sábado, 14 de novembro de 2020

O CARVALHO, de Jorge Carvalho do Nascimento

 

O CARVALHO, de Jorge Carvalho do Nascimento, Criação Editora, 2020,122p, isbn 978-65-88593-06-6.


 


No lançamento de “O Carvalho”, de Jorge Carvalho, realizado no último dia 05 de novembro, através da Plataforma Zoom, isto é, de maneira virtual, eu tive a honra de estar presente. Recebi o link do autor com a cortês intimação de que fazia questão de minha presença. Um dia antes, em um encontro casual na agencia dos correios do Shopping Riomar, quando eu enviava meus livros para um leitora de Vitória do Espírito Santo e Jorge despachava pacotes para o mundo (imaginei) ele sacou, nem sei de onde, um exemplar de “O Carvalho”, autografou e me deu. Bati uma foto que divulguei, ao chegar em casa, no meu facebook.

Quando uso a palavra em público, sigo a lição de João Oliva Alves (falecido recentemente e um dos grandes da Academia Sergipana de Letras) que, ao me receber na redação do jornal “A Cruzada” nos idos de 1965, eu começava ali o treinamento para uma carreira jornalística que retenho como meritória, me ensinou: “procure dizer tudo com meia dúzia de palavras”. E me escoro na filosofia cômoda de Adolfo Girardi Jorge, analista de sistemas de meu tempo de CPD em São Paulo, nos idos de 1970: “para o bom entendedor meia palavra (palestra) basta”.

Na oportunidade, traduzi meu sentimento da leitura do livro que fizera em parte e, agora, refaço e ratifico, pois concluí a leitura com gosto.

As crônicas que tratam da infância e juventude do autor (treze iniciais, primeira parte) são filmes que nos transportam e nos enriquecem com momentos da vida sergipana que também vivemos e não sabemos contar direito. Até o “DKV da Professora” o livro vale por três ou quatro bons livros de memória ou romance de família. Irretocável.

A avó, dona Petrina, católica militante, como eram os esteios das famílias de então, mulher-varão, aponta os caminhos futuros e pega na mão com rigor na condução do dia a dia vigente. É rainha com poder e aura de deusa da mitologia.

A segunda parte do livro começa quando o personagem abandona a identidade própria (o Eu mágico, evidente ou oculto) e se transforma em cidadão do mundo, livre, com direito a ver, julgar e dizer.  As crônicas “Amigos para Sempre”, “Was Ist Das” e “Noites sem Fogueira”, mesmo estando aqui, li-as como da primeira parte, pois têm característica similar. As demais (oito): duas experimentam a hostilidade das classes (“O Carvalho” e “A Rolha”) e as restantes ensaiam romance à la Francisco Dantas, que promete tanto quanto.

Quanto ao livro como um todo...

São crônicas, contos, romance ou poemas (depende da empolgação do leitor) mas, na essência, é bom livro de História. Porque Memória e História são água da mesma fonte. Mesmo que a Memória se vista de ficção. A escritora Ana Miranda (dois Jabutis, veja no Google) afirmou, no que concordo, tanto que usei como lema de “Os Ferreiros” (leia este também, pois é especial!) que “ficcionistas são historiadores que fingem estar mentindo, enquanto, historiadores são ficcionistas que fingem estar dizendo a verdade.”

“O Carvalho” narra, de maneira alegre e descompromissada, fatos de vida do autor e da vida que correu à sua volta. Constrói um mundo vivo que arrebata e que é a história de um povo digno, talvez fadado à derrota, entretanto, vencedor, graças as artimanhas que cria para driblar as armadilhas e seguir em frente de fronte corajosa e erguida.

Linguagem escorreita, jeito caseiro de narrar, que encantam. Nada de rebuscamentos ou pedantismo literários. Palavras de uso comum que dão um imenso prazer reencontrá-las. Frases fotografadas com a esmerada técnica do autor que rodou o mundo captando almas das coisas e já publicou livro mostrando.

xxx

A entrada de Jorge na literatura é motivo de comemoração para todos que escrevemos livros e que enfrentamos enorme dificuldade em acharmos leitores para eles. Tenho ouvido pessoas falarem que nunca gastariam tempo lendo livro de autor sergipano. Quero ver agora!

Jorge Carvalho tem credibilidade adquirida em anos de labor na história, no magistério, na gestão pública, na seriedade com que trata a arte de ver e dizer. E agora publica um livro de crônicas como nós fazemos. Abre um caminho para andarmos junto.

O sucesso de Jorge Carvalho, que é dele e é justo, instigará as pessoas a nos lerem também. E um pouco por conta do respeito que ele merece, Antônio Saracura, Expedito Souza, e outros guerreiros destemidos que trabalhamos na incessante busca do ótimo, seremos lidos também.

 (Antônio FJ Saracura, Aracaju, 14 de novembro de 2020)

 

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