quarta-feira, 11 de novembro de 2015

PARA SEMPRE ITABAIANA, Maria do Carmo Xavier Costa

PARA SEMPRE ITABAIANA, Maria do Carmo Xavier Costa (Alma Branca), 104p, Infographics,isbn 978-85-68368-48-0). 


Cida, minha esposa e crítica ferrenha de minha literatura (reescreva tudo, ninguém merece o castigo de ler), quando está lendo um bom livro não me deixa em paz.  Abre a porta de meu escritório, onde garimpo rimas e brigo com meus fantasmas, e avassala (este é bom demais, simples, claro, belo). Minha cara de enfado, meu olhar irado, as cortinas escuras cerrando meus olhos não a intimidam (pare aquele livro do japonês que está deixando seus olhos pinins e  leia Maria do Carmo Costa).
Afasto com uma mão a cortina cerrada e olho-a. Peremptória, permanece à minha frente, acenando um livrinho de tons azul/vermelho/e branco, como se fosse a bandeira da Olímpica de Itabaiana, nos gloriosos tempos do penta campeonato estadual de futebol. Percebendo que me fisgou de jeito, fala baixinho, para me tirar de vez da água de uma vez: (é pequeninho, do tamanho de um botão, mas encheu meu coração...).

Então boto uma pedra sobre as rimas, entrego os pontos aos implicantes fantasmas, mando o japonês dar um pulo na horta irrigar os tomateiros novos para não morrerem. Vou ler Maria do Carmo.
“Para sempre Itabaiana” tem poucas páginas, letras de bom tamanho para minha vista cansada, histórias curtinhas, poemas levinhos.   Fui me encantando...  Tem conteúdo, contem substância. Um hino de louvor a um povo valoroso, que tento cantar e não consigo com a mesma intensidade. Cada crônica traz dentro de si uma gente vivendo e ensinado como se vive.
Vi Euclides tentando correr à sua casa, ao alcance de vinte passadas, quem sabe pegar a metralhadora cheinha de balas que dissera ter. Arrodeei a praça da Matriz mais uma vez, na fresca boca de noite,  seguindo Ana Isabel, uma das minhas musas juvenis, agora de bem pertinho, sentindo o perfume de seu corpo. Emparelhei, segurei sua mão trêmula, e declarei todo o meu amor, fazendo Geraldo de Zé Gordinho engolir cada letra daquele “você é muito frouxo” que está grafado na página 159 de “Os Meninos que não queriam ser padres”.  Tirei uma experimenta da panela cheirosa onde uma menina de doze anos preparava o almoço de toda família, costurava roupas e ainda tinha tempo de criar um gatinho pintado. Subi à serra de Itabaiana pela segunda vez na vida. E como queria fazer na vez anterior, ao ver-me no topo, perto do céu, corri abraçado a uma nuvem branca que vacilava  à toa, na direção norte, até as faldas do Bom Jardim , quiçá do Zangue ou da Cova da Onça (me ajude Almeida Bispo!)... Eu queria muito olhar o horizonte longínquo onde o sítio Saracura estaria me acenando cheio de fama no coração da distinta Terra Vermelha. Contei onze burros arreados com cangalhas de cruzetas altas (um a mais do que os contados na crônica  “Os Burros Inteligentes de Itabaiana Grande”), trazendo, sozinhos, em fila indiana, sem qualquer condutor ou tropeiro, quartos de boi, do matadouro para o mercado das carnes. E, depois, vi-os retornando para fazer mais outras viagens. O meu tio marchante, Chico de Pepedo Saracura, irritado, reclamava porque o despachante do matadouro, de sacanagem, mandou, com seus nós, um quarto de vaca magra.  Vendo-me ali dando bobeira, mandou-me montar no décimo primeiro, um burro alazão mal amansado, e ir avisar que o seu boi foi trocado.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             A crônica “Fragmentos de Memória” (revive a infância e a adolescência de toda uma geração de ceboleiros maduros nos dias de hoje) acaba com uma “marselhesa” serrana para a gente sair cantando, reinventando na hora a melodia, arranjando-a com acordes do hino do Itabaiana.
Os poemas são singelos, ao meu gosto, e falam  de infância, de solidão, de amizade, de amigos como    Saracura (que honra!): “Escreve sobre sua terra e sua gente /ama o seu povo  / quando a gente acaba de ler / dá vontade de ler de novo”.
O que vou fazer para dizer ao mundo que leia: "Para Sempre Itabaiana".

(por Antônio FJ Saracura, da Academia Itabaianense de Letras).
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