Rosa, Rosalva, Vó e outros nomes que nem anotei. E, apressado por natureza, dizem que tenho a bola esquipada (?), agoniei-me nos longos diálogos (da página 66 a 174, 70% do romance), envolvendo Miss Marple (Rosa) e o “meu caro Watson” (Rute), no desvendamento dos mistérios. Sherlock Holmes que perdoe a traição do fiel escudeiro.
Em compensação,  deliciei-me com a boa escrita (frases curtas e eficazes) especialmente com as tiradas que descontraem o texto e cativam o leitor sisudo: namoradeira que só! Laranjas que dificilmente se deixariam espremer, sabe-se lá mais o quê, afe!...um pedaço de sanduíche mordido,  um peixe sem muito prestígio, além dos trezentos paus, mais esperta pouquinha coisa, demais da conta, puta mesquinharia, me engana que eu gosto, santa ingenuidade,  e muitas outras.
Por fim, desculpando-me por ser avoado e apressado, arrisco dizer que o capítulo IX vale por um romance inteiro.  


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

RELÓGIO DO TEMPO, José Expedito de Souza

RELÓGIO DO TEMPO, José Expedito de Souza, 2014, 282p, isbn 978-85-8253-077-1


Fui colega de Petrobrás, nos anos sessenta, de José Expedito de Souza.
E ficamos amigos.
Jamais  vou esquecer seu orgulho em ter servido o exército brasileiro, deixando-me triste por ter cavado a minha dispensa. Também o  orgulho com o qual exibia um diploma de torneiro mecânico, quando éramos apenas auxiliares de escritório. E de suas piadas inteligentes e curtas que destruíam (e destroem) qualquer empedernido mau humor.
Quando a Petrobrás me transferiu para São Paulo, ele foi meu embaixador na faculdade onde meu curso fora interrompido, criando condições para concluí-lo mesmo à distância. Depois que me formei, sabe lá Deus como, deu-me conta de uma medalha de honra ao mérito que me coubera. Sem o seu empenho, eu jamais saberia dela, minha única medalha na vida toda. No meu retorno para Sergipe, após mais de 12 anos fora, Expedito  me puxou o quanto pode para mais perto dele, tentando me integrar no meio que já me considerava estranho.  Abriu-me as portas da Câmara de Arbitragem da Associação Comercial, da Codise, da sua indústria chamada Steel e da Associação de Empresários Cristãos (ADCE).  Não entrei porque não quis.

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Por que nenhum pároco quis casar Maria Alice?
Morri de pena da pobrezinha, de cidade em cidade, montada em um jipe duro, batendo em portas fechadas ou recebendo fechadas de portas e, mesmo assim, querendo prosseguir mais e mais, na busca de realizar um sonho tão simples de realizar.
A tripa grande engolindo a tripinha e causando a morte da criança que recusa a comida gostosa que alimenta a tripa grande.
O umbigo, que nada mais é do que a cabeça de um parafuso estratégico, e que sustenta a bunda do menino... Se ele continuar coçando o  umbigo,  parafuso afrouxa e  a bunda despenca.

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Na literatura, como na vida, o humor, a solidariedade, a valorização do simples, a ironia, a verve de Expedito estão evidentes.  Ele escreve como quem bate fotos. Como quem pinta telas. Como quem conta piadas. Como quem encanta o passado.
O filme custa dinheiro. As tintas são escassas.  A  pequena platéia pode voar. O passado é escorregadio.
Então Expedito capricha no foco. No caminho do pincel, nos ingredientes da prosa, na graça do dizer, nas sutilezas das reminiscências. Com um clique,  capta o mundo. Com quatro pinceladas, constrói uma alvorada.  Com dez linhas, ensaia um romance.  Com os fantasmas do passado, ressuscita um Riachão que emociona o leitor e dignifica um povo.

Antônio FJ Saracura (da Academia  Itabaianense de Letras)
Foi publicado como apresentação no livro
(facebook novembro 2015) 

(Notas de Leitura)

Relógio do tempo – Expedito Souza, 2014, editora J. Andrade, 282p, isbn 978-85-8253-077-1- Acaba de ser lançado. Eu tive a honra de ser um dos pré leitores, daí já estar podendo falar dele.  Além de ter recebido um exemplar logo que saiu do forno, quentinho. A obra resgata um rico passado que se perderia caso Expedito fosse um acomodado, achasse que livro é coisa de gente besta.  Eu conheço o autor de muito e, sem sobrosso,  posso  tomar como minhas as palavras de um dos prefaciadores:  “Na literatura, como na vida, o humor, a solidariedade, a valorização do simples, a ironia, a verve de Expedito estão evidentes.  Ele escreve como quem bate fotos. Como quem pinta telas. Como quem conta piadas. Como quem encanta o passado”.  Não deixe de ler!  (publicada na revista Perfil ano 18 número 1)


