domingo, 1 de maio de 2016

CAUSOS DE ITABAIANA GRANDE, José Augusto Machado (Baldock)

CAUSOS DE ITABAIANA GRANDE, José Augusto Machado (Baldock),Infographics,2004),Páginas 169 (sem ibsn)




Minha mãe (hoje, maio de 2016, está com 95, e não lê mais nem a Bíblia) leu o livro de um fôlego. Logo que chegou a minhas mãos, alguns anos após a publicação, em 2009. Ela isolou-se na sua rede, não aceitava apartes, mal resmungava respostas às bênçãos pedidas pelos filhos enjoados.

Quando concluiu a leitura, eu estava junto. Concluiu e ficou pensativa, viajando longe. E eu à sua frente sem saber se a inquiria ou se aguardava o desenlace do transe. Quando já me armava para lhe perguntar o que achara, pois não aguentava mais a espera, ela truncou minha intenção.

Gostei demais! Obrigada pelo presente! Revi pessoas de quem nem me recordava mais. Parentes de minha vida toda.  O escritor só pode ser gente dos ferreiros... se não, não contaria do jeito cativante que contou!

E enlevada, prosseguiu:

João Marcelo é filho de tio Nonô.  As irmãs Graça de Rosendo e Maria de Guedes eram as donas da loja de tecidos que Zé Crispim comprou. De meu povo.  Zé Crispim não é parente mas sua esposa, Lourdes, é minha prima de sangue dobrado.  Marcelino Mecânico criou-se lá em casa, é filho de tia Ana e Chiquinho Gordo. Pedro de Anita é irmão de Marcelino Mecânico. Maceta é filho de Zé Bigodinho e de Irene, ambos da minha família.  Já Arrojado é do povo de seu pai, do Cajueiro, Congo  e Terra Vermelha. E Zentonho Ferreiro? Meu tio, quase um primo, vivia lá em casa, nas Flechas.  E Samarone é Antônio Fernandes de Maria Lourdes minha irmã. (...).

Talvez ela exagerasse um pouco (achei) contaminada pelo sangue da família que fervia nas páginas do livro.  Mas foi isso e mais um pouco o que falou. Por que eu iria mentir?  Não teria vantagem nenhuma. Qualquer são-tomé-espírito-de-porco (sempre há!) pode tirar a limpo em dois minutos. E me deixar com a cara mexendo. Basta chegar ao Santo Antônio e bater palmas à porta de uma singela e determinada casinha na rua Rosário.

Mas deixando mamãe de lado (o quê, filho ingrato? cuidado com o veneno da língua!), “Causos de Itabaiana Grande” é uma das boas obras sobre nosso jeito de ser. Histórias contadas como quem fofoca, como quem segreda.  Sem verborreia e sem empolação mas com empolgação e simplicidade. Todos os causos tem visgo que só os bons escritores conseguem botar. Pelo menos, só encontro neles.
Quem conhece José Augusto Baldock sabe que ele tem pronta uma coletânea de causos ainda mais sensacionais, precisando apenas publicar.

Publique logo, Baldock!

Minha mãe, Florita, agora com quase noventa (2009, quando escrevi essa crônica) não entende por que você está demorando tanto. Ela precisa ler a nova epopeia dos ferreiros, dos saracuras e dos demais sobrenomes que cobrem de glória o nosso povo e que só você sabe contar do jeito certo. Antes que seja tarde, para ela!

(Publicada na Perfil 15/06)


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