sábado, 6 de agosto de 2016

SARGENTO GETULIO, João Ubaldo Ribeiro

SARGENTO GETULIO, João Ubaldo Ribeiro,Objetiva Ltda, Rio de Janeiro,5 Edição,175 páginas,edição bolso, isbn 978-85-390-0013-5
Edição o bolso


  


Não tenho a base cultural dos professores universitários e dos críticos literários que escrevem nos jornais ou falam na televisão.  Se eu conheço alguma coisa, é por conta da osmose, de ter passado minha vida toda me esfregando em livros, sem disciplina nenhuma, infiel, volúvel, experimentando os sinais captados, saboreando, solitário, ou compartilhando na intimidade de meu lar, a arte de meio mundo de gênios. Leio pelo prazer que me dá a leitura. Não me preocupo em reter saber, mas se ele fica, comemoro e compartilho.




Dizem os amigos que eu sou um rato de livrarias, uma traça de bibliotecas. Desde minha adolescência que as frequento com volúpia. Nem sempre compro ou tomo emprestado um livro de primeira. Folheio-o, corujo resumos e figuras, mergulho em páginas aleatórias. Dependendo do que me acontecer em seguida (nos dias ou nos momentos seguintes), retorno e vejo melhor algum ponto que me intrigou. É assim que seleciono minha leitura, aquele livro do qual ninguém ainda me falou.

A semana passada, eu folheei na Escariz do Shopping  Riomar, o livro “Sargento Getúlio”, de João Ubaldo Ribeiro. Já fizera isso com outras obras do mesmo autor. Arreneguei “Os Budas Ditosos”, meus alarmes íntimos (aqueles instalados numa vida inteira de doutrinação) dispararam em cadeia, já na primeira página. Não que Ubaldo fosse um desconhecido, mas o Sargento Getúlio passava em branco por mim sempre.

Agora terminei de ler o Sargento Getúlio de João Ubaldo. O autor viveu em Sergipe apenas dez anos de sua infância, mas nos dá uma obra de pura sergipanidade (Luiz Antônio Barreto), sem tamanho, de tão grande que é.  O livro assusta de início pela escrita densa, até complexa, quase sem intervalo para se respirar. Um monólogo ininterrupto: a divagações de uma mente primitiva, mas lógica.  Entretanto, ao se pegar o fio da meada, a leitura corre prazerosa. Um mundo intenso e espetacular abre-se, habitado por duendes, por monstros, por cavaleiros do apocalipse, todos estranhamente familiares, amigos da infância, metade fantasia e na outra metade, iguais a gente mesmo.

Encantei-me com a firme determinação: ordem dada, ordem cumprida. Com o orgulho nativista. Com o remoer filosófico. Entrei na conversa melindrosa... Por que deixaria o homem falar sozinho? Uma viagem de Paulo Afonso à Aracaju, que termina na Barra dos Coqueiros, quase no destino, de uma maneira triste para mim. Eu torcia pelo sucesso, como se fosse minha também: entregar a encomenda udenista ao encomendador mesmo que ele não mais quisesse.

Cada pedaço de Sergipe, ou é pisado e comentado pelo Sargento e por seu motorista Amaro (dirigindo um velho Hudson), ou é lembrado por “serviços” executados anteriormente. Uma boa prosa, em tom de confissão. A história de um povo bárbaro. Cão na Moita (Jackson da Silva Lima) tem o mesmo cheiro telúrico e de carne fêmea que arrepia: profundo, incomparável.  Por que me veio agora lembrança desse Cão que não veja a um tempão?

João Ubaldo, como sargento Getúlio da gloriosa polícia militar sergipana, Getúlio Santos Bezerra, prende e carrega o leitor em idas e vindas pelo tempo e pela geografia dos sertões, do agreste e do litoral desse pequeno e, ao mesmo tempo tão surpreendente e vasto Sergipe. Prende e não solta jamais, de jeito nenhum, nem com ordem expressa do governador ou dos santos do céu. E ao final de tudo, pois nada é eterno, o leitor sai meio doido, falando línguas estranhas e confessando, sem bloqueios, todos os pecados, como se prestando contas no juízo final do apocalipse.

Que terra macha é esse meu Sergipe (e Itabaiana conduzindo a tropa)!?

E vocês, que sempre estão me questionando tacitamente, não perturbem. Se não gostam de minha escrita que a deixem de lado, que ninguém é obrigado a me seguir. E desde já saibam que eu “não escuto liberdade, não converso fiado, não falo de mulher, não devo favor e não gosto que ninguém me pegue.” Esconjuro!

Só me resta, como humilde leitor, agradecer a este baiano doido, chamado João Ubaldo Ribeiro que, como Elbert Hubbard deu ao mundo Roswan (Mensagem a Garcia), ele nos deu o Sargento Getúlio e toda a sua consciência exposta, que transcende a cultura de nosso sertão medieval e dessa Aracaju metida a moderna. Como pode alguém produzir uma obra do tamanho de Sargento Getúlio?

Um livro assim deveria ser homenageado em cada praça, em cada encruzilhada, em cada porteira de fazenda, em cada santa cruz, em cada púlpito sagrado ou profano.

(Aracaju, junho de 2011, e revisada em setembro de 2016)

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