DESVENDANDO SOMBRAS E SONHOS, Martha Hora

DESVENDANDO SOMBRAS E SONHOS, Martha Hora, editora Perfil, 148 páginas, 2014, isbn 978-85-67215-08-2)




Conheço Martha Hora de algum tempo, declamando poemas nas sessões vespertinas da Academia Sergipana de Letras, sempre com extrema emoção. Poemas de sua autoria e de poetas consagrados. Confesso que sempre me arrebatam, e fazem com que a monotonia endêmica daquelas sessões ganhem  um tom jovial e vibrante para mim.  Do mesmo jeito que as sessões da academia, “O Escritor na Livraria”, das últimas quintas-feiras do mês na livraria Escariz do shopping Jardins, sem as declamações de Martha Hora, fica enfadonho, deixa-me a sensação de que não se completou.
Martha Hora é uma  declamadora de raro talento.
Os poemas de sua lavra me fazem muito bem, tenho-os como diletos amigos.  Tanto em “Amor Infinito “ (2006) como em “Buscas e Encontros” (2011), livros anteriores publicados, sobre os quais já escrevi  em outros tempos, como neste recém editado, “Desvendando Sombras e Sonhos” (2015), prevalecem o amor, a saudade, a solidão, as lembranças, a crítica social, as esperanças.
Uma escrita sem rococós, um pensamento puro, cristalino; não há enigmas, nem pretensão de impressionar ninguém. Ela narra casos, ela constata dramas, ela sofre com os desvalidos da vida. E, com as mãos longas de seus versos ou de sua prosa, clama por justiça, pela solução dos problemas dos semelhantes. Até tenta resolvê-los por conta própria.  E sofre quando percebe que seu canto soou em vão. Cria sonhos, persegue sonhos (eu necessito sonhar para ser criativa, confessa).   

Almir do Picolé, um Neto qualquer, um beco chamado Maria da Paz, Lili, Jácome Goes (o iluminado), Mariana, Kaká, Chica feirante, Zé da Cana,  Miriam mata Homem, Diplomata, João, Aurora, Carmem, Santo Doutor, Valtinho dos retratos, Tô te ajeitando, Peter Pan, Magnólia, e muitos outros personagens desfilam pelas páginas do livro de Martha dando as sombras desvendadas um quê de intimidade familiar.
A renda proveniente da comercialização de seus livros é destinada à instituições de caridade. 

(Facebook em nov/2015)




PARA SEMPRE ITABAIANA, Maria do Carmo Xavier Costa

PARA SEMPRE ITABAIANA, Maria do Carmo Xavier Costa (Alma Branca), 104p, Infographics,isbn 978-85-68368-48-0). 


Cida, minha esposa e crítica ferrenha de minha literatura (reescreva tudo, ninguém merece o castigo de ler), quando está lendo um bom livro não me deixa em paz. Abre a porta de meu escritório, onde garimpo rimas e brigo com meus fantasmas, e avassala (este é bom demais, simples, claro, belo). Minha cara de enfado, meu olhar irado, as cortinas escuras cerrando meus olhos não a intimidam (pare aquele livro do japonês que está deixando seus olhos pinins e leia Maria do Carmo Costa).

Afasto com uma mão a cortina cerrada e olho-a. Peremptória, permanece à minha frente, acenando um livrinho de tons azul/vermelho/e branco, como se fosse a bandeira da Olímpica de Itabaiana nos gloriosos tempos do penta campeonato estadual de futebol. Percebendo que me fisgou de jeito, fala baixinho, para me tirar de vez da água (é pequeninho, do tamanho de um botão, mas encheu meu coração...).

Então, boto uma pedra sobre as rimas, entrego os pontos aos implicantes fantasmas, mando o japonês dar um pulo na horta para irrigar os tomateiros novos que já reclamaram...

Vou ler Maria do Carmo.

“Para sempre Itabaiana” tem poucas páginas, letras de bom tamanho para minha vista cansada, histórias curtinhas, poemas levinhos. Fui me encantando... Tem conteúdo, contem substância. Um hino de louvor a um povo valoroso, que tento cantar e não consigo com a mesma intensidade. Cada crônica traz dentro de si uma gente vivendo e ensinando como se vive.

Vi Euclides tentando correr à sua casa, ao alcance de vinte passadas, quem sabe pegar a metralhadora cheinha de balas que dissera ter.

Arrodeei a praça da Matriz mais uma vez, na fresca boca de noite, seguindo Ana Isabel, uma das minhas musas juvenis, agora de bem pertinho, sentindo o perfume de seu corpo. Emparelhei, segurei sua mão trêmula, e declarei todo o meu amor, fazendo Geraldo de Zé Gordinho engolir cada letra daquele “você é muito frouxo” que está grafado na página 159 de “Os Meninos que não queriam ser padres”.

Tirei uma experimenta da panela cheirosa onde uma menina de doze anos preparava o almoço de toda família, costurava roupas e ainda tinha tempo de criar um gatinho pintado.

Subi a serra de Itabaiana pela segunda vez na vida. E como queria fazer na vez anterior, ao ver-me no topo, perto do céu, corri abraçado a uma nuvem branca que vacilava à toa, na direção norte, até as faldas do Bom Jardim , quiçá do Zangue ou da Cova da Onça (me ajude Almeida Bispo!)... Eu queria muito olhar o horizonte longínquo onde o sítio Saracura estaria me acenando cheio de fama no coração da distinta Terra Vermelha.

Contei onze burros arreados com cangalhas de cruzetas altas (um a mais do que os contados na crônica “Os Burros Inteligentes de Itabaiana Grande”), trazendo, sozinhos, em fila indiana, sem qualquer condutor ou tropeiro, quartos de boi, do matadouro para o mercado das carnes. E, depois, vi-os retornando para fazer mais outras viagens. O meu tio marchante, Chico de Pepedo Saracura, irritado, reclamava, porque o despachante do matadouro, de sacanagem, mandou, com seus nós identificadores, um quarto de vaca magra. Vendo-me ali dando bobeira, mandou-me montar no décimo primeiro, um burro alazão mal amansado, e ir avisar que o seu boi foi trocado. A crônica “Fragmentos de Memória” (revive a infância e a adolescência de toda uma geração de ceboleiros maduros nos dias de hoje) acaba com uma “marselhesa” serrana para a gente sair cantando, reinventando na hora a melodia, arranjando-a com acordes do hino do Itabaiana.

Os poemas são singelos, muito ao meu gosto, falam de infância, de solidão, de amizade, de amigos como Saracura (que honra!): “Escreve sobre sua terra e sua gente /ama o seu povo / quando a gente acaba de ler / dá vontade de ler de novo”.

O que vou fazer para dizer ao mundo que leia: "Para Sempre Itabaiana".

(por Antônio FJ Saracura, da Academia Itabaianense de Letras, em Aracaju, 16/11/2015).

 

CRÔNICAS SEM TIMIDEZ, Antônio Virman



CRÔNICAS SEM TIMIDEZ, Antônio Virman, isbn 978-85-67215-12-9, editora Perfil 146 páginas.

Dentro do pacote que recebi esta semana de Virman estavam dois livros caros à minha pessoa literária: O Crime e Outros Contos, sobre o qual teci rápidas considerações em outro texto, destacando uma  crônica sobre minha obra,  Os Tabaréus do Sítio Saracura.  E outro livro, chamado Crônicas sem Timidez, que agora acabo de ler. Num estilo escorreito, de leitura fácil, Virman discorre sobre religião, educação,  costumes e manias de nosso povo, política (de leve), percalços,  momentos do cotidiano... Em cada crônica ele nos dá, por conta de sua bondade e erudição, sempre uma referência cultural, preparando o terreno para encaixar sua queixa, seu ensinamento. Boa parte do livro compõe-se de textos publicados na saudosa revista Perfil, mas como foi gostoso revê-los agora vestidos de festa dentro de um livro bonito. Considerações pertinentes, lições impagáveis de vida...
Só lendo Virman para saborear como se deve.

E a surpresa!

Na página 60 bati-me com a crônica “E aí?”, fala da sensação do autor quando leu meu livro “Meninos que não Queriam ser Padres”, lá nos idos de 2011.  Enchi os olhos de lágrimas. Mesmo conhecendo o texto da revista Perfil, foi como reencontrar  uma pessoa querida depois de quatro anos distante. Quase não mudo a página, usufruindo o mel gostoso que satisfaz qualquer escritor, muito mais do que vender livros, esgotar edições. Uma homenagem, uma distinção impar, que compartilho, óbvio, com minha obra literária. Um passaporte para que ela ande melhor por aí.

Acostumado aos revezes da vida, não recuso mais as benesses. E mesmo  que, lá no íntimo, sinta-me encabulado, um tanto constrangido, faço-me sobranceiro e comemoro junto com os personagens que habitam meu mundo e o mundo dos meus leitores, como confessa Virman: Florita, Zé de Pepedo, padre Leão, entre outros. 

A poetisa Cristina Cabral em uma carta aberta que fez publicar na imprensa logo que leu o livro "Os Tabaréus do Sítio Saracura" sacudiu-me inteiro: “mesmo sem nunca tê-lo visto, Saracura,  você é um dos melhores  amigos que tenho na vida. Seu livro nos aproximou e estreitou nossa amizade".

Você, Virman,  é ainda mais para mim, pois já tive a honra de vê-lo algumas vezes nessa vida corrida, conhecê-lo, além de saborear sua poesia (nas Faldas do Parnaso) e sua prosa útil (Adjutoro, O Crime, entre outros). 

(Aracaju, 11 de novembro de 2015, por Antônio Saracura).