sexta-feira, 6 de maio de 2016

ITINERÁRIOS DE LIBERTAÇÃO, José Paulino Silva,

ITINERÁRIOS DE LIBERTAÇÃO, José Paulino Silva, Sotaque Norte, 2002,


Eu não conhecia o professor Paulino, até o dia em que fui visitá-lo com Ribeirão. Ribeirão? Esse maluco que me foi apresentado pelo livro “Os Tabaréus do Sítio Saracura” e virou meu grande divulgador, inseparável amigo. Maluco, veja bem, no bom sentido. Não o beleza, mas o maluco por cultura além da conta, vazando pelos poros.

Eu estava numa fase de difícil missão. Divulgava o livro (recém-lançado), “Meninos que não Queriam ser Padres”, para formadores de opinião, pedindo-lhes que o lessem e escrevessem uma “resenhinha”, qualquer coisa, sobre o livro. O professor Paulino pertencia a este naipe especial, segundo Ribeiro me confidenciou. E puxou-me pela camisa, quase arrancando a manga, na direção da casa do ilustre. Depois passou-me o cabresto do qual nenhum burro brabo escaparia.

Eu me sinto constrangido, além da conta, em abordar desconhecidos, especialmente, os famosos, como era o professor. Ribeiro esticava a cabresto a ponto de torar. Eu tremia por dentro como vara verde ao vento... Seja o que Deus quiser, então! 

Fiquei na casa do professor Paulino por mais de uma hora. De boca aberta, estupefato ante tanta sabedoria, tanta originalidade e tanta simplicidade. Conheci sua esposa, a professora Walburga Arns, e admirei suas pinturas, suas esculturas... e seu parentesco. Ela é prima de Dom Evaristo Arns, um santo que ajudou a melhorar o meu País eque habita meu altar, antes mesmo da canonização.

Sobre a melhora do País...Pena que logo vieram os “pílantras” e esculhambarem outra vez.

Saí da casa do professor Paulino, sentindo-me insignificante e gratificando. Ganhei dois presentes, um cd, “Vozes e Toques Sergipanos” e o livro, “Itinerários de Libertação”. E eu só lhe dei um rústico romance cheio de interesses. Foi uma troca vantajosa para mim, daquelas que o povo da Terra Vermelha diz, brejeiro: “peguei o boi!”  

Acabei de ouvir o cd e de ler o livro. O Cd desceu fácil, como água de moringa...  

Sobre o livro, pensei que não conseguiria degluti-lo, trata-se de um trabalho acadêmico de alto nível técnico.  Mas dei conta, acho!

A primeira parte foca um menino que sai da zona rural e é internado num seminário de padres. Sai da liberdade natural, cai num emaranhado de regras e dogmas feitas para confundir, apagar as pistas, para depois levá-lo aonde quiser. Eu assisti, lá, na hora, o beijo casto, chamei mulher de “pessoa do sexo oposto”, e vi o pecado em cada revelação da natureza...

Fui seminarista, e o professor Paulino também. Não tive dificuldade nenhuma em considerá-lo no meu time.  Que honra! Mesmo após sair da primeira parte, onde o autor recupera os fragmentos da própria experiência, eu avancei na leitura, se bem que dando agora mais tropeços.

Como viabilizar uma educação de acordo com as características do cliente? Cada meio apresenta nuances, anseios específicos. Parece ser inviável, caro demais.  

A educação em pacote fechado, que custa menos devido à padronização, nestes anos todos de aplicação ainda não atingiu a maioria dos alvos carentes... Vejam a ignorância generalizada de nosso povo!  

Mesmo o meio termo conciliador, misto de educação padrão e específica, não parece possível. Preservar, quase sempre, fica mais caro do que substituir.

E vemos, a cada dia, costumes, jeitos de ser, expressões culturais de comunidades serem dizimadas pelos pacotes disparados dos gabinetes. Desde os tempos antigos, como a nossa cultura nativa substituída, à trabuco, pelos equívocos do colonizador, muito mais primitivo.

Os lares do Brasil sorvem o veneno destilado pelos aparelhos de TV. Nossos jovens desaprendem a pensar, perdem o gosto de ler livros.

Chorei a morte de João de Plácido, representante da cultura que não tem mais quem a consuma ou quem lhe dê o justo valor.  Estamos todos robotizados, atrás do trio elétrico, pulando inconsequentes, hipnotizados pela mediocridade.

xxx

Ocupei um vazio vezeiro com minha fala, rompi a cultura do silêncio que grassa impiedosa nossa gente.

Afinal, precisamos praticar a cidadania!

Não sei se consegui... (parodiando o compositor sergipano Marcelo Seixas).

E concluo (já demorei demais!) torcendo pelo sucesso da educação libertadora, “precisamos repensar o nosso “ser-e-fazer””, conforme ensina o professor José Paulino da Silva.


Nov/2010

